
No dia 30 de agosto de 2023, na comunidade de Nazaré (município de Lagoa de São Francisco-PI), foi inaugurado o Museu dos Povos Indígenas do Piauí (MUPI). As narrativas desenvolvidas pelas mídias municipais e estaduais abordam o evento como o sucesso de uma iniciativa promovida pelas instituições estaduais que buscam apoiar as reivindicações políticas dos povos indígenas. Na realidade, o MUPI constitui o resultado de um conjunto de processos mais complexos e articulados em nível local, estadual e nacional que têm nos povos Tabajara e Tapuio-Itamaraty, moradores da comunidade Nazaré, seus protagonistas e no Museu Indígena “Anízia Maria” o instrumento privilegiado para o reconhecimento de memórias e identidades silenciadas. Este artigo analisa algumas etapas desta trajetória desde 2016 até os dias de hoje, focando nos eventos mais marcantes associados ao processo de fortalecimento identitário e político dos povos Tabajara e Tapuio que corroboraram com a criação do MUPI.
Recensão a Ailton Krenak, Futuro ancestral, São Paulo: Companhia das Letras, 2022, 122 pp.
Em Atouguia da Baleia, antigo porto medieval hoje a 5 km do mar, encontram-se com intrigante regularidade ossos de cetáceos nas casas das avós. Na exposição “A Baleia em Atouguia” resgataram-se histórias da população de Peniche, e muito concretamente da vila da Atouguia, com a baleia e a baleação. A exposição foi inaugurada em março de 2023 no CIAB – Centro Interpretativo de Atouguia da Baleia (integrado na Rede Museológica do Município de Peniche), numa curadoria partilhada entre o Município e o CHAM – Centro de Humanidades (NOVA FCSH), com apoio científico do projeto ERC 4-OCEANS. Nesta iniciativa foram aplicadas estratégias museológicas participativas e técnicas colaborativas de cariz interdisciplinar. Este processo chamou a comunidade a atuar como produtora de conhecimento e como inventariante e contribui, assim, para uma gestão mais eficaz do património local, fomentando a recuperação da memória coletiva e a salvaguarda do património cultural e natural.
Reseña de Davi Kopenawa y Bruce Albert, A queda do céu, São Paulo: Companhia das Letras, 2015, 768 pp.
Estudo de caso da produção de memórias apoiadas em fotografias do coletivo nuances (grafia em minúscula do nome é uma escolha do coletivo) – Grupo pela Livre Expressão Sexual – organização da sociedade civil que luta pelos direitos humanos e civis da população LGBT+. Desde 2019, o curso de bacharelado em Museologia e o programa de Pós-graduação em Museologia e Patrimônio, ambos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuam com o nuances, se apropriando da museologia aplicada como meio de diálogo com a sociedade. O recorte são os registros das Paradas Livres considerados testemunhos de uma história esquecida nas narrativas hegemônicas da cidade de Porto Alegre, mas que compõe um conjunto de lutas sociais do Brasil. O trabalho envolveu a realização de roda de memória, a partir da metodologia da história oral. Propõe-se, assim, uma análise do processo metodológico, compreendendo a musealização como estratégia de mobilização da consciência coletiva.
À l’ère des réseaux, les institutions muséales ont de plus en plus recours aux pratiques collaboratives et aux partenariats. Bien que souvent à l’oeuvre dans des projets d’exposition, elle est peut aussi s’infiltrer dans l’acquisition, puis bousculer les pratiques de collectionnement habituelles. Cet article étudie deux modalités de muséalisation collaboratives : l’acquisition conjointe et la garde partagée. Si l’acquisition conjointe réfère à la propriété partagée d’une oeuvre par plusieurs institutions, muséales ou non, la garde partagée concerne plutôt un partage de l’autorité décisionnelle quant à une oeuvre inscrite dans les collections sans transfert de propriété. Cet article propose en première partie de poser les fondements théoriques autour de ces deux concepts, puis de les considérer à travers l’étude de cas du Musée des beaux-arts du Canada. L’historique institutionnel sera épluché pour faire ressortir sa propension à la collaboration et aux partenariats qui ouvrent la voie à des pratiques collaboratives renouvelées.
Recensão a Nila Rodrigues Barbosa, Museus e etnicidade: o negro no pensamento museal. Curitiba: Appris, 2018, 183 pp.
