
Baseado em dois corpora sintaticamente anotados cobrindo o período do século 16 ao século 19, este artigo argumenta que o contato com outras línguas, em particular as africanas, não precipitou a “deriva lusitana e românica” do português no Brasil, como afirmado por Silva Neto (1977 [1950]) e Naro e Scherre (2007). Ao contrário o estudo da evolução do uso dos determinantes na história do português europeu, e sua comparação com outras línguas românicas, mostra que a deriva dessas línguas foi no sentido de uma generalização da presença dos artigos, em direção contrária à tendência observada no português brasileiro de manter a variação no uso e ampliar os contextos de ausência de determinante. Isso coloca em xeque o papel atribuído ao contato, pelos autores mencionados, de coadjuvante da deriva, ao mesmo tempo que reintegra no estudo da evolução do português no Brasil a descrição da língua que foi importada sem descontinuar durante 3 séculos.
A sintaxe do Português Brasileiro (PB), especificamente a remarcação do Parâmetro do Sujeito Nulo (PSN), tem sido estudada amplamente tanto no Brasil quanto no exterior, desde uma perspectiva estritamente teórica (com dados de intuição) a uma perspectiva mais empirista, com dados da fala e da escrita. O sujeito nulo no PB tem mais restrições para a sua interpretação e licenciamento do que no PE nem em outras línguas românicas de sujeito. Este trabalho traz uma análise diacrônica do sujeito nulo de referência definida numa amostra de cartas pessoais de brasileiros nascidos ao longo dos séculos XIX e XX. A metodologia de pesquisa alia os pressupostos teóricos da gramática gerativa com a metodologia de análise estatística de dados proveniente da Sociolinguística, considerando que a mudança linguística ocorre no período de aquisição da linguagem, e que a gradualidade que vemos nos dados se dá na substituição de uma gramática por outra. As frequências de uso, desse modo, vão refletir a competição entre gramáticas distintas até que a gramática nova substitua a mais antiga. Os resultados revelam que o índice geral de sujeito nulo sai de 68% e vai para 31%; além disso, os contextos sintáticos do sujeito nulo nas cartas dos missivistas nascidos na primeira metade do século XIX são mais amplos do que os contextos do sujeito nulo nas cartas dos missivistas da segunda metade do século XX.
Este artigo reinterpreta resultados de análises contrastivas de peças de teatro portuguesas e brasileiras escritas ao longo dos séculos XIX e XX, levando em conta informações sobre os quase quatrocentos anos de colonização do Brasil, em que a presença de escravizados africanos e seus descendentes, sempre superior à de imigrantes portugueses, e o contato entre eles foi intenso. A grande mobilidade populacional propiciada pelas atividades nos engenhos, no garimpo, na cultura cafeeira, entre outras, contribuiria para a miscigenação e a propagação do português por esse grande contingente, formado majoritariamente por analfabetos, tanto os escravos e trabalhadores portugueses quanto portugueses os donos de terras e suas famílias. Os letrados constituíam uma parte ínfima da população, que aprendia o português em Coimbra ou em escolas só acessíveis a uma elite privilegiada. Além da deriva do português arcaico, um fruto desse contato é a emergência de uma variedade do português com significativa contribuição africana, muitas vezes ignorada, porque a escrita produzida por uma minoria não dava espaço ao português geral aqui aprendido como L2. O lento processo de acesso à escola, só iniciado a partir da virada do século XIX, seguindo o modelo lusitano, ainda hoje presente nos livros didáticos, produziria uma diglossia no Brasil entre o português oral e o escrito. Evidências empíricas dessas duas gramáticas são observadas na semelhança entre a escrita portuguesa e brasileira dos anos 1800 e quase metade dos anos 1900, quando finalmente, a gramática brasileira começa a mostrar sua face. Só com o desenvolvimento dos estudos linguísticos com base em gravações a partir dos anos 1970, vemos a confirmação de que os mesmos traços que caracterizam a sintaxe do português brasileiro urbano, “culto” ou “popular”, são atestados nas peças do último quartel do século XX.
