
Este artigo oferece uma breve introdução à filosofia de Epicteto de Hierápolis, seguida de uma análise da diatribe Sobre a Atenção. Por fim, apresenta uma tradução dessa diatribe para a língua portuguesa, baseada no texto original em grego, que é disponibilizado na íntegra.
Este artigo parte da pergunta proposta por Pagni (2011, p. 36): “Como relacionar a arte de viver com os dispositivos disciplinares e de assujeitamento da escola?”, não com o intuito de respondê-la, mas de problematizar o status quo educacional, sobretudo no contexto brasileiro da Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Este texto teórica e metodologicamente se baseia em textos da Antiguidade grega e romana, em especial sobre o Estoicismo e o Manual de Epicteto (fontes de Michel Foucault) e atuais (o próprio Foucault e comentadores) e visa elencar estudos sobre cuidado de si na/da Educação realizados no Brasil. Objetiva-se advogar por um tipo de educação bem diferente de uma formatação de pensamento e de conduta por meio da presença, por exemplo, de componentes curriculares relativos a empreendedorismo, projeto de vida (neoliberal), por meio da ingerência de organismos internacionais em políticas educacionais. Espera-se refletir sobre uma educação que tenha interesse em preparar indivíduos para o mundo, cientes de seu pertencimento tanto a uma comunidade específica quanto ao cosmos e de sua responsabilidade para com eles, e não somente em preparar/adequar sujeitos às demandas do mercado de trabalho.
Este artigo investiga a relação entre normas sociais e a formação de personalidades (ēthē) no livro VIII da República de Platão, analisando como o thumoeides — a parte da alma sensível à honra (timē) e aos códigos sociais — estrutura disposições psicológicas e políticas. Partindo da crítica platônica à internalização acrítica de valores, demonstra-se que o thumoeides, embora adaptável a diferentes contextos normativos, tende a reproduzir hierarquias de poder quando não governado pelo logistikon (impulso racional). O estudo concentra-se nos quatro ēthē degenerados, destacando no ēthos timocrático o predomínio do thumoeides, cuja análise revela como a construção da virilidade (andreia) é central: o timocrata é moldado por uma socialização que associa honra a desempenho “masculino” (guerra, domínio político), enquanto o filósofo, visto como “pouco viril” (anandros), é marginalizado por priorizar a razão no lugar de performances de afirmação social. A crítica de Platão à masculinidade tradicional exemplifica como normas de gênero operam enquanto mecanismos de internalização de valores distorcidos. A timocracia e a oligarquia perpetuam uma economia psíquica na qual a autoafirmação está vinculada a estereótipos de gênero (ex.: dureza com escravos, aversão ao “feminino”, que é associado à passividade filosófica). Argumenta-se que a maleabilidade do thumoeides revela seu papel central na mediação entre indivíduo e sociedade, mas também sua vulnerabilidade a normas mesmo quando elas não são justas. Conclui-se que, para Platão, a justiça exige o fortalecimento do logistikon para evitar que as flutuações das normas sociais perpetuem ēthē desarmônicos.
Pierre Hadot foi e ainda é alvo de muita discussão acerca das suas teses sobre a filosofia como modo de vida. Assim, entre concordâncias, críticas e reformulações, a metodologia estipulada pelo francês se coloca no debate contemporâneo como um expoente produtivo nas diversas leituras sobre a filosofia antiga e, até mesmo, sobre a filosofia em geral. Porém, consideramos pertinente fazer alguns apontamentos sobre o método hadotiano acerca do Manual, uma vez que as reflexões do francês são utilizadas com maior frequência em análise acadêmicas e não-acadêmicas dos textos antigos, sobretudo estoicos. Nesse sentido, a pergunta que guia essa breve pesquisa é: como deve ser feita uma interpretação objetiva e uma reatualização do breviário epictetiano através de Hadot?
O objetivo deste artigo é analisar a relação entre ciência, filosofia e feminino em Mary Somerville. Para tanto, o texto é composto de três partes. Na primeira, investigo as razões pelas quais Somerville nomeia cientistas como filósofos. Em seguida, na segunda parte, abordo o vínculo entre a filosofia, o preconceito e o feminino. Na última parte, por fim, evidencio o porquê a filosofia, para Somerville, também é uma teologia natural.
