
Resumo Nesse ensaio vou analisar sobre os principais impactos provocados pela Base Espacial de Alcântara ao Território Étnico Quilombola de Alcântara. O ensaio focará em três momentos distintos do conflito. 1. Iniciarei com uma discussão sobre o processo de violência simbólica e psicológica do deslocamento e o terror perpetrado pelo estado para garantir o deslocamento compulsório das famílias dos seus territórios. Processo de violência que foi exacerbada por mais de um século de exclusão e ausência do Estado, que, na prática, não estava presente desde que as propriedades do município ficaram sob o controle dos negros. 2. O processo de organização política de resistência local, organizada a partir das dinâmicas e epistemologias territoriais das comunidades, que serão entendidas aqui como o principal fator mobilizador das lutas de resistência contra o processo expropriatório conduzido pelo estado brasileiro. Assim, como principal elemento a partir dos quais os quilombolas passaram a mobilizar e reimaginar o componente da identidade étnica tanto como forma de mobilização e reafirmação interna, quanto na relação com o estado objetivando alcançar o reconhecimento de direitos territoriais coletivos como forma de proteger o restante dos seus territórios. 3. enfatizamos os processos de resistência do agora, analisando as estratégias de internacionalização das lutas dos quilombolas de Alcântara que passaram a usar dispositivos infraconstitucionais para interpelar o estado brasileiro em cortes internacionais. Ou seja, analisar como as comunidades quilombolas passaram a se organizar para terem condições de possibilidades de atuarem nas defesas de seus direitos territoriais, identitárias e a existência em arenas internacionais, dinamizando e ampliando os espaços de sua atuação e transformando a luta por direitos a permanência no território em uma questão da política internacional.Palavras Chaves: Quilombo, Comunidade Alcântara, Conflito
A várzea amazônica é uma área caracterizada por inundações periódicas, permancendo com o solo alagado durante parte do ano. Nesta região, a pesca artesanal é uma das principais atividades desenvolvida pelas comunidades. Considerando a importância da pesca, neste artigo, fruto de uma experiência etnográfica, apresentamos um ensaio fotográfico resultante do cotidiano da pesquisa de campo em quatro comunidades de várzea do Projeto de Assentamento Agroextrativista Aritapera, em Santarém, Pará. Durante a pesquisa de campo, observou-se que as comunidades possuem um dinâmica semelhante, onde o rio é seu principal meio de acesso às comunidades vizinhas e ao centro urbano de Santarém. Alguns instrumentos são essenciais para o desenvolvimento da pesca artesanal, entre eles, as embarcações e os apetrechos de pesca. As embarcações são constantemente submetidas à manutenção pelos pescadores, que as consertam e colocam calafetos nas frestas. Os apetrechos de pesca (malhadeira, tarrafa, arpão, flexa e outros), sobretudo a malhadeira é periodicamente consertada, pois na atividade de pesca é comum as redes de pesca ficarem danificadas. Os pescadores e pescadoras saem para pescar nas primeiras horas e/ou ao final do dia, a fim de evitar o horário do sol quente, tendo os que pescam durante a noite. O tempo diário destinado à pesca depende do local e da distância onde a atividade será desenvolvida. A definição do local da pesca é importante para definir a embarcação e o apetrecho a serem utilizados durante a pescaria.
Este trabalho se debruça sobre a relação de comunidades tradicionais com suas áreas de castanhais no médio curso do rio Xingu e seu afluente Iriri, no Pará, e as transformações que essa relação sofreu ao longo do último século. Com origem nos seringais, na virada do século 19 para o 20, essas comunidades, que se identificam como beiradeiras, constituíram-se como um campesinato florestal, alicerçado no consórcio de agricultura e extrativismo, e caracterizado por uma densa e extensa rede de relações, bem como pela mobilidade e multilocalidade. Tal territorialidade marca as práticas dessas famílias em relação às áreas de castanhais e ao extrativismo de castanha na região do Xingu e do Iriri, práticas que refletem mudanças nas dinâmicas regionais ao longo do século 20, desde o estabelecimento dos seringais, passando pelos planos da ditadura militar e por um período intensivo de grilagem, até o período atual, com a criação de um conjunto de unidades de conservação ambiental. Embora tenham provisoriamente barrado a grilagem, duas dessas unidades de conservação, de caráter restritivo à ocupação humana, se sobrepuseram a parte dos territórios tradicionais beiradeiros, ensejando conflitos com o Estado, inclusive envolvendo o manejo dos castanhais. Neste artigo, buscamos relacionar a territorialidade beiradeira com a forma com que essas famílias historicamente se relacionam com seus castanhais, para então compreender de que modo a criação das unidades de conservação impactou essas práticas, bem como as resistências engendradas pelas comunidades a esses impactos. Para essa análise, começaremos pelo histórico de ocupação da região e a constituição dessa territorialidade, de modo a melhor contextualizar as práticas envolvidas especificamente no extrativismo da castanha, à luz da abordagem do manejo de recursos comuns, desde uma perspectiva neo-institucional. A seguir, com apoio na mesma abordagem, mostraremos como a criação das unidades de conservação de proteção integral ocorreu a partir da invisibilização desse histórico de ocupação, e impactou as práticas do extrativismo, dando origem a conflitos. Trabalharemos com materiais reunidos ao longo de mais de uma década de pesquisa na região sob uma perspectiva interdisciplinar. Além desse campo propriamente teórico, tal análise pode contribuir para o aprimoramento de políticas envolvendo territórios tradicionalmente ocupados.
Objetivo abordar a interdependência entre o Cerrado e Amazônia, não só do ponto de vista ambiental, mas a partir dos processos ecológicos e políticos que estruturaram o atual contexto dos inúmeros grupos sociais que passaram a se autorreconhecerem a partir da categoria povos tradicionais. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, populações indígenas, quilombolas e demais povos tradicionais passaram de “entraves ao desenvolvimento” para agentes de primeira linha quando seu conhecimento passa a ser associado à conservação ambiental. Nesse contexto, destacam-se os povos amazônicos como importantes protagonistas nessa arena sociopolítica. No entanto, a “crise ecológica” vivida por segmentos identitários diferenciados possui uma dimensão marcadamente política e ideológica/existencial e não corresponde, necessariamente, à denominada “questão ecológica” que caracteriza a sociedade abrangente. Muitos desses grupos, coletivos e comunidades possuem na interação com seu ambiente seu principal mecanismo de construção ontológico, sendo que, em diferentes níveis, tais realidades são atravessadas por conflitos ambientais que desestabilizam tal relação. Frente a essas tensões redes políticas são acionadas em diferentes níveis com a finalidade de criar novos mecanismos de resistência por meio de “alianças afetivas”, que, segundo Ailton Krenak, pressupõe alianças estruturadas por meio de afetos entre mundos não iguais.
Em 27 de julho de 2023, no mesmo dia e horário em que foram divulgados pela primeira vez os dados do Censo brasileiro de 2020 da população quilombola, nos reuníamos em Letícia, Colômbia, para o encontro da XIV Conferência Bienal da SALSA – a Sociedade para a Antropologia das Terras Baixas da América do Sul. Na ocasião, Antônio Nego Bispo participava remotamente do nosso grupo de trabalho e discussão, deitado em sua rede vermelha, lá em sua comunidade quilombola Saco-Curtume, na caatinga piauiense.Todos sabíamos o quanto esses dados oficiais, ansiosamente esperados por décadas, são fundamentais para várias políticas públicas e visibilidade das populações negras historicamente marginalizadas na história do nosso país. Desde então, já foi possível sistematizar e tornar visível e público mais informações e conhecimentos sobre a presença quilombola em todo o país e sua participação efetiva, por exemplo, na conservação da Amazônia brasileira, como mostram as recentes análises do MAPBiomas e do Instituto Socioambiental (MAPBiomas Brasil, 2023).
Esta proposta de dossiê nasce do encontro de pesquisadores acadêmicos, pesquisadores que trabalham na esfera executiva do Estado brasileiro e pesquisadores advindos de territórios de povos e comunidades tradicionais em torno de interesses comuns envolvendo a articulação entre Estado, antropologia, ambiente e natureza em territórios quilombolas, beiradeiros e ribeirinhos, principalmente na Amazônia. Tal encontro se deu por ocasião do XIV Congresso da Sociedade para a Antropologia das Terras Baixas da América do Sul (Salsa), realizado em julho de 2023, em Letícia, na Colômbia. As contribuições que compõem esta proposta foram inicialmente organizadas em dois espaços independentes, um com maior foco em contextos ribeirinhos e outro em contextos quilombolas, mas ambos buscando destacar a relevância de tais contextos em um espaço tradicionalmente voltado à Antropologia com foco nos povos indígenas. Contudo, graças a uma bem-vinda sugestão da organização do evento, constatamos que os vários pontos de contato das questões que orientam o trabalho etnográfico e da realidade política dos territórios estudados poderiam resultar em um diálogo frutífero. E isso se mostrou verdadeiro, pois pudemos observar no congresso o grande interesse que tais temáticas despertavam no público presente. Por essa razão, entendemos que continuar e aprofundar esse diálogo por meio de uma publicação seria, também, uma contribuição de grande relevância neste campo em que nos encontramos. Os textos que fazem parte desta coletânea exploram, assim, o encontro entre povos quilombolas e beiradeiros da Amazônia e o Estado brasileiro no que concerne a questões ambientais e da terra. Constatando que o Estado se faz cada vez mais presente na vida dessas comunidades buscando regulamentar o uso da terra, floresta e rios de seu território, os textos destacam a experiência dos povos e comunidades tradicionais não-indígenas que habitam a região, enfatizando a criatividade social e conceitual que surge dos encontros entre esses grupos e o Estado. Focamos principalmente nas formas pelas quais certos modos de habitar e se relacionar com o território são reconfigurados em meio aos processos burocráticos que envolvem as agências e agentes do Estado. Todos os contextos apresentados neste dossiê se caracterizam por numerosos conflitos que envolvem, além do Estado nacional, agentes como grileiros, madeireiros e garimpeiros e outros atores que chegam pelas estradas e outros projetos de infraestrutura na região. Nosso objetivo é, assim, trazer à tona como ribeirinhos, beiradeiros e quilombolas conceituam e mobilizam práticas de cuidado com o território, e como tais conceitos e práticas se relacionam com os conceitos e práticas do Estado e mercado. Em outras palavras, a proposta de dossiê vai no sentido de apresentar a perspectiva de acadêmicos e pensadores quilombolas, ribeirinhos e beiradeiros sobre suas concepções e formas próprias de manejo e resistência, frente às pressões cada vez maiores de exploração de recursos naturais e minerais, resistências aos processos de esbulhos, dentre outras estratégias de forma, uso, ocupação e relação com o ambiente em que vivem.
Um aspecto fundamental da constituição de pessoas nas comunidades ribeirinhas do rio Iriri, um afluente do rio Xingu no Pará, é a participação em interações (sejam elas envolvendo humanos ou não humanos) centradas no reconhecimento mútuo por meio da demonstração de respeito. A centralidade desse reconhecimento pode ser observado em como os pescadores locais falam sobre a relação deles com os tucunarés e pode também ser vislumbrada em momentos decisivos da história da colonização da região, da relação com povos indígenas do vale, e da constituição de relações de aviamento. A construção da barragem de Belo Monte cerca de 300km rio abaixo dessas comunidades a partir de 2011 atraiu novos atores ao universo de trocas dos beiradeiros. Esses forasteiros em grande medida escolheram ignorar essa dinâmica, o que resultou em um sentimento generalizado de desconsideração e de falta de respeito entre os ribeirinhos. Por outro lado, os agentes do Estado (funcionários de agências ambientais, principalmente o ICMBio) buscam contemplar certos requisitos dessa dinâmica, mas os limites da interação são postos por aspectos fundamentais da estrutura estatal como a legislação e a necessidade de justificar políticas públicas com dados quantificáveis. Palavras-chave: ribeirinhos; Estado ; represa de Belo Monte; conservação ambiental.
