
A literatura especializada reconhece a influência de Newton na obra de Adam Smith. Porém, a natureza dessa influência não foi tratada com a devida atenção. Nesse ensaio, argumentarei que a metodologia científica de Newton não corresponde necessariamente ao que chamamos de newtonianismo. Após analisar o enfoque metodológico de Newton, estudar-se-á como Smith entende o newtonianismo. Adam Smith foi um sofisticado interprete de Newton, porém o contexto da Ilustração Escocesa tem um papel fundamental na compreensão do legado newtoniano. Se, em geral, a tradição francesa interpretava Newton como precursor de uma metodologia axiomático-dedutiva, a recepção e interpretação de Newton na Escócia durante o século XVIII nos ajuda a compreender a verdadeira natureza do newtonianismo de Adam Smith.
O termo “cooperação” é amplamente usado em teorias sociais, políticas, biológicas e econômicas. Talvez por essa razão o termo assuma uma variedade de significados, e em muitos casos não é sempre claro em que aspecto de uma interação está sendo descrito. Este artigo tem o modesto objetivo de classificar algumas destas variedades de significados; e explorar, diante deste pano-de-fundo, quando e porque cooperação (neste sentido) pode ter valor, ser uma exigência ou ainda uma virtude.
Estudos recentes sobre o choro mostram que chorar é mais comum em países mais felizes, mais livres e mais ricos do que em países mais pobres e menos livres. Estes resultados podem parecer contraintuitivos e contradizer a hipótese de que o choro é mais observável em países onde as pessoas sofrem mais. Adam Smith pode oferecer uma explicação: nas graves dificuldades da pobreza, demonstrar emoção e angústia pode ser interpretado como um sinal de fraqueza, não atraindo simpatia e comprometendo a sobrevivência. Como resultado, evitam-se demonstrações emocionais. Em vez disso, as sociedades comerciais mais ricas oferecem facilidade e tranquilidade que permitem aos indivíduos expressarem as suas emoções com menos consequências negativas.
O objetivo central deste artigo é analisar a descrição do fenômeno da sorte moral como realizado por Adam Smith na obra The Theory of Moral Sentiments, em que ele analisa as causas, a extensão e a finalidade da sorte moral, ou como ele chama, da irregularidade dos sentimentos, destacando a sua solução ao problema. Vamos chamar atenção para a maneira que Smith conecta o problema da sorte moral com a questão da justificação da punição, com destaque para a sua defesa de uma plurinormatividade em sua teoria dos sentimentos morais, bem como para sua compreensão de agência moral mais modesta.
O artigo desenvolve uma investigação acerca das condições de constituição de instituições que é baseada, mas também crítica das abordagens propostas por John Searle nos livros The Construction of Social Reality (1996) e Making the Social World (2010). Primeiramente, discute a abordagem baseada-no-reconhecimento de Searle (1996). Para lidar com algumas dificuldades concernentes à existência continuada de entidades institucionais, o artigo oferece uma versão da abordagem baseada-no-reconhecimento que se afasta em alguns aspectos de sua caracterização original. Em segundo lugar, o artigo aborda a inclusão por Searle (2010) de declarações de função de estatuto no arcabouço teórico de sua Metafísica das instituições. O artigo apresenta argumentos em favor da conclusão de que a nova abordagem de Searle, baseada-na-linguagem, não é nem independente nem tão abrangente quanto a versão aprimorada da velha abordagem, baseada-no-reconhecimento, o que marca mais um afastamento de Searle.
Será possível realizar o sonho contemporâneo de construção de robôs humanoides, hiperinteligentes e, se possível, dotados de consciência de si, capazes de pensar e sentir como os humanos? A questão, em si, leva a uma outra: como foi possível que, dentre os mais diversos e semelhantes animais do planeta, o ser humano emergisse como ser dotado de uma mente complexa, com consciência de si e portador de linguagem simbólica? Diante dessas duas questões, este artigo explora algumas hipóteses plausíveis, com base em alguns elementos da teoria da mente e da linguagem em Espinosa.
