
O desaparecimento de pessoas é um fenômeno amplo, multifacetado e polissêmico em que vários atores sociais estão envolvidos. O Estado tem participação direta, quer pela negligência para com as estatísticas (ausência de políticas públicas efetivas para combater o fenômeno), quer como responsável efetivo (quando através de seus agentes, é o próprio Estado quem pratica o desaparecimento). Mesmo quando não há agentes do Estado por trás do desaparecimento, as vítimas e familiares continuam a depender da sua atuação. No Brasil contemporâneo, os desaparecimentos forçados vêm se tornando um dos problemas de segurança pública mais urgentes, configurando um processo contínuo de violência institucional e de violação dos direitos humanos. De acordo com o mapa dos desaparecidos de 2024, em média 223 pessoas desapareceram por dia no país, com destaque para jovens negros entre 13 e 17 anos (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025). A partir deste cenário, este estudo analisa a categoria “desaparecimento” endereçando suas raízes históricas e sociais. Sujeitos políticos destacados no combate aos desaparecimentos, as mães e familiares de vítimas serão especialmente examinadas em suas ações coletivas de combate e resistência frente ao abandono do Estado. Desta forma, a pesquisa se propõe a refletir sobre as seguintes questões: o que caracteriza o fenômeno? Como se posicionam contemporaneamente os agentes do Estado diante do fenômeno? Como se relaciona o fenômeno com a reprodução social? Como se articulam as mães enquanto sujeito político junto ao poder público frente ao problema? Através de análise bibliográfica e documental, pretendemos discutir características e desafios do combate ao desaparecimento forçado no Brasil.
Cuando las dictaduras cívico-militares del Cono Sur de la segunda mitad del siglo XX llegaron a su fin, los Estados, auspiciados por la presión de las víctimas del terrorismo estatal y sus familiares, pusieron en marcha las comisiones extrajudiciales. Estas estuvieron a cargo de investigar los crímenes cometidos por el Estado con el fin de esclarecer los hechos ocurridos, reparar la memoria y la dignidad de los afectados, y producir una “verdad oficial” reflejada en un informe final que mostrara no sólo las violaciones a los derechos humanos, sino la responsabilidad del Estado como principal culpable de ejercerlas. En este trabajo, se analizarán concretamente las comisiones creadas en Argentina, Chile y Uruguay, así como el proceso transicional posterior a su conformación, con el fin de comprender los diversos procesos que propiciaron en la política, la sociedad y en los tribunales. Para concluir, se pondrán de relieve las similitudes de los procesos transicionales de los tres países, y, sobre todo, las diferencias y el porqué de estas.
Neste artigo faço uma reflexão crítica da obra de testemunho “O dia que conheci brilhante Ustra” (2024). O referencial teórico inclui autores como Theodoro Adorno, Beatriz Sarlo, György Lukács, Wilhelm Dilthey, retoma-se as discussões de história e literatura, testemunho e a escrita literária como meio de análise, no caso a experiência do narrador e de seu sequestro e encarceramento nas instalações do DOI-CODI em São Paulo em 1973. Através da leitura imanente sobre os principais nexos constitutivos no livro busca-se entender o testemunho para além dos elementos de subjetividades do narrador, percebendo seus recursos historicamente trabalhados, suas estratégicas de leitura e alcance de público. Considerando o testemunho como instrumento importante de documentação e verificação da realidade histórica, uma problematização deve ser feita: a subjetividade inerente à representação literária diminui ou restringe o valor dos testemunhos sobre experiências históricas? Quais os problemas e lacunas o testemunho deste trauma, escrito dentro de um período de extrema guerra ideológica, tomado como documento empírico, poderia provocar?
This article analyzes the programs of the four governments of the Concertación de Partidos por la Democracia (Concertation of Parties for Democracy) with the aim of finding out whether, in its projective dimension, the aforementioned coalition sought to make significant transformations to the socioeconomic model inherited from the dictatorship, characterized by openly benefiting the interests of big business. The main results show that the government programs present both continuities and distances with the dictatorial past, but did not propose measures that would substantially modify the dictatorial model, which questions some theses regarding the concertacionista project.