Davi Kopenawa é xamã e porta-voz dos Yanomami, maior população indígena de recente contato e habitante de um território de mais de nove milhões de hectares situado nos estados do Amazonas e Roraima, Brasil. Presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), Kopenawa é conhecido internacionalmente como uma das vozes mais importantes na defesa da Amazônia, sendo autor dos livros A queda do Céu: palavras de um xamã Yanomami e, mais recentemente, de O Espírito da Floresta, nos quais relata, a partir da perspectiva da cosmologia yanomami, a sua história de vida e a sua luta contra o garimpo ilegal e em defesa do seu território e do seu povo. Em 30 de janeiro de 2023, o recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou o Decreto Nº 11.405, determinando medidas federais para o enfrentamento da emergência em saúde pública e para o combate ao garimpo ilegal. Este decreto visa responder à grave situação de crise sanitária na qual se encontravam os Yanomami após quatro anos de gestão federal do ex-presidente Jair Bolsonaro, que é investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e denunciado no Tribunal Penal Internacional de Haia pela suposta prática de genocídio contra os Yanomami. Em março de 2024, o presidente Lula assinou Medida Provisória que liberou um crédito extraordinário de 1 bilhão de reais para ações vinculadas ao plano de trabalho urgente e estruturante na Terra Indígena Yanomami, voltado à assistência ao povo Yanomami e à desintrusão garimpeira. Essas ações visam manter a presença dos órgãos federais na região, combater o garimpo e a mineração ilegal, distribuir cestas de alimentos e ferramentas, além de realizar ações estruturantes voltadas à segurança alimentar, à proteção social, ao monitoramento ambiental e à educação escolar indígena. Esta entrevista foi realizada em uma noite de março de 2024, ocasião na qual recebi Davi em minha casa em Boa Vista, Roraima, semanas depois de sua participação no desfile de carnaval da Escola de Samba Salgueiro que teve como tema o povo Yanomami. A entrevista tem como objetivo possibilitar que mais pessoas conheçam a trajetória de vida e a luta política de Kopenawa. Nela, Davi aborda a história da sua infância e sua perspectiva sobre a chegada dos brancos em seu território, sua tomada de consciência de quem são os invasores e as consequências do contato com a sociedade não indígena. Destaca também, a importância da memória para os Yanomami, o seu papel de tradutor cultural e detentor dos saberes xamânicos, além de falar sobre os desafios atuais e sobre a sua atuação como representante do seu povo.
El análisis de experiencias expositivas, realizadas por jóvenes universitarios de Colombia que entienden la importancia de la salvaguarda de las memorias, nos permite dimensionar cómo los objetos y las fotografías son eficaces en la activación de los recuerdos y cómo a partir de estas materialidades podemos entender prácticas, discursos y experiencias que nos acercan a los contextos situacionales de una sociedad abatida por diferentes violencias. Los resultados de dicho estudio servirán para la construcción de narrativas visuales y para persistir en la valoración de los archivos personales como parte integral en la construcción de las memorias de un país que busca la paz.
Reseña de Antônio Bispo dos Santos, A terra dá, a terra quer, São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023, 112 pp.
Este artigo aborda a participação de segmentos sociais historicamente invisibilizados ou subalternizados em museus, adotando como cenário de estudo e análise o Museu Histórico Nacional no Brasil e, mais especificamente, as exposições Brasil decolonial: outras histórias, 10 objetos: outras narrativas e Îandé: aqui estávamos, aqui estamos. Os enunciados expositivos são investigados como frutos de processos de experimentação institucional que buscam romper com a perspectiva absoluta e celebratória da História Nacional. Primeiramente, apresenta a problemática da participação social no contexto dos museus a partir das transformações de seu papel no decorrer do tempo. Questiona-se: em favor de quê e/ou de quem são mobilizados os processos de participação social em museus? Posteriormente, busca sintetizar a trajetória do Museu Histórico Nacional, que suscitou movimentos de revisão e reformulação das narrativas institucionais que desaguaram na produção das três exposições em análise. Por fim, observam-se os três enunciados expositivos mencionados.
