
O presente trabalho apresenta uma tradução da carta de Aleksandr Púchkin em resposta ao texto Primeira carta filosófica, de Piotr Tchaadáiev, com contextualização histórica, para discutir sua inserção no filme O Espelho, de Andrei Tarkóvski, construído por meio de elementos ficcionais, literários, históricos e autobiográficos do diretor. Consideramos que o uso da carta por Tarkóvski reflete a necessidade de questionar o cânone histórico frente a eventos como a Segunda Guerra, e que o diretor constrói seu longa-metragem com base em elementos pessoais e subjetivos para estabelecer um contraponto às narrativas oficiais da História, de forma semelhante à Púchkin em sua carta.
A circulação do livro deve ser garantida como um direito, permitindo que todas as crianças desenvolvam bases linguísticas e cognitivas que fortaleçam sua relação com o mundo e consigo mesmas. Nesse processo, a literatura infantil constitui uma aliada essencial, capaz de favorecer a imaginação, a compreensão de emoções e a formação autônoma. Reconhecendo o papel imprescindível das bibliotecas públicas na integração das crianças com os livros, este trabalho tem como objetivo mapear, descrever e analisar bibliotecas e/ou espaços públicos existentes no município de Alfenas-MG, verificando o funcionamento em termos de acervo e estratégias de promoção da leitura, especialmente para o público infantil. A fundamentação teórica baseia-se nos Estudos Editoriais (Farias; Fedatto, 2022), Teoria Literária (Candido, 2011), Psicopedagogia (Simão; Albrecht, 2021) e Biblioteconomia (Castro; Almeida; Amorim, 2014). Os resultados apontam condições físicas, qualificação dos recursos humanos, acessibilidade, ambientação, organização do acervo e práticas de incentivo à leitura voltadas à primeira infância. Apesar da existência de acervo expressivo e profissionais qualificados, persistem fragilidades estruturais, ausência de recursos inclusivos e descontinuidade nas ações de mediação literária. Conclui-se, assim, que são necessárias políticas públicas locais mais efetivas para garantir o acesso pleno à leitura na primeira infância.
O presente trabalho trata da relação entre linguagem e poder em obra fílmica, observando como a variação diatópica se manifesta na literatura regional, e como o cinema pode funcionar como um instrumento de educação visual com potencial sociolinguístico. Ele objetiva analisar a relação entre linguagem e poder diante da variação linguística na fala de personagens do filme Narradores de Javé (2003), de Eliane Caffé. A obra revela uma potente relação entre oralidade e escrita como forma de legitimar saberