
SOUZA, Airton. Outono de Carne estranha. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2024.Recebi o livro dando ciência ao autor pelo WhatsApp da entrega feita pelos Correios. Ele me lançou uma oração: “Tomara que esse livro te espante!”. “Já espantou! Li a primeira frase!” Respondi. Eu tinha de fato lido a primeira frase e fiquei impactado, fechei o livro e coloquei na fila dos pendentes para leitura. A fila tem a preferência dos autores que eu conheço, que se lançam nesse mundo de publicações e eu me sinto comprometido em acompanhar suas trajetórias. Confesso que fiquei mesmo surpreso com a linguagem direta, realista, objetiva e impactante do início do romance.
O presente texto traz resultados de uma pesquisa que investigou a formação de lideranças femininas quilombolas no município de Mocajuba, estado do Pará, Brasil. O foco foi a trajetória de vida de Marcele Nunes Cabral, líder da Comunidade Quilombola de Vizânia. Para analisar a construção dessa liderança, consideramos seu contexto histórico e educacional, assim como suas lutas e resistências. A metodologia utilizada foi a história oral. Nos embasamos na teoria decolonial e na afrodescendência, com autores como BHABHA (2010), ESCOBAR (2005), HALL (2006), CUNHA JÚNIOR (2005), PEREIRA (2007), que contribuíram para uma reflexão sobre uma Pedagogia Decolonial. Os resultados mostram que a formação da liderança feminina quilombola na Comunidade Quilombola de Vizânia envolve processos culturais e políticos, marcada por conflitos e pela luta contra o racismo e a negação da afrodescendência na região Amazônica, especificamente, às margens do rio Tocantins, onde ocorrem práticas de resistência identitária. As ações decorrentes desse processo possuem uma dimensão pedagógica, promovendo uma educação antirracista e valorizando a identidade e cultura negra como fundamentos de uma Pedagogia Decolonial.
Este trabalho aborda os possíveis impactos da estrutura escolar e das práticas pedagógicas nos indicadores de rendimento e qualidade do ensino. A qualidade educacional está profundamente relacionada à infraestrutura escolar, à formação qualificada dos docentes e à gestão eficiente dos recursos. Trata-se de uma revisão da literatura de caráter bibliográfico. Infraestruturas adequadas, como salas de aula bem equipadas, acesso à tecnologia e espaços seguros, são cruciais para um bom aprendizado. Contudo, a qualidade do ensino também depende da formação contínua e da motivação dos professores. A estrutura escolar por si só não garante bons resultados, sendo necessária uma gestão eficiente de recursos e a implementação de práticas pedagógicas adequadas. O desempenho dos estudantes em avaliações externas, como o ENEM e o SAEB, está diretamente relacionado ao acesso a esses recursos. Diante disso, a motivação intrínseca é fundamental para o sucesso acadêmico. Conclui-se que o Estado deve se preocupar não apenas com a construção de escolas, mas também com a equidade, a valorização dos profissionais da educação e a melhoria das práticas pedagógicas, promovendo, assim, um ensino de qualidade e o desenvolvimento social.
Este estudo tem como propósito analisar a postura dos movimentos sociais na conjuntura atual, tanto nacional quanto global. O enfoque principal está na análise das perspectivas que se opõem às políticas de desenvolvimento e como elas buscam alcançar seus objetivos. Optamos por traçar um panorama histórico da questão, especialmente relacionado à geração de energia por meio da construção de hidrelétricas. Nosso objetivo é investigar a trajetória percebida pelo MAB como um movimento popular, examinando sua autonomia organizacional em nível local (Região do Entorno do Lago de Tucuruí) em comparação com sua estrutura nacional. Foram identificados os fatores que levam os afetados a se mobilizarem em prol de seus direitos, sem distinção de fronteiras nacionais, raça, gênero, religião ou filiação política, que possam influenciar o movimento. Também examinamos o confronto na definição de posturas que orientam as responsabilidades dos diversos atores sociais e suas interações institucionais, bem como a situação geral da sociedade.
O presente vídeo etnográfico apresenta alguns elementos do debates sobre fotografia e empoderamento a partir da vivencia pessoal e profissional da artista/fotografa Letícia Santos e suas experiência como fotografa, artista, mulher, mãe e as diversas identidades que se atravessam e formar seu olhar fotográfico.
