
Reimaginando la música inca: discursos indigenistas en la música de América Latina, 1910-1930 es la versión en español del libro Inca music reimagined: indigenist discourses in Latin American art music, 1910-19301, con el que Vera Wolkowicz ganó el prestigioso Premio Robert Stevenson de la American Musicological Society el año 2023. Como su nombre lo indica, el trabajo revisa la producción de música de tradición escrita de corte indigenista en las primeras décadas del siglo XX en tres naciones sudamericanas: Argentina, Ecuador y Perú. A decir de la autora, una argentina afincada en el Reino Unido, el libro analiza cómo la civilización incaica o, mejor dicho, una imaginada cultura imperial cuzqueña, fungió como fuente de inspiración para la creación de una música académica nacional por parte de las elites culturales de los tres países en cuestión. El eje vinculante de esta selección territorial, que a primera vista puede parecer arbitraria, lo encuentra Wolkowicz en tres puntos coincidentes dentro de esos discursos: la recurrencia a un supuesto sistema musical incaico de corte pentatónico, la importancia otorgada al estilo poscolonial del yaraví como pars pro toto del mestizaje musical en Sudamérica y la producción de óperas nacionalistas de temática “incaica”. La investigación se sustenta en un impecable trabajo bibliográfico de archivo en los tres países, así como en el análisis musical de las partituras de óperas “incaicas” del comienzos del siglo pasado.
Em 1905, Giovanni Papini publica Il crepuscolo dei filosofi, na qual realiza um “processo à filosofia”. À luz dos pressupostos do pragmatismo, o autor analisa criticamente as contribuições de Kant, Hegel, Comte, Spencer, Nietzsche e Schopenhauer, configurando uma autobiografia intelectual, na qual é possível vislumbrar seu conceito de modernidade. Depois do surgimento do futurismo, ele proclamará a obra “um ensaio de filosofia futurista” em virtude de seu caráter “de ataque e de destruição”. Outros sinais de pré-futurismo podem ser detectados na militância crítica do escritor: 1 – o ataque ao culto de Dante Alighieri (1905), que antecede o marinettiano A divina comédia é uma vermineira de glosadores” (1915); 2 – a visão crítica das “cidades mortas” (1905), que antecipa o manifesto “Contra Veneza passadista” (1910); 3 – a análise do cinematógrafo como portador de uma nova sensibilidade (1907), que precede de diversos anos o interesse dos futuristas pela nova arte (1912- 1913). Embora haja diferenças entre suas ideias e as de Marinetti, particularmente na questão da relação com o passado, é inegável que ambos estão engajados na busca de formas de renovação da cultura italiana.
El título del libro publicado por Zoila Vega guía al lector desde el inicio: De la tristeza a la identidad. Se nos propone entender un proceso, un camino en apariencia singular, o sea, pasar de los sentimientos, de la emoción, la tristeza, a un concepto más colectivo y a menudo político, la identidad. El subtítulo nos guía aún más: “El yaraví peruano en fuentes escritas desde los siglos XVIII, XIX y XX”, es decir que se nos invita recorrer un largo camino cronológico, pero con la ayuda de fuentes escritas, de las cuales sabemos de sus limitaciones (la autora las evoca), pero también de sus grandes ventajas si se las analiza y usa con las herramientas idóneas. Un viaje en la historia, pero un viaje documentado, en torno a un género musical icónico sobre el que se ha escrito mucho y desde temprana época, y cuyos contornos, formas, contenidos, prácticas recepción, seguían siendo extremadamente borrosos. Esta investigación, este libro, no solo aclaran el camino, sino que aportan respuestas contundentes.
Esto no es un libro sobre música peruana ni se limita a la música de los Andes o a prácticas culturales latinoamericanas. Aunque a lo largo de sus capítulos Julio Mendívil despliegue un rico conocimiento sobre géneros, espacios y sujetos musicales de los Andes, Biografía social de las músicas: la tradición vista por un etnomusicólogo aguafiestas ofrece, ante todo, una entrada a sus formas de interrogar la labor de la etnomusicología, proponiendo claves teóricas que no se restringen a nuestra región. No se trata de textos nuevos. Los capítulos de esta obra fueron previamente publicados de manera separada en revistas especializadas o en otros libros; su novedad en este formato está dada por la interrelación que establecen y por la actualización que promete en la sección final. Mendívil explica que, tras su primera publicación – la mayor parte en idiomas distintos al español y/o en tirajes de alcance reducido –, estos textos no circularon de manera profusa, por lo que su compilación aquí obedece, en parte, al deseo de difundirlos ante un público hispanohablante.
