
O estudo sobre contos do vigário e vigaristas na Primeira República tem sido frequentemente circunscrito à história da criminalidade urbana. Este artigo propõe deslocar essa abordagem, tomando tais práticas como chave analítica para investigar as dinâmicas da informalidade, do trabalho e do racismo no pós-abolição no Rio de Janeiro. A partir da investigação biográfica de Ulysses Fragoso – homem afrodescendente que se apropriou de diferentes identidades para aplicar golpes no comércio, transitando entre ocupações formais e expedientes informais – são tensionadas as fronteiras entre crime, classe e raça na capital federal. A partir do exercício metodológico da micro-história, a reconstrução minuciosa de uma trajetória individual permite analisar processos mais amplos de precarização laboral. Argumenta-se que trapaças como os contos do vigário não se situavam à margem do mercado de trabalho nem dos símbolos da modernidade, mas integravam dinâmicas constitutivas da economia urbana, revelando como se organizavam as hierarquias sociais nas primeiras décadas republicanas.
El artículo tiene como objeto de estudio a las lavanderas urbanas de Montevideo desde el fin de la Guerra Grande (1843-1852) hasta comienzos del siglo XX. Se propone un análisis en tres dimensiones. En primer lugar, un abordaje cuantitativo que permita conocer cómo se conformó el mercado laboral urbano vinculado al lavado de ropa. En segundo lugar, se estudian las características sociales de las lavanderas, generalmente vinculadas a la colectividad afro. También se examinan sus condiciones laborales, ya que el lavado implicaba un desgaste físico permanente a cambio de una remuneración muy baja. Por último, se analiza el surgimiento de algunas reivindicaciones del colectivo, centradas en la mejora de sus condiciones de trabajo. El punto más destacado de ese proceso fue el denominado “conflicto lavanderil” de julio de 1902, originado a partir de una propuesta de la Inspección de Salubridad Municipal que, con argumentos higienistas, prohibió el vertido de jabón en las costas del Río de la Plata a la altura de Pocitos y reclamó el realojo de las lavanderas en un “Lavadero Municipal Modelo”. El trabajo de las mujeres como lavanderas ha sido mencionado con frecuencia en distintos antecedentes historiográficos, en especial en aquellos dedicados a la esclavitud y a la presencia afrodescendiente en la sociedad rioplatense desde el período colonial. Sin embargo, no existen investigaciones específicas que aborden esta ocupación de manera sistemática y en profundidad. Este artículo busca dialogar con los estudios que han tratado el tema, aunque sea de forma tangencial, y con una serie de antecedentes internacionales que han analizado la cuestión en otros contextos. El estudio de las tres dimensiones mencionadas se basa en relevamientos poblacionales e industriales, registros de sirvientes, crónicas, literatura, notas de prensa, fotografías e informes de los inspectores de salubridad municipal.
Este artigo analisa três experiências da história habitacional chilena: a conformação do acampamento La Victoria, em Santiago nos anos 1950; a implantação da fábrica soviética KPD, em Valparaíso nos anos 1970; e o projeto Quinta Monroy, em Tarapacá, desenvolvido pelo escritório Elemental nos anos 2000. A partir desses casos, busca-se construir uma leitura transversal das formas de produção habitacional no país, refletindo sobre a heterogeneidade da autoconstrução enquanto forma de produção popular da moradia e expressão das relações entre capital e trabalho. Por fim, o cruzamento dessas trajetórias evidencia a intensificação de processos de expropriação e de retirada do protagonismo do trabalho, fenômenos que se manifestam de forma cada vez mais evidente na contemporaneidade.
A partir das últimas décadas do século XIX, quando o Rio de Janeiro atravessava um período de grande crescimento populacional, seus habitantes testemunharam a proliferação de um novo fenômeno urbano: a ocupação das encostas de seus morros por comunidades de trabalhadores, que ali se instalavam de forma precária – em fenômeno cujo exemplo mais visível era o Morro da Providência, conhecido, desde a década de 1890, como o Morro da Favela. Ainda que sua ocupação tenha se desenvolvido ao longo de todo o segundo reinado, a instituição da República viria a mudar sensivelmente a relação dos poderes públicos com tal localidade, em grande parte devido ao perfil social de seus moradores. Ao submetê-los a um intenso processo de estigmatização, as autoridades republicanas passavam a definir aquela comunidade como um espaço à parte da cidade, inventando a ideia de favela como uma mancha no projeto de modernidade urbana que pretendiam ver afirmado, enquanto seus habitantes lutavam para garantir seu direito à moradia. O objetivo deste artigo é analisar em que medida e de que forma as imagens do morro resultantes das experiências e disputas de seus moradores estão na base da definição da categoria “favela” afirmada ao longo do século XX.
