
O tratamento da tuberculose envolve constantes reavaliações necessárias para alcançar a cura, com variáveis que podem ser inerentes ao paciente (adesão medicamentosa, comorbidades, intolerâncias, etc.), ao sistema de saúde (acesso aos medicamentos e exames de acompanhamento), ou até mesmo ao próprio patógeno (resistência). Durante a fase diagnóstica, esta pode inclusive apresentar-se inicialmente velada por um Teste Rápido Molecular (TRM) positivo sem resistência à rifampicina detectada, representando desafios terapêuticos adicionais. Relato do caso: Paciente 24 anos, previamente hígido, estudante de enfermagem, HSH, residente no Rio de Janeiro, apresentava dor lombar progressiva que irradiava para o membro inferior esquerdo, com início há 18 meses. Inicialmente internado em outro serviço, realizou ressonância magnética de coluna lombar que apontava quadro de espondilodiscite. Na ocasião foi tratado por 28 dias como coleção bacteriana com vancomicina e ceftriaxona (alternado com cefepime), sem melhora clínica e até mesmo piora do padrão do exame de imagem. Durante esta internação, foi constatado sorologias positivas para HIV. Com isso, foi transferido para realização de biópsia e aspirado da coleção, os quais foram encaminhados para cultura de micobactérias e TRM, dentre outras análises. Constatou-se positividade no TRM, com resistência a rifampicina não detectada, e prontamente foi iniciado o tratamento padrão para o caso, assim como antirretrovirais. Sucedeu com alta hospitalar e iniciou consultas ambulatoriais mensais regulares. Até o segundo mês de tratamento, o paciente ainda queixava-se de dor importante, momento em que foi resgatado resultado de cultura com resultado positivo para o complexo Mycobacterium tuberculosis, com o teste de sensibilidade a antimicrobianos apresentando polirresistência: isoniazida e etambutol, e o Line Probe Assay (LPA) apontando sensibilidade a isoniazida. Devido a isso, foi iniciado esquema alternativo com amicacina, rifampicina, levofloxacino e pirazinamida na fase intensiva, e rifampicina e levofloxacino na de manutenção. A partir de então, o paciente apresentou melhora clínica progressiva, com recuperação quase completa até o final do tratamento. Comentários: O caso reforça atentar às condições apresentadas durante as reavaliações, como evolução clínica do paciente e resultados de exames mais tardios, como a cultura, encarando o diagnóstico e tratamento da tuberculose como um processo continuado. Conflito de interesse: Não há conflito de interesse Comitê de Ética: Não submetido a comitê de ética. Há autorização formal do paciente. Há Financiamento? Especifique: Não.
Introdução: A tuberculose, doença de forte determinação social, permanece como um relevante problema de saúde pública. O Brasil concentra uma elevada carga da doença, que incide de forma desproporcional sobre populações vulneráveis, como as pessoas em situação de rua. No município de São Paulo, que reúne o maior quantitativo de PSR do país, a condição de vulnerabilidade em que essa população se encontra constitui um obstáculo ao tratamento e à cura da tuberculose. Objetivo: Compreender a experiência do adoecimento por tuberculose a partir da perspectiva de pessoas em situação de rua. Materiais e métodos: Estudo de abordagem qualitativa, do tipo descritivo-exploratório. Foram realizados questionários sociodemográficos e entrevistas semiestruturadas que abordaram questões relacionadas à vida nas ruas, ao conhecimento sobre a doença, seus impactos, a experiência do tratamento e acesso aos serviços de saúde, com pessoas em situação de rua em tratamento de tuberculose no município de São Paulo. As entrevistas foram submetidas à análise de conteúdo de Bardin. Resultados: Dos 24 participantes 23 (96%) eram homens, na faixa etária média de 44,2 anos, cujo tempo em situação de rua foi de 7,1 anos, 5 participantes (20,8%) apresentaram dificuldade para acessar algum serviço de saúde, e outros 5 (20,8%) apresentam alguma deficiência física, visual ou intelectual. A partir da análise das entrevistas, foi possível gerar as categorias ''adesão ao tratamento” que apontou as facilidades e dificuldades no uso das medicações, a “compreensão sobre a doença” que destacou a percepção da gravidade, o conhecimento e a falta dele sobre a tuberculose e a “vivência corporal” composta por sinais, sintomas, sequelas e efeitos da medicação. As entrevistas permitiram observar o impacto positivo dos profissionais da saúde e do consultório na rua no processo de tratamento e cura da doença, além disso, o acolhimento social demonstrou auxiliar na saúde mental. Conclusão: O estudo proporcionou melhor compreensão das condições de vida da população em situação de rua e do impacto dessas no processo saúde-doença a partir da percepção deles. O contexto de ausência de moradia e insegurança alimentar são prioridades de sobrevivência que competem com a continuidade do tratamento e são agravados quando experimentados concomitantemente com a “vivência corporal da doença”. Os achados reforçam que essa população precisa de mais educação em saúde, reforço no acolhimento social e auxílio governamental. Conflito de Interesse: Declaro não haver conflito de interesses. Comitê de Ética: Aprovado pelo Comitê de Ética pela UFMG (n° 6946989) e pela Secretaria Municipal de SP (n° 7332146). Há Financiamento? Especifique: Sim, o projeto foi financiado por uma bolsa de estudos FAPESP.