Se analizará un ciclo de films que explotó la popularidad del cine de terror y luchadores para lanzar una variante basada en las figuras de mujeres luchadoras, que tuvieron su alcance entre los años sesenta y setenta. Delinearemos la hibridación genérica como característica distintiva para el desarrollo de las tramas, la utilización de la iconografía de la lucha libre para la atracción de los públicos de la televisión y los medios gráficos al cine, en un movimiento implantado en el fenómeno de la intermedialidad y la cultura de masas, y la adquisición de algunos films por productores estadounidenses para la realización de versiones de exportación. Este fenómeno puede explicarse en su interés de afianzar el establecimiento de un cine volcado al gusto popular, estandarizado en su narratividad y puesta en escena, y producido como un eco del éxito suscitado por el cine de luchadores, cuya productividad estaba en vigencia por aquel tiempo.
A invenção do campo de saber nomeado “História da Arte Ocidental” confirma- se como fabricação e fabulação escriturárias nas páginas do historiador da arte alemão Johann Joachim Winckelmann (1717-68). O arrebatamento estético que captura Winckelmann ao deparar ocular e presencialmente com as ruínas da Antiguidade Clássica em Roma, instaura um modo completamente outro, naquilo que concerne ao antiquarismo setecentista vigente então, na lida com a relíquia – relicta – este resto de objeto ao redor do qual a ruína se converte na figura alegórica por excelência que se destaca da paisagem escritural winckelmanniana. É a dimensão estética que fará sujeito da linguagem e sujeito vidente se equacionarem no desconcerto de uma razão escritural em que o tom – tropikos – do escrito concentra as potências figurativas do princípio ecfrasal, encenando uma repetida e determinante vez, a fricção entre logos (linguagem) e eikon (imagem), em que só a razão tropológica aparenta tocar no objeto estético sem a pretensão do esgotamento.
O artigo analisa o enredo “Quem tem medo de Xica Manicongo”, da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, do Rio de Janeiro, apresentado em 2025. A africana Xica viveu em Salvador como escravizada no final do século XVI. Ela é considerada pelo movimento brasileiro contemporâneo de pessoas trans e travestis como a primeira travesti não indígena do país da qual se tem registro. O foco recai sobre como esse enredo foge da linearidade cronológica das biografias tradicionais, aproximandose de formas queer de pensar e narrar a temporalidade, sintetizadas nas noções de crítica à crononormatividade, anacronismo e erotohistoriografia. Conclui-se que o enredo tem potencial de inspirar a elaboração de biografias históricas que queiram fugir de maneiras usuais de conceber e delinear a temporalidade.
No carnaval de 2022, fui convidado por Jards Macalé e Rejane Zilles, então sua companheira, para passar três dias com eles na famosa casa que a família do músico tem no distrito de Penedo, no município de Itatiaia, interior do Rio de Janeiro. Na verdade, o terreno comporta várias casas, de diferentes familiares de Jards. O espaço, pleno de verde, de quedas d’agua e silêncio, foi adquirido pela sua avó materna Hilda Anet na década de 1960. Desde então, os Anet são personagens públicos do distrito conhecido pela sua colonização finlandesa.
Este artigo analisa três obras do historiador Lucien Febvre, discutindo os paradoxos em torno de sua recusa do gênero biográfico. Apesar de negar reiteradamente a filiação ao campo, seus livros evidenciam interesse por sujeitos históricos, suas ideias, emoções e contextos, mobilizando recursos próprios da escrita biográfica. A rejeição de Febvre deve ser compreendida no interior do debate historiográfico francês da primeira metade do século XX, marcado pelo desprestígio da biografia e por sua associação a uma história romanceada e política. Entretanto, a contradição entre discurso e prática revela o quanto sua obra se aproxima das potencialidades do gênero biográfico. Investigo precisamente a presença dessas características, partindo da hipótese de que Febvre, ao negar, ainda assim produziu biografias – e biografias modernas.