Este volume 26/nº 1 publicado pela Working Papers em Linguística do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que reúne 19 artigos voltados a aspectos da história social e gramatical do português no Brasil escritos por especialistas na área, é uma singela homenagem ao professor Ataliba Teixeira de Castilho. É uma singela homenagem porque a relevância e o trabalho do professor Ataliba, especialmente no âmbito do projeto Para a história do Português Brasileiro (PHPB) e da área de Linguística Histórica no Brasil não se expressam em palavras, mas é sempre importante tentar! É uma homenagem do projeto História do Português Brasileiro – da Europa à América (o Projeto 3!) da Associação de Linguística e Filologia da América Latina (ALFAL), sob a atual coordenação de Izete Lehmkuhl Coelho, Marco Antonio Rocha Martins e Paulo Osório, desde 2012; uma homenagem representativa da própria ALFAL para o qual foi o professor Ataliba um importante representante no Brasil, tendo inclusive presidido a Associação. Muitos dos autores que publicam artigos neste volume ao homenageado foram colegas de trabalho do professor Ataliba no PHPB; muitos foram alunos; todos foram fortemente influenciados por suas ideias, publicações ou participação em projetos coletivos.
No percurso histórico do português brasileiro (PB), documentado nos corpora sincrônicos e diacrônicos, dentro de um cenário comparativo com o português europeu (PE), revelam-se duas propriedades inovadoras na realização morfossintática do objeto indireto (OI) nas ditransitivas. Na sua expressão nominal ocorre a substituição da preposição a - marcador de caso - pela preposição lexical para – ‘O Pedro deu um celular à namorada/deu um celular para a namorada.’ Na sua expressão pronominal de 3ª pessoa ocorre a substituição dos clíticos dativos lhe/lhes, pelos pronominais oblíquos ele(s), ela(s), introduzidos pelas preposições a/para - ‘O Pedro deu-lhe um celular/ deu um celular a/para ela’. O objetivo deste estudo é apresentar uma proposta para o entendimento da seguinte questão: Por que teriam os falantes das variedades do PB, durante os séculos de sua expansão no Brasil, convergido para um sistema gramatical que divergiu crucialmente do input linguístico fornecido pela fala e escrita dos portugueses? A nossa resposta se apoia numa abordagem minimalista da aquisição, variação e mudança tal como delineada no modelo dos Três Fatores (Chomsky, 2005), destacando o input (Fator 2), e aspectos cognitivos gerais na interação do falante com o input linguístico (Fator 3). Assumimos, com base em Roberts (2007), Roberts e Roussou (2003), Biberauer (2018, 2019) e Biberauer e Roberts (2017), os efeitos linguísticos dos vieses cognitivos, a saber: (i) Economia dos traços - Postule o menor número possível de traços formais na abordagem do input; (ii) Generalização do Input - Aproveite ao máximo traços disponíveis na abordagem do input.
Este artigo tem como objetivo investigar as construções de topicalização de oblíquo nuclear, em que o tópico é um constituinte projetado por um predicador verbal ou nominal e movido para a periferia esquerda da sentença. Partimos da descrição de Mateus et al. (2003) e Raposo et al. (2013), segundo a qual as construções em foco possuem, no PE, duas restrições, a saber: não licenciam supressão de preposição com mais conteúdo semântico e não ocorrem em contexto de ilha sintática. Os dados, coletados de 20 peças teatrais escritas por 8 autores brasileiros nascidos no decorrer dos séculos XIX e XX, apontam para o instanciamento da gramática do PE no século XIX e a competição entre as gramáticas do PE e do PB, nos termos de Kroch (1989, 2021[2001), no século XX. É nos autores nascidos depois de 1920 que encontramos ocorrências com supressão de preposição com mais conteúdo semântico, uma evidência do instanciamento da gramática do PB.
Este texto é uma reflexão crítica sobre as origens da gramática do português, em especial sobre a crença de que a gramática tradicional padroniza os usos, tendo como referência os textos literários. Como se buscará mostrar aqui, é uma crença que, em geral, não corresponde à realidade, na medida em que, nas obras gramaticais tradicionais, predominam (quando não são únicos) os dados criados pelo próprio autor. Não há, em nenhuma delas, um corpus literário do qual se parte para as suas asserções e regras. No trato crítico dessa questão, é importante ter claro que há, aí, subjacentes duas concepções distintas de gramática, saídas de vertentes diversas dos estudos das línguas. De um lado, está a gramática vinda da tradição greco-latina (e, por isso, qualificada de tradicional), que, em tese, funda seus preceitos nos textos literários. De outro, estão os modelos gramaticais elaborados por diferentes teorias no interior da linguística, cujo escopo empírico alcança todas as manifestações da língua, quaisquer que sejam. Depois de um breve histórico da constituição da gramática tradicional, analisa-se, especificamente, as origens da gramática do português, mostrando que ela se fez, efetivamente, pela transposição da doutrina consolidada na tradição gramatical latina e pela acomodação nela da língua vernácula. A fonte da normatividade não foi propriamente o uso como tal, mas o que já estava dito nas gramáticas latinas.
