
A pesquisa objetivou compreender como ocorre o processo de ensino e aprendizagem da Luta Marajoara no contexto de uma festividade em honra a São Sebastião realizada em Cachoeira do Arari, município situado na Ilha de Marajó, Norte do Brasil. Em termos metodológicos, adotou-se a abordagem qualitativa e a Etnometodologia como método. Para a reunião dos dados, foi realizada observação participante e aplicação de entrevistas semiestruturadas com lutadores cachoeirenses. Os resultados permitiram inferir que o ensinar e o aprender da Luta Marajoara é um processo contínuo, que se constroi nos diferentes ambientes onde essa luta corporal se manifesta. Nesses lugares diversos, que incluem o contexto da festividade, a Luta Marajoara pode ser aprendida e ensinada por meio de uma “educação da atenção”, um processo que ocorre quando um lutador experiente mostra um saber da luta ao lutador iniciante para que ele possa olhar, ouvir, imitar e, assim, aprender.
Este artigo objetivamente reflexiva sobre a constituição da territorialidade da região Transamazônica e Xingu, a partir do espaço denominado “movimento social da região”. Situações como a educação diferenciada foram construídas e assumidas como estratégicas na luta por direitos às políticas públicas e como condição de possibilidade para permanência não só na terra, mas também no território. Focamos o curso Educação do Campo, sua trajetória e suas repercussões no território, para pensarmos o alcance dessas conquistas coletivas. Metodologicamente, adotamos uma pesquisa com abordagem qualitativa a partir do método da Cartografia Social. foram realizadas entrevistas semiestruturadas com lideranças sociais e egressos deste curso, além de análise documental como instrumentos para produção de dados. Os resultados apontam o movimento social da região Transamazônica e Xingu como espaço de lutas e conquistas no âmbito da educação diferenciada; um grande coletivo com diferentes assuntos sociais que mobiliza e reivindica um conjunto de políticas sociais, a exemplo do curso de Educação do Campo, que representa o amadurecimento epistemológico do conjunto de ações aqui discutidas.EDUCAÇÃO RURAL NA TRANSAMAZÔNICA E XINGU – TERRITÓRIOS DE LUTA POR DIREITOS ResumoEste artigo tem como objetivo refletir sobre a constituição da territorialidade na região da Transamazônica e Xingu, a partir do espaço conhecido como “movimento social da região”. Situamos como a educação diferenciada foi construída e assumida como estratégica na luta por direitos às políticas públicas e como condição de possibilidade para a permanência não apenas na terra, mas também no território. Detemo-nos no curso de Educação do Campo, sua trajetória e repercussões no território, para pensar o alcance dessas conquistas coletivas. Metodologicamente, adotamos pesquisa com abordagem qualitativa fundamentada no método da Cartografia Social. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com lideranças sociais e egressos desse curso, além da análise documental como ferramentas para a produção de dados. Os resultados destacam o movimento social na região da Transamazônica e Xingu como espaço de lutas e conquistas no campo da educação diferenciada; um grande coletivo de diferentes assuntos sociais que mobiliza e reivindica um conjunto de políticas sociais públicas, como o curso de Educação do Campo, o que representa o amadurecimento epistemológico do conjunto de ações aqui discutido.
A produção audiovisual como prática educativa em contextos indígenas insere-se em um campo de disputas epistemológicas que tensionam modelos hegemônicos de ensino e aprendizagem. Este artigo relata experiências desenvolvidas entre universitários e jovens Mbya Guarani, focalizando abordagens metodológicas que emergem da interseção entre arte, educação e territorialidade. A partir de projetos de extensão, investigam-se estratégias pedagógicas que se afastam de formatos escolares convencionais e instauram um espaço de criação colaborativa, pautado na reciprocidade e na escuta sensível. A experimentação e a incorporação de modos de conhecimento próprios das comunidades participantes configuram um processo formativo em que o audiovisual se constitui como ferramenta expressiva e como mediação fundamental para a construção de narrativas situadas e politicamente implicadas. Nessa perspectiva, discutem-se os desafios e as potencialidades de práticas educativas que afirmam a necessidade de epistemologias contra-hegemônicas no campo da educação e das artes.