As relações controversas e críticas entre história e biografia parecem ter alcançado certa estabilidade em torno da hipótese de que os estudos sobre trajetórias individuais adquiriram um estatuto relevante nas agendas de pesquisa dos historiadores. Ao longo das últimas décadas, diversos debates explicitaram os contornos teóricos e epistemológicos desse biographical turn. A proliferação dessas discussões — que frequentemente também envolveram sociólogos e teóricos da literatura — suscita a pergunta sobre o que ainda se pode dizer a respeito da biografia. Neste ensaio, procuro explorar um aspecto menos investigado pelos historiadores: as relações entre biografia e temporalidade. As questões aqui colocadas organizam-se em dois movimentos. No primeiro, retomo o problema da contemporaneidade dos relatos sobre indivíduos do passado a partir de uma inversão, mobilizando a noção de biografia inatual. O segundo caracteriza-se por uma abordagem crítica dos usos da ideia de contexto histórico mobilizada em muitas biografias, tendo como contraponto o conceito de evento. Como resultado desses dois movimentos, busco, ao final do ensaio, esboçar alguns apontamentos sobre as possibilidades que as questões discutidas abrem para as escritas de vidas.
Antes de tudo, o leitor deve esvaziar sua mente: é difícil estabelecer relação entre nossos Jogos Olímpicos e aquilo que os gregos chamaram de torneio olímpico; os detalhes divergentes são as menores coisas: o conjunto difere, e todo contexto. E não é o caráter religioso do torneio antigo que faz a diferença, longe disso.
Este artigo, fruto das reflexões apresentadas no seminário Tessituras do Biográfico, ocorrido na Universidade do Estado do Rio de Janeiro em junho de 2025, procura analisar as relações existentes entre a fixação da obra e da memória biográfica do poeta maranhense Antônio Gonçalves Dias naquilo que pode ser chamado de identidade cultural brasileira, e a própria construção da ideia de identidade nacional brasileira, problematizando as escolhas e silêncios que perpassam essas construções que são, ao mesmo tempo, narrativas biográficas e históricas.
A Amazônia ganha relevo quando se visualiza o território que veio a constituir a América. Foi explorada ao longo do tempo, tanto pela curiosidade e cobiça, como pelo desejo de ampliação do conhecimento do mundo. Para pensar historicamente a sua constituição e a de seus diferentes espaços, considero a referência inaugural de Francisco de Orellana relatada por Frei Gaspar de Carvajal e, na sequência, dois autores (um romântico e um modernista): o poeta Gonçalves Dias, que conheceu a região em 1861, e, pouco mais de meio século à frente, Mário de Andrade, “turista aprendiz” que navegou pelo rio em 1927. Os relatos transmitem experiências vivenciadas por autores que tinham o olhar educado pela arte e por leituras pregressas, tendo produzido textos que nos alcançam com grande força e permanência, em especial se consideramos os riscos dos avanços predatórios em áreas de rios e florestas, preocupação presente em Willi Bolle, que refez o percurso de Orellana (2006-07) e a narrativa de Davi Kopenawa e Bruce Albert – A queda do céu – relato de vida de quem é e fala da floresta (França, 2010; Brasil, 2015).
Djeliya, álbum em quadrinhos criado pelo artista senegalês Juni Ba, explora visualmente as cadências do sonoro das tradições culturais da África Ocidental. A obra segue uma djeli, em um mundo pós-apocalíptico, enfatizando os significados culturais da memória cultural e ancestralidades. Ritmos e sons são visualizados a todo momento em sua estrutura gráfica, evidenciando a importância de práticas orais e musicais na construção de histórias e circulação de saberes ancestrais. Discute-se neste artigo como Djeliya configura uma reelaboração contemporânea das tradições djeliw, atualizando a figura do narrador tradicional para o contexto dos quadrinhos contemporâneos.