This article examines capitalist exception regimes in the Americas from a Marxist and Gramscian perspective, focusing on structural conditions, relations of force, and state transformations in contexts of hegemonic crisis. It begins with a critique of the liberal “transition to democracy” approach, which reduces political change to a linear process of institutional evolution, while neglecting class contradictions, the reconfiguration of state forms, and the pressures of the imperialist system. Drawing on the concept of the capitalist state as both a condensation of social relations and a strategic field of struggle, the analysis explores how the state of exception emerges as a form of direct domination in the face of the collapse of bourgeois consensus, expressing both the fracture of the historical bloc and the attempt to reorganize it through state violence. The study demonstrates that these regimes are not anomalies but rather specific forms of power organization under conditions of dependency and structural crisis. Their overcoming does not entail a rupture with class power, but rather its reconfiguration under liberal-democratic forms that incorporate exceptional practices as part of the normalized order. In this sense, regime change should be understood as a hegemonic reconfiguration rather than as a simple democratic restoration. The article concludes that the category of capitalist exception regimes provides a more rigorous framework for analyzing the continuity between dictatorship and democracy in peripheral capitalism, while also offering tools for a critical interpretation of contemporary Latin American politics.
A imprensa costuma reivindicar para si o estatuto de guardiã da democracia e de mediadora imparcial do debate público. Entretanto, a análise histórica dos regimes de exceção na América Latina —e, de modo particular, nos países do Cone Sul— evidencia um papel profundamente ambíguo, quando não diretamente cúmplice, desempenhado por significativos grupos midiáticos na legitimação e sustentação de projetos autoritários. No núcleo desse complexo de relações encontra-se a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP/IAPA), fundada em 1943 sob forte impulso da política externa dos Estados Unidos, em um contexto de consolidação de sua hegemonia continental no pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Longe de atuar apenas como fórum profissional ou defensora abstrata da liberdade de imprensa, a SIP/IAPA consolidou-se como polo de articulação de interesses empresariais, políticos e ideológicos, promovendo agendas convergentes com a lógica geopolítica norte-americana e mobilizando o discurso da “liberdade de imprensa” como ferramenta de legitimação de sua atuação e de desqualificação de projetos políticos adversos aos interesses de suas bases empresariais. O conceito de terrorismo empresarial midiático emerge, assim, como ferramenta para compreender o papel ativo da mídia na naturalização do estado de exceção. Diferente de leituras que opõem imprensa e autoritarismo como polos inconciliáveis, esta pesquisa revela a simbiose entre elites midiáticas e regimes de exceção. Essa simbiose se efetivou por meio de redes coordenadas de desinformação, censura seletiva e sincronização editorial —sustentadas por agências como a CIA, a National Endowment for Democracy (NED), a Ford Foundation, a Freedom House e outras estruturas de influência ideológica do imperialismo estadunidense.
This article offers a comparative analysis of the experiences of persecution, detention, and survival in Uruguay (1973-1985) and Argentina (1976-1983), based on interviews with former political prisoners and former disappeared-detainees from both countries, complemented by academic and testimonial literature. It argues that, although both regimes collaborated and shared authoritarian practices, the technologies of repression they employed differed significantly: in Uruguay, prolonged imprisonment and forced exile prevailed, whereas in Argentina, a vast system of enforced disappearances and clandestine repression was implemented. These divergences shaped the conditions of release for detainees, their possibilities for social reintegration, and the subsequent representations of their experiences. The article provides analytical tools for examining the effects of different repressive mechanisms and their long-term impact, both on direct victims and on society as a whole, influencing the construction of collective memory and the processes of democratic reconstruction.
This paper reviews the evolution of advertising in Chile between 1850 and 1950, analyzing how it evolved from simple informative advertisements to sophisticated and persuasive advertisements that financed the press media. This transformation reflects the economic and social development of the country during the modernization process and is materialized in the increasing volume of advertisements published in newspapers. Three types of advertisers were identified, as well as changes in target audiences in terms of gender, age and occupation, and four stages in the periodization of Chilean advertising are proposed.
In the context of the incipient process of radicalisation that began in Argentina after the fall of the second government of Perón (1955) and under the influence of the echos of the Cuban Revolution (1959), numerous parties and political groups experienced important changes in their identities and political programs, including right-wing nationalists. Right-wing Argentine nationalism was characterised in the late fifties and sixties by its gradual populism. At the same time, the general “nationalisation” of Argentine politics prompted the nationalists to also redefine their own identity. These transformations and declarations of identity, which have rarely been analysed by historiography, are reflected in numerous graphic images published in nationalist magazines, weeklies and pamphlets of the time, which are analysed in this article.