A discussão sobre formação de professores no Brasil tem sido orientada por uma ideologia neoliberal distante das práticas e dos modos de vida das comunidades do campo, das águas e das florestas. A Educação do Campo tem proposto outras configurações para essa formação tendo em conta seus princípios políticos e pedagógicos. O objetivo é refletir sobre como a pesquisa se constitui como princípio educativo na formação de professores(as) na Educação do Campo na perspectiva emancipadora. Utiliza-se de uma abordagem bibliográfica e documental para sustentar as discussões teóricas do texto, além da exposição de práticas docentes na formação de professores(as). As discussões apresentadas expressam a importância da pesquisa na construção de conhecimento na Educação do Campo, como forma de articular a realidade dos territórios e suas problemáticas com os conhecimentos trabalhados na licenciatura de tal forma que possa contribuir na superação do modelo capitalista de sociedade.
Este artigo tem como objetivo analisar a trajetória de luta do povo Huni Kuin Kaxinawá, do estado do Acre, na implementação de uma educação bilíngue, intercultural e diferenciada. A partir de uma revisão bibliográfica sobre educação indígena e teorias de ensino bilíngue, intercultural e diferenciada, o artigo explora o impacto de práticas educativas que valorizam os aspectos culturais e usos da língua materna do povo, promovendo resistência cultural. O estudo foi realizado por meio da observação na escola Keã Huni Kuin, utilizando-se de uma abordagem etnográfica, durante quatro meses, e entrevistas/conversas com os professores, alunos e lideranças locais. Algumas considerações finais do artigo mostram que a luta pela educação bilíngue, intercultural e diferenciada é um elemento central na resistência e construção das identidades culturais dos Huni Kuin, embora ainda existam desafios significativos para a consolidação dessa proposta de escola no contexto em tela.
Este artigo parte de uma experiência etnográfica com comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) para refletir sobre os entrelaçamentos entre identidade, território e práticas de conservação. Através da análise de registros em caderno de campo, entrevistas e observação participante, discute-se como os saberes locais moldam formas singulares de relação com a paisagem, confrontando lógicas extrativistas e conservacionistas. São resultados a identidade como ferramenta política; a representação feminina nas práticas tradicionais e articulações entre conservação e população local, a partir de manejo horizontal. Ao enfatizar a bioculturalidade, a autonomia territorial e a agência política das lideranças quilombolas, argumenta-se que a etnobiologia pode e deve articular na denúncia da imposição do modelo civilizatório que instrumentaliza territórios e ignora formas plurais de vida. Assim, propõe-se uma ciência comprometida com a transformação da realidade e epistemologias contra-hegemônicas.
Neste estudo, tivemos como objetivo analisar como as experiências profissionais nas comunidades ribeirinhas da Reserva Extrativista Rio Iriri, Altamira-PA, contribuem para a formação da identidade docente de professores não pertencentes a essas comunidades. Para tanto, realizamos este estudo com abordagem qualitativa, partindo de nossas experiências profissionais nas escolas das comunidades ribeirinhas da Resex Rio Iriri. Como resultado, discutimos seis questões que perpassam a formação da identidade do docente que atua, mas não pertence as comunidades da Resex, sendo elas: adaptação ao contexto local; desigualdade de recursos; desenvolvimento de metodologias alternativas; condições de trabalho; resiliência e frustração; e papel da gestão escolar e da coordenação pedagógica. Esses aspectos moldam professores capazes de enfrentar adversidades, comprometidos e preparados para lidar com realidades desafiadoras. Contudo, é necessário enfatizar a perceptível negação de direitos e precarização do trabalho docente, o que acaba por moldar a autopercepção e a identidade docente dos professores.
Este artigo investiga a relação entre a construção da Rodovia Transamazônica, as políticas de colonização da Amazônia e a história da Escola Rui Barbosa, em Medicilândia-PA. O objetivo é analisar como a construção da Transamazônica e as políticas de colonização influenciaram a criação, evolução e manutenção da escola e o papel da mobilização comunitária nesse processo. A pesquisa segue uma abordagem qualitativa e participativa, baseada em relatórios do Tempo Comunidade, entrevistas e análise documental. Os resultados demonstram que, embora a infraestrutura precária e a ausência de suporte governamental representem desafios, a luta coletiva da comunidade foi essencial para garantir a continuidade da escola. A Escola Rui Barbosa se tornou um símbolo de resistência local, evidenciando a necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades da educação do campo. Revela persistência de desafios estruturais e a importância do envolvimento popular na construção de estratégias para fortalecer a educação nas áreas rurais da Amazônia.