O médico Gastão Pereira da Silva (1897-1987) é invisibilizado na historiografia da psicologia no Brasil. Escreveu dezenas livros sobre o tema, atuou como jornalista e se tornou o primeiro e o maior divulgador da psicanálise no país. Publicou na revista Carioca (RJ) a coluna “Psychanalise dos Sonhos” (1935-1937), respondendo cartas sobre os sonhos de leitores, interpretando-os a partir das ideias de Freud, que derivou na obra Conhece-te pelos sonhos (1937). As respostas aos leitores e algumas resenhas sobre o livro acolhidas na coluna mostram como tal psicanalista divulgava o pensamento freudiano e pensava em sua prática e seus vínculos.
Como constructo político, la identidad se presenta como una categoría inherentemente maleable: puede ser manipulada, falseada, moldeada y ajustada en función de intereses específicos. Lejos de constituir una esencia inmutable, la identidad es una construcción dinámica y cambiante, constantemente sujeta a resignificaciones. En este proceso, el pasado puede ser instrumentalizado para legitimar relatos identitarios que, aunque construidos, se presentan como auténticos y ancestrales. De este modo, la población puede llegar a asumir dichos relatos como propios, en un fenómeno que podría describirse como una suerte de síndrome de Estocolmo colectivo, en el que se naturaliza una identidad impuesta bajo nuevas formas discursivas. En este caso reflexionaremos como afectó este constructo al cine canario de las primeas décadas de la Democracia.
O artigo tem por objetivo analisar a trajetória e contribuição particular da cantora Gal Costa ao movimento tropicalista, destacando os principais componentes estéticos e visuais do fenômeno que foram incorporados pela intérprete. Após ter iniciado sua carreira adotando uma identidade artística atrelada à Bossa Nova, a cantora visualizou no repertório tropicalista a oportunidade de realizar uma mudança radical em sua trajetória. Tal transformação projetou a cantora no mercado musical e na mídia do período, estabelecendo-a como “musa do tropicalismo”. A conduta musical e comportamental que a cantora empregou conformou também uma prática de resistência aos valores que eram perpetrados pela ditadura militar brasileira. Para investigarmos essas configurações, nos detemos especificamente entre 1968 e 1969, momento em que Gal se vinculou ao grupo tropicalista e efetuou essa mudança estética que obteve repercussão significativa na imprensa. Analisamos sua participação no disco Tropicália ou Panis et circensis (Philips/1968), a apresentação de “Divino, maravilhoso” no IV Festival da TV Record e seu primeiro disco solo, Gal Costa (Philips/1969), além de cotejar as matérias da imprensa que trataram da cantora e seu repertório.
Este artigo tem por objetivo analisar a presença da fadista portuguesa Amália Rodrigues em Espanha. Desde a sua primeira apresentação ocorrida em fevereiro de 1943, Amália manteve uma frequência constante no território espanhol. Diversas matérias destacavam a sua performance, como também a importância do fado e a maior ou menor aproximação deste gênero musical com os ritmos hispânicos. A hipótese aqui defendida é a de que as suas incursões em Espanha ajudaram, por um lado, a sedimentar um discurso ao mesmo tempo nacionalista e evocador da proximidade entre os países ibéricos; por outro, elas foram igualmente determinantes para a internacionalização da carreira da fadista, além dos limites ibéricos.
O artigo, numa primeira parte, discute a possibilidade das biografias e autobiografias se tornarem capazes de iluminar processos históricos relevantes, por valorizarem o agir humano, sempre imprevisível, mas decisivo para o acontecer histórico. Num segundo momento, apresentam-se disposições básicas para a elaboração das biografias ou autobiografias: a empatia, o senso da verdade, a resistência à vigilância institucional ou social e a avaliação equilibrada dos desafios. Também são discutidos critérios fundamentais: a elaboração da contextualização social, a concepção da imprevisibilidade da história, a consideração das múltiplas dimensões da vida e a explicitação dos motivos que levam cada autor a escolher as pessoas que vão biografar. Na parte final do texto, consideram-se rapidamente exercícios a que tenho me dedicado: as biografias de Alexandre Nicolaevitch Raditchev (1749-1802); Alexandre Ivanovitch Herzen (1812- 1870); Luis Carlos Prestes (1898-1990), Julius Ossipovitch Tsederbaum, o Martov (1873-1923) e a autobiografia (ficcional/1946-2050?).