
A Geografia, como todas as outras ciências, é mutável, e essa mutabilidade tem ocorrido de forma acelerada. Dentre as diversas áreas que compõem a Geografia, duas se destacam pela extrema importância e se consolidam de forma clara nas análises geográficas: a Geoinformação e a Geoecologia. Essas áreas ganham protagonismo, principalmente devido à complexidade crescente dos objetos de estudo e ao surgimento e consolidação de novas tecnologias. A Geoinformação e a Geoecologia se afirmam como protagonistas nas análises geográficas do século XXI, especialmente ao considerar a complexidade cada vez maior do espaço. Dessa forma, o trabalho aqui proposto tem como objetivo o entendimento de dois conceitos: Geoecologia e Geoinformação. Esses conceitos, primariamente geográficos, podem, em conjunto, servir de base para o estudo da paisagem físico-geográfica, considerando sua análise e seu ordenamento. Assim, o trabalho visa apresentar como essa integração se torna extremamente relevante na ciência atual e, principalmente, na análise geográfica contemporânea.
As cidades brasileiras abrigam zonas de prostituição desde o século XIX, tradicionalmente localizadas em suas regiões centrais. Esse estudo investiga se, após as intensas transformações urbanas no Rio de Janeiro, essa tipologia espacial ainda existe na cidade, buscando identificar quais dos atuais espaços de prostituição se enquadram em sua definição. Para isso, realizou-se um mapeamento para localizar os espaços de prostituição atualmente existentes, seguido de trabalhos de campo para identificar as variáveis que, segundo a literatura, os caracterizam. Os resultados apontam a existência de duas zonas de prostituição na cidade, nenhuma delas localizada na parte central da cidade. Conclui-se, portanto, que as constantes reconfigurações urbanas levaram essa tipologia de zona de prostituição a se deslocar para áreas onde sua permanência pudesse coexistir com a vizinhança.
Este artigo analisa a inserção territorial de presídios de segurança máxima no contexto urbano de três países latino-americanos: Argentina, Brasil e México, destacando implicações operacionais e espaciais para o planejamento e a gestão urbana. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e comparativa, fundamentada em revisão de literatura e análise locacional de onze unidades prisionais, com foco na relação entre as edificações e os compartimentos urbanos que as circundam. A discussão considera o grau de integração ou isolamento dessas estruturas no tecido urbano, assim como os efeitos espaciais associados à sua implantação. Os resultados indicam que, para além de padrões homogêneos de localização, os presídios de segurança máxima tendem a reforçar processos de desqualificação urbanística e fragmentação territorial, sobretudo na ausência de políticas públicas que orientem sua articulação com a malha urbana. Tais condições comprometem a valorização e o uso socialmente funcional do espaço, ampliando os contrastes socioespaciais nas áreas envolvidas.
A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), de 1982, transformou a maneira como os Estados veem suas relações com os espaços oceânicos. Este artigo compara a produção brasileira e internacional sobre o papel desses espaços na geopolítica desde a CNUDM. Para isso, essa pesquisa partiu de uma revisão de escopo nas bases Scopus, Scielo, Latindex e no acervo de duas revistas militares, comparando as principais bases conceituais utilizadas, a origem dos autores, o principal período de publicação e o foco geográfico de preocupação, nos períodos pré e pós-CNUDM. Entre os artigos brasileiros e internacionais, há convergência na utilização do conceito de Poder Marítimo de Mahan; como divergência, no caso brasileiro, há concentração de autores militares, publicados entre 1980-2010 e foco no Atlântico Sul; enquanto na produção internacional, são produzidos por civis, publicados entre 2010-2020 e apresentam uma maior variedade de espaços oceânicos.
Em cada departamento de cada curso universitário há sempre professores que são lembrados por seus ex-alunos com carinho, seja pelo reconhecimento de suas competências, seja pelas contribuições obtidas para a sua formação profissional.