Neste trabalho discutimos como a consolidação do neoliberalismo se fez acompanhar por uma noção de liberdade associada ao individualismo e ao auto desempenho, provocando disrupturas significativas na constituição da subjetividade. Para tanto, analisamos como o neoliberalismo encontra-se por trás do estágio atual de “personalização” do eu e das relações, no qual as relações sociais são marcadas pela flexibilização, pela expressão dos desejos e pelo hedonismo. Por fim, buscamos revelar as “armadilhas” dessa nova condição para os indivíduos e a coletividade, bem como demonstrar como a ideia de liberdade neoliberal, tratada em termos exclusivamente individualistas e econômicos, como o princípio máximo a ser resguardado, acabou por se transformar em uma forma inédita de coerção e de gestão do sofrimento psíquico.
El artículo aborda la cuestión de la formación moral en la ética de Kant. Para ello se da cuenta de la creciente importancia que este asunto ha conseguido en los estudios kantianos angloamericanos, y dentro de su intención de «naturalizar» elementos de la ética de Kant, para hacer de ella una teoría atractiva y satisfactoria según algunos estándares vigentes de discusión filosófica, psicológica, y de teoría de la acción. En este contexto, el artículo señala algunas limitaciones filológicas y argumentales inherentes al programa «anglo-naturalista», que se refieren especialmente a la intención de convertir las tesis kantianas acerca de la autonomía, conciencia y ley morales, en componentes de una teoría de la formación moral o del cultivo de la autocracia personal. Por su lado, el artículo argumenta que una manera más adecuada de concebir la formación moral en la ética de Kant, al tiempo que más ajustada al soporte textual disponible, consiste en no describir la autonomía como el resultado de un proceso de creciente abstracción, descentración y autocracia (i.e., de formación moral), sino más bien como el principio generador de todo esto: el artículo argumenta que en los textos de Kant pueden hallarse elementos para reconstruir el postulado («Grundsatz») de la autonomía en términos performativos, describiendo con ello las condiciones de posibilidad de toda deliberación real. Así reconstruido el postulado de la autonomía es posible, argumenta el autor, mostrar que la formación moral de los individuos es «sub-producida» por las deliberaciones reales que llevan a cabo diariamente, junto a sus eventuales esfuerzos por acatar las reglas de acción que crean en tales deliberaciones. Aquello que los estudiosos denominan hoy «formación moral», y que el artículo concibe como residuo de la autonomía, constituye aquello que Kant denominaba carácter.
Quando a confiança é abalada, indivíduos retrocedem e o sistema de mercado se contrai.Onde a confiança cresce, a energia individual e a criatividade são liberadas e o sistema cresce. Na visãode Adam Smith do progresso da humanidade, a confiança é o tema central. A Grande Recessãorepresenta um clássico caso de uma crise de confiança. Olhando para o trabalho de Smith, temosinsights sobre o papel dos cidadãos e do Estado em criar um ambiente de mercado frutífero baseado naconfiança e o desafio deste processo, dado a fragilidade humana dos indivíduos (infelizmente, nós nãosomos anjos) e o potencial para o poder do Estado ser captado e fonte de abuso.
A maioria dos estudiosos de Adam Smith acredita que ele defendia a provisão pública de educação para compensar as consequências negativas decorrentes da divisão do trabalho. A suposta defesa de Smith pela educação financiada publicamente é tomada por alguns estudiosos como evidência de que ele tende mais ao progressismo do que ao liberalismo clássico, ou que isso representa um desvio, talvez uma inconsistência, com sua forte presunção contra a intervenção governamental nos mercados. Este artigo argumenta que essas interpretações são falhas porque, no final das contas, Smith não defende a provisão pública de educação. Ele levanta a ideia e explora seus potenciais benefícios, mas não a endossa de forma definitiva. Smith também oferece razões para ser cético quanto à provisão pública de educação, o que sugere que sua posição final pode ter sido contrária a ela.