Neste texto buscou-se refletir sobre os pontos de convergência entre a História cultural e a História da Educação refletindo sobre a História Cultural da Educação como um campo de estudo que busca compreender reflexos e influências nas mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais ao longo da história. Há concordância entre os autores das leituras de que a aproximação entre esses dois tipos de histórias consiste na utilização dos conceitos, procedimentos metodológicos, referenciais teóricos e nas multiplicidades de objetos da investigação. Concluímos que a História Cultural da Educação foca nos aspectos subjetivos da experiência educativa, como identidade, representações de conhecimento e o papel das emoções. E ao integrar diversas áreas do saber, oferece uma visão interdisciplinar, reconhecendo que a educação ultrapassa ao ambiente escolar enquanto espaço físico e por isso está intimamente ligada à cultura e ao cotidiano social.
Este artigo objetiva analisar como a Escrevivência, conceito cunhado por Conceição Evaristo, presente nas obras A Escrava, de Maria Firmina dos Reis, e Quarto de Despejo, de Maria Carolina de Jesus, contribui para a resistência historiográfica ao romper com narrativas dominantes. A análise insere essas obras no campo da História da Educação, relacionando-as às pedagogias contra-hegemônicas de Paulo Freire e Dermeval Saviani, evidenciando como a literatura negra ressignifica identidades e desafia estruturas de exclusão. A abordagem interdisciplinar explora a relevância de Firmina e Carolina para a valorização da memória coletiva afro-brasileira e para a construção de práticas pedagógicas emancipatórias.
O presente texto objetiva listar aspectos idealizados a partir de experiências que tivemos na leitura da construção da identidade de gênero da mulher Karajá-Xambioá em estudos cultuais e socioterritoriais das diásporas das mesmas que se localizam no norte do Tocantins, na Terra Indígena Karajá-Xambioá, aldeia Wari-lyty, município de Santa Fé do Araguaia. Logo, pensamos numa identidade de gênero emergente na infinita re-a-firmação do “poder e tradição” transmitidos pelas “guardiãs da cultura” de seu povo (GRUBITS; DARRAULT-HARRIS; PEDROSO, 2005), pois as mulheres indígenas aqui apresentadas (KARAJÁ, 2016; KARAJÁ, 2017) lutam e resistem dia-a-dia para manter, material e simbolicamente, seu elo cultural ancestral, não apresentando uma identidade cultural una e inflexível, mas fluída e adaptativa aos empasses de sua organização social, nos ensinando que ser “pura” ou “não-pura” é uma questão de contexto e que está presente na desterritorialização à multiterritorialidade identidária, não se apagando com a violência e criminalização, até mesmo quanto a posse de seu território, que elas sofrem no decorrer de suas territorialidades socioespaciais de vivências cotidianas. Por isso apontamos que a representatividade dessas mulheres indígenas se re-afirma na tomada de poder que elas exercem perante os desafios encarados em seu contexto socioepacial na construção de sua identidade de gênero, uma vez que, a mulher não toma lugar, ela constrói o seu lugar no território.
Este artigo aborda sobre a história de educação de mulheres, sua trajetória profissional no Magistério de Altamira Pará, na linha de pesquisa história da educação básica como parte de uma pesquisa em andamento. O objetivo, investigar a história das mulheres, com ênfase na relação entre sua formação educacional e sua inserção profissional no magistério. Com essa temática abordar no campo da investigação o debate sobre a feminização do magistério. Dar visibilidade para o trabalho desenvolvido em Altamira Pará. A metodologia História Oral, complementada com fontes documentais como jornais e fotografias, fundamentada na obra de Alberti, (2005). A fonte principal desta pesquisa será a oralidade, coletada através de entrevista gravada, que, em seguida, faremos a transcrição de acordo com a metodologia da História Oral.
O vídeo faz parte da pesquisa “Carimbó Delas: Vivências Femininas no Carimbó em Icoaraci” (PPLSA-UFPA) e apresenta entrevista realizada com a intelectual e carimbozeira Priscila Cobra. Intercalando imagens da trajetória arte-política da Cobra no Carimbó, são apresentadas questões da encruzilhada da identidade negra e indígena urbana, cultura ancestral, gênero e poder na Amazônia. Nesta etapa da pesquisa, o carimbó, especialmente na perspectiva das vivências femininas, é analisado enquanto signo de decolonialidade em resistência ao eurocentrismo racista e machista.