Introdução: A tuberculose é uma doença socialmente determinada e um importante problema de saúde pública. Um dos grupos mais afetados pela doença é a população em situação de rua, que apresenta maior risco de adoecimento e os piores desfechos no tratamento, em comparação à população geral. Diante disso, compreender os aspectos relacionados à ocorrência da doença é essencial para subsidiar estratégias específicas para esse grupo vulnerável. Objetivo: Analisar os fatores associados ao adoecimento por tuberculose na população em situação de rua. Material e métodos: Estudo do tipo caso-controle, realizado no município de São Paulo. Foram incluídas pessoas em situação de rua em acompanhamento e tratamento para tuberculose (casos) e sem diagnóstico prévio (controles), com pareamento de um para dois. A coleta ocorreu por meio de entrevistas presenciais, com aplicação do questionário estruturado, em serviços de assistência social e em serviços de saúde de referência ao cuidado dessa população. A análise dos dados foi realizada por estatística descritiva e inferencial. Resultados: Foram incluídos 114 participantes, sendo 76 controles e 38 casos. Observou-se, em ambos os grupos, a predominância do sexo masculino, indivíduos na faixa etária de 40 a 59 anos, autodeclarados pardos, solteiros, com ensino fundamental incompleto, que recebiam benefício social e com mais de 5 anos em situação de rua. Em relação a condições de saúde, enquanto 52,6% dos controles consideravam bom seu estado de saúde, 60,5% dos casos consideram regular a ruim. O uso de tabaco e álcool esteve presente em mais da metade de ambos grupos. Quando comparado aos controles, o grupo de casos apresentou maior frequência de uso de crack, maconha e cocaína, assim como a privação de liberdade prévia, além de uma menor média de renda mensal e menor presença de apoio familiar. Foi associado ao adoecimento por tuberculose o tempo em situação de rua (p = 0,0064), o uso de droga (p = 0,0387) e o antecedente de privação de liberdade (p = 0,0470). Conclusão: Fatores relacionados à vulnerabilidade social e ao contexto de vida, como o tempo em situação de rua, uso de drogas e histórico prisional, são condições relacionadas ao desenvolvimento de tuberculose, o que evidencia aspectos passíveis de intervenção no cuidado a essa população. Portanto, enfatiza-se a relevância de aprimorar e fortalecer as políticas públicas voltadas à redução desses riscos. Conflito de interesse: Declaramos não possuir conflito de interesse. Comitê de ética: Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG (parecer número 6.946.989). Há Financiamento? Especifique: Sim. Esse projeto foi financiado pela bolsa de Iniciação Científica FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) com número de processo 2025/12090-1.
Introdução: A coinfecção tuberculose/HIV permanece como importante desafio de saúde pública, principalmente em países de alta carga como o Brasil. A imunossupressão associada ao HIV aumenta o risco de progressão da TB latente para a forma ativa, elevando a morbimortalidade. O diagnóstico precoce da TB em PVHA é essencial, mas limitado em indivíduos com baixa contagem de CD4, nos quais as apresentações clínicas são atípicas e métodos tradicionais apresentam menor sensibilidade. Assim, LF-LAM surge como estratégia complementar para o diagnóstico oportuno da TB ativa. Relato da experiência: O LF-LAM foi inicialmente incorporado ao circuito de aids avançada, mas o município apostou na descentralização da oferta do exame para a rede a partir da APS. A análise dos dados desde sua implantação (2023) até 2025 demonstra importante ampliação da oferta diagnóstica e aumento progressivo da positividade entre PVHA. No período foram realizados 738 testes de LF-LAM, dos quais 238 apresentaram resultado reagente, correspondendo a uma positividade global de 32,2%. Observa-se crescimento expressivo no número de exames realizados ao longo do período: em 2023, primeiro ano de implantação, foram realizados apenas 36 exames, com 5 resultados reagentes e positividade de 13,9%; em 2024, houve expansão importante da oferta, com 246 exames realizados, 75 reagentes e positividade de 30,5%; já em 2025, consolidando a descentralização do exame para a rede de APS, foram realizados 456 exames, com 158 resultados reagentes e positividade de 34,6%. Esse incremento progressivo sugere não apenas maior incorporação do LF-LAM na rotina assistencial, mas também maior sensibilidade na identificação de casos de tuberculose ativa em PVHA, especialmente entre indivíduos com imunossupressão avançada. Comparativamente, os territórios que mais utilizam o LF-LAM coincidem com aqueles historicamente mais afetados pela coinfecção TB/HIV no município, indicando que a descentralização do exame fortaleceu a capacidade de detecção nos locais de maior necessidade sanitária. Assim, o aumento das taxas observadas não representa necessariamente piora epidemiológica, mas sim maior visibilidade da carga de doença. Comentários: Esses achados reforçam que o LF-LAM, quando incorporado à APS e articulado à linha de cuidado das PVHA, contribui significativamente para o diagnóstico precoce da TB, qualifica a vigilância epidemiológica e fortalece a resposta assistencial nos territórios prioritários através da APS. Conflito de interesse: Não há. Comitê de ética: O estudo se enquadra nos critérios de dispensa de submissão ao CEP. Há Financiamento? Especifique: Não.
Introdução: A esporotricose é uma infecção fúngica causada por espécies do gênero Sporothrix, sendo classicamente adquirida por arranhões ou mordidas de gatos infectados, ou pelo contato com solo ou material vegetal contaminados. Embora o envolvimento osteoarticular seja raro, representa a terceira forma clínica mais frequente. Relato do caso: Mulher branca, 75 anos, dona de casa e hipertensa. Em março de 2024 com edema, eritema, dor intensa e comprometimento funcional do punho esquerdo, após um pequeno ferimento perfurante. Foi diagnosticada com celulite e tratada com sulfametoxazol/trimetoprima e submetida à drenagem cirúrgica de um abscesso local, sem melhora. Seis meses antes, a paciente foi diagnosticada com síndrome do túnel do carpo no punho esquerdo e submetida a tratamento cirúrgico. Na mesma época, seu marido teve esporotricose, sendo um gato doméstico a fonte da infecção. Oito meses após a lesão inicial, diante de abscesso persistente, foi coletada secreção da lesão para cultura, que confirmou Sporothrix spp. Instituiu-se itraconazol na dose de 200mg/dia por três meses, sem redução da massa subcutânea e com manutenção da drenagem de secreção. Após 11 meses da lesão inicial, a dose de itraconazol foi aumentada para 400 mg/dia, sem melhora em 30 dias (edema persistente, dor intensa e aumento progressivo do nódulo subcutâneo). Exames de imagem revelaram osteíte e destruição óssea em mão e punho esquerdos, confirmando o diagnóstico de osteomielite. A paciente foi internada para tratamento venoso com anfotericina B e drenagem cirúrgica, com boa recuperação. Recebeu alta após 24 dias, com prescrição de fluconazol oral por mais 12 meses, apresentando acentuada melhora da lesão articular, porém com sequelas funcionais moderadas. Comentários: Este é um raro caso de esporotricose, com envolvimento osteoarticular em uma paciente idosa, ilustrando os desafios relacionados ao manejo terapêutico. A esporotricose deve ser sempre considerada no diagnóstico diferencial de monoartrite ou poliartrite crônica. O reconhecimento tardio das formas osteoarticulares pode aumentar significativamente o risco de sequelas funcionais permanente. Embora o itraconazol seja o tratamento de primeira linha, ele deve ser prontamente substituído por anfotericina B diante de resposta clínica inadequada. Em pacientes idosos, estratégias de dosagem personalizadas são essenciais para minimizar o risco de reações adversas associadas à anfotericina B. Conflito de interesse: Os autores não têm conflito de interesse. Comitê de ética: Aprovado em 14/10/2025, pelo CEP da Faculdade de Medicina da UFF. CAAE: 92433825.6.0000.5243. Há Financiamento? Especifique: Não há financiamento.