Abordamos, neste artigo, o diálogo necessário entre a Paleografia, a Filologia e a Linguística Histórica. Esse diálogo se intensifica no projeto Corpus Eletrônico de Documentos Históricos do Sertão (CE-DOHS), desenvolvido pelo Núcleo de Estudos de Língua Portuguesa (NELP) da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), a partir de 2017, quando iniciamos a fase 2 (colonial), atendendo aos objetivos do projeto Guarda-Chuva CE-DOHS: um corpus para uma caracterização linguístico-gramatical do português brasileiro - fase colonial e fase pós-colonial, criado em 2010. Neste momento, o CE-DOHS fase 2 já dispõe de coleções documentais em edição semidiplomática, a partir de rigoroso tratamento paleográfico-filológico; além disso, os primeiros estudos de exploração linguístico-gramatical dessa documentação encontram-se realizados. Como sabemos, ainda não é possível atestar a existência do português do Brasil no período colonial brasileiro; mas investigar como se configurava o português no Brasil nesse período pode contribuir para uma reconstrução, por aproximação, da história social linguística do português brasileiro. Nosso objetivo, portanto, no presente texto, é apresentar o ingente trabalho de organização de corpora históricos, numa perspectiva interdisciplinar, da maneira como vem sendo realizado no âmbito do projeto CE-DOHS, em parceria com o Modus Scribendi – Grupo de Pesquisas Paleográficas, Filológicas e Históricas, da Universidade Federal da Bahia (UFBA); dessa organização dependem descrições linguísticas de base empírica, as quais promovem a discussão de questões teóricas solidamente fundamentadas.
Este capítulo apresenta minha visão geral dos estudos diacrônicos e sincrônicos sobre as construções-wh no português brasileiro e discute o problema instigante dos aparentes “gêmeos” sintáticos, ou da opcionalidade, nesse domínio. Contudo, uma análise cuidadosa da ordem diacrônica em que esses padrões emergem, bem como da variação exibida em corpora contemporâneos, escritos e falados, leva-nos a concluir que os padrões coocorrentes não constituem “gêmeos” sintáticos.
Nesta pesquisa, verificamos a trajetória de mudança da realização do sujeito e da realização do objeto direto anafóricos em cartas pessoais catarinenses escritas ao longo dos séculos XIX e XX, em cinco períodos de tempo, entre 1876 e 2000. Para tanto, baseamo-nos na Sociolinguística Histórica (Conde Silvestre, 2007), fundamentada na Teoria da Variação e Mudança (Weinreich; Labov; Herzog, 2006 [1968]; Labov, 2008 [1972]), levando em conta que analisamos contextos internos e externos à língua que condicionam os usos variados da realização do sujeito e do objeto. Além disso, seguimos alguns postulados da Teoria de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1981, 1994 [1986]; Biberauer et al., 2010; Galves et al., 2012; Biberauer; Roberts, 2017) no levantamento de hipóteses relacionadas aos fatores internos, com base na teoria da Sociolinguística Paramétrica (Cf. Tarallo; Kato, 2007 [1989]). Nossa expectativa geral era a de que atestaríamos mudança em tempo real nas cartas catarinenses através da queda do sujeito nulo e do aumento do objeto nulo no curso do tempo. Os resultados a que chegamos mostram um declínio bem sutil do sujeito nulo, mais expressivo na segunda metade do século XX. Sobre o objeto, atestamos mudança em tempo real, considerando o aumento significativo de objeto nulo com o passar dos anos.