O presente artigo é resultado de uma visita realizada à Aldeia Assurini do Trocará, localizada no Estado do Pará, com o intuito de desvendar como funcionam, na prática, as relações (in)existentes entre educação escolar indígena e currículo intercultural buscando compreender como a história, a memória e os saberes dos ancestrais estão presentes (ou não) no conteúdo programático e no processo de ensino-aprendizagem dessa escola. Utilizamos anotações registradas no caderno de campo, observações, fotografias e diálogos com professores(as) indígenas, pesquisadores visitantes e demais funcionários escolares. Temos como referenciais teóricos os textos de Chauí (1985); Fenelon (1993); Matos (2012); Oliveira (2014); Laraia (2001) e Fleury (2001). Como resultado da nossa pesquisa concluímos que a aprendizagem dos alunos da Aldeia Trocará está pautada apenas pelos recursos disponibilizados pela Secretaria Municipal de Educação do município de Tucuruí-PA, “silenciando” a história e cultura do povo Assuriní; apesar desse fato, a língua materna vem sendo ensinada aos educandos mesmo não fazendo parte do currículo de ensino do município dentro de uma perspectiva de mudança curricular promovida por docentes e demais membros da comunidade escolar e local, em prol de uma educação que fortaleça sua cultura e, em especial, sua língua materna pois, apenas os anciãos e anciãs da aldeia conseguem se comunicar através da língua Assurini. Diante disso, é necessária à implementação da língua materna para o uso contínuo na comunidade indígena por todos, com intuito de inserir para preservar sua história, cultura e saberes no currículo escolar da aldeia.
Este ensaio etnofotográfico é resultado de uma atividade de campo realizada na disciplina "Desenvolvimentos, Territórios e Políticas Públicas na Amazônia", do Programa de Pós- graduação em Estudos em Etnodiversidade (PPGEtno) da Universidade Federal do Pará (UFPA). A atividade permitiu aprofundar a compreensão sobre as representações culturais, sociais e ambientais no território da Agrovila Princesa do Xingu, situada a 27 km da sede do município de Altamira, no Sudoeste do Pará.
Interligar, num mesmo trabalho, um texto escrito em língua corrente por um lado, e por outro, um discurso imagético (narratológico) expresso por meio de uma sequência fotográfica, de uma forma tal que as fotos não sejam ali somente elementos figurativos, apêndices ou apenas dados ilustrativos (mero registro visual), no cômputo da divulgação acadêmica de pesquisas científicas, de maneira profícua, com certeza não é tarefa simples (BATISTA, 2010). Sem embargo, a fotografia pode ser convertida em método de pesquisa, a partir do aporte teórico da antropologia visual (COLLIER JR., 1973)...
COSTA, Marcos Samuel. Os abismos. Belém: Folheando, 2021.Mergulhei em ”Os abismos” de Marcos Samuel Costa, adquirido na Feira do Livro e Multivozes realizada em Belém em Agosto de 2024, e sem abrir o compêndio sequer para ler a dedicatória, ali mesmo conversei um pouco com o poeta e com o Professor Paulo Nunes, compartilhando chocolate quente, café com leite, pão de queijo e pães com ovo, escutando e tentando conhecer um pouco mais do jovem que se projeta celeremente no mundo literário com premiações a cada ano, no Pará e além das fronteiras amazônicas. Embarquei no diálogo querendo saber mais dele que insiste em assumir em seus escritos, sejam eles em verso ou prosa, declarações de personagens homoafetivas em uma espécie de militância corajosa nesses tempos de contradições e maus tratos a quem se declare fora dos padrões e enquadramentos hegemônicos...
No Tocantins, a microrregião do Bico do Papagaio, desde a década de 60 com os conflitos relacionados a Ditadura Militar e as questões agrárias, tornou-se um cenário de grandes concentrações ideológicas envolvendo as políticas de Reformas Agrárias que afetam diretamente a economia e principalmente os movimentos culturais da região. Nesse sentido, a Romaria de Padre Josimo surge como uma manifestação religiosa relacionada diretamente às questões que envolvem a cultura da população da região e que evidenciam a constante e permanente luta dos camponeses contra a violência e ocupação prolatada pelos grandes proprietários de terras. Nesta inquirição, falaremos sobre a romaria, um encontro realizado a cada dois anos para relembrar quem foi padre Josimo e qual a sua luta e a importância de manter sua história e memória como símbolo da resistência desses povos minoritários.
