
A alergia ao milho é uma condição rara, contudo têm surgido relatos recentes.Neste caso clínico é descrito o caso de uma mulher de 29 anos com história de angioedema labial e/ou síndrome de alergia oral após ingestão de pipocas e um episódios de sintomas conjuntivais e respiratórios após ingerir cervejas contendo milho. Os testes cutâneos foram positivos para milho. Para elucidar o agente alergénico, foram preparados extratos proteicos de milho e de três cervejas, analisados por SDS-PAGE e IgE-Western Blot. Identificou-se uma banda de 55–60 kDa reconhecida pela IgE da doente nos extratos contendo milho, ausente na cerveja sem milho, sugerindo um potencial novo alergénio. Este estudo etiológico permitiu confirmar que o milho foi o fator depoletador, reforçando o papel da imunologia molecular no diagnóstico de alergias alimentares raras e na aplicação da medicina personalizada.
Introdução: A doença respiratória exacerbada por anti-inflamatórios não esteroides (DREA) caracteriza- -se por asma, rinossinusite crónica com polipose nasal (RSCcPN) e hipersensibilidade a anti-inflamatórios não esteróides (AINE). Afeta 0,3-0,9% da população, surgindo habitualmente na 3.ª-4.ª décadas de vida. Resulta da ativação inflamatória T2 perante AINE, por desregulação do metabolismo do ácido araquidónico. Objetivo: Resumir as principais características da DREA no que se refere à sua fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico e abordagem terapêutica, com o objetivo de reunir a atual evidência científica sobre o tema. Métodos: Foi efetuada uma revisão narrativa após pesquisa bibliográfica na base de dados PubMed, tendo sido analisadas as publicações de janeiro de 2000 a abril de 2025 relativas à patofisiologia, diagnóstico de abordagem da DREA. Resultados: O diagnóstico baseia-se na prova de provocação oral com aspirina ou outro AINE inibidor da COX-1. A evicção destes fármacos constitui a principal abordagem terapêutica. Conclusão: Terapêuticas biológicas, como omalizumab, dupilumab ou inibidores da IL-5, poderão constituir opção relevante num futuro próximo.
Background: In patients with allergic rhinitis who remain uncontrolled despite being treated with standard daily doses of a single medication, strategies that can be followed to achieve adequate symptom control include (i) increasing the medication dose, or (ii) adding an additional medication (co-medication). However, it is not known which one of these two strategies is more effective. Objectives: This article describes a protocol of a systematic review with dose-response network meta-analysis aiming at comparing different intranasal and oral medications in patients with seasonal or perennial allergic rhinitis. Methods: We will search four electronic bibliographic databases and three clinical trials databases for randomized controlled trials (i) assessing adults or children with seasonal or perennial allergic rhinitis, and (ii) evaluating the effect of intranasal medications, oral medications or combinations of any intranasal and/or oral medications for allergic rhinitis. Assessed outcomes will include the Total Nasal Symptom Score, the Total Ocular Symptom Score and the Rhinoconjunctivitis Quality-of-Life Questionnaire (RQLQ). We will assess the methodological quality of included primary studies by using the Cochrane riskof-bias tool. Certainty in the body of evidence for the analysed outcomes will be assessed using the Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation approach for network meta-analyses (GRADE-NMA). We will perform a frequentist dose-response model-based network meta-analysis. Sensitivity analyses will be performed by separately analysing data for seasonal and perennial allergic rhinitis. Conclusion: This protocol describes the methodology of a systematic review that will fit dose-response network meta-analysis models in the comparison between different intranasal and oral medications. The findings of this systematic review will support recommendations in the Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma (ARIA) 2024-2025 guidelines.