Esta investigação tem como foco a manutenção linguística a partir da descrição quantitativa e qualitativa do fenômeno variável da alternância vocálica precedente ao sufixo de PN /mos/, nos verbos regulares de 1ª e 2ª conjugação, em formas canônicas, como falamos e aprendemos, e não canônicas, como falemo e aprendimo, bem como sua relação com a ruralidade e o conservadorismo linguístico. Trata-se de uma pesquisa no âmbito da Teoria da Variação e da Mudança (cf, Labov, 2008 [1972], 1982, 1994; Weinreich, Labov, Herzog, 2006 [1968]; Guy, 1981, 2000), Dialetologia (Vasconcelos, 1901; Boléo, 1943; Melo, 1946) e Linguística Histórica (Castilho, 1968, 1992, 2016). Tomamos por base a defesa de Naro e Scherre (2003) de que áreas rurais constituem-se em “ilhas de conservadorismo linguístico” ao manterem usos de um português menos recente (dos séculos XIX e XX, considerado pelos dialetólogos como “português moderno”). Nossa amostra é composta por 168 entrevistas sociolinguísticas do banco-base VARLINFE (Variação Linguística de Fala Eslava) – vinculado ao NEES (Núcleo de Estudos Eslavos), da UNICENTRO (câmpus Irati), de característica majoritariamente rural. A análise quantitativa considerou algumas variáveis linguísticas e extralinguísticas, sendo selecionada, pelo programa de análise multivariada GOLDVARB-X, a variável linguística complexa ‘grau de ruralidade’, construída especificamente para este estudo com base em estudos dialetológicos que mapearam fenômenos rurais e conservadores da língua. Assim, foram eleitas algumas particularidades linguísticas consideradas rurais e, a cada informante entrevistado, fez-se uma escala de uso, considerando três graus de ruralidade: baixo, médio e alto. Os resultados mostraram que o uso das variantes não-canônicas (/e/ em “falemo” e /i/ em “aprendimo”) estava significativamente inter-relacionado ao alto grau de ruralidade dos informantes, um indício de que seu uso seja mais proeminente em contextos de conservadorismo linguístico e, consequentemente, de manutenção linguística de formas conservadoras. Acreditamos que o uso da variável independente interna ‘grau de ruralidade’ possa auxiliar pesquisadores a trabalharem com fenômenos rurais variáveis e também com o tópico ainda pouco explorado (cf. Ribeiro e Lacerda, 2013) da manutenção linguística.
Este artigo tem como objetivo descrever as formas nós e a gente na função de sujeito em cartas pessoais da família do amazonense Arthur Reis, escritas entre 1940 e 1980. Como embasamento teórico-metodológico, utilizamos a Sociolinguística Histórica (Conde Silvestre, 2007) a qual se ancora na Teoria da Variação e Mudança (WLH, 2006 [1968], Labov, 1994). Para a realização deste estudo, selecionamos 127 cartas que foram transcritas e editadas pela equipe do projeto intitulado PHPB/AM. Dessas cartas, em 83 havia dados da expressão de pronomes P4, expressos e nulos, totalizando 283 ocorrências, sendo 260 (91,9%) da forma nós e 23 (8,1%) da forma a gente. A fim de compreendermos quais variáveis condicionam o uso da forma inovadora a gente, controlamos as seguintes, linguísticas e extralinguísticas: década em que as cartas foram escritas, preenchimento do sujeito, saliência fônica, tipo de referência, tempo verbal e conjugação verbal. Dessas, o programa estatístico utilizado, o Goldvarb X (Sankoff, Tagliamonte e Smith, 2005), selecionou as seguintes, em ordem de seleção: preenchimento do sujeito, tipo de referência, década e tempo verbal. Considerando as limitações da amostra, no que se refere à distribuição equitativa dos dados por década/missivista, não é possível discutir a implementação de a gente na escrita amazonense.
A análise das fontes inquisitoriais legadas pelas duas primeiras visitações do Santo Ofício à América Portuguesa (Lobo; Sartori, 2020; Lobo; Sartori; Mota, 2016; Siqueira, 1978) não sustenta a interpretação da estratificação socioeconômica do Brasil colonial em termos dicotômicos – “casa-grande” versus “senzala” (Freyre, [1933] 2002) –, o que tem implicações na interpretação da formação do PB e na compreensão da atual configuração sociolinguística do país. Ressalte-se ainda outro aspecto pouco problematizado: a necessidade de compreender as interações linguísticas no seio das diversas configurações da família colonial. Perspectivada diacronicamente, a dita polarização sociolinguística do PB (Lucchesi, 1994, 2015), tão clara quando contrastadas a elite socioeconômica e a população escravizada, torna-se uma emaranhada teia, se postas em análise nuances que a realidade linguística e cultural no âmbito social e doméstico abrigava. A partir de Pagotto (2018), propõe-se aprofundar a reflexão sobre o que interpretações engendradas a partir da década de 1970 sobre a economia e a sociedade coloniais desvelam sobre a história do PB, destacando-se os seguintes pontos: o fato de a economia colonial não poder ser apreendida exclusivamente pela visão reducionista dos “ciclos”, não se ter limitado ao modelo agro-minério-exportador, não guardar muitas semelhanças com a economia de regiões como o Caribe e o Sul dos Estados Unidos da América e, finalmente, a relevância do papel exercido pelo mercado interno, mais visível quando se consideram a conquista e a colonização dos sertões (Santos, 2010).
