
Pedidos de restituição de peças a museus da América do Norte e da Europa por governos, instituições e coletivos africanos têm ganhado cada vez mais destaque. Alguns museus estão se dedicando a investigar a proveniência dos seus artefatos e a formar parcerias com as "comunidades de origem" para reexaminar suas abordagens em relação à conservação, catalogação e exibição. Com base em dados coletados em uma pesquisa etnográfica em vilarejos da floresta do Mayombe, na República Democrática do Congo, este estudo analisa um conceito-coisa chamado na língua kiyombe de kímbiindi. Por um lado, indico como este conceito-coisa atualiza memórias do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, tendo se tornado uma força perturbadora que pode gerar desconfiança entre os habitantes. Por outro lado, sugiro que o kímbiindi esteja relacionado a duas esculturas de acervos museológicos já analisadas pela história da arte (podendo ser uma das suas expressões materiais e/ou visuais). A análise permite discutir a diáspora africana a partir da África Central e dialoga com a antropologia dos museus, apontando tanto as oportunidades quanto os desafios das práticas colaborativas com as comunidades de origem dos artefatos.
La profonde crise que la Côte d’Ivoire a connue a exacerbé les clivages et les tensions sociopolitiques. Elle a laissé dans les formes de médiation symboliques telles que les fictions télévisées, des traces de conflictualité. Et c’est justement cette conflictualité présente dans la fiction télévisée Cour Commune que cette étude examine. En effet, cette représentation humoristique de la vie ordinaire des habitants d’une cour commune des quartiers populaires d’Abidjan questionne la manière dont l’humour et la dérision participent à la reconstruction du lien social dans une société post-conflit. Pour ce faire, cette étude s’appuie sur une ethnographie de la fabrication, une analyse de contenu d’un corpus représentatif d’épisodes et sur l’étude d’un échantillon du public. Les données ont révélé une disjonction entre les interprétations du public et l’intentionnalité des instances productrices de désamorcer les tensions, de promouvoir la cohésion sociale. Cette "inefficacité" souligne la nécessité de repenser le vivre ensemble si l’on veut panser les liens sociaux délités.
Cette étude propose une réflexion sur le rôle de la musique et plus largement celui des industries culturelles dans la cohésion sociale en Côte d’Ivoire. Elle s’intéresse plus spécifiquement au genre musical coupé-décalé et son action (rôles sociaux ou fonctions sociales) pendant la crise politique (2002-2012). Aussi part elle d’un postulat inductif selon lequel le coupé-décalé a contribué à désamorcer les tensions sociopolitiques et ramené la paix. Ainsi, à partir d’une approche historique et compréhensive fondée sur l’analyse de divers matériaux tels que les chansons coupé-décalé de la période, les articles de presse, les déclarations d’artistes coupé-décalé (vidéos), l’observation et notre vécu de la situation, ce travail vise à montrer que la politique du coupé-décalé est de dépolitiser la société. « Faire le farot », « danser », « s’amuser », « s’enjailler » apparaissent alors comme attitudes, des moments voire des espaces de contestation pacifique. En explorant le lien entre le coupé-décalé et le contexte politique, cet article tentera de comprendre la société ivoirienne dans cette période de crise. Trois pistes de lectures seront mises au jour. Il s’agira d’abord de présenter la promesse ontologique à travers le contenu des chansons du coupé-décalé, ensuite les actions des acteurs du mouvement musical seront examinées et enfin, l’analyse portera sur le coupé-décalé en tant qu’espace de contestation pacifique.
Festivais, exposições e criações realizadas em diversos contextos de mundos africanos em conflito constituem a base empírica deste estudo, que, por meio de linguagens expressivas plurais, explora os sofrimentos vividos por aqueles que foram violados pelo apagamento cultural, pela exclusão estrutural e por ameaças à vida. A partir de pesquisas documentais, de interações com artistas e produtores culturais por meio de redes sociais, e da imersão em festivais e exposições presentes em bienais, galerias e ateliês no Marrocos e na África do Sul, ressalta-se, por um lado, o ressurgimento nas últimas décadas, de invocações da memória, ressignificações de experiências traumáticas e a valorização da busca por cura; por outro lado, atentamos para as reivindicações identitárias que se opõem plenamente ao ideário normativo e nacionalista dos Estados pós-coloniais. A análise compartilhada entre os autores foi construída a partir do diálogo ao longo de diferentes encontros do grupo de pesquisa nos últimos dois anos.