O artigo visa contribuir com o debate sobre as narrativas, com ênfase nas experiências e saberes das mulheres negras, historicamente marginalizadas. Utilizando o conceito de “escrevivência” de Conceição Evaristo (2020), uma pesquisa destaca a escrita como um ato de resistência e de ressignificação do passado, fundamental para dar voz e visibilidade às mulheres negras. A metodologia adotada revisita as histórias de personagens como as “Marias”, cujos saberes são transmitidos por meio da tradição oral, preservando sua sabedoria e resistência. O artigo propõe uma reflexão crítica sobre a importância de valorizar a ancestralidade e a potência das mais velhas, apoiando seu papel essencial na construção da identidade e história do Brasil. Dessa forma, busca-se celebrar as histórias dessas mulheres no presente e projetá-las para o futuro.Palavras-chave: Mulheres negras. Ancestralidade. Oralidade. Tradição. Educação. INSURGÊNCIAS DAS “MARIAS”: CONHECIMENTOS ANCESTRAIS, MEMÓRIAS E HISTÓRIAS QUE NÃO FORAM ESCRITAS ResumoO artigo busca contribuir para o debate sobre narrativas, com ênfase nas experiências e saberes de mulheres negras, historicamente marginalizadas. Utilizando o conceito de “escrevivência” de Conceição Evaristo (2020), a pesquisa destaca a escrita como ato de resistência e ressignificação do passado, essencial para dar voz e visibilidade às mulheres negras. A metodologia revisita as histórias de personagens como as “Marias”, cujo saber é transmitido pela tradição oral, preservando sua sabedoria e resistência. O artigo propõe uma reflexão crítica sobre a importância da valorização da ancestralidade e do poder das mulheres mais velhas, reconhecendo seu papel essencial na construção da identidade e da história do Brasil. Assim, busca celebrar as histórias dessas mulheres no presente e projetá-las no futuro.Palavras-chave: Mulheres negras. Ancestralidade. Oralidade. Tradição. Educação.
O artigo analisa a prática da Educação Popular presente na festa de São Benedito em Santarém Novo/PA, observando a Irmandade de Carimbó como espaço de transmissão cultural. A pesquisa, de natureza qualitativa e etnográfica, utilizou observação participante, entrevistas abertas e registros visuais para investigar como o carimbó, dança tradicional da região, é ensinado às novas gerações e contribui para a preservação da identidade local. O barracão da Irmandade articula saberes comunitários manifestando uma Educação Popular baseada na tradição, na religiosidade e na manifestação cultura. A festa anual torna-se um espaço vivo de uma educação orgânica que envolve danças, músicas, vestimentas e práticas e culinárias típicas, reafirmando o papel da comunidade na salvaguarda de seu patrimônio cultural imaterial.
O artigo objetiva analisar as contribuições do pensamento Freireano sobre a Educação Libertadora no âmbito da disciplina “Educação das Relações Étnico-Raciais” para a formação inicial de professores no território Transxingu e na região do Tocantins/UFPA/CUTINS, problematizando a questão: como os discentes dos rios da Amazônia têm compreendido os ensinamentos Freireano sobre a Educação Libertadora e quais as relações desse embate para a prática docente? A metodologia utilizada para a pesquisa documental, tendo como fonte a produção de atividades coletivas dos acadêmicos e dos mestrandos, durante a realização da disciplina, apontando que: os acadêmicos dialogam com referenciais específicos da disciplina triangular o pensamento Freireano de modo a evidenciar diferentes compreensões sobre as situações de opressão sofrida pelos negros na sociedade brasileira ao apontar as diversidades que atravessam seus saberes e fazeres, seus corpos e modos de ser e estar no mundo.
O presente artigo aponta questões sobre a educação escolar quilombola (Resolução 08/2012 – CNE/CEB) e seus desafios de implementação da Educação Escolar Quilombola e seus impactos frente aos conflitos socioambientais no Território Quilombola Oxóssi da Ribeira, Jambuaçu-Moju/PA. Como objetivo principal, procure-se compreender trabalhar em suas práticas educativas os conflitos socioambientais no contexto da Educação Escolar Quilombola. Como metodologia, foi realizada uma consulta bibliográfica exaustiva sobre o assunto tratado, com a finalidade de elucidar questões pertinentes ao tema, bem como a visita ao campo para entrevistas e o convívio com a comunidade. Como resultado, constatou-se que os professores entrevistados vivenciaram conflitos por não serem quilombolas, porém, se dedicaram à educação quilombola com as visões de valorização da identidade cultural e enfatizando as lutas sociais em torno da terra e do território e a defesa contra a opressão.