Apresentamos aqui, em perspectiva diacrônica, a descrição e análise do uso das formas possessivas de segunda pessoa em cartas de amor do século XX, escritas por dois casais de missivistas, de diferentes gerações, residentes no Sertão do Pajeú, em Pernambuco. Os resultados apontam para diferentes usos dos possessivos, registrando-se a preferência das formas ‘teu/tua’ nas cartas de amor dos missivistas que se corresponderam nos anos 50 (1956 a 1958), coexistindo com o uso do pronome você, em variação com o pronome tu, na função sujeito e com o pronome lhe em variação com te, expressando o dativo e o acusativo de segunda pessoa, enquanto que nas cartas do casal da década de 70 (1972 a 1977) atesta-se preferencialmente o uso das formas possessivas seu/sua coexistindo com o pronome você na função sujeito e o pronome ‘lhe’ como a única opção do dativo e acusativo de segunda pessoa. O artigo questiona a hipótese, amplamente aceita, de que as mudanças no sistema pronominal e de concordância do PB seriam consequências da gramaticalização de “Vossa Mercê” em pronome de segunda pessoa “você”, e ainda postula que as alterações no uso das formas possessivas para expressar a segunda pessoa nas cartas de amor do Sertão do Pajeú inserem-se em um quadro de outras alterações no sistema pronominal e de concordância, fatos que sugerem perda da marcação morfológica de traços morfossintáticos, morfossemânticos e discursivos.
O objetivo do estudo é analisar se a difusão das formas de você já estava consolidada na segunda metade do século XX, como mostrou Souza (2012), em cartas do Rio de Janeiro. A amostra é composta por 129 cartas escritas no período de 1956-1994 e trocadas entre membros de uma família, cuja filha passou a viver em Paris. O estudo se baseia nos pressupostos teóricos da Sociolinguística Histórica (Conde Silvestre, 2007), da teoria do Poder e Solidariedade (Brown and Gilman, 1960) e incorpora o conceito de Redes Sociais na explicação da mudança em sincronias passadas (Bergs, 2005). Os resultados mostraram que o padrão canônico tu-te-ti-contigo, mais conservador, ficou patente nas cartas da matriarca da família (E) que participava de redes sociais mais densas. As formas também uniformes você-o-lhe-com você prevaleceram nas cartas do pai (W), atuante em redes um pouco menos densas do que a esposa. Diferentemente dos pais, a filha (A), uma “cidadã do mundo” e pertencente a redes sociais bastantes difusas e abertas, adota o padrão híbrido (você-te-com você) vigente na fala do Rio de Janeiro atualmente.
A definição de língua é um ponto controverso em linguística, porque definir uma língua, em geral, não repousa sobre critérios unicamente linguísticos. Este texto retoma a discussão sobre o nome da língua nacional, que teria lugar na Constituição brasileira de 1946, com o objetivo de demonstrar que os critérios que embasavam ambos os lados da disputa podiam encontrar respaldo na linguística. A discussão ficou registrada nos jornais da época, e oito jornais cariocas forneceram o material de base deste trabalho. A restrição a jornais do Rio de Janeiro se deveu ao fato de ser essa cidade, à época, o Distrito Federal, onde estavam instalados o Governo e a Assembleia Constituinte.