O artigo propõe uma releitura do Manual de Epicteto, tendo em vista a relação entre emoções e autarquia, afastando-se da visão de que as emoções devem ser eliminadas. Parte-se de seis eixos do texto que mostram como a conquista da autossuficiência (autárkeia) e da serenidade (ataraxia) parece também depender de uma transformação no modo de lidar com as emoções, que são entendidas como parte da natureza humana. Por fim, reflete-se sobre a pertinência e os riscos de se resgatar o ideal autárquico no contexto contemporâneo, questionando seu potencial como solução contra emoções coletivas desregradas e seu perigo de apropriação por narrativas de autocontrole que negam a vulnerabilidade humana. Pretende-se destacar, assim, que os problemas sobre os quais o filósofo se debruçou seguem abertos e atuais.
O presente artigo analisa a injuntividade no Encheiridion de Epicteto para rastrear regras de formação da posição-sujeito aristocrática no discurso estoico. Nesse sentido, a constituição do sujeito aristocrático implica a contraposição entre uma filosofia de formação, presente no estoicismo, e uma filosofia crítica, própria da modernidade. Enquanto a primeira centra-se no dever, na economia e na ascese intramundana, a segunda, que gestou o sujeito democrático, pauta-se no querer, na liberdade de expressão e no direito. Enquanto a democracia associa-se à retórica e à judicialização, a timocracia e o estoicismo valorizam a economia da palavra e o dever. Pela análise de verbos discendi no imperativo, o discurso estoico, em geral, e o Encheiridion de Epicteto, em particular, conciliam filosofia e religião, o que resulta em uma ética do silêncio e do autodomínio para o cuidado de si. A injunção, longe de ser impositiva, funciona nos moldes de um aconselhamento para a formação de um sujeito abstinente e racional quanto ao uso da palavra, em contraste com a expressividade típica dos cidadãos formados pelas crenças democráticas.
En los orígenes del cristianismo, las cosmogonías se constituían en base al relato genesíaco de la creación en combinación con las tesis del platonismo medio respecto de la supuesta eternidad de la materia. Los gnósticos setianos, en cambio, recurrieron a la medicina vigente en su tiempo para elaborar el mito de la Sabiduría caída, a partir de la cual se habría formado el cosmos. En tal sentido, se aprecia en los textos de Nag Hammadi que pertenecen a esta corriente del Gnosticismo el uso del lenguaje técnico de la escuela metódica de medicina, con énfasis en las doctrinas embriológicas y ginecológicas de Hipócrates, Aristóteles y Galeno.
O presente artigo investiga a metáfora do ator no estoicismo, compreendendo-a não como um recurso meramente retórico, mas como uma estrutura conceitual fundamental da ética estoica. Partindo de antecedentes cínicos, especialmente de Bion de Borístenes, o estudo reconstrói a progressiva elaboração dessa metáfora em Zenão de Cítio, Ariston de Quios, Panécio de Rodes e sua recepção no Manual de Epicteto, bem como sua reaparição em Sêneca e Marco Aurélio. Em Ariston, a metáfora do ator exprime a indiferença ética absoluta diante dos papéis contingentes, enfatizando a neutralidade interior do sábio; em Panécio, ela é sistematizada na doutrina das quatro personae, funcionando como método heurístico para a deliberação prática dos officia; em Epicteto, a metáfora é aprofundada por meio das noções de prosōpon, schésis e ónoma, articulando papel, relação e identidade normativa na determinação do kathēkon. Por fim, o artigo mostra como, no estoicismo romano, a metáfora do ator se vincula à reflexão sobre a morte, concebida como a saída serena de cena ao término do drama da vida. Assim, viver bem consiste em representar bem o próprio papel segundo a razão, e morrer bem em aceitá-lo com gratidão e conformidade ao logos cósmico.