Este texto abrange as reflexões de um trabalho de campo em acampamentos de deslocados de guerra, num trabalho com crianças em Cabo Delgado, Moçambique. Com enxertos do diário de campo e imagens produzidas na vivência com as crianças, aborda-se a experiência poética do sofrimento social das crianças e as marcas da violência registradas em seus corpos.
Published studies about Native North American representations of Europeans have mostly concentrated on exogenous influences on Indigenous visual expressions through art historical theories and methods. Here historical Native American imagery of colonists is contextualised in local visual cultures based on principles and cultural logics that challenge received knowledge about portraiture, naturalism, likeness, and individualization. The article argues that formalist interpretations of Indigenous portraits of Europeans made by Plains Native peoples fall short of understanding the motivations, functions, and reasoning applied by Indigenous observers to different types of representations. Based on what is currently known of Native North American Plains Native peoples, this account of three different typologies of portraits made between the 18th and mid-19th c. presents an unprecedented interpretation of non-Western visual cultures that combine art history and visual anthropology.
Neste artigo, analisamos como a arte exposta em lugares públicos ou mantidos por instituições estatais em uma cidade da África do Sul, expressa um dilema sul-africano contemporâneo, a saber, as disputas entre a memória do passado colonial e do período de apartheid frente às pressões por reparação e inclusão da ordem democrática Em uma cidade turística, cuja história se confunde com o processo de implantação legal do sistema de segregação com base na raça e no racismo no país, com uma população white que ocupa um papel político, econômico e simbólico preponderante, há uma tendência a se privilegiar uma arte descolada da história e das hierarquias sociais e raciais que marcam a história do país. Concomitantemente, observa-se reivindicações crescentes para que as expressões artísticas no espaço público da cidade possam lidar com a memória traumática do passado recente do país de uma maneira crítica e anticolonial. Essa disputa de narrativas pode ser considerada como expressiva não apenas das dinâmicas de poder dessa cidade, mas também das ambiguidades que atravessam a África do Sul contemporânea
Inspirado por la etnoficción de Jean Rouch y el diseño especulativo, este ensayo propone el concepto de etno-especulación para definir el uso de métodos especulativos en la investigación etnográfica. Se conceptualiza como una práctica colaborativa orientada a la producción de escenarios alternativos y la escritura de ficciones especulativas a partir de materiales y relaciones etnográficas. La propuesta se fundamenta en la discusión de una experiencia propia, «Tindaya Variations» (2018), y de «El Canto de los Años Nuevos» (Cabeza Trigg, 2023), proyectos ambos que abordan el patrimonio indígena canario y su relevancia presente y futura.
Este artigo analisa a política e a poética dos trabalhos de Solange Gonçalves Luciano, interessado especialmente no que se refere às condições de expressão forjadas em sua trajetória marcada por internações psiquiátricas. Irei apresentar poemas, canções, pinturas e performances da artista para sugerir que seu desenvolvimento poético extrapola a proposição terapêutica fundante, sendo capaz de expressar problemas partilhados pela arte contemporânea. Trata-se de uma arte incontida que envolve uma profunda imbricação com a vida e com o ato de enunciação que confere à artista sua condição de sujeito. Neste artigo, irei sugerir como, por meio da arte, a artista reivindica a capacidade de narrar sua própria história.
Este ensaio agrupa quatro textos sobre a memória dos rios na região do Médio Rio Solimões. Cada um deles aborda um dos momentos em que estive em Tefé - ou nas comunidades ribeirinhas da Floresta Nacional de Tefé ou na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. As visitas a essas comunidades fazem parte do meu projeto de pós-doutorado cujo nome é "E o rio tem memória? Narrativas das comunidades ribeirinhas sobre os rios Tefé e Japurá, na região do Médio Rio Solimões". Os textos foram escritos em situações distintas e relatam aspectos singulares das águas, relacionados aos seus modos de manifestação. O primeiro narra minha aproximação inicial do Lago e do rio Tefé; o último trata do rio que se esconde na seca. Em cada um, procurei destacar elementos de memória, construindo uma espécie de poética das águas
This essay explores how an experimental documentary film that explores the previously lives of the UK’s overseas Chinese community, can question on the watching relationship enriched using video camera and large-format camera. "The People Watching" (2023) serves as a compelling case study. The film collaborates with a young Chinese photographer using a large-format camera, transforming the meticulous portrait-capturing process into a pivotal element that establishes a sense of "to-be-seenness (Vasudevan 2010:43)" for overseas Chinese individuals often relegated to the margins. The film aspires to spark broader reflection on the nature of identity and its transformation for those navigating the periphery of society. By providing a platform for previously unheard voices within the overseas Chinese community, the film invites viewers to not just watch, but to truly "see" these individuals and their stories.
