
Este artigo refere-se à tradição do Concerto para Piano e Orquestra de Octávio Maul, composto em 1950 e estreado em 1951 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A pesquisa concentra-se na análise das fontes musicográficas manuscritas da obra, localizadas na Fundação Biblioteca Nacional e na Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da UFRJ. Os testemunhos examinados, autógrafos e cópias, revelam um processo criativo contínuo, marcado por revisões textuais e adaptações para performance. A investigação identifica modificações substanciais na partitura — como alterações de andamentos, reescrita de trechos instrumentais e indicações suplementares de execução — realizadas por Maul possivelmente durante os ensaios preparatórios, refletindo sua atuação como compositor-intérprete. Uma análise crítica de fontes permite compreender a natureza dinâmica da obra e evidencia a relevância do compositor no panorama da música de concerto brasileira do século XX. Por fim, o estudo aponta para a necessidade de uma edição que sistematize as modificações textuais e favoreça a circulação da obra no repertório contemporâneo.
A performance de harmonias pode ser concretizada desde a iniciação de crianças ao piano, por meio de atividades experimentais e de imitação (COSTA-GIOMI, 2003; 1994), que estejam alinhadas ao desenvolvimento motor do aluno. A partir de uma pesquisa de doutorado em andamento, identificamos, durante um projeto piloto realizado durante a pesquisa, habilidades técnico-pianísticas básicas para que a performance de harmonias seja acessível às crianças desde sua iniciação no instrumento. Nesse sentido, os objetivos desse artigo são: (1) analisar como essas habilidades técnico-pianísticas viabilizaram execuções harmônicas básicas no piano pelas crianças; e (2) apontar possibilidades pedagógico-metodológicas para a introdução de práticas de harmonia acessíveis, lúdicas e motivadoras desde as fases iniciais de aprendizado do instrumento. Esperamos contribuir com a Pedagogia do Piano, diminuindo a lacuna existente no âmbito do ensino da harmonia nesse contexto.
A Mini-Suíte da Sobrevivência Universitária: do Choro às Férias é um projeto de criação musical realizado com apoio do edital BIPAC/UTFPR. A proposta consistiu na composição de quatro peças instrumentais autorais, escritas em partitura para formações híbridas envolvendo violão de 8 cordas (ou viola caipira), violino e flauta transversal. O projeto explora o conceito de música de bordas, tanto por sua origem institucional — uma universidade tecnológica sem cursos de música — quanto pela abordagem estética, que combina gêneros populares (choro, forró, valsa) com práticas de composição experimental e coletiva para música de câmara. Neste artigo, apresentamos como o projeto foi desenvolvido e uma breve pesquisa sobre como os instrumentos musicais utilizados na proposta se situam no contexto sociocultural das músicas de borda.
Esta pesquisa buscou compreender como os pianistas formados no Curso de Bacharelado em Piano da Faculdade de Música do Espírito Santo (FAMES) estabelecem relações entre sua formação musical e a prática profissional no Estado do Espírito Santo. A motivação para o estudo partiu da observação da atual redução da procura pelo referido curso. Para alcançar os objetivos propostos, foram coletadas e analisadas informações provenientes de documentos institucionais e de entrevistas semiestruturadas realizadas com egressos do curso, com o intuito de compreender suas experiências tanto durante a formação quanto no mercado de trabalho. A partir da análise dos resultados, foi possível observar que, apesar de ter havido um aprimoramento no currículo do curso de bacharelado em piano erudito da FAMES, este ainda não atende integralmente às demandas contemporâneas que um músico irá enfrentar no mercado de trabalho, sobretudo no contexto capixaba.
Este artigo analisa dados da pesquisa O que quero com a música?: estudos musicais entre adultos com outras ocupações profissionais, que investigou as motivações e experiências de alunos com 35 anos ou mais, com outras ocupações, matriculados em aulas de música em quatro instituições de ensino de João Pessoa - PB. Adotando a História de Vida Musical, os dados foram coletados através de entrevistas narrativas de caráter autobiográfico. Por meio de análise qualitativa, o estudo revelou experiências musicais significativas na infância e na adolescência – em espaços de educação informal e não formal – que promoveram o capital cultural incorporado. No início da vida adulta, as obrigações profissionais e familiares levaram ao afastamento das atividades musicais. A retomada de aulas de música, quando dispunham de mais tempo livre, é marcada por relatos de prazer, bem-estar e realização pessoal, além de reencontro com aspirações individuais adiadas. A música passou, portanto, a ser uma atividade de lazer e de educação ao longo da vida.