Este artigo analisa duas categorias de autodefinição, coletivos e individuais, que ganharam contornos no âmbito de antagonismos em torno da criação do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Sapucuá-Trombetas, em Oriximiná, noroeste do Pará. Enquanto os coletivos alinharam-se na demanda pela criação do assentamento, baseado em molde pró-indiviso e com a titularidade atribuída a uma associação supracomunitária, os individuais demandaram a titulação parcelar da terra. Valemo-nos especialmente, para essa análise, da interlocução com lideranças sindicais, lideranças da associação criada para demandar formalmente o assentamento, efetivamente criado pelos órgãos fundiários em 2010, e com assentados mais distantes da interlocução com espaços político-institucionais, mas que igualmente estiveram diretamente envolvidos na demanda pela criação do PAE. Evidencia-se que, da perspectiva desses agentes sociais, mais do que a expressão de opções entre distintos modelos de regularização fundiária, essas categorias de autodefinição revelaram percepções de diferenciações socioeconômicas, de diferentes relações com a terra e seus recursos e de distintas práticas sociais que singularizaram os coletivos. Para os coletivos, sua singularidade, elaborada de modo relacional face aos individuais, envolve práticas pautadas em relações de reciprocidade, em formas de cooperação e ajuda mútua nas atividades econômicas, assim como em formas específicas de uso da terra, com a qual se extrapola a simples relação mercantil. Proponho analisar coletivos e individuais como produtos de processos de construção de identidades políticas, enfatizando os aspectos de situacionalidade e processualidade, diferenciando-se, assim, de perspectivas teóricas que, como observa Hall (2014: 103), estão em desconstrução quanto a concepções de identidade como entidade essencial, “integral”, “originária” e “unificada”. Espero, a partir deste trabalho, contribuir com o debate em torno da emergência de identidades coletivas no bojo de processos de territorialização. Palavras-chave: identidades coletivas; processos de territorialização; campesinato.
Na diversidade das comunidades amazônicas, (neo)tradições religiosas e lutas cotidianas se inserem em trajetórias complexas e dinâmicas que se interconectam em planos sociopolíticos, econômicos, culturais e ambientais, incluindo questões atmosféricas. Nesse (cosmo)político, atravessado pela busca de empoderamento feminino por meio de acesso à renda, uma ‘doce’ aliança foi estabelecida no Quilombo de Gurupá-Mirim/Pará. Dela resultou a Festividade de São Raimundo e a Festa do mel. Sobre essa conjuntura, versará este artigo. O objetivo é discorrer sobre suas implicações na vida do quilombo. Empregou-se abordagem bibliográfica e narrativa, desdobrada em micro-histórias e hermenêutica do cotidiano. Considerou-se que essa história toca questões de natureza ética; que seus saberes podem atuar em colaboração com instituições meteorológicas e climáticas; a importância de preservar esse olhar sobre acontecimentos atmosféricos, que pode estar deixando de ter o devido reconhecimento pela própria comunidade; que pesquisas antropológicas sobre interrelações humano-atmosféricas são ainda carentes na região.
Apesar dos importantes avanços legislativos internacionais e nacionais de reconhecimento dos direitos dos povos afrodescendentes/quilombolas nos últimos vinte anos, especialmente com a garantia do direito territorial das comunidades quilombolas e a definição dos Territórios Quilombolas como Áreas Protegidas (BRASIL, 2006) - que não consideramos que tenha sido a opção mais acertada - no Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas (PNAP), há um grande obstáculo ainda a ser superado de demonstrar os benefícios ambientais, a capacidade de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, serviços ecossistêmicos e proteção da biodiversidade dos territórios e comunidades quilombolas em todo país. Soma-se a essa dificuldade a ausência de informações estatais sistematizadas e disponíveis da população quilombola e sua localização, apenas recentemente iniciada com a divulgação do Censo Demográfico 2022 (IBGE, 2023). Do ponto de vista acadêmico e científico ainda há poucos estudos que se debruçam na importância das formas particulares de vida dos quilombolas, as práticas de manejo ambientais e territoriais sustentáveis, recuperação ambiental, enfim pesquisas científicas socioecológicas, que demonstrem a importância destes territórios para ações de conservação ambiental. Nesse sentido, o artigo apresenta essa dificuldade que coloca os territórios quilombolas à margem em diversas perspectivas. Ao utilizar imagens, representações gráficas e algumas análises aparece com mais força a liminaridade, mas principalmente os mapas são importantes para apresentar uma possibilidade de reflexão cruzando dados de bioma ao invés de municípios com o de população quilombola. O texto traz também a visão de acadêmicos e pensadores quilombolas e afrodescendentes sobre suas concepções e formas próprias de manejo e resistência, frente às pressões cada vez maiores de exploração de recursos naturais e minerais, aos processos de esbulhos, dentre outras estratégias e formas, usos, ocupação e relação com o ambiente em que vivem, nos fazendo despertar e instigar interesses científicos para pesquisas transdisciplinares, bem como a intenção de trazer uma outra perspectiva racial do tema ambiental sempre invisibilizada e marginalizada.
Este artigo científico busca analisar como ocorre a colonialidade do saber pela Modernidade Ocidental e, nesse contexto, como se dá a resistência das comunidades quilombolas brasileiras em defesa dos seus conhecimentos e identidades culturais nas lutas pela preservação, reconhecimento, justiça e equidade epistêmica. Exploramos alguns aspectos do quadro teórico Epistemologias do Sul como possibilidades de avanço para a superação da colonialidade dos conhecimentos quilombolas. Para desenvolver o que é proposto, este trabalho pautou-se em uma abordagem qualitativa, baseada em referenciais bibliográficos, com a análise das ideias de vários autores decoloniais. A partir do percurso aqui realizado podemos concluir que a hegemonia moderna eurocêntrica ocidental sobre o conhecimento e sua perspectiva restritiva da ciência, que marginaliza e invisibiliza os conhecimentos provenientes de outros povos e locais, são alguns dos aspectos mais devastadores da Modernidade Ocidental. Porém, as comunidades quilombolas estão em constante movimento de luta e defesa por suas culturas, tradições, saberes e territórios, buscando sempre formas de resistir e preservar suas ontologias e epistemologias. Ainda, as Epistemologias do Sul, ao darem voz aos diferentes atores sociais, ao valorizarem os diversos saberes e ao questionarem as hierarquias de conhecimento presentes nas instituições acadêmicas, oferecem ferramentas importantes para promover a decolonialidade dos conhecimentos quilombolas. Palavras-chave: Colonialidade do saber. Decolonialidade. Saberes quilombolas. Resistência quilombola. Epistemologias do Sul.
A dispersão de ocupações associadas às cerâmicas da Tradição Polícroma da Amazônia (TPA), tema clássico da Arqueologia Amazônica, vem sendo repensada por meio de estudos regionais. Na bacia do Médio Solimões (AM), evidências de ocupações antigas e de misturas tecnológicas e estilísticas entre produções cerâmicas indicaram relações mais complexas entre produtores de cerâmica Polícroma e ocupações contemporâneas que parecem se transformar ao longo do tempo. A fim de contribuir para esse debate abordamos o cenário do Médio Solimões por meio dos contextos de três sítios arqueológicos: São João, Ponta da Castanha e Tauary. São apresentadas as intervenções arqueológicas que realizamos nos sítios e seus resultados em relação aos vestígios arqueobotânicos, líticos, de contextos funerários, e da produção cerâmica. Em relação a essa última, identificamos três períodos para a presença de ocupações da TPA com transformações na produção cerâmica. Propomos, então, uma periodização e interpretação da história das ocupações Polícromas no Médio Solimões, buscando relacionar esse processo com outros contemporâneos ao redor da Amazônia e apontar direções para futuros trabalhos. AbstractThe dispersion of occupations associated with the ceramics of the Polychrome Tradition of Amazonia, a classic theme of Amazonian Archaeology, has been discussed based on regional studies. In the Middle Solimões basin (AM), evidence of ancient occupations and techno-stylistic flows between ceramic productions indicated more complex relationships between Polychrome ceramic producers and their contemporaries, which seem to change over time. In this article we approach this particular scenario through the archaeological contexts and their materialities, focusing on the ceramic ensembles of three archaeological sites in the region: São João, Ponta da Castanha and Tauary. We provide a summary of the regional research followed by an overview of the current debates. We then present the archaeological interventions and their results, as well as the Polychrome ceramic sets identified in the sites. We propose a periodization of Polychrome occupations in the Middle Solimões and seek to relate this process to other contemporary ones around the Amazon River and point out directions for future work.ResumenLa dispersión de las ocupaciones asociadas a la cerámica de la Tradición Policromía de la Amazonía, tema clásico de la Arqueología Amazónica, ha sido repensada a partir de estudios regionales. En la cuenca del Medio Solimões (AM), las evidencias de ocupaciones antiguas y flujos tecnoestilísticos entre