O objetivo do presente artigo é compreender as diferentes formas de integração entre os espaços urbanos e como essas diferentes formas produzem unidades diferenciadas. A primeira modalidade de integração está relacionada aos deslocamentos cotidianos. Outra forma de integração está relacionada à formação de uma rede urbana na qual temos bens e serviços dispostos hierarquicamente, sendo que, para encontrar certos bens, moradores de cidades de menor hierarquia precisam se deslocar para cidades de maior nível hierárquico. A terceira forma de integração está relacionada a fluxos de dimensão regional, principalmente ao deslocamento de mercadorias e fluxos de pessoas que se configuram em ritmos diferenciados. Depois disso, discutimos como se dá a integração entre a metrópole do Rio de Janeiro e a aglomeração urbana de Macaé, como forma de demonstrar a maneira como o processo de integração urbana se manifesta.
É com grande alegria que apresentamos a primeira edição de 2025 da Revista Espaço Aberto, publicação do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Este número não apenas marca a continuidade de nosso compromisso com a construção coletiva e aberta do conhecimento, mas também um momento simbólico de homenagem e de transição.
O presente artigo busca analisar a relação entre a crise econômica durante o governo da presidenta Dilma Rousseff e uma nova onda migratória de brasileiros para os Estados Unidos da América. Trata-se de um novo perfil socioeconômico de migrantes que se distingue dos movimentos migratórios anteriores de brasileiros para este país, em especial para o estado da Flórida, analisado neste artigo. A união entre setores das camadas dominantes e a mídia foi eficaz em disseminar a percepção de ameaça aos privilégios de uma classe média cada vez mais amedrontada, resultando no impeachment da então presidenta em 2016. Diante da crise instaurada e da intensa cobertura midiática que propagava o terror, integrantes destas camadas buscaram nos Estados Unidos uma oportunidade de manutenção dos padrões de vida semelhantes aos que possuíam no Brasil.
A partir dos dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), este estudo investiga as lacunas de áreas passíveis de cadastramento e os conflitos existentes, como registros de imóveis em unidades de conservação que não admitem domínio privado e em florestas públicas não destinadas. A avaliação, com recorte territorial por biomas, constatou que: Pampa e Pantanal possuem mais de 80% de sua área cadastrável registrada no CAR; Cerrado e Mata Atlântica aproximam-se de 80%; enquanto Amazônia e Caatinga não alcançam 60%. Em relação às sobreposições em áreas não passíveis de registro, mais de 82% do total nacional está concentrado na Amazônia. Nesse bioma, a área cadastrada ilegalmente é composta principalmente por registros em florestas públicas não destinadas (145.117 km²) e em unidades de conservação de proteção integral (135.200 km²).
Nos estudos migratórios, o trânsito é considerado um dos aspectos cruciais para compreender a complexidade e os múltiplos efeitos que a fronteira pode produzir, culminando em desigualdades profundas nas formas e experiências de mobilidade. O objetivo do texto é mostrar que, ao contrário de um simples deslocamento de um ponto a outro, esses trânsitos desvelam diversas variações situacionais dos regimes de controle migratório e evidenciam como a fronteira e seus efeitos se fazem sentir muito além dos limites dos Estados Nacionais. Metodologicamente, parto de uma entrevista semiestruturada de um migrante guineense que relata sua experiência de trânsito no porão de um barco com o objetivo de chegar à Europa. Seu relato detalha os preparativos da travessia e os acontecimentos no trânsito, demonstrando como se deparou com aspectos inimagináveis das fronteiras que tornaram a jornada uma constante batalha entre a vida e a morte.
Josette Lydie Madeleine Lenz Cesar (1926 – 2024), professora aposentada de cartografia da UFRJ, leitora voraz sobre economia; história geral e do Brasil; geografia do Brasil, da França e do mundo.
O artigo aborda as transformações do Jalapão, região de fronteira entre Tocantins, Bahia, Piauí e Maranhão, contrastando uma expedição geográfica de 2023, realizada por um coletivo de pesquisadoras/es, com a jornada pioneira do IBGE em 1943. Com inspiração na obra “Circumambulatio” de Anna Bella Geiger, o estudo emprega a metáfora da “espiral” para analisar as metamorfoses espaciais da região ao longo de oito décadas. A pesquisa evidencia como a expansão agrícola, somada à demarcação diferida de fronteiras internas, gerou um vácuo jurídico explorado pela grilagem de terras, mesmo após a criação do estado do Tocantins. A partir de um movimento de aproximação e distanciamento, o texto descreve os protocolos de ambas as expedições para o reconhecimento da área, destacando o caráter situado do conhecimento e do olhar geográfico.
O estudo da erosão nas últimas décadas tem levado ao desenvolvimento de variadas técnicas de modelagem de dados para a compreensão deste fenômeno. Este trabalho objetiva mensurar o impacto do uso da terra em três voçorocas em Cacequi –RS. Foi aplicado o modelo empírico SCS-CN para a estimativa do escoamento superficial durante o período de 1975 a 2022 e o modelo EEFlux para a evapotranspiração dos cultivos atuais. O tipo de solo se mostrou a variável mais importante no escoamento superficial, apesar disso, as áreas de lavouras se mostraram mais propensas ao escoamento e as de silvicultura menos. Os dados de evapotranspiração evidenciam que os eucaliptos utilizam mais água do solo, podendo ter impacto na expansão das voçorocas, comoa diminuição dos movimentos de massa e rebaixamento do nível de base, permitindo maior desenvolvimento vertical das voçorocas, sendo que estes impactos necessitam de estudos mais detalhados na área.
A intensificação das diferenças e desigualdades nas cidades brasileiras e entre elas tem apontado para a constituição do processo de fragmentação socioespacial, em particular nas metrópoles, mas também em cidades médias. Este processo é multidimensional e requer diferentes metodologias que deem conta de abarcá-lo nas dimensões do tecido urbano, das práticas espaciais e dos imaginários sociais. Neste artigo, propomos abordar a fragmentação socioespacial em Chapecó/SC e Ribeirão Preto/SP, considerando seus processos de estruturação e a manifestação de suas desigualdades e diferenças. A metodologia que embasou a pesquisa é de natureza qualitativa, relativa à realização de entrevistas com citadinos, cujas falas são recuperadas a fim de estabelecer cotejamentos e explorar as experiências vividas em suas práticas espaciais e cotidianos. Como resultados, terão sido demonstradas algumas lógicas espaciais de produção do espaço urbano e identificadas formas de diferenciação socioespacial que se distinguem das pretéritas, valorizando as narrativas dos sujeitos.
Amparando-se no conceito de formação socioespacial e na noção de limiares urbanos, busca-se averiguar de que modo as idiossincrasias locais impactam as dinâmicas urbano-regionais, mesmo considerando-se tratar de centros urbanos que possuem tamanho demográfico semelhante e que ocupam níveis hierárquicos equivalentes no âmbito da estrutura urbana brasileira. Enfoca-se quatro cidades: Patos-PB, Itabaiana-SE, Manacapuru-AM e Ituiutaba-MG, com população aproximada de 100 mil habitantes cada. Além do porte demográfico, variáveis relacionadas aos deslocamentos intermunicipais de 2010 e outras disponíveis no banco de dados da REGIC 2018 também são analisadas. A hipótese de que haveria diferenças que podem ser interpretadas como de caráter circunstancial se confirmou mediante constatação de especificidades em relação às interações decorrentes da oferta de certos serviços, especializados e singulares a determinadas formações socioespaciais, aos seus respectivos entornos regionais. As conclusões têm implicações importantes para o planejamento e a implementação de políticas públicas de caráter territorial.