En este artículo se estudian dos revistas chilenas que circularon en el campo cultural de mediados de la década del cincuenta: Viento Sur. Revista de Literatura y Arte (1954) y La Gaceta de Chile. Revista de Artes y Letras (1955-1956)[1]. A partir de su análisis, es posible observar que, pese a que ninguna declaró afiliaciones políticas, existieron significativas convergencias que revelan un influjo de fondo del programa literario del Partido Comunista de Chile. En este sentido, se sostiene que, aunque desde sus propias autonomías y particularidades, estas publicaciones se levantaron como estrategias culturales de dicha tienda política, ocupándose así de las tareas planteadas por esta, como la de promover y estimular un determinado tipo de concepción literaria, considerada realista, nacional, popular y antiformalista. [1] En adelante, Viento Sur y La Gaceta.
El objetivo fue explorar la instalación del trabajo profesional femenino vinculado al entorno de los cuidados en Valparaíso, Chile (1910-1920). En base a un estudio de caso se exploró el género y la descentralización de la historia de la salud, compatibilizando la historia local con una perspectiva más global. Los archivos permitieron revisar datos de mujeres migrantes y enfermeras tituladas inglesas en el periodo entreguerras, que arribaron al país en el marco del proceso de secularización del cuidado de la salud antes de que se fundaran Escuelas de enfermería. Utilizando fuentes de archivos históricos complementados con objetos personales y fotografías pertenecientes a una colección privada en Valparaíso, se demostró la diferenciación en procesos regionales y portuarios, la participación, agencia y espacios de acción de la mujer. En el caso de la enfermería, hubo variaciones en competencias, capacitación y origen de las mujeres que desempeñaron el oficio en un espacio de tiempo relativamente acotado y donde hubo un mejoramiento e innovación en los cuidados, pero sin llegar aún a la institucionalización propiamente tal.
O ouro do Brasil ocupa um lugar de destaque na historiografia sobre o desenvolvimento económico moderno. Mas as análises de produção do ouro não consideram o problema da fiscalidade. O ouro representou um grave problema fiscal – ligado ao défice de representação dos povos – e à pressão e intimidação militar das potências emergentes: Inglaterra, França e Países Baixos, estabelecendo relações predatórias com a economia e as elites políticas e comerciais em Lisboa e no Rio de Janeiro e Minas Gerais nas primeiras décadas do século XVIII. Os ministros em Lisboa viram a entrada de metais preciosos como a única forma de manter as colónias ameaçadas pela falta de dinheiro ou por taxas de juro demasiado elevadas. O ouro ganhou enorme preponderância por permitir intensificar relações com um outro grande continente em crescimento acelerado, o tal mercado glorioso: a América do Sul. Mas nem Hume, nem Smith tiveram em conta como a produção de ouro dependia de uma complicada maquinaria fiscal e política, no centro da qual estava o escravizado.
Este ensayo examina los contornos generales de la esclavitud indígena en la América colonial, situando la legalización de la esclavitud mapuche dentro del marco más amplio del trabajo forzado y la servidumbre que afectaron a las poblaciones indígenas durante el período colonial. Comienza abordando la esclavitud indígena como un problema historiográfico, destacando su relativa invisibilidad para los historiadores modernos, especialmente en comparación con la esclavitud africana. A pesar de esta omisión, las sociedades coloniales americanas establecieron un sistema doble de esclavitud—indígena y africana—que a menudo funcionó de manera simultánea y complementaria en el continente. Se explora luego la conexión entre la esclavitud indígena y el sistema de encomienda, la forma de trabajo forzado legal más extendida en la América colonial temprana. El ensayo concluye con una discusión sobre la esclavitud mapuche, centrándose en sus prácticas antes y después de su legalización formal en 1608.
La fotografía psiquiátrica en las décadas de 1960 y 1970 emerge como una herramienta importante para documentar la crisis de legitimidad que la asistencia psiquiátrica experimentaba desde los años de 1940, una vez terminada la Segunda Guerra Mundial. Principalmente en Italia, la fotografía denuncia promovió cambios políticos e ideológicos que contribuyeron a la promulgación de la llamada Ley Basaglia. En Chile, sin el carácter marcadamente político que tuvo en ese país europeo, se utilizó la fotografía para promover y dar a conocer reformas en la asistencia psiquiátrica.