las producciones cerámicas indicaron relaciones más complejas entre los productores de cerámica Polícroma y sus contemporáneos, que parecen cambiar con el tiempo. En este artículo abordamos este escenario particular a través de los contextos arqueológicos y sus materialidades, centrándonos en los conjuntos cerámicos de tres sitios arqueológicos de la región: São João, Ponta da Castanha y Tauary. Presentamos una historia de la investigación regional, seguida de un panorama general de los debates actuales. Luego, presentamos las intervenciones arqueológicas y sus resultados, así como los conjuntos cerámicos Polícromos identificados en los sitios. Proponemos una periodización de las ocupaciones Polícromas en el Medio Solimões y buscamos relacionar este proceso con la Expansión Polícroma y señalar direcciones para trabajos futuros.
Este artigo é uma reflexão sobre o espaço ribeirinho da comunidade São Sebastião na Resex Mapuá-Breves-PA, e da sua relação com a casa o mato e o rio, tendo como base de coleta de dados o caderno de campo e a pesquisa etnográfica. Orientado pelo prisma teórico oferecido por filósofos e antropólogos pós-estruturalistas como Deleuze e Guattari e Pierre Bourdieu e Roy Wagner, apresento o espaço ribeirinho com um espaço complexo e sobreposto ao outro, um mundo aberto, sem fixidez, movimentado e dinâmico, um território ribeirinho criado e/ou inventado como um corpo sem órgãos.
O presente artigo objetiva analisar processos educacionais em um Terreiro de Umbanda localizado na zona sul de Teresina-PI. Para isso, partimos de uma concepção ampliada de educação, como um processo vivo e comunitário, salientando que acontece onde a vida estiver, acontecendo em todos os lugares. Nesse sentido, percebemos que o terreiro de umbanda é um importante espaço de vivências educativas, pois a sua prática religiosa está assentada no corpo e centralizada na incorporação, o que depende de um aprendizado denominado desenvolvimento mediúnico sendo, portanto, uma importante ação educativa. Optamos pela etnografia para esse estudo, pois, tal abordagem, possibilita mostrar os processos educacionais a partir de dentro e desde a perspectiva dos interlocutores. Assim, percebemos a Umbanda enquanto um espaço de vivência religiosa e educacional, tendo uma ecologia de saberes, que desemboca no par sabenças-gestos, ou mirongas-mandingas, o que colabora para a formação e desenvolvimento da pessoa umbandista, num processo gradual que pode levar anos, semelhante ao “catar folhas”.
A luta no território tradicionalmente ocupados por famílias camponesas agroextrativistas sempre foi pautada por disputas por madeireiros, fazendeiros, grileiros, que concorrem opostamente aos recursos da terra e da natureza na Amazônia. No Pará, apesar criação de assentamentos coletivos agroextrativistas, há uma forte concentração fundiária, que se agrava quando incorpora elementos que ampliam as querelas da terra com os recursos naturais das florestas. Este artigo tem como objetivo analisar os principais desafios das famílias da Gleba Joana Peres, desde o processo de regularização fundiária e na delimitação do seu território. As análises se debruçaram sobre o estudo de caso na criação dos Projetos Estaduais de Assentamentos Agroextrativistas (PEAEX) Dorothy Stang e PEAEX Joana Peres, busca-se averiguar o histórico da área, além de realizar um levantamento sobre a situação socioeconômica, de produção, renda e organização social das famílias com a finalidade de identificar suas trajetórias e perspectivas. Durante a pesquise identificou-se grande número de organizações sociais, que construíram ações políticas coletivas junto aos agentes públicos, rede de articulação dos movimentos e com as famílias camponesas. A organização local das famílias permitiu a construção dos repertórios para a conquista da regularização fundiária, o que muito significativo. Entretanto, ainda há uma fragilidade no engajamento das famílias que se reflete na baixa adesão as entidades sindicais e do movimento social, o que fragiliza o processo formativo político-pedagógico das ações sociais coletivas, no âmbito da disputa dos territórios, dos recursos naturais, manutenção do modo de vida tradicional.