Introdução: Escherichia coli uropatogênica (UPEC) pertence ao grupo das linhagens extraintestinais (ExPEC) e constitui a principal linhagem responsável por infecções do trato urinário (ITU), tanto na comunidade quanto em ambientes hospitalares. A identificação dos grupos clonais é realizada por meio da uma técnica de tipificação “multilocus sequence typing” (MLST), que determina o “sequence type” (ST), permitindo a identificação das principais linhagens pandêmicas que causam infecções extraintestinais, principalmente ITU. O aumento da resistência aos antimicrobianos entre ExPEC está relacionado à expansão dos grupos clonais pandêmicos, tais como ST69, ST131, ST73, ST95, ST127, ST1193 e ST648. ST131 destaca-se por apresentar elevado perfil de resistência, principalmente às fluoroquinolonas, e está frequentemente associado à produção de ESBL do tipo CTX-M-15. Tendo em vista o potencial patogênico destes clones multirresistentes, há uma necessidade de entender os clones disseminadores de resistência, visto que o cenário da pandemia de COVID-19 pode ter alterado a prevalência dos clones e favorecido a disseminação destes patógenos de forma acelerada. Objetivo: Descrever características de uma coleção de amostras de E. Coli provenientes de indivíduos com ITU quanto a aspectos da prevalência de clones pandêmicos, resistência a antimicrobianos e produção de betalactamases. Material e métodos: Os métodos consistiram em tipificar os grupos filogenéticos, assim como os STs por PCR multiplex; testar as amostras para susceptibilidade aos antimicrobianos por disco difusão e detectar a produção de ESBL realizando o teste de sinergismo de duplo disco. Resultados: Um total de 960 amostras foram obtidas, sendo 100 (10%) do ST131, 83 (9%) do ST69, 75 (8%) do ST73 e 17 (2%) do ST95. A frequência desses clones diminuiu quando comparadas com as coleções anteriores, com exceção do ST73 e do ST95. O ST131 apresentou diminuição da resistência à ciprofloxacino e da frequência de amostras multirresistentes e das amostras produtoras de ESBL. Apesar desses resultados, as amostras do ST131 foram mais resistentes aos antimicrobianos do que as das outras linhagens. Conclusões: Análises adicionais são necessárias para compreender integralmente essa redução no ST131. O monitoramento dessas linhagens pandêmicas resistentes aos antimicrobianos, como o ST131, auxilia na compreensão de sua evolução local, epidemiologia e disseminação de resistência aos antimicrobianos no Rio de Janeiro. Conflito de Interesse: Ausência de conflito de interesse. Comitê de Ética: Aprovado pelo Comitê do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (CAEE: 82089924.0.0000.5257). Há Financiamento? Especifique: Sim, Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro n°260003/005900/2024 e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código 001.
Introdução/Objetivos: Sífilis Congênita (SC), pelas potenciais morbidades e amplitude das equipes envolvidas, permanece um desafio para profissionais e gestores, um termômetro da qualidade do atendimento presente em pactuações governamentais com relevância reafirmada na Agenda 2030 da ONU. Apresentar a importância da manutenção da revisão dos processos de saúde pertinentes e compartilhar experiências com municípios de perfis sociodemográficos semelhantes. Materiais e métodos: Amplas revisões das SC notificadas (avaliação de cada gestante/RN) e diálogos com serviços (programa de saúde da mulher, atenção primária, laboratórios, neonatologia e pediatria) para possíveis adequações dos atendimentos. Informações foram transcritas para formulário individual específico, com análise crítica para encerramento dos casos por descarte ou confirmação, atualizando e fazendo correções no SINAN. Resultados: De 2014 a 2023 foram revisados 216 casos identificando-se adequações prementes. Para os iniciais 27 casos de 2023: 7 foram classificados como SC pelo SINAN e foram mantidos como confirmados para SC; 8 foram classificados como SC pelo SINAN mas foram revertidos em descartados para SC; 9 foram descartados para SC pelo SINAN e foram mantidos como descartados; 3 foram descartados para SC pelo SINAN mas foram revertidos para confirmados para SC. Pela descontinuidade da revisão dos casos e das fichas do SINAN já preenchidas, permaneceram notificados no sistema 20: casos em 2024 e 49 em 2025. Conclusões: Verificou-se relevante aumento anual de casos e necessidades imperativas tanto do diálogo entre profissionais de toda a linha de cuidados quanto da manutenção de revisão das fichas antes de sua inclusão no SINAN. Identificou-se possibilidades de aprimoramentos: necessidade de registro de informações na obstetrícia; reconhecimento do real estadiamento da sífilis e seu tratamento equivalente; registro seriado dos exames no prontuário e cartão da gestante; reforço de que testes não treponêmicos sejam feitos de preferência no mesmo laboratório; empenho na aplicação imediata da penicilina na própria unidade de saúde; atentar para potenciais dificuldades sociais em se cumprir rigoroso intervalo de agendamento da penicilina; reforçar o repasse das informações, compartilhando com a gestante sua corresponsabilidade; busca ativa interprofissional se durante parto houver ausência do cartão da gestante ou incerteza na informação verbal da parturiente de que seu tratamento tenha sido adequado. Conflito de interesse: Não há. Comitê de Ética: Não há. Consideramos que não se aplica por ser uma revisão de fichas do SINAN. Há Financiamento? Especifique: Não há.