Este trabalho investiga alguns dos impactos sociais da violação do direito à educação na vida de jovens camponeses e suas famílias na região da Transamazônica, no sudoeste do Estado do Pará. A pesquisa foi realizada por meio de trabalho de campo, com a aplicação de entrevistas semi-estruturadas junto aos sujeitos diretamente afetados pela precariedade da oferta do ensino médio na zona rural mencionada. A reflexão e análise dos dados foram fundamentadas no diálogo com diversos autores, entre eles Ardoino (1998), Stropasolas (2006; 2014), Carneiro (2011), Castro (2009), Dayrell (2007; 2014) e Barcelos (2021), que discutem aspectos particulares da educação no campo, bem como políticas públicas educacionais aplicada a esse contexto. Resultados preliminares apontam que a precariedade ou ausência do ensino médio nas comunidades rurais da Transamazônica impõe, por óbvio, múltiplas barreiras à continuidade da formação dos jovens camponeses. Além dos evidentes desafios infraestruturais, fatores como deslocamentos onerosos, incompatibilidade com o trabalho no campo, desenho curricular impróprio e ausência de políticas adequadas dificultam a permanência escolar. Com efeito, esse quadro impulsiona a migração forçada e compromete a sucessão geracional no campo, destacando a necessidade de políticas educacionais mais eficazes e contextualizadas, capazes de oportunizar aos jovens a conclusão dessa etapa de ensino com a necessária qualidade, o fomento e exercício de suas identidades camponesas, o usufruto integral de seus direitos sociais, bem como a construção de perspectivas de futuro, e o desenvolvimento mais pleno de seus talentos e potencialidades.
O dossiê congrega 18 artigos, e o editorial, de autores e autoras de instituições de ensino superior e de educação pública, que apresentam relatos de experiências didático-pedagógicas e processos de pesquisa-ação que evidenciam as lutas em torno da imprescindível agenda da educação diferenciada e emancipação social de povos originários, quilombolas, comunidades tradicionais e coletivos populares. As experiências e reflexões apresentadas fortalecem o debate acadêmico e social ao valorizar outros modos de educação, de escuta, de pluridiversidade, da inclusão das diferenças e da construção intercultural. Reúnem processos de reflexão-ação materializados em relatos de experiências educativas, ensaios e pesquisa-ação que promovem o reconhecimento e valorização dos conhecimentos tradicionais e populares, experiências didático-pedagógicas em diferentes regiões do Brasil e em Cuba. Tais contribuições compõem um panorama dos potenciais e desafios em torno da Educação Diferenciada no Brasil, em diálogo com o combate ao racismo estrutural, a defesa dos territórios tradicionais e as lutas dos movimentos sociais por educação, direitos territoriais, autorreconhecimento e fortalecimento identitário.
Este artigo analisa os pressupostos da pedagogia de Paulo Freire em diálogo com as práticas educativas do projeto "Samaúma das Palavras", desenvolvido no Museu Sacaca, em Macapá, Amapá. Com base nas narrativas de Paulo Freire, especialmente na obra À Sombra desta Mangueira (2015), o texto explora como a integração entre natureza, cultura e educação fomenta uma aprendizagem dialógica, valorizando identidades locais e desenvolvendo a consciência crítica dos participantes. Foi realizada uma pesquisa de campo, de abordagem qualitativa, por meio de levantamento bibliográfico de obras de Paulo Freire e de outros teóricos que fundamentam este estudo e entrevistas com visitantes e técnicos do museu. A sistematização e análise das informações estão estruturadas em categorizações temáticas. Os entrevistados foram profissionais da educação que vivenciaram as atividades educativas no espaço do projeto Samaúma das Palavras, bem como educadores museais, responsáveis pela mediação junto aos visitantes no contexto da exposição a céu aberto do Museu Sacaca. O artigo evidencia o potencial dos espaços não escolares como ambientes educativos. Apresenta-se o projeto "Samaúma das Palavras" como exemplo de educação que une emoção e razão, inspirado na dialética do sentir-pensar freireano. Enfatiza-se a importância de práticas pedagógicas que transcendem a sala de aula, promovendo reflexões críticas e aprendizagens significativas ancoradas na diversidade cultural e na sustentabilidade ambiental.