En este trabajo me propongo discutir algunas dimensiones y alcances para pensar la enseñanza de la antropología. Para ello me propongo situar inicialmente un contexto de interpelación que propone marcos, amarras y dificultades de generar miradas de nuestra disciplina no sólo situadas en el desarrollo de la investigación como única referencia, sino también desde las distintas vicisitudes que implica considerar el trabajo realizado fuera del margen de la investigación y de las labores vinculadas a los centros universitarios. Para hacer aquello indago y problematizo brevemente algunas cuestiones situadas en relación con la producción de la diferencia en la antropología y los puentes que se pueden tejer desde las antropologías hacia afuera de ésta. Finalmente, propongo algunos caminos para trazar cruces y posibilidades en un horizonte de transformación, escucha y plausibilidad.
Para pensar em um feminismo descolonizador, Françoise Vergès se aproxima das produções intelectuais do Sul Global e realiza um diálogo com intelectuais africanas, latino-americanas e asiáticas. O feminismo decolonial concentra esforços em analisar os problemas sociais ocasionados pela colonialidade. Desse modo, Françoise Vergès ressalta a importância de um feminismo militante que traga à tona as estruturas racistas do Estado através da luta coletiva. Nesse sentido, a luta deve continuar sendo sobre equidade de gênero, mas enquanto este movimento não reconhecer o racismo de uma luta que se cristaliza apenas no gênero, mulheres racializadas permanecerão em situação de vulnerabilidade, o que denmostra que o feminismo, nesses moldes, precisa ser repensado.
En una investigación financiada por el CONICET sobre sufrimiento socioambiental en contextos de pobreza urbana (2017-2020), tomamos contacto con familias de uno de esos asentamientos: Los Obreros. A través de un enfoque antropológico-etnográfico, registramos sus experiencias, compartiendo algunas de ellas en este ensayo junto a Sandra Nicosia.
Muchas de las investigaciones llevadas a cabo en Nuestra América delimitan una actitud reflexiva de responsabilidad social y una postura crítica de compromiso político que marcan las antropologías latinoamericanas (y del Sur Global). Las antropologías latinoamericanas han adoptado características particulares relacionadas con los contextos nacionales en los que se desarrollan, a pesar de su origen común euroestadounidense. Una de las características comunes habría sido la relación entre la producción teórica y el compromiso de las/os investigadoras/es con las sociedades estudiadas, ya que estas/os investigadoras/es también participan, en esta región, junto con sus interlocutoras/es, en el proceso de construcción nacional a través de la lucha por la democracia y la autonomía de las comunidades locales y contra el colonialismo insistente y las formas imponentes de los colonialismos internos. Las antropologías latinoamericanas han tenido como misión, en su mayor parte, el cuestionamiento de las bases ideológicas del Estado nacional y de la persistente diferencia colonial, y por lo tanto, pueden contribuir a la instrumentalización de un quehacer antropológico transnacional potencialmente descolonial. Se propone aquí sistematizar las discusiones sobre cómo , por qué , para quién , con quién, por quién y dónde hacemos antropología en Nuestra América a partir de experiencias teórico-prácticas indisciplinadas e insumisas. Este dossier es una propuesta de los siguientes Grupos de Trabajo de la Associación Latinamericana de Antropología (ALA): "Antropologías Latinoamericanas Indisciplinadas y Disidentes", "Antropología de las Antropologías Latinoamericanas" y "Los Sistemas Científicos en Perspectiva Comparada".