Introdução/Objetivo: O município avaliado apresenta alta incidência de tuberculose, ocupando posição de destaque entre as capitais brasileiras. Nesse cenário, a atenção primária à saúde exerce papel central na organização do cuidado, incluindo a identificação e o manejo da infecção latente por tuberculose (ILTB). O tratamento preventivo é uma estratégia essencial para reduzir o risco de progressão para doença ativa. Até 2021, a isoniazida (INH) era o principal esquema utilizado; posteriormente, o Ministério da Saúde passou a recomendar preferencialmente o regime 3HP (isoniazida associada à rifapentina, uma vez por semana por três meses), visando melhorar a adesão por meio de esquemas mais curtos. Materiais e métodos: Estudo observacional retrospectivo com dados programáticos de rotina dos serviços públicos de saúde de município em região metropolitana. Foram incluídos indivíduos que iniciaram tratamento para ILTB com INH antes de 2021 e com 3HP entre 2022 e 2025. O desfecho primário foi a conclusão do tratamento; desfechos secundários incluíram interrupção e eventos adversos. Variáveis sociodemográficas e relacionadas ao HIV foram analisadas. Comparações foram realizadas pelo teste do qui-quadrado, com proporções e intervalos de confiança de 95%. Resultados: Foram incluídos 9.486 indivíduos (3.050 INH; 6.436 3HP). A conclusão foi maior no grupo 3HP (81% vs. 67%; p < 0,001), com menor interrupção (11% vs. 28%; p < 0,001). Eventos adversos foram raros e semelhantes (1%; p = 0,900). O grupo 3HP apresentou maior proporção de indivíduos pretos/pardos (70% vs. 64%; p < 0,001), maior testagem para HIV (67% vs. 51%; p < 0,001) e maior frequência de HIV positivo (7% vs. 3%; p < 0,001). A média de idade foi superior no grupo 3HP. Conclusão: Em contexto de vida real, o 3HP mostrou maior conclusão e menor interrupção, com segurança semelhante à INH. Diferenças de perfil sugerem possível viés de seleção. A expansão de esquemas curtos e o fortalecimento da integração TB/HIV são essenciais para otimizar resultados. Conflito de interesse: Não há. Comitê de ética: O estudo se enquadra nos critérios de dispensa de submissão ao comitê de ética. Há Financiamento? Especifique: Não.
Introdução: As infecções relacionadas à assistência à saúde representam importante problema de saúde pública, especialmente em unidades de cuidados prolongados, onde fatores como comorbidades, uso de dispositivos invasivos e internações prolongadas aumentam o risco de eventos infecciosos. A atuação estruturada da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar é essencial para qualificar a assistência e reduzir esses riscos. Materiais e métodos: Trata-se de relato de experiência realizado em unidade de cuidados prolongados de hospital de pequeno porte. No período pré-implantação, observava-se ausência de protocolos institucionais, baixa adesão à higiene das mãos e inexistência de vigilância epidemiológica sistematizada. A implantação da comissão incluiu padronização de protocolos assistenciais, vigilância ativa com culturas microbiológicas, implementação de precauções e isolamento, estratégias de descolonização e capacitação contínua da equipe multiprofissional. Resultados: Observou-se impacto positivo nos indicadores assistenciais. Houve redução da taxa de utilização de sonda vesical de demora de 23,34% para 11%. O consumo de sabonete líquido manteve-se acima do parâmetro recomendado (≥ 20 mL/paciente-dia), atingindo 31 ml e 28,8 ml nos meses subsequentes, indicando maior adesão à higiene das mãos. Destaca-se a manutenção de taxa zero de infecção de corrente sanguínea associada a cateter venoso central, além da redução de eventos infecciosos após aumento pontual, com ausência de casos de pneumonia não associada a dispositivo no período final analisado. Conclusões: A implantação da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar promoveu mudança significativa na cultura assistencial, com melhora de indicadores de processo e resultado. A adoção de protocolos, educação permanente e vigilância ativa mostrou-se eficaz na prevenção e controle de infecções em hospitais de pequeno porte. Conflito de Interesse: Sim. Comitê de ética: Sim. Há Financiamento? Especifique: Não.
Introdução/Objetivos: A resistência antimicrobiana representa importante desafio aos sistemas de saúde. Programas de Gerenciamento de Antimicrobianos (PGA) são fundamentais para qualificar o uso desses medicamentos, sendo a disponibilidade de dados estruturados um fator crítico para sua efetividade. Objetivou-se avaliar o consumo de antimicrobianos de amplo espectro, descrever o perfil de microrganismos multirresistentes e desenvolver ferramenta eletrônica para apoio à tomada de decisão no PGA. Materiais e métodos: Estudo observacional retrospectivo realizado entre julho de 2024 e junho de 2025. Foram avaliados isolados com microrganismos multirresistentes e o consumo de meropenem, polimixina B, vancomicina e teicoplanina por meio das métricas Dose Diária Definida (DDD), Dias de Tratamento (DOT), Duração do Tratamento (LOT) e razão DOT/LOT, além do perfil das prescrições e intervenções da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar. Desenvolveu-se painel eletrônico interativo para monitoramento longitudinal das métricas de consumo. Resultados: Identificaram-se 533 isolados multirresistentes (14,1 por 1.000 pacientes-dia), com predomínio de Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos, Staphylococcus aureus resistente à oxacilina e enterobactérias resistentes a carbapenêmicos, majoritariamente de origem alóctone. Foram analisadas 574 prescrições, com predomínio de uso empírico e foco respiratório. Houve intervenções em 41,1% das prescrições, com elevada taxa de aceitação. Meropenem e vancomicina apresentaram maior consumo, e a razão DOT/LOT manteve-se superior a 1 ao longo do período. A ferramenta desenvolvida permitiu a consolidação e visualização dinâmica dos indicadores, com estratificação por período e por setor assistencial, facilitando a identificação de padrões de uso e oportunidades de intervenção. Conclusões: Observou-se elevado consumo de antimicrobianos de amplo espectro e importante carga de microrganismos multirresistentes. A ferramenta eletrônica desenvolvida mostrou-se aplicável como estratégia de apoio ao monitoramento contínuo e à qualificação das ações de stewardship antimicrobiano. Conflito de interesse: Não há. Comitê de ética: Estudo submetido e aprovado pelo CEP. Há Financiamento? Especifique: Não.