O presente artigo aborda uma possível comparação da proposta antropológica de Emmanuel Mounier e Edith Stein. A comparação decorre da percepção de algumas harmonias significativas. Há, antes de tudo, um pano de fundo cultural comum e especialmente o pós-guerra da Primeira Guerra Mundial, ou seja, as décadas de 20 e 30 do século passado. Este é o motivo de um aprofundamento histórico apresentado na primeira parte do trabalho. Além disso, ambos os autores têm como referência a matriz cristã, bem visível na antropologia que elaboram. A pesquisa visa mostrar os caminhos diferentes que os autores percorreram sobre a elaboração filosófica sobre o tema da antropologia. De um lado temos um filósofo engajado nos problemas da atualidade, visível nos artigos sobre a revista Ésprit, fundada pelo mesmo Mounier. Do outro a filósofa Stein, tipicamente acadêmica, que produziu uma elaboração que manifesta um grande conhecimento da interioridade humana. Na conclusão do trabalho além das diferenças é destacado o dado que em ambos os autores podemos ver os traços biográficos que orientam a análise.
O presente trabalho tem por objetivo apresentar as restrições de Nelson Goodman à ideia de semelhança como critério delimitador da representação pictórica. O trajeto que vamos trilhar passa pela i) delimitação das propriedades de semelhança, como reflexividade e simetria, que não satisfazem a explicação do que é representação pictórica e, depois, ii) a continuidade da semelhança nas teorias da imitação ou cópia a partir do problema epistêmico do “olhar ingênuo”. E, para finalizar, iii) vamos apresentar a representação pictórica dentro de noções contextuais e convencionais, como resultado do trabalho de desconstrução da relação de semelhança nas discussões a respeito da natureza da representação.
O artigo a seguir pretende analisar algumas das analogias com animais que aparecem no diálogo Fédon de Platão. Essas analogias estão presentes em quase todos os diálogos platônicos e sempre com um objetivo específico. No Fédon, as analogias com os animais servem como argumentos em favor da imortalidade da alma, da existência e da possibilidade de relembrar as ideias. Ao utilizar a linguagem como ferramenta de construção da metafísica, Platão utiliza analogias com animais como termos proporcionais adequados ao alcance possível da verdade e à inteligibilidade das ideias no mundo tanto quanto como chaves que abrem as portas para a reminiscência na alma.
O artigo analisa a relação entre liberdade, busca pela verdade e dignidade humana na obra de Edith Stein, com foco em sua abordagem fenomenológica e filosófica, especialmente na obra Introdução à Filosofia (2001). A liberdade é concebida como uma vivência essencial que permite ao ser humano autodeterminar-se e agir de forma autêntica, sendo indispensável para a afirmação da dignidade pessoal. Stein não a entende apenas como capacidade de escolha, mas como expressão da profundidade da alma e da vida espiritual, vinculando-a diretamente à verdade, que orienta ações responsáveis e significativas. A busca pela verdade, por sua vez, é apresentada como um percurso que transcende o saber imediato e as aparências, exigindo abertura interior, reflexão profunda e adesão a valores universais que conferem sentido à existência. Essa busca fundamenta e orienta a liberdade, garantindo que as escolhas humanas estejam em consonância com o que é justo e verdadeiro. Além disso, Stein destaca a unidade entre corpo e alma, evidenciando que a dignidade humana se manifesta na expressão autêntica da interioridade. Por meio de uma análise fenomenológica, o artigo explora como a autora articula esses conceitos, demonstrando sua relevância para a filosofia e a teologia contemporânea e para a construção de uma sociedade mais justa e humana. Conclui-se que liberdade, verdade e dignidade formam uma tríade essencial para a compreensão da existência e da responsabilidade pessoal, constituindo pilares inseparáveis para a realização plena do ser humano e para a promoção de uma vida autêntica e significativa.
Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre as relações entre a filosofia estoica de Epicteto e a filosofia socrática, principalmente, focando na importância da harmonia entre logos e bios para ambos filósofos. Embora cronologicamente separado de Sócrates por quase cinco séculos, o ex-escravo frígio adotou a figura de Sócrates como o paradigma supremo do sábio. Sendo assim, o Encheiridion, enquanto síntese das lições de Epicteto compiladas por Arriano, evidencia uma orientação socrática ao priorizar a filosofia como prática existencial diretamente aplicada à vida.