O artigo apresenta o projeto Responsabilidade de empresas por violações de direitos durante a ditadura, desenvolvido entre 2021 e 2023, sob coordenação do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo. Argumenta sobre sua importância para a efetivação da Justiça de Transição no Brasil e sobre a atualidade da apuração de responsabilidades empresariais por violações de direitos no contexto de novos intentos golpistas. Finalmente, defende o conceito de “ditadura empresarial-militar” à luz de pesquisas que adotaram algumas das ideias e metodologias da micro-história.
O artigo apresenta o debate historiográfico indiano, dos anos 1990 e 2000, sobre as relações entre os Subaltern Studies e a história vista de baixo tal como praticada por historiadores sociais marxistas britânicos nas décadas precedentes. Configuradas a partir de diferentes contextos institucionais, alinhamentos teórico-metodológicos e expectativas políticas, três posições hegemonizaram a discussão. A primeira viu a historiografia subalternista como uma bem-sucedida versão indiana da história vista de baixo que, a partir de dado momento, rompeu com seus pressupostos iniciais, aderindo à “virada linguística”. A segunda sustentou que os Subaltern Studies nunca teriam produzido uma história vista de baixo condizente com os parâmetros da história social marxista britânica. Por fim, a terceira corrente entendeu a produção do coletivo indiano como um inovador empreendimento de historiografia pós-colonial, o qual, ainda que inicialmente influenciado pela história vista de baixo, sempre operou em terrenos não mapeados pela história social marxista britânica.
Resenha do livro: BOHOSLAVSKY, Ernesto; FRANCO, Marina. Fantasmas rojos. El anticomunismo en la Argentina del siglo XX. Buenos Aires: UNSAM EDITA, 2024.
O artigo investiga a ascensão e a queda da chamada República do Cunani, um país independente criado em 1886 no interior de um território situado no extremo norte amazônico, disputado entre a França e o Brasil. Destaca-se o envolvimento das populações do Contestado Franco-Brasileiro na criação desse Estado autoproclamado, bem como em seus desdobramentos e repercussões internacionais. Para isso, são analisados correspondências oficiais, relatos de viagens e jornais da imprensa brasileira e francesa. Em oposição às interpretações clássicas sobre o tema, pautadas na ideia de investidas aventureiras e manipuladoras, demonstra-se que os habitantes do quilombo do Cunani e de outros povoados do Contestado possuíam formas próprias de organização social e desenvolviam uma importante experiência de autonomia política, favorecida pela ausência de soberania nacional na área sob litígio. Tais fatores, somados às disputas e alianças entre indivíduos e grupos de diferentes origens, confluíram para a formação e a ruína dessa peculiar república de quilombolas.
Book Review: GETIRANA, Yasmin. Na casa e na causa: A organização sindical das trabalhadoras domésticas (Rio de Janeiro, 1961 – 1973). Rio de Janeiro; Rio de Janeiro: Editora Telha, 2023.
Este artigo analisa as eleições de 1945 e 1947 em Santa Catarina, com ênfase no papel do Partido Comunista do Brasil (PCB) no estado. A partir do cruzamento de fontes e da análise da distribuição dos votos por seção eleitoral, o estudo problematiza formulações clássicas sobre a política catarinense entre 1945 e 1964, em particular a ideia de uma “hegemonia conservadora-oligárquica” no estado e o “forte predomínio” do Partido Social Democrático (PSD) em Florianópolis. Apesar das vitórias eleitorais do PSD nas primeiras eleições do pós-guerra, as estratégias de campanha e a distribuição de votos em áreas de maior concentração de trabalhadores revelam novas nuances sobre as dinâmicas políticas e as demandas populares no período.
Entre os anos 1889 e 1903, a Companhia Cruzeiro, instalada na rua Miguel Ângelo, Cachambi, freguesia do Engenho Novo, cidade do Rio de Janeiro, produziu fósforos de segurança em uma fábrica “moderna”. Entre outros benefícios que foram oferecidos pelo negócio capitaneado pela firma Gaffrée & Guinle, havia uma vila operária. Fruto do “paternalismo industrial”, as casas receberam dezenas de famílias legitimamente constituídas. Essas últimas eram diversas, com as mais diferentes experiências nacionais, étnicas, profissionais, culturais, escolares e de gênero. O nosso artigo analisa os perfis sociais daqueles núcleos parentais. Para identificarmos os moradores da vila operária (esposos, mulheres e filhos), utilizamos séries de documentação cartorial e paroquial – registros de nascimento, óbito, sepultamento e casamento. A partir delas, também apoiamos as nossas interpretações em estatutos de clubes, correspondências policiais, memórias docentes, escrituras públicas, periódicos, leis e censos.