Este trabalho reflete sobre as consequências do discurso identitário do movimento açorianista, surgido no Litoral Catarinense em meados do século XX. A investigação se desenvolve a partir da musicalidade do Boi de Mamão, tradição cultural oriunda da região e um dos símbolos contemporâneos de sua identidade, e se baseia em registros históricos, entrevistas e comparações com manifestações musicais de outras regiões brasileiras, bem como das ilhas açorianas. O trabalho se divide em três partes: a primeira discute as narrativas de origem, contextualização e musicalidade do Boi de Mamão, a segunda aborda o discurso muitas vezes unilateral e invisibilizador da identidade açoriana no litoral catarinense, e, por último, a terceira parte discute aproximações da identidade cultural do litoral catarinense com os universos culturais caiçaras. À vista disso, o presente trabalho aponta para possíveis rastros históricos de tradições indígenas e afro-brasileiras que marcaram a musicalidade dos bois-de-mamão e a identidade cultural catarinense.
O presente artigo investiga, a partir do processo de criação do curta-metragem “O Homem Subterrâneo” (proposto enquanto atividade pedagógica no contexto da disciplina de Piano do curso de Graduação em Música da UDESC), possíveis lugares de artistas ligados(as) à música enquanto experimentadores(as) da composição fílmica, disciplinas artísticas que se aproximam tanto em sua natureza temporal quanto em seus procedimentos. Utilizando-se de textos prévios enquanto pré-textos, o processo de criação do filme nos conduz ao conceito de texto em Barthes (2004) e a pensar a relação entre autoria e leitura, o que nos leva ao mesmo autor e a Lyotard (2021). O artigo apresenta referências, materiais e procedimentos presentes no processo de produção do curta, identificando-o à tradição dos filmes-sinfonia e aproximando-se de Schaeffer (2010) na reflexão sobre a (quase) ausência da palavra. Discute ainda possíveis relações entre som e imagem (vertical e horizontalmente) a partir de Schaeffer (2010) e Chion (2011). Portanto, o texto recorre sobretudo à corrente teórica francesa para fundamentar sua argumentação. Por fim, defende a capacidade do cinema de servir de via de aproximação à música de vanguarda.
Análise da sequência colorida de Ivan, o terrível, Parte 2, de Sergei Eisenstein, com música de Sergei Prokófiev, mostrando a importância da experimentação no processo de composição – tanto da cena quanto da música. A experimentação livre se dá principalmente no uso de módulos intercambiáveis, escritos por Prokófiev e utilizados com liberdade na montagem.
O envolvimento com fontes bibliográficas, audiovisuais e vivências corporais no ato de tocar um instrumento musical geram reflexões que promovem adensamento na experiência estético-perceptiva entre composição, interpretação e recepção. No presente processo de estudo pianístico, este envolvimento corpóreo e cognitivo com as características de cada estilo expresso nas peças trabalhadas se dá por meio da conexão entre saberes, sensações e articulações sonoras socialmente compartilhadas nos processos de performance musical. Neste artigo, são apresentadas abordagens teóricas para a prática de um repertório brasileiro para piano solo, a partir de perspectivas fenomenológicas e de cognição corporificada no estudo de ação pianística, respectivamente conforme Araújo (2020), Milani (2016) e Póvoas (2006), dentre outros autores que trazem à tona a integração de elementos sensório-motores e socioculturais na realização musical, com abordagens corpóreas, gestuais e perceptivas. O objetivo é conduzir um estudo interpretativo de três peças do compositor Osvaldo Lacerda por meio de associações entre características de tradições populares que as intitulam, de sua estrutura sonora e de propriedades cognitivas relacionadas. Tais propriedades são apreendidas da área de cognição musical com aportes do enativismo/atuacionismo. Os procedimentos realizados fundamentam-se em pesquisa exploratória interdisciplinar em torno de categorias e noções aplicáveis à prática artística, a qual é construída conforme metodologias e referenciais articulados.