Background: Helicobacter pylori (HP) infection is treated with a combination of antibiotics and antisecretory agents. Hypersensitivity reactions (HSR) limit therapeutic options. This study characterizes the diagnostic approach of HSR to HP eradication therapy. Methods: Retrospective analysis (1/2011–6/2024) of patients with suspected HSR to HP eradication therapy (proton pump inhibitors (PPI) + amoxicillin + clarithromycin or PPI + amoxicillin + clarithromycin + metronidazole). Diagnosis was considered: 1) confirmed by a suggestive clinical history (CH) and positive specific IgE to β-lactams (βL sIgE) or positive skin tests [skin prick tests (SPT), intradermal tests (IDT), epicutaneous tests], or based on a positive drug provocation test (DPT); 2) probable based on suggestive CH and positive lymphocyte transformation test (LTT); or 3) excluded by negative DPT or non-suggestive CH. Results: Of 42 patients [88% female, mean (range) age 55 years old (22-85)], 10 had immediate HSR: five had anaphylaxis, five had urticarial rash. Amoxicillin HSR diagnosis was confirmed in seven of these patients (two based on βL sIgE, two on βL sIgE /SPTs, one on SPT, two on IDTs) and excluded by DPT in three. HSRs to clarithromycin, metronidazole, and PPIs were excluded in all patients. Non-immediate HSRs were reported in 32 patients. Amoxicillin HSRs diagnosis was confirmed in five of these patients based on DPT and considered probable in one (based on LTT). Clarithromycin HSR was confirmed in two patients by DPT, and PPI (omeprazole) HSR in one patient by DPT. Conclusion: Clinical history alone overestimates HSR. Amoxicillin was the most frequent etiology of immediate and non-immediate HSRs. Immediate HSRs were diagnosed using sIgE and skin tests, while non-immediate HSRs relied on DPT. In both groups, DPT was necessary to exclude hypersensitivity.
O setor da saúde é responsável por 4,4% das emissões de gases com efeito de estufa a nível mundial, sendo a cadeia de abastecimento de produtos farmacêuticos e dispositivos médicos a sua principal fonte. No tratamento da asma, os inaladores têm um impacto ambiental significativo, especialmente os inaladores pressurizados de dose calibrada (pMDI), devido ao uso de gases propelentes. Alternativas como inaladores de pó seco (DPI) ou dispositivos de névoa suave apresentam menor potencial de aquecimento global, mas a escolha do dispositivo deve ser primariamente adequada à clínica e ao doente. A otimização do diagnóstico, abordagem de fatores de agravamento e instituição de terapêutica adequada são algumas estratégias fundamentais para reduzir o impacto ambiental. Neste artigo é feita uma revisão da evidência científica sobre o impacto ambiental dos inaladores no tratamento da asma que serve de base à identificação de estratégias práticas, passíveis de implementação no dia-a-dia, visando reduzir a pegada de carbono
Introdução: A sensibilização a ácaros do pó afeta uma elevada percentagem da população mundial, tendo impacto clínico e económico. A sensibilização a Der p 23 tem sido associada a rinite mais sintomática e a maior gravidade da asma. Objetivo: Neste trabalho pretende-se caracterizar doentes com rinite alérgica sensibilizados a Der p 23. Métodos: Incluíram-se doentes com rinite alérgica (associada ou não a asma) sensibilizados a Der p 23 entre dezembro de 2020 e janeiro de 2023. Foram utilizadas IgE total, IgE específicas para Dermatophagoides pteronyssinus (Dp) e Dermatophagoides farinae (Df) e os moleculares, Der p 1, Der p 2, Der p 10, e Der p 23. Na análise estatística, compararam-se os valores analíticos de acordo com a gravidade da rinite, com presença concomitante de asma e com o controlo da asma. Resultados: Foram incluídos 66 doentes, 53% do sexo feminino, com idade mediana de 23,7 anos (P25-P75: 3-52). Sessenta e um por cento dos participantes apresentavam rinite moderada-grave e 71% asma ligeira (dos 40 (61%) com asma). Na população estudada, 80% apresentavam sensibilização a Der p 1, 75% a Der p 2 e 19% a Der p 10. Seis doentes (9%) estavam monossensibilizados a Der p 23. Os valores de IgE para Der p 1, Der p 2 e Der p 23 foram significativamente superiores no grupo de doentes com rinite moderada-grave versus rinite ligeira. Os valores de IgE total, IgE Dp, IgE Df, Der p 2 e Der p 23 foram significativamente superiores na rinite associada a asma versus rinite isolada. Valores mais elevados de IgE total, IgE Dp e IgE Df associaram-se a maior frequência de asma não controlada. Conclusão: Nos doentes com rinite alérgica sensibilizados a Der p 23, os níveis elevados de Der p 1, Der p 2, e Der p 23 associaram-se a fenótipos mais graves de rinite alérgica, devendo estes parâmetros ser considerados na avaliação destes doentes. Menos de 10% destes doentes eram monossensibiizados a Der p 23. Os valores mais elevados de IgE total e específicas para Dp e Df são relevantes na associação com a presença de asma e com o seu não controlo.