Neste artigo investigo a noção de corpo produtivo na obra de Michel Foucault, com foco no curso A Sociedade Punitiva (1973/2015), analisando a relação entre corpo, poder, tempo produtivo e a eficácia imaterial associada ao panoptismo. Partindo do problema central de como as disciplinas organizam corpos simultaneamente úteis, produtivos, obedientes e dóceis, examino como Foucault compreende o discurso em torno do corpo produtivo na ordem capitalista emergente. Nesse contexto, a figura do indivíduo improdutivo é identificada como inimigo social, alimentando uma moralização que enquadra os ilegalismos populares e disciplina os desviantes econômicos. Essa análise está fundamentada na ideia de eficácia imaterial presente na caracterização foucaultiana do panoptismo, sob uma perspectiva que dialoga com elementos dumézilianos. Para desenvolver essa abordagem, sigo dois movimentos principais: primeiro, traço uma arqueologia do corpo produtivo com base nas primeiras quatro aulas de A Sociedade Punitiva; em seguida, demonstro o tipo de eficácia social desempenhada por esse corpo na lógica do panoptismo.
Este artigo examina a teoria moral de Adam Smith, enfatizando que nossos julgamentos morais são baseados no modo como percebemos as ações dos outros por meio do sentimento de simpatia. A teoria smithiana propõe um processo em que julgamos os outros e, em seguida, aplicamos esses padrões a nós mesmos para verificar sua validade. O artigo explora como a simpatia cognitiva – e não meramente psicológica - serve como a ferramenta chave para a avaliação moral, destacando o papel do espectador imparcial e do reconhecimento mútuo na formação do comportamento moral.
Este artigo defende a tese da colonização do mundo da vida proposta por Jürgen Habermas como modelo de crítica do capitalismo tardio, incluindo sua fase neoliberal. A introdução apresenta a teoria dual da sociedade moderna que está na base do modelo habermasiano. Nos capítulos seguintes, enfrentam-se três críticas a esse modelo por intérpretes nacionais e internacionais: o abandono da luta de classes, o abandono da teoria das crises do capitalismo e o abandono da crítica da ideologia. A partir das respostas a essas críticas, analisam-se os diferentes sentidos da tese da colonização (reificação, violência, ideologia e alienação) e sintetiza-se o seu sentido mais geral. As considerações finais explicitam a atualidade desse modelo para a crítica do neoliberalismo.
Na História da Filosofia é comum distinguir duas grandes reviravoltas depois da Idade Média: a reviravolta epistemológica e a reviravolta linguística. Além destas, muitas outras viradas e inovações são identificadas, alguns no pensamento de autores individuais, outras em grupos e vertentes específicos. Uma destas “revoluções menores” parece ser a Reviravolta Transcendental no pensamento de Immanuel Kant. Mesmo na teoria deste próprio autor, ela representa apenas um aspecto da assim chamada “Virada Copernicana” que, por sua vez, parece ser apenas uma última volta na tradição moderna da filosofia do Sujeito Cognoscente. O presente artigo argumenta que, na verdade, a Reviravolta Transcendental era mais fundamental que todas as subsequentes e que ela marca profundamente não apenas o pensamento filosófico, mas a visão do mundo em geral na contemporaneidade. Ela ganhou este impacto quando foi desvinculada do Idealismo Transcendental no qual a Doutrina Transcendental do próprio Kant estava inserida como também baseada. Enquanto tal doutrina sem base, ela tornou-se doutrinarismo e, junto com alguns acréscimos por G. Herder e G.W.F. Hegel, constituiu o fundamento implícito, mas inabalável do pensamento contemporâneo, com poucas exceções. Palavras-chave: Doutrinarismo transcendental, reviravolta, Kant, filosofia contemporânea, síntese originária.