Naná Vasconcelos é um dos avatares da música de invenção brasileira, tendo alçado a percussão e especificamente o instrumento Berimbau, a um protagonismo solístico internacional. Ignorado pelo ambiente e narrativas tanto à respeito daquilo que se consolidou como instrumental brasileiro quanto do ambiente discursivo do experimentalismo nestes territórios, este artigo vem apresentar a trajetória e a produção desse artista através de seus traços de inovação, experimentação e invenção, problematizando as limitações das percepções viciadas que, incapazes de ler as inovações nas epistemologias afro-diaspóricas, silenciam e reduzem essas produções exploratórias negras à esfera do folclórico e do exótico. Vou ler a produção de Naná através do dispositivo analítico da Práxis Criativa Negra, com o qual as produções experimentais negras são investigadas em suas condições de realização, para detectar como artistas com produções disruptivas em termos criativos consolidaram suas carreiras em um meio tão conservador como é o mercado musical. Ao identificar os modos de organização empregados na capilaridade internacional de uma obra tão inovadora e global como a de Naná Vasconcelos este trabalho objetiva aprofundar os conhecimentos sobre estética e ética no experimentalismo musical, uma vez que nas imaginações negras a luta política e social historicamente informaram as práticas artísticas.
A presente pesquisa faz parte de uma continuidade investigativa sobre a comprovisação contemporânea, desta vez sobre como poderia advir uma fenomenologia da criação comprovisativa a partir de uma perspectiva decolonial. Como um primeiro passo desta investigação, está sendo documentada a adaptação para violões microtonais e tape de uma peça do autor George Cristian Vilela Pereira, junto aos colaboradores Vladimir Bomfim e Heitor Dantas, intitulada metamórficas, para tape e diversos instrumentos à livre escolha, composta em 2020. A partir dessa adaptação, surgiram algumas indagações sobre a sua fundamentação e percebeu-se que, nela, há uma comprovisação sob uma perspectiva de notação específica em sua partituração gráfica e as implicações de liberdade musical, articulações instrumentais e de estruturação. O microtonalismo, em abordagens tanto discreta, quanto contínua, vem sendo sistematicamente aplicado tanto a partir de dois VMS (violões microtonais smetakianos) e de um violão folk em afinação hexacordal, como também através de um sintetizador fotoeletrônico, Virtual ANS. Constata-se aqui que há uma conexão não apenas com os VMS, mas também com as práticas de improvisação estrutural não-idiomática que vêm sendo desenvolvidas atualmente para adaptar metamórficas.
In the 1950s, Americans Hiller and Isaacson pioneered computer-generated music: “Iliac Suit”. Despite advancements in artificial intelligence (AI) systems, current music generation through machines still employs the paradigm established by Hiller and Isaacson (STEELS, 2021). Concurrently, emergent research on human-machine co-creation is reshaping the creative industries, enabling computers to contribute to music, art, and cultural production in ways that were previously unimaginable. Computers now create (make) music, art, and culture with potential for consumption (COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL, 2022). These transformations may alter music in epistemological and even ontological terms, restructuring the role of the composer. Computer science researchers and those from other technology fields have sought foundations in the humanities, particularly in art-based research, to underpin their studies (CARAMIAUX; DONNARUMMA, 2021). In this regard, there is an urgent need for research stemming from the academic field of music to establish a balanced dialogue with the field of computer science and other technologies. It is worth noting that in a context where music generation and AI projects are funded by professional software-producing companies, with economic investment driven by “usability” (RUTZ, 2021), it is arduous for the music field to conduct practical research on collaborative music generation between humans and machines since most current systems are not available for free experimentation. Therefore, this work aims to discuss the possibilities and challenges faced by researchers in the music field to conduct practical research on human-machine collaboration for music generation. This discussion has proven to be crucial from the challenges found in investigating whether collaborations between composers and AI music generation systems can preserve Brazilian cultural elements in musical outputs. Moreover it is vital as it addresses both the methodological barriers and the broader implications of integrating AI with cultural and creative expressions. The research aims not only to assess the feasibility of such collaborations but also to explore their potential to expand creative and cultural boundaries.