Com o objetivo de uniformizar procedimentos sobre imunoterapia oral na alergia alimentar em Portugal, o Grupo de Interesse de “Alergia Alimentar” da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) elaborou as “Normas de Orientação em Imunoterapia Oral na Alergia Alimentar”. A presente página educacional apresenta o sétimo capítulo das normas, onde se efetua uma revisão sobre os alergénios do pêssego, perfis de sensibilização, manifestações clínicas, enquadramento epidemiológico, bem como a evidência atual sobre os esquemas de imunoterapia oral e sublingual publicados, pretendendo comentar e discutir os protocolos existentes. Contrariamente à imunoterapia oral para os alimentos descritos nos restantes capítulos, no caso do pêssego o alvo é uma proteína ubiquitária no reino vegetal, pelo que a aquisição de tolerância permanente se traduz na possibilidade de ingestão de vários alimentos não relacionados taxonomicamente. A qualidade de vida dos doentes com alergia ao pêssego e síndrome LTP é fortemente condicionada pela restrição de múltiplos alimentos vegetais, pela evolução da alergia com sensibilização e gravidade crescentes, bem como pela ausência de rotulagem obrigatória. Acreditamos que uma imunoterapia bem sucedida modificará completamente a qualidade de vida dos doentes com esta alergia.
A relação entre pólen e alergia foi reconhecida somente nos finais do séc. XIX, tendo-se assistido, desde então, a um desenvolvimento de métodos, técnicas e procedimentos para deteção e análise de partículas biológicas presentes no ar. A nível mundial, existem inúmeras redes de aerobiologia e diversos protocolos operacionais e análise a serem utilizados, conduzindo a problemas de estandardização universal e de comparabilidade das medições. Para colmatar esta lacuna no contexto europeu, foi elaborado um documento técnico padronizado que, em 2019, passou a norma europeia, com as especificações técnicas contundentes à amostragem e análise de grãos de pólen e esporos de fungos aerotransportados, baseadas no método volumétrico de Hirst. Este protocolo descreve a metodologia apresentada pela EN 16868:2019 que uma rede de aerobiologia ligada à alergia deve adotar. A Norma EN 16868:2019 encontra-se oficialmente escrita em quatro idiomas (inglês, francês, alemão e espanhol), não existindo a sua adaptação e tradução em português. Este documento descreve as especificações técnicas publicadas na Norma Europeia EN 16868:2019. O seu uso garantirá a qualidade e a fiabilidade das informações aerobiológicas resultantes divulgadas e usadas pela população, médicos e agências governamentais, visando melhorar a saúde e a qualidade de vida dos doentes com doença alérgica respiratória. Ética e divulgação: Neste trabalho não foram utilizadas amostras biológicas de natureza humana ou animal. A norma EN 16868:2019, atualmente aplicada na Rede Portuguesa de Aerobiologia (RPA), pode assim ser adaptada em outros países de língua portuguesa.
Introdução: A alergia à carne de frango é rara. Consoante a via de sensibilização, existem dois tipos de alergia: primária e secundária. Por regra, a reação cruzada entre carnes de aves é comum. Caso clínico: Mulher de 36 anos, sem antecedentes pessoais relevantes, com história de três episódios de prurido e urticária aguda generalizada e angioedema palpebral, minutos após ingestão de carne de frango assado sem temperos/conservantes. Desde o terceiro episódio que mantém evicção de todo o tipo de carne de aves, tolerando a ingestão de ovo. Foi referenciada a consulta de alergia alimentar, onde realizou testes cutâneos picada-picada com carne de frango e de peru, que foram positivos, ausência de IgE especificas séricas e provas de provocação oral a peru e pato negativas. Conclusão: Este caso revela a importância da confirmação da alergia e avaliação da reatividade cruzada entre alimentos para evitar restrições alimentares desnecessárias por parte dos doentes.