Este artigo tem como objetivo explorar a história social e linguística dos povos indígenas no sertão baiano, com um enfoque específico na família Kariri, pertencente ao tronco macro-jê, por meio das abordagens da História Social Linguística. O texto enfatiza o impacto violento do processo de colonização, que resultou na supressão e apagamento dos elementos históricos e socioculturais dos povos nativos, revelando a diminuição da diversidade linguística e os danos infligidos às línguas indígenas. A pesquisa almeja compreender a resistência, organização e legado dos povos indígenas no semiárido baiano, considerando a relevância das línguas pertencentes a família kariri, e a imperatividade de salvaguardar a diversidade linguística e cultural que a caracteriza. A metodologia empregada é baseada em pesquisa bibliográfica para investigar o processo histórico e compreender a formação do semiárido baiano por meio dos atravessamentos históricos do período colonial, na intenção de visualizar a configuração em tempo atual. A resistência dos povos indígenas e do tronco macro-jê são reconhecidas como componentes fundamentais na configuração étnica e linguística da Bahia, consequentemente do Brasil. Entretanto, enfatiza-se que ainda há muito a ser desvendado e protegido, incumbindo-nos a tarefa contínua de explorar e respeitar a herança linguística e cultural dos povos indígenas.
Neste estudo, apresentamos um panorama da alternância teu/seu, com foco no uso do seu de 2SG e seus condicionamentos. Embasamos a análise em amostras de cartas pessoais de dois representantes brasileiros (um carioca e um mineiro), de escrita culta, entre fins do século XIX e o início do século XX, considerando as edições propostas por Ferreira Filho (2023) e Luz (2015). Conduzimos o estudo pelos princípios da Sociolinguística Histórica, em relação aos parâmetros de seleção de amostras históricas, e da teoria da mudança – sociolinguística variacionista. Em termos gerais, a produtividade de teu é maior, sendo os dados de seu motivados pelo contexto linguístico de sujeito de 2ª pessoa (formas tratamentais) e pelo contexto extralinguístico dos subgêneros das cartas pessoais (cartas de amizade e familiares). Ainda que tenhamos em cena um recorte muito específico da escrita culta oitocentista e novecentista, já é possível entrever não só a covariação teu/seu, mas também evidências do seu de 2SG em sincronias passadas do PB, como discutido por Lucena (2016) para as cartas cariocas à luz da análise de Oliveira e Silva (1982).
O objetivo principal deste artigo é apresentar novos elementos para a periodização Português Brasileiro (PB). Situamo-nos no campo disciplinar da Sintaxe diacrônica, na perspectiva gerativista, e analisamos a ordem do verbo em textos – anotados morfológica e sintaticamente – que fazem parte do Corpus Tycho Brahe-Brasil, com fins de oferecer novos elementos sobre a periodização do português no Brasil. Os textos dão conta de um grande período: desde o século 17 até o século 21 e foram escritos por indivíduos nascidos no Brasil. Apresentamos evidências de que o português escrito no Brasil apresenta três grandes períodos: o Período I, cuja gramática reflete propriedades do Português Clássico, considerada “a língua das caravelas”, por Galves (2007); Período II, cujos verbos lexicais e auxiliarem perdem movimento, deixando de subir até a periferia esquerda da sentença, mas subindo até uma posição de tempo; e o Período III, em que há adicional perda de movimento em relação aos verbos lexicais, mas não aos auxiliares. Esses resultados parecem validar a hipótese defendida por Ribeiro (1998) e Galves (2007) de que as origens do PB são anteriores ao século XIX e auxiliam a repensar a periodização da língua portuguesa no Brasil.
A finalidade deste artigo é a de estudar os fenômenos fonológicos do português dos trovadores, analisando especificamente as consoantes róticas, laterais e nasais duplas, retratadas na escrita como , e , existentes em 250 cantigas medievais – 100 da vertente religiosa e 150 da vertente profana. Nosso objetivo é o de averiguar se, no nível fonológico, tais consoantes duplas podiam ser interpretadas como geminadas em contexto intervocálico naquela época da história da língua portuguesa. A análise dos dados coletados foi desenvolvida por meio das teorias fonológicas não-lineares. A metodologia se embasa na análise das variações gráficas, muito frequentes nos documentos remanescentes daquela época, e no estudo do comportamento fonológico das referidas consoantes dentro da sílaba e da palavra. Os dados coletados retrataram que, em posição intervocálica, róticas, laterais e nasais duplas apresentavam o mesmo status no período arcaico, ou seja, podiam ser interpretadas como geminadas do ponto de vista fonológico da língua, pois compreendem elementos que valem por dois. Tal interpretação pôde ser validada em decorrência de não termos encontrado ditongos antes de tais segmentos duplos nem palavras proparoxítonas com , e no ataque da última ou da penúltima sílaba.