Neste manuscrito do início dos anos 50, Foucault coloca em relevo a perspectiva Freudiana que substitui a abordagem biológica da doença fundada sobre o evolucionismo em direção a uma compreensão baseada sobre a significação psicológica. Contudo, ainda que o ponto de vista evolutivo não tenha sido jamais abandonado por Freud, se coloca a questão do saber enquanto, dentro da definição psicanalítica da doença e das suas relações com a personalidade, se distribuem os elementos de uma analise evolutiva e aqueles de uma compreensão significativa: qual equilíbrio pode ser instaurado entre eles, e qual imagem de homem doente resulta? Dito de outra forma, se a doença tem um sentido e se o sentido se define por um conjunto de reações significativas e coerentes em que consiste a doença? Palavras-chave: História. Psicanálise. Doença mental. Personalidade. Evolucionismo.
Partiremos da avaliação do tipo Jesus feita por Nietzsche em O Anticristo para averiguar em que medida o ethos anárquico do Cristo se apresenta como um sintoma do seu anarquismo fisiológico, o que significa dizer da sua décadence. Tendo como base a fisio-psicologia nietzschiana, propomos a hipótese de que Jesus Cristo e Paulo de Tarso constituem duas formas de vida antagônicas a partir das quais derivaram modos de vida também antagônicos: o modo de vida crístico, votado à prática evangélica, e o modo de vida paulino, votado à fé na imortalidade da alma. Pretendemos demonstrar que tal avaliação do tipo “santo anarquista", termo com o qual o filósofo alemão designou Jesus, é tributária da interpretação dos Evangelhos feita por Tolstói em seus escritos da segunda fase, de modo particular, no ensaio Minha Religião.
Este artigo explora o conceito de posse jurídica na filosofia de Kant, destacando como sua abordagem redefine a relação entre liberdade, direito e razão prática. O trabalho está estruturado em três partes principais: primeiramente, o artigo examina a distinção kantiana entre posse empírica e posse inteligível, argumentando que a posse jurídica não se limita à ocupação física, mas envolve uma relação normativa que transcende as condições espaço-temporais. Kant critica a teoria do trabalho de Locke, afirmando que a posse é uma relação entre pessoas, fundamentada na razão prática e no acordo coletivo, e não em um vínculo direto com o objeto; em seguida, o artigo aborda o direito real e o direito da sociedade doméstica, investigando como Kant fundamenta a aquisição originária de propriedade a partir de princípios racionais, sem a necessidade de mediação jurídica anterior. A análise destaca a importância do arbítrio coletivo e da constituição civil na legitimação da posse, que só se torna plenamente segura e legítima dentro de um quadro jurídico que harmoniza a liberdade individual com a liberdade universal; por fim, o artigo diferencia o direito natural do direito civil, enfatizando que, enquanto o primeiro é regido pela razão pura e pela justiça distributiva, o segundo envolve um sistema jurídico que garante a segurança das transações e a estabilidade das aquisições. Kant critica o uso de juramentos nos tribunais e defende a transição do estado de natureza para o estado civil como condição necessária para a coexistência pacífica e justa, onde os direitos de propriedade e as interações sociais são regulamentados por leis universais e princípios racionais.
The main objective of this work is to show how evolutionary ethics manages to overcome the empirical and conceptual challenges that are imposed on it. Contemporary evolutionary ethics endorses a methodological naturalist perspective, and can be characterized as a theoretical project that seeks to explain human morality from considerations of the theory of evolution. However, for this project to be carried out satisfactorily, it is necessary to overcome the challenges that have traditionally been posed to it, namely, the problem of altruism and the challenges of the naturalistic fallacy and Hume's law. In a first moment, it will be shown that the problem of altruism can be minimized from the theories of reciprocal altruism and kin selection. In a second moment, it will be shown that conceptual problems are minimized from the descriptivist character of evolutionary ethics. Finally, we will argue that, although pertinent challenges have been raised, evolutionary ethics manages to offer strong answers and consolidate itself as an important theoretical alternative and as a scientifically informed philosophical project.
A definição de justiça de Adam Smith como uma virtude moral baseada na "paixão" do ressentimento em “Theory of Moral Sentiments”(1759), apesar das aparentes contradições, apoia sua análise de uma sociedade aquisitiva e comercial em “Wealth of Nations” (1774), em parte ao impedir o conceito de um preço justo. Isso resolve parcialmente o “Adam Smith problem”.