O vírus Oropouche (ORPV) geralmente causa doença febril autolimitada, porém complicações neurológicas graves vêm sendo reconhecidas. Relatamos caso de encefalite grave com padrão de romboencefalite e resposta favorável à imunoterapia. Homem de 45 anos, obeso e hipertenso sem tratamento, iniciou febre e odinofagia em 05/04/2025. Evoluiu rapidamente com rebaixamento do nível de consciência e crises convulsivas recorrentes em 10/04, necessitando intubação. PCR para ORPV foi positiva em urina. Tomografia inicial de crânio sem alterações agudas. Líquido cefalorraquidiano mostrou hiperproteinorraquia importante com discreta pleocitose mononuclear. As crises apresentaram difícil controle, exigindo múltiplos anticonvulsivantes. Pela persistência do déficit neurológico, proteína liquórica muito elevada e PCR negativa no LCR, considerou-se mecanismo imunomediado, mais do que infecção viral ativa do sistema nervoso central. Foi iniciado ciclo de imunoglobulina intravenosa entre 17 e 21/04. Ressonância magnética em 21/04 evidenciou acometimento do tronco encefálico compatível com romboencefalite e edema cerebral discreto. Diante de melhora parcial, realizou-se segundo ciclo de imunoglobulina entre 08 e 11/05, associado a desmame de corticosteroides. Houve queda progressiva da proteína no LCR (347 para 61,8 mg/dL), paralela à melhora clínica. O paciente despertou em 05/05 e apresentava interação coerente em 12/05. As crises cessaram, permitindo retirada gradual de anticonvulsivantes. Nova ressonância em 28/05 mostrou regressão substancial das lesões. Evoluiu com estabilidade hemodinâmica, desmame ventilatório, decanulação em 09/06 e alta para reabilitação em 29/06/2025. O caso ilustra manifestação neuroinvasiva rara e potencialmente grave do ORPV. A resposta clínica, laboratorial e radiológica após imunoglobulina e corticosteroides reforça a hipótese de componente autoimune na fisiopatogênese e sugere considerar terapia imunomoduladora em apresentações neurológicas graves ou atípicas relacionadas ao vírus Oropouche. Conflito de Interesse: Não há. Comitê de Ética: Aprovado Comitê de Ética HFSE e Osonto UFRJ. Há Financiamento? Especifique: CNPQ, Faperj e ITPS.
Introdução/Objetivos: Escherichia coli patogênica extraintestinal (ExPEC) é a principal bactéria Gram-negativa agente de infecções da corrente sanguínea (ICS). Entre os grupos filogenéticos de importância clínica, destaca-se o grupo F, que inclui o ST648, considerado clone de alto risco, associado à resistência a múltiplas classes de antimicrobianos, produção de betalactamases e à expressão de fatores de virulência. Os objetivos deste estudo foram identificar cepas do ST648, avaliar a susceptibilidade aos antimicrobianos, a produção de betalactamases e os genes associados a esse mecanismo. Materiais e métodos: Foram analisadas 35 amostras de E. coli do grupo F provenientes de um total de 376 amostras bacterianas isoladas de pacientes com ICS admitidos em um hospital terciário localizado na cidade do Rio de Janeiro entre 2014 e 2023. O teste de susceptibilidade aos antimicrobianos e a avaliação da produção de ESBL foram realizados por disco-difusão e disco-aproximação, respectivamente. A identificação de ST648 e detecção dos genes de resistência foram investigados por reação em cadeia da polimerase (PCR). Resultados: O clone ST648 representou 40% (n = 14) das amostras do grupo F. Foram observadas taxas de resistência para ampicilina (71,4%), cefazolina (68,5%), ciprofloxacino (57,1%), cefotaxima, aztreonam, ceftazidima (48,5%) e cefepima (31,4%). O ST648 apresentou elevada participação entre as amostras resistentes com frequências de 37%, 29%, 31%, 26% e 20%, respectivamente. Não houve resistência a imipenem, ertapenem ou tigeciclina. O fenótipo produtor de ESBL foi observado em 48,5% das amostras, sendo 22,79% deste total representado por ST648. SHV teve a maior prevalência entre os genes relacionados à produção de betalactamases, seguido de blaCTX-M-1 (70,5%) e TEM (23,5%). O gene blaampC (dha) foi detectado em apenas uma amostra. Conclusão: Em conjunto, os resultados obtidos evidenciam ST648 como possível fonte disseminadora de genes de resistência. A presença deste clone em ambiente hospitalar agrava o cenário epidemiológico das ICS, reforçando a necessidade de vigilância contínua para guiar o manejo terapêutico. Conflito de Interesse: Não há conflitos de interesse. Comitê de ética: Protocolo: 6933522.6.0000.5257.; Comitê de ética em pesquisa - UFRJ. Há Financiamento? Especifique: PIBIC/UFRJ, Faperj.
Introdução: Apesar de o Brasil ter alcançado a eliminação da transmissão vertical do HIV (TV), novos casos continuam sendo registrados. Este estudo descreve o perfil de crianças infectadas pelo HIV por transmissão vertical, com o objetivo de identificar lacunas na cascata de cuidado materno-infantil. Métodos: Trata-se de um estudo descritivo realizado por meio da análise de prontuários e de um questionário estruturado. Foram incluídas crianças vivendo com HIV acompanhadas em um centro de referência para infecção pediátrica pelo HIV no Rio de Janeiro, o Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira, nascidas entre 2019 e 2025. As variáveis analisadas incluíram características demográficas, momento da testagem do lactente (ao nascimento, 15, 45 dias e 3 meses), conforme protocolo do Ministério da Saúde, e o momento do diagnóstico do HIV em mães e crianças. Além disso, foram avaliadas a adesão à terapia antirretroviral (TARV) e as práticas de aleitamento materno. Resultados: Foram incluídas 30 crianças (2019–2025). Destas, 14 (47%) eram do sexo feminino e 25% brancas. O diagnóstico materno ocorreu antes da gestação em 4 casos, durante em 13 e após em 7. Vinte e quatro mães realizaram pré-natal (3 com menos de 6 consultas) e 17 não utilizaram TARV na gestação. Treze pais foram testados, sendo 10 reagentes. Cinco crianças foram amamentadas. A mediana de idade ao diagnóstico foi de 2 meses (0–48 meses), e 9 apresentavam manifestações clínicas ou infecções oportunistas. A TARV foi iniciada em mediana inferior a 1 mês após o diagnóstico. Conclusão: Apesar das metas de eliminação, ainda são identificados cerca de 5 casos por ano, associados principalmente a falhas no pré-natal. O diagnóstico tardio e o aleitamento materno reforçam a necessidade de fortalecer o cuidado no período pós-parto. Conflito de interesse: Sem conflito. Comitê de ética: IPPMG – Aprovado. Há Financiamento? Especifique: CNPq Faperj.