A Cracolândia é conhecida como lugar de conflitos, vulnerabilidades e violências. No entanto, ali há também uma intensa produção artística, ainda pouco abordada, mas que merece reflexão. Este artigo pretende descrever e analisar a arte e agência nesse local, partindo de mais de uma década de pesquisas e de uma etnografia que buscou, sobretudo, captar essa produção. Nesse sentido, volta-se para o trabalho dos Paulestinos, dupla que produz lambe-lambes com frases e ideias retiradas da convivência dos dois artistas com outras pessoas que compartilham o cotidiano de um mesmo território de degredo. A arte dos Paulestinos, espalhada pela região, promove o encontro das pessoas que ali habitam com pensamentos retirados de seu entorno, como se a Cracolândia, através desses sujeitos, fosse convidada a refletir sobre si mesma.
This co-authored paper presents a PhD student in anthropology and his primary interlocutor describing collaborative filmmaking as a space ethnographic encounter. They explore how their “ethnographic B movie” (Epp 2024) approach afforded a novel opportunity to perform subjectivity beyond norms of researcher and interlocutor relations and representation. The article was inspired by discussions around Epp’s recent conference presentation about the challenges of representing Ross between film and dissertation writing. An engagement with that presentation, situated within Nicholas Bourriaud’s concept of relational aesthetics (2002), forms the atmosphere of this article. As a relational text, the article creates an encounter that speaks across research relations in which the subject of research reflects on being represented in ethnographic film and writing. This article describes an arts-based fieldwork approach where it’s not the outcome of research that matters most but instead cultivating the relational encounter between ethnographer and interlocutor becomes the critical intervention.
Imagine yourself in an office in a department of anthropology, moving the furniture out of the way so that you can move more freely. With hesitation and excitement the silence oozing out of the walls and floors is split by the call of an oboe and response of a voice. At first this feels like a disruption of the acoustic and kinetic regime. But then, surprise! This place affords more ways of attending, searching, thinking than is commonly expected. And who is doing this thinking? From two human individual subjectivities, we come to experience ourselves as ‘WeI’ (We + I), a multitude composed of singularities: persons, histories, oboe, room, the music … We recount a speculative fabulation enacting through its multimodal form our exploration of these questions: Does the anthropology of the senses offer the tools to attend to other-than-human subjectivities? Can shifting anthropological habituses in universities (e.g., sitting at desks, thinking in immobility, analytic writing) enable attention to such different subjectivities? Can this shift then enable anthropologists to grapple with the other-than-human in ways that develop non-anthropocentric decolonial narratives?
Partindo de uma fotografia perdida, procuro aqui refazer algumas memórias em uma mistura de tempos presentes, em uma espécie de texto-monumento. Com o auxílio de outras fotografias que evocam conexões e potências, a imagem perdida se torna visível por meio de um novo modo de presença, com detalhes que são possíveis apenas em sua ausência
Esta é uma resenha do último livro escrito pelo cineasta e crítico de cinema francês Jean-Louis Comolli, falecido na data de 19 de maio de 2022. O título original do livro, «En attendant les beaux jours», nos parece pleno de significado, já que o autor sabia no momento mesmo da sua escrita que sua morte estava próxima, mesmo assim, como fez ao longo de toda a sua vida ao escrever e ver filmes, tece comentários ao mesmo tempo estéticos e políticos, articula-os à sua própria trajetória de vida, e, enfim, situa-os no contexto da sociedade do espetáculo que, no momento atual, se reverbera na guerra entre Rússia e Ucrânia. Belo livro sobre não tanto assim belos dias de hoje.