O presente artigo analisa as manifestações do racismo estrutural no interior da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e no município de Volta Redonda, entre as décadas de 1940 e 2000, com ênfase no período da ditadura empresarial-militar. A partir de entrevistas realizadas entre 2008 e 2023, da história oral, da análise de fotogra
Book review: REDIKER, Marcus. Freedom ship: the uncharted history of escaping slavery by sea. New York: Viking, 2025.
O artigo analisa a trajetória intelectual e humana da historiadora Maria Luíza Ugarte Pinheiro (1959–2026), destacando sua contribuição para a consolidação da História Social do Trabalho, da história da imprensa e dos estudos de gênero na Amazônia. A partir de uma leitura de sua produção acadêmica e de sua atuação institucional na Universidade Federal do Amazonas, o texto evidencia o papel central de suas pesquisas na renovação da historiografia regional e na inserção da Amazônia em debates mais amplos da historiografia brasileira. Obras como A cidade sobre os ombros e Folhas do Norte são examinadas como marcos interpretativos que articularam história urbana, mundos do trabalho, cultura letrada e imprensa, conferindo protagonismo a trabalhadores, imigrantes e mulheres na formação social de Manaus. O texto é uma singela homenagem que busca combinar uma reflexão historiográfica sobre a importante contribuição de Maria Luíza Ugarte Pinheiro à historiografia amazônica, destacando a permanência de seu legado intelectual, com uma enfática afirmação da gratidão e da admiração do autor em relação à homenageada.
Apesar de sua relevância no avanço das frentes de expansão do Brasil, o mateiro tem recebido pouca atenção da historiografia voltada aos estudos sobre sociedade e natureza. Além disso, uma visão pejorativa sobre os mateiros, assumida sobretudo por trabalhos que criticam a rusticidade sertaneja e a ignorância caipira, contribuiu para que o seu papel social não fosse bem definido, o que dificultou a categorização do seu trabalho pela teoria social brasileira. Este estudo buscou analisar o papel dos mateiros, suas diferentes atividades e representações, bem como a relação da sua atividade com o contexto histórico do ambiente natural no Brasil, especialmente na sua função como agente da fronteira. Para tanto, foram identificadas diferentes representações desse personagem com base em fontes que descrevem a sua participação nas frentes de fronteira, tanto no Norte quanto no Brasil Central. Os registros históricos da primeira metade do século XX descrevem diferentes ofícios e representações dos mateiros. No entanto, reforçam seu papel como vanguardista da fronteira, destacando o contato pioneiro com o mundo natural, ao mesmo tempo que divergem sobre seus atributos e competências.
Este artigo apresenta as contribuições ao dossiê especial sobre história ambiental e do trabalho. Ele explora as relações entre os campos da história do trabalho e da história ambiental, tanto histórica quanto tematicamente, e situa as contribuições do dossiê dentro desse contexto historiográfico mais amplo, inserindo-as em um diálogo em constante evolução na fronteira entre os campos, que se estende por várias décadas. Essa conversa fecunda incluiu alguns pioneiros da história ambiental.
Apresentação da seção Debates sobre Black Reconstruction in America: An Essay Toward a History of the Part Which Black Folk Played in the Attempt to Reconstruct Democracy in America, 1860–1880 de W. E. B. Du Bois.
Este artigo vincula-se ao tema colonato. Analisa o comportamento dos colonos na obtenção de recursos para a sobrevivência e a busca de excedentes, junto à fazenda Boa Vista situada em Ribeirão Preto (SP). Os principais dados foram obtidos em documentos inéditos da contabilidade da fazenda para o ano de 1915. Foram desvendados os comportamentos econômicos dos colonos contratados para as lidas com a cafeicultura. Notamos que os colonos – compostos de trabalhadores nacionais-portugueses, italianos, espanhóis, alemães e japoneses – comportavam-se de forma distinta de acordo com a nacionalidade, tanto para o estabelecimento dos contratos quanto para a prestação de serviços extras. As relações econômicas e de trabalho entre os próprios colonos geralmente aconteciam entre os grupos, também vinculadas à nacionalidade. Tudo isso, resultava em valores e saldos diferenciados no momento da prestação de contas dos contratos e na possibilidade de ascensão social.
O dossiê reúne pesquisas que renovam a história rural latino-americana ao enfatizar a diversidade das formas de trabalho, as mobilidades populacionais e as múltiplas configurações de posse e propriedade que estruturaram os mundos rurais entre os séculos XIX e XX. Os estudos combinam análise empírica rigorosa com debates historiográficos sobre migrações, colonização agrícola, conflitos fundiários, regimes de trabalho e moralidades subalternas, evidenciando a pluralidade de atores: escravizados, libertos, colonos, posseiros, agregados, assalariados. Em conjunto, mostram como Estado, mercado e costumes locais produziram tensões persistentes em torno do acesso à terra, da organização do trabalho e das formas de resistência cotidiana, oferecendo um quadro comparativo que aprofunda a compreensão das dinâmicas agrárias na América Latina.