Introdução/Objetivo: Pessoas vivendo com HIV (PVHIV) tem risco aumentado de infecções oportunistas e adquiridas na comunidade (IACs). Apesar do sucesso da terapia antirretroviral de alta potência, as IAC continuam sendo causa significativa de morbidade e hospitalização. O presente estudo avaliou o perfil de IACs entre PVHIV em um hospital universitário de alta complexidade no Rio de Janeiro, Brasil. Materiais e métodos: Trata-se de uma revisão retrospectiva de 57 internações por IACs em 42 PVHIV entre 1° de outubro de 2024 e 31 de dezembro de 2025, em enfermaria de Infectologia. Avaliaram-se diagnóstico, resultados microbiológicos, perfil de resistência, tipo e duração do antimicrobiano, colonização por Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), Enterobacteriaceae resistente a carbapenêmicos (ERC) ou Enterococcus resistente à vancomicina (VRE), tempo de internação e desfecho clínico. Resultados: Das 57 internações analisadas, 39 (68,4%) eram do sexo masculino, com mediana de tempo de internação de 8 dias (IQR = 6 – 14) e taxa de mortalidade de 3,4% (n = 2). Os diagnósticos mais prevalentes foram infecções complicadas do trato urinário (14/57; 24,6%), infecções de pele e partes moles (14/57; 24,6%) e pneumonia adquirida na comunidade (13/57; 22,8%). Foram obtidas culturas de 47/57 (82,7%) das PVHIV hospitalizadas na unidade, com 17 resultados positivos (taxa de positividade de 35,4%). As principais bactérias isoladas foram Streptococcus pneumoniae, MRSA, Escherichia coli produtora de ESBL e Pseudomonas aeruginosa. Em relação à colonização por microrganismos multirresistentes (MDR), a prevalência foi de 7/42 (16,7%) para MRSA, 1/42 (2,4%) para ERC e 1/42 (2,4%) para VRE. Os antimicrobianos mais frequentemente utilizados incluíram beta-lactâmicos/inibidores de beta-lactamase, macrolídeos, cefalosporinas, carbapenêmicos e glicopeptídeos. Aminoglicosídeos foram utilizados com menor frequência. A duração mediana da terapia antimicrobiana foi de 8 dias (IQR = 7 – 14), variando de acordo com a gravidade e resposta clínica. Conclusões: Os resultados demonstram que, entre as IACs, as infecções urinárias, cutâneas e pulmonares foram as principais causas de hospitalização em PVHIV na unidade. A alta prevalência de MDR revela uma mudança crítica em direção à resistência comunitária. Esses resultados reforçam a necessidade de terapia empírica baseada em evidências, adaptada aos perfis locais, com o objetivo de melhorar os desfechos clínicos em PVHIV. Conflito de interesse: Não há conflitos de interesse. Comitê de ética: Trabalho feito a partir de dados administrativos, sem intervenção e/ou mudança em condutas de rotina. Há Financiamento? Especifique: Sem financiamentos.
Introdução/Objetivos: A epidemiologia de candidemia alterou-se durante a pandemia de COVID-19, mas comparações diretas de episódios ocorrendo em pacientes com e sem a doença ainda são limitadas. O objetivo deste trabalho foi comparar apresentação clínica, distribuição das espécies, manejo e os desfechos dos casos diagnosticados em pacientes com e sem COVID-19, internados em um hospital universitário de alta complexidade. Materiais e métodos: Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo, que incluiu pacientes adultos, consecutivos, com episódios de candidemia diagnosticados no período de fevereiro de 2020 a fevereiro de 2023. Dados demográficos, clínicos, microbiológicos, de tratamento e de desfecho foram comparados de acordo com a coinfecção pelo SARS-CoV-2. Análise de regressão logística múltipla foi utilizada para identificar os fatores preditores de mortalidade em 30 dias, entre os pacientes que receberam tratamento antifúngico. Resultados: Entre 106 episódios documentados em 103 pacientes, 36 (34%) ocorreram em indivíduos com COVID-19. A incidência global foi de 4,41 episódios por 1000 internações. Os episódios associados à COVID-19 estiveram significativamente mais relacionados com internação em unidade de terapia intensiva, ventilação mecânica, exposição prévia a corticosteroides, maiores escores APACHE II, com hipotensão e uso de vasopressores. A sobrevida em 30 dias foi menor nos pacientes com COVID-19 (19,4% vs 48,6%; p = 0,003). Contudo, entre os episódios tratados, apenas o escore APACHE II e o uso de vasopressores mantiveram-se independentemente associados à mortalidade em 30 dias. Conclusões: Candidemia associada à COVID-19 ocorreu em um cenário de substancial maior gravidade de doença aguda. Marcadores de gravidade, e não a infecção por COVID-19, foram os principais fatores determinantes de mortalidade observado nestes pacientes. Conflito de interesse: Nenhum autor tem conflitos de interesse. Comitê de ética: Projeto aprovado pelo CEP HUCFF. Há Financiamento? Especifique: Bolsa PIBIC-UFRJ.