O presente artigo concentra-se em investigar a influência da legislação urbanística no processo de reconfiguração da periferia urbana brasileira no século XXI, tomando como referência a implantação dos espaços residenciais fechados nas cidades médias de Campina Grande e Mossoró. Para tal, foram utilizados os procedimentos metodológicos: pesquisa bibliográfica; levantamento de dados e/ou informações nas prefeituras municipais; licenças ambientais emitidas pela Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente de Campina Grande, lei e decretos publicados no Jornal Oficial de Mossoró (JOM) e no Diário Oficial de Mossoró (DOM), além da sistematização dos dados coletados, com mapas e tabelas; e análise dos dados. Os dados obtidos demonstram a intrínseca relaçãoentre a legislação urbanística municipal e o novo conteúdo da periferia urbana, trazendo à tona as contradições da razão neoliberal nos processos de expansão urbana e as especificidades da delimitação do perímetro urbano na produção dos espaços residenciaisfechados das cidades médias analisadas.
Considerando as novas dinâmicas espaciais em cidades médias, o artigo tem como objetivo compreender a reestruturação urbana no vetor sudeste de Volta Redonda-RJ, a partir dos novos empreendimentos imobiliários, especialmente aqueles construídos nos últimos 20 anos. Metodologicamente, realizou-se revisão bibliográfica acerca dos temas propostos, trabalhos de campo para observação e coleta de informações, bem como entrevistas semiestruturadas. Constatou-se que muitos investimentos estão sendo implantados no vetor sudeste de Volta Redonda, onde o Shopping Park Sul desempenha papel de destaque neste contexto desde sua inauguração em 2018, o que tem reforçado a policentralidade urbana. Os novos empreendimentos residenciais são voltados para os estratos populacionais de rendimentos médio a alto, reforçando o processo de segregação na cidade, que aliado às novas práticas espaciais desses moradores, solidifica o processo de fragmentação socioespacial em Volta Redonda.
Este artigo se apoia na tese de que o agronegócio no Brasil é um dos responsáveis pelo aumento da fragmentação de seu território e pela formação de regiões especializadas na produção de alguns produtos agrícolas. Como objeto de análise temos uma dessas regiões, hoje a principal produtora e exportadora de melão do país, localizada no Semiárido e composta por municípios do Ceará e do Rio Grande do Norte, cuja centralidade urbana principal é exercida pela cidade de Mossoró (RN). Concluímos que os agentes hegemônicos do agronegócio de frutas têm cada vez mais domínio sobre as terras da região, os trabalhadores, as esferas locais de poder, assim como sobre a produção não só do espaço agrário, mas também urbano e regional.
Pensar a Amazônia em abordagem descentrada se faz necessário. Isso é válido para as cidades da região, mormente vistas a partir de concepções de centralidade urbana que tomam como referência outras realidades do Brasil e do mundo. Avançar em relação a essa forma de interpretação exige lidar com uma pluralidade de agentes e atividades que tendem a contribuir para uma leitura das particularidades regionais. Com base em uma literatura crítica pertinente à temática e em dados secundários extraídos de fontes documentais e bibliográficas, o presente trabalho sistematiza elementos relacionados à produção do espaço urbano que ratificam a importância de uma cidade média amazônica (Marabá) em sua sub-região (sudeste paraense), assim como destaca outras formas de centralidades urbanas e suas vulnerabilidades diante dos processos de reestruturação urbano-regional.
O artigo tem por objetivo analisar a diferenciação socioespacial a partir da lógica da fragmentação socioespacial dos espaços residenciais na cidade média de Sobral-CE. Por meio da análise espacial dos conjuntos habitacionais construídos durante a vigência do Programa Minha Casa Minha Vida e dos espaços residenciais fechadospropostos pela iniciativa privada, buscar-se-á constatar a dualidade atinente à inserção destes empreendimentos, e compreender em que medida esta dualidade reforça o processo de fragmentação socioespacial. Procurar-se-á compreender como o processo atual de reestruturação da cidade, ao ser orientado pelos novos vetores de valorizaçãoimobiliária, resulta em uma ampliação da diferenciação socioespacial, em função das estratégias dos incorporadores imobiliários de espaços residenciais fechados, cujas estratégias reiteram a ideia de morar nas proximidades de locais de consumo destinados aos segmentos socioeconômicos mais abastados, em localizações aprazíveis, em proximidade com áreas verdes com amenidades ambientais e relativamente “afastados” das áreas “indesejadas” da cidade.