Este artigo descreve o ritual Ye’kwana de construção de sua casa redonda (ättä), realizado em 2016, na comunidade de Fuduwaadunnha, Terra Indígena Yanomami. A ättä Ye’kwana é construída a partir da memória e da cosmologia desse povo e foi descrita pela primeira vez pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, no livro “De Roraima ao Orenoco”, marco do americanismo e da museologia alemãs na Amazônia. Os Ye’kwana são um povo de língua caribe com população estimada em 7.000 pessoas, que habitam aldeias distribuídas ao longo de seu território tradicional na Venezuela e no Brasil. Entendendo a audição como sentido privilegiado para o acesso ao conhecimento e se utilizando de diferentes códigos acústicos, os Ye’kwana constroem suas casas relacionando-as à cosmologia, aos sons, à memória e às artes verbais. Para pensar sobre essas questões, uso o conceito de cosmosônica para iluminar a centralidade dos aspectos sonoros na cosmologia desse povo do Caribe.
O futebol no Brasil, além de ser uma prática esportiva, é também um fenômeno sociocultural. Uma parte considerável dos clubes, desde a primeira metade do século XX, possuem salas de troféus, memoriais e museus dedicados a apresentar narrativas comemorativas, voltadas, sobretudo, para o futebol de homens. Contudo, a formação das coleções e acervos clubísticos não contemplou uma série de perspectivas sobre os clubes e seus atletas, invisibilizando a participação das mulheres. Nesse sentido, o artigo apresenta os processos de musealização aplicados na coleção de futebol de mulheres do Museu do Grêmio – Hermínio Bittencourt, localizado em Porto Alegre (RS), através de um trabalho multidisciplinar que proporcionou dinâmicas de novas ações colaborativas do clube com as atletas, ex-atletas, torcedoras e pesquisadores da agremiação, mediadas pelo museu. Como resultado, esse processo colaborativo tem contribuído para sensibilizar e destacar a potência do museu como lugar e fonte de pesquisas, escuta e atuação social.
Propõe-se uma análise do Maio de 68 e da sua sobrevida nas reflexões pedagógicas de dois pensadores que lograram transformar os estímulos iniciais da crítica revolucionária numa potência criadora. Como os estudantes em revolta, Gilles Deleuze e Jacques Rancière questionaram o empobrecido e monolítico ensino universitário do seu tempo. Destacamos o seu ponto de passagem comum, o Centre Universitaire Expérimental de Vincennes (Paris VIII), instituição criada pelo governo no rescaldo da insurreição, e que ficou conhecida como uma “anti-Sorbonne”, onde se cultivava a pesquisa em pequenos grupos no quadro de uma inusitada interdisciplinaridade. Foi aí que Deleuze experimentou a sua mudança enquanto professor, desenvolvendo uma conceção musical de aula. Foi em Vincennes, enfim, que Rancière começou a trilhar o seu percurso de emancipação intelectual, culminando na noção radical de que o pensamento é um exercício que parte da igualdade para a diferença, não carecendo de quaisquer mediadores ou explicadores.
In the seventeenth century, the Dutch Republic was at the forefront of modernity, though not quite modern yet. The disproportion concerned a crisis that would burst out in 1672: a crisis of the bourgeoisie, the protagonist of modernity. Following Antonio Negri, Baruch Spinoza is the philosopher who was able to go beyond the crisis from within. After all, Spinoza is a thinker of immanent production and liberation, the thinker of the multitude. However, the critical year of 1672 remains in the shadows of Spinoza’s and Negri’s work. Both seem to consider 1672 under a certain ambiguity. It is precisely this ambiguity that we will trace in order to advance the philosophy of crisis and multitude. By understanding 1672, we will be able to orient ourselves better in modernity, together with Spinoza and Negri. This essay brings us back in the disproportion of history: revolution.
Review of Audrey Truschke. The Language of History: Sanskrit Narratives of Indo-Muslim Rule. New York: Columbia University Press, 2021, 351 pp.
This article examines the way in which the repatriated population from the former Portuguese colonies in Africa is integrated into the speeches delivered during the solemn parliamentary commemorations of the Carnation Revolution. Based on a systematic analysis of the speeches of all the Portuguese political actors who took part in the commemorations of 25 April, from 1977, the date of the first session to be organised, until 2023, the aim of this article is to determine whether some periods stand out in terms of the frequency with which the former settlers are mentioned, and whether some political actors stand out from their peers in raising these issues. It also seeks to understand whether the emergence or disappearance of political actors over the years has influenced the way in which the issue of the retornados has been addressed during the parliamentary commemorations.
Recensão a Alice Wilson. Afterlives of Revolution: Everyday Counterhistories in Southern Oman. Stanford: Stanford University Press, 2023, 312 pp.