Introdução/Objetivos: Pacientes pediátricos em ventilação mecânica domiciliar contínua (VMC) apresentam elevado risco de infecções respiratórias, com impacto em hospitalizações e mortalidade. O objetivo foi avaliar a incidência de infecção do trato respiratório inferior (ITRI) e seus desfechos em pacientes em VMC em internação domiciliar. Materiais e métodos: Estudo observacional retrospectivo, incluindo pacientes de 0 a 25 anos em ventilação mecânica invasiva contínua (≥ 18h/dia) domiciliar, acompanhados entre 01/01/2025 e 31/12/2025. Foram analisados dados clínicos obtidos de prontuários. ITRI foi definida por traquebronquite e/ou pneumonia de acordo com quadro clínico compatível, associado a alterações radiológicas e/ou laboratoriais, com necessidade de antibioticoterapia sistêmica. A incidência foi calculada por paciente-mês. Resultados: Foram acompanhados 53 pacientes, com média de idade de 9 anos, totalizando 524 paciente-meses. Identificaram-se 44 episódios de ITRI, correspondendo a incidência de 8,4 episódios por 100 paciente-meses. Ocorreram 15 hospitalizações relacionadas à ITRI (34,1% dos episódios). Durante o período, houve três óbitos, sendo apenas um após hospitalização por ITRI, um paciente evoluiu para desmame do tempo de ventilação mecânica e um foi transferido para outro serviço de assistência domiciliar. Conclusões: Pacientes pediátricos em ventilação mecânica domiciliar contínua apresentam incidência relevante de ITRI, frequentemente associada à necessidade de hospitalização. Esses achados reforçam a importância de estratégias estruturadas de vigilância e prevenção de infecções nesse cenário. Conflito de Interesse: Nenhum. Comitê de ética: Baseado em dados secundários, sem identificação dos pacientes, no contexto de avaliação assistencial. Há Financiamento? Especifique: Não há.
Introdução: A mucormicose é uma grave infecção fúngica oportunista, de rápida evolução e alta letalidade, prevalente em imunossuprimidos. A variante rino-órbito-cerebral causa dor, proptose, oftalmoplegia, perda visual, secreção nasal purulenta e necrose tecidual. Trata-se de uma emergência médica que exige manejo imediato com antifúngicos intravenosos, desbridamento cirúrgico agressivo e controle da doença de base. Este estudo relata um caso extenso dessa variante, destacando sua limitação terapêutica e apresentação clínica atípica. Relato de caso: Paciente masculino de 59 anos, SP, com histórico de HAS, IAM prévio e DM2 descompensada, internou para investigação de cefaleia hemicraniana com 4 meses de evolução com neuropatia craniana progressiva à esquerda apresentando paresia facial, ptose e disfagia. No caso, em vez das habituais poucas semanas, a doença teve evolução atípica e arrastada. Avaliação da infectologia, biópsia de lesão óssea e exames de imagem (TC e RNM base de crânio) evidenciaram uma extensa lesão infiltrativa e destrutiva na base do crânio, confirmando o diagnóstico de mucormicose rino-órbito-cerebral com coinfecção bacteriana. Durante o tratamento clínico com Anfotericina B o paciente desenvolveu injúria renal aguda limitante; devido à extensão do comprometimento ósseo e vascular (envolvendo a carótida), o caso foi considerado inoperável. Diante da impossibilidade de tratamento curativo, a abordagem tornou-se paliativa, resultando na alta hospitalar do paciente com gastrostomia e seguimento por internação domiciliar, apresentando estabilização clínica e bom controle sintomático. Comentários: A mucormicose rino-órbito-cerebral pode apresentar evolução subaguda e inespecífica, comprometendo o diagnóstico e a possibilidade de intervenção precoce. Na prática clínica, reforça-se a necessidade de investigação em pacientes com fatores de risco, como DM descompensado, diante de quadros arrastados e atípicos. Além disso, o caso destaca os desafios terapêuticos enfrentados na presença de doença avançada, incluindo a limitação do tratamento antifúngico devido à toxicidade e a inviabilidade de abordagem cirúrgica. Ressalta-se ainda a importância da integração precoce dos cuidados paliativos para garantir controle sintomático e qualidade de vida. Dessa forma, o relato de apresentação não clássica da mucormicose enfatiza a necessidade de abordagem individualizada, sobretudo em situações em que o tratamento curativo não é possível. Conflito de interesse: Não. Comitê de ética: Não. Há Financiamento? Especifique: Não.
Introdução: Rhodococcus hoagii é uma bactéria gram-positiva intracelular facultativa, invasora de macrófagos alveolares, taxonomicamente próxima ao Mycobacterium spp. Embora historicamente seja uma zoonose associada a pneumonia em potros, emergiu como patógeno oportunista crítico em PVHA, especialmente com CD4 abaixo de 50 células/mm³, podendo sua apresentação clínica e diagnóstico mimetizar a tuberculose (TB). Relato do caso: Homem, 40 anos, PVHA desde 2011, em perda de seguimento, deu entrada em hospital terciário em dezembro de 2025 com quadro de tosse produtiva, perda ponderal não aferida e astenia de progressão crônica, evoluindo com desorientação. A investigação infecciosa de admissão demonstrou tomografia de tórax com cavitações de paredes espessas e consolidação em lobo pulmonar superior esquerdo, além de múltiplas opacidades de aspecto de árvore em brotamento. A carga viral era de 1.050.000 cópias/mL e a contagem de CD4 28 células/mm³. Foram coletadas hemoculturas e realizado teste imunocromatográfico de detecção de lipoarabinomanana na urina (TB-LAM), reagente. Foi iniciado tratamento empírico para pneumonia bacteriana e TB, a despeito dessa terapia paciente evoluiu com piora clínica. Após 3 dias, as hemoculturas revelaram crescimento de R. hoaggi, sendo alterada terapia para levofloxacina e azitromicina. A pesquisa para TB nas secreções traqueais apresentou BAAR, TRM (GeneXpert Ultra®) e cultura negativos, assim como as hemoculturas e líquor. Porém, o paciente evoluiu com choque séptico pulmonar, insuficiência respiratória e foi intubado. Além disso, apresentava injúria renal aguda e instabilidade hemodinâmica grave em contexto de provável cardiomiopatia séptica, e adicionadas ao esquema amicacina e vancomicina. As hemoculturas após 10 dias de antibiótico persistiram positivas. Evoluiu com choque refratário às medidas de suporte e faleceu após 20 dias de internação. Comentários: O caso destaca a complexidade do diagnóstico diferencial de pneumopatias cavitárias em PVHA com imunodeficiência avançada, especialmente em contexto epidemiológico com alta prevalência de TB. Essa sobreposição fenotípica levanta uma hipótese ainda pouco documentada: a possibilidade de reatividade cruzada no TB-LAM, indicado no rastreio de TB ativa nesta população, devido à parede celular destas bactérias compartilharem estruturas de manano. Conflito de interesse: Não há conflito de interesse. Comitê de ética: Este relato de caso está em conformidade com as normas éticas vigentes. Há Financiamento? Especifique: Não há financiamento.