O município de Barra do Ouro-TO localiza-se a uma latitude 07º41’22” sul e longitude 47º40’58” oeste, emancipado em 1996 com a Lei Estadual de nº 829, área de 1.106,345 km2, população estimada de 2016 de 4.503 habitantes segundo o IBGE. A sua principal atividade econômica é a agropecuária com grande poderio dos seus executores, que expandem seus domínios sobre o bioma cerrado da região, desrespeitando moradores que se encontram a décadas nessa região. Nesse sentido, segundo a CPT, a violência que se propaga nesse município é resultado da territorialização do capital em terras que também não os pertencem. Esse processo de domínio pelo chamado agronegócio repercute na incidência da pobreza populacional que chega a 46, 24% de acordo com o IBGE. Isso representa quase metade da população que vive numa situação bastante preocupante em relação aos direitos universais e fundamentais do ser humano. É nesse contexto de luta que surge a mulher como liderança e resistência. Assim, esta pesquisa busca dar voz a essas lideranças da Gleba Tauá.
Este artigo investiga a teologia da imagem proposta por Pavel Florenskij, enfatizando sua concepção dos ícones como portais para a realidade divina. A pesquisa aborda a relação entre linguagem visual, verdade e divindade, questionando de que maneira as imagens ultrapassam a mera representação. Levando em consideração esta percepção, o objetivo é esclarecer a interconexão entre imagem, criação e transcendência na obra de Florenskij, bem como ressaltar a urgência de reavaliar o papel das imagens sagradas na contemporaneidade. Com base em pesquisa bibliográfica, a metodologia adotada consistiu em uma análise crítica das obras de Florenskij e de seus intérpretes, focando na intersecção entre iconografia, espiritualidade e estética. Os resultados obtidos indicam que, segundo Florenskij, os ícones funcionam como símbolos que refletem realidades espirituais e facilitam experiências de comunhão entre o fiel e o divino. Isso possibilita conclusões importantes, dentre elas, a compreensão que os ícones transcendem o âmbito estético, sendo imprescindível para a prática da fé, ao integrar dimensões metafísicas e litúrgicas. Na verdade, a pesquisa sugere uma revisitação à espiritualidade das imagens, essencial para a revitalização das imagens na experiência religiosa.
Esta pesquisa reflete sobre os possíveis efeitos negativos do sucesso do açaí (Euterpe oleracea Mart.) para a biodiversidade amazônica. Para isso, apresenta-se o contexto de produção e comercialização de açaí do Brasil para o mundo, com foco no estado do Pará enquanto maior produtor. Além disso, descreve-se a importância da biodiversidade brasileira para o planeta e como o mercado provocou o desenvolvimento da monocultura do açaizeiro, em resposta à demanda internacional pelo fruto, ressaltando a perda de biodiversidade no processo. A partir da análise de dados de produção, consumo e exportação de açaí, assim como de pesquisas anteriores sobre as consequências da “açaização” da Amazônia, destaca-se a necessidade da implementação do cultivo sustentável do açaí. Desse modo, se fazem necessários projetos de manejo sustentável de açaizeiros, para que a tendência de crescimento da exportação do fruto não se torne uma ameaça ao meio ambiente.
A proposta deste artigo é analisar como a pesca artesanal afeta a estrutura da moradia e a rotina das famílias residentes na Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu (Resex), um território protegido ambientalmente e localizado em Bragança, município do estado do Pará. Entre os anos de 2006 e 2013 foram construídas moradias destinadas à população tradicional deste território, que é composto, sobretudo, por pescadores artesanais e marisqueiras. A construção dessas novas moradias foi possível devido à implementação do Crédito Habitacional, linha de crédito que faz parte do II Programa Nacional da Reforma Agrária (II PNRA). A questão que orienta este artigo é entender como as pessoas que foram contempladas conseguiram se adaptar nas novas moradias, que foram construídas com base em um padrão arquitetônico único, que não considerou as especificidades do território, e não levou em conta a importância de áreas externas à moradia para o exercício de atividades de trabalho relacionadas ao mar, ao rio e ao manguezal.
A cerâmica tradicional amazônica constitui um importante marco do patrimônio cultural e material da região, refletindo a engenhosidade dos povos indígenas em relação à utilização de recursos naturais disponíveis. Um elemento essencial na produção cerâmica amazônica é o caraipé (Licania octandra), conhecido também como caraiperana, caripé, cariperana, uxi-do-igapó e uxiranaa (SERVIÇO FLORESTAL BRASILEIRO, 2024). É um derivado das cinzas da casca e entrecasca de plantas do gênero Licania e representa uma inovação notável das comunidades indígenas da região amazônica (ROSARIO, 2024). Suas propriedades melhoram significativamente a resistência térmica, a textura e o acabamento das peças (ROSARIO e SILVA, 2020, 2023, 2024). Este trabalho trata da extração e o uso do caraipé, além de sua relevância técnica, cultural e sustentável....