O artigo coloca o problema, para o entendimento da categoria trabalhono campo musical, representado pelas concepções ontológicas dualistas, que contrapõem ideia e matéria. Argumenta que tais concepções foram responsáveis por instituir uma cisão entre a condição de artista e de trabalhador/a da música, resultando –na vigência de relações sociais fetichizadas –no ocultamento do trabalho do músico. Como superação desse impasse, propõe a descoberta marxiano-engelsiana do trabalho como categoria fundante do ser social, incluindo o aporte lukácsiano: por meio do trabalho, o sersocial produz uma nova objetividade. A partir da mediação da consciência, a matéria natural é organizada pelo trabalho, originando entes e relações ontologicamente novos, sínteses entre ideia e mundo natural: ideias objetivadas. Por esta via, supera-se a contradição herdada entre arte e trabalho e abre-se a possibilidadedo desvelamento do real e para a práxis de construção da generalidade humana-para-si.
Neste artigo é abordada uma das etapas de aplicação de um recurso técnico-estratégico em formulação, o walking. O walking é um comportamento de mão esquerda ao violão, o qual pode ser definido como a sucessão de movimentos que possibilita a sustentação do som entre as notas, umasucessão de intenções. As etapas previstas para a aplicação do recurso são: planejamento ou organização da prática, treinamento e avaliação, sendo a primeira delas objeto deste artigo. Compreende-se o planejamento de uma execução instrumental como a sistematização da prática, contexto no qual a decodificação do texto musical possibilita a sua segmentação em partes que podem ser praticadas por meio de sistemas e/ou métodos de partes progressivas. Ao realizar-se a segmentação, é indicado considerar quais componentes (movimentos) da ação de mão esquerda ao violão são independentes e quais são interdependentes, evitando-se a prática isolada de movimentos que seriam melhor executados se praticados em conjunto. Para ilustrar a aplicação dessas proposições, é descrito o planejamento daação de mão esquerda em um excerto da peça Pavana II (1536) de Luis Milán. Resultados preliminares apontam para a possível aplicação dos direcionamentos aqui expostos, assim como para o aprofundamento da pesquisa.
Esta entrevista com o Prof. Dr. Rogério Costa, docente da Universidade de São Paulo e pesquisador da improvisação, aborda a experiência da Orquestra Errante, coordenada por ele desde 2009. Trata-se de um grupo voltado para a prática da Improvisação Livre e para a experimentação criativa coletiva, organizando-se e sustentando-se através de uma dinâmica informal, horizontal e auto-gerida particular. Enfocamos aqui as estratégias de manutenção da existência do grupo, de forma a incentivar a reflexão e a discussão acerca dos recursos possíveis para a sustentação a longo prazo de um projeto experimental no contexto acadêmico brasileiro, assim como dos desafios enfrentados por esses projetos.
O artigo apresenta um percurso metodológico, técnico e poético que articula três eixos principais: a composição colaborativa por desenho vetorial, o desenvolvimento de um sistema de notação gráfico-proporcional para intervalos xenharmônicos e a modelagem acústica via convolução FFT. Esses procedimentos convergem na realização do álbum Hybris: Ocarinas do Mestre Nado, lançado pelo selo independente Seminal Records, como síntese fonográfica do processo. A pesquisa é situada no contexto do grupo Gambioluteria (CNPq/PPGACL/UFJF), que investiga as interfaces entre algoritmos, escuta, luteria e pedagogias críticas. A obra propõe uma reconceitualização da escrita musical como gesto expandido, onde escuta, espaço e memória se entrelaçam.
Este artigo investiga a técnica do trêmulo no violão, considerando suas implicações teóricas, composicionais e performáticas, a partir da análise de duas obras autorais – Escritos no Pó (2023), para violão e eletrônica, e Cinéticas de Io (2024), para violão de oito cordas. Inicialmente, o estudo aborda os conceitos do trêmulo na teoria musical e suas variações práticas em distintas famílias instrumentais, destacando seu valor como recurso timbrístico e como solução para limitações técnicas de certos instrumentos, como a sustentação de notas longas. Em seguida, aborda a técnica no violão, apresentando-a com amplo potencial expressivo, sendo capaz de produzir texturas complexas e expandir as possibilidades polifônicas do instrumento. Por fim, a análise das obras evidencia o papel do trêmulo como elemento unificador e estruturante no processo composicional, ao mesmo tempo em que sugere formas de execução, classificação e exploração na música contemporânea. Este estudo busca, assim, contribuir com violonistas, compositores e pesquisadores, oferecendo uma abordagem integradora entre prática e teoria.