Introdução: A presença de Enterobactérias resistentes a carbapenêmicos (ERC) é um desafio crítico no ambiente nosocomial. A detecção laboratorial baseada exclusivamente na Concentração Inibitória Mínima (CIM) ou no diâmetro de halos pode ser insuficiente, uma vez que alguns isolados portadores de genes de resistência, como o blaKPC, exibem valores de sensibilidade in vitro dentro dos pontos de corte clínicos estabelecidos pelo BrCAST. Relato do caso: Homem, 22 anos, admitido em Novembro de 2025 em hospital terciário com quadro de dispneia aos mínimos esforços e febre. Apresentava derrame pleural à admissão, sem indicação de toracocentese. Neste mesmo dia evoluiu com insuficiência respiratória aguda e rebaixamento do sensório, sendo intubado. Estava tratando empiricamente tuberculose pleural (sem confirmação microbiológica) há 1 ano sem resposta clínica. Iniciou tratamento de sepse pulmonar e em 16/12/25, apresentou piora do derrame pleural, sendo realizada toracocentese que evidenciou TRM (GeneXpert Ultra®) reagente, confirmando a hipótese de tuberculose. Apesar dos tratamentos direcionados, o paciente se mantinha febril. Em 21/01/26, o dreno de tórax foi retirado e em 27/01 após realização de TC de tórax, foi evidenciado aumento do derrame pleural. Foi realizada nova toracocentese em 27/01, sendo identificado Providencia stuartii. Havia sensibilidade às cefalosporinas e carbapenêmicos (meropenem e ertapenem) ao antibiograma (com diâmetro de halo de inibição para meropenem de 24mm em fita gradiente). Diante deste resultado, foi realizado teste imunocromatográfico NG-Test CARBA 5 que mostrou o genótipo Klebsiella pneumoniae carbapenemase (KPC). O paciente inicialmente apresentou melhora clínica e laboratorial, porém dias após apresentou nova piora clínica, com necessidade de controle de foco através de abordagem cirúrgica torácica e troca do antimicrobiano. Comentários: Este caso ratifica a importância dos protocolos de triagem fenotípica e molecular para carbapenemases, independentemente do resultado do antibiograma convencional, pois a análise fenotípica pode não refletir a carga enzimática real do patógeno. De acordo com o BrCAST/EUCAST, isolados de ERC com diâmetro de halo para meropenem < 28 lt; 28 mm (ou CIM >0,125mg/L) devem ser submetidos a testes confirmatórios de produção de carbapenemase. O uso de testes imunocromatográficos é fundamental para a identificação precoce de mecanismos de resistência, promovendo o uso correto de antimicrobianos. Conflito de interesse: Não há conflito de interesse. Comitê de ética: Este relato de caso foi conduzido em conformidade com as normas éticas vigentes. Há Financiamento? Especifique: Não há financiamento.
Introdução/objetivos: O abscesso perivalvar (AP) é uma complicação temida da endocardite e constitui uma indicação de classe IB para cirurgia de substituição valvar. Nosso objetivo foi descrever as características do AP. Materiais e métodos: O estudo é uma análise post hoc de episódios de abscesso perivalvar em uma coorte prospectiva de pacientes adultos com endocardite infecciosa (EI) definitiva, de acordo com os critérios de Duke modificados, no período de 2010 a 2025. O AP foi identificado por ecocardiografia. Os pacientes com AP (grupo 1, G1) foram comparados aos que não apresentavam AP(grupo 2, G2). As análises estatísticas foram realizadas utilizando o JAMOVI. Resultados: Houve 517 episódios de EI no período do estudo, e 110 (21,3%) apresentavam AP. A mediana da idade foi de 50 [IQR 33,3-64] anos no G1 e de 52 [38-65] no G2. AP não foi associado a nenhuma comorbidade. Os homens predominaram no G1 (75,5% vs 62,9%, p = 0,014) e entre os pacientes com EI tardia de prótese (EITPV), sendo 30,9% no G1 vs 19,7% no G2 (p = 0,012). A válvula aórtica foi mais frequentemente afetada no G1 (68,2% vs 33,6%, p < 0,001). Observou-se perfuração das cúspides valvares em 25,5% do G1 vs 11,4% do G2 (p < 0,001), regurgitação paraprotética em 27,5% vs 15,3% (p = 0,003) e nova regurgitação grave em 59,6% vs 43,7% (p = 0,003). Bloqueio atrioventricular (BAV) de alto grau foi observado em 24,5% do G1 vs 7,6% (p < 0,0001). Embolia esplênica (44% vs 29,4%, p = 0,004), lesão renal aguda (42,7% vs 31%, p=0,020) e necessidade de inotrópicos (38,2% vs 23,8%, p = 0,003) foram mais frequentes no G1. No G1, a EI por estreptococos orais (8,4% vs 17,2%, p = 0,026) foi menos frequente e os estafilococos coagulase-negativos (ECN) mais frequentes (21,5% vs 8,6%, p < 0,0001). A cirurgia foi indicada para 97,3% no G1 e 78,4% no G2 (p < 0,0001); foi realizada em 87,3% do G1 vs 63,5% do G2 (p < 0,0001). A mortalidade intra-hospitalar geral foi de 36,7% no G1 vs 23,7% no G2 (p = 0,006). A mortalidade cirúrgica intra-hospitalar foi de 31,6% no G1 contra 19,9% no G2 (p = 0,013). Conclusões: O abscesso perivalvar afetou com maior frequência as válvulas aórticas, pacientes com EITPV e homens. Os ECN foram os principais patógenos implicados. A PA resultou em maior frequência de complicações, tanto locais (como bloqueio AV de alto grau) quanto sistêmicas. A mortalidade foi maior, mesmo entre aqueles que foram operados. O diagnóstico precoce e tratamento cirúrgico oportuno do AP são fundamentais para melhores desfechos. Conflito de interesse: Sem conflitos de interesse. Comitê de ética: Aprovado pelo comitê de ética. Há Financiamento? Especifique: Não.