Este texto investiga os atravessamentos entre corpo, tecnologia e criação sonora na obra “Você já viu um pássaro morrer?” (2024), para viola, voz e fita. A partir de uma abordagem artístico-fenomenológica, explora-se o processo criativo como parte de uma pesquisa sobre a presença e a corporeidade do performer em contextos híbridos. Dividido em quatro seções, o artigo contextualiza a criação da peça, analisa seus impulsos experimentais e suas referências poéticas (Costa, Zumthor, Caesar, Merleau-Ponty), e reflete sobre os processos composicionais à luz da instrumenticidade de cada camada sonora. Improviso, crônica e sons naturais são articulados numa poética que tenciona fronteiras entre o falado e o cantado, o acústico e o eletrônico. A peça propõe, assim, uma escuta encarnada e um convite à continuidade de investigações artísticas sobre o corpo como eixo criador e mediador.
Sergio Freire Garcia é compositor, pesquisador e professor associado da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atuando nas áreas de composição, orquestração e sonologia. Desde 1998, coordena o Laboratório de Performance com Sistemas Interativos (LaPIS), espaço de experimentação e desenvolvimento de novas interfaces para a criação musical. Com graduação em composição pela UFMG, mestrado em sonologia pelo Instituto de Sonologia de Haia (Holanda) e doutorado em comunicação e semiótica pela PUC-SP, sua trajetória acadêmica e artística é marcada pela investigação das interseções entre prática musical acústica e novas tecnologias. Nesta entrevista, realizada no dia 27 de fevereiro de 2025, via Google Meet, Sergio Freire compartilha suas experiências e reflexões sobre temas centrais de sua produção, como a composição com sistemas interativos, a relação entre tecnologia e obsolescência, e a prática de ensino e performance no contexto da música experimental. A conversa também aborda sua atuação no desenvolvimento dos sistemas Obié, Pandora e GuiaRT, bem como os desafios da música de borda na América Latina. A entrevista foi conduzida por Belquior Guerrero e Rodrigo Frade e concebida de forma semiestruturada, com o roteiro enviado previamente ao entrevistado. Após a transcrição, o material foi revisado e validado por Sergio Freire, garantindo a fidelidade ao conteúdo discutido. Os sistemas indicados podem ser visualizados no canal do Youtube do LAPIS, através do seguinte link: https://www.youtube.com/@lapisufmg5465 [2]O Prof. Dr. Sergio Freire Garcia assinou o Termo de Consentimento para a publicação da entrevista no Dossiê “Músicas de Borda - Propostas para pensar a noção de centro e a periferia no campo da música contemporânea na academia” da revista Orfeu.
Este trabalho traz reflexões acerca da música de câmara com violão extraídos de conceitos relacionados à polifonia discursiva (ou heterodiscurso) do linguista e filósofo russo Mikhail Bakhtin. Aqui relacionamos o conceito de interação dialógica na preparação para a performance musical das obras Toccata Polkeada, de Cyro Delvizio para quarteto de violões, e o segundo movimento de Na-Yucat VI, escrita pelo compositor Roberto Victorio para violoncelo e violão. Para analisar as dinâmicas heterodiscursivas no citado repertório específico, é aplicada a teoria do dialogismo de Bakhtin, destacando-se a interação entre compositor, intérpretes e os próprios instrumentos musicais. Dentro da polifonia discursiva são apresentadas as três categorias: a hibridização, a interiluminação e a confrontação. Tais categorias mostram-se apropriadas para a construção da performance de uma obra, onde as interações, intricadas ou não, raramente recorrem a categoriais tradicionais como acompanhamento ou linha principal. Através da aplicação de conceitos bakhtinianos de polifonia dialógica e seus modelos de interações, propõe-se estratégias e procedimentos adotados pelos intérpretes para promover interações expressivas e coesas nos grupos de câmara investigados e nas obras. Os resultados, apontam para a importância do diálogo e da interação entre os músicos na criação de uma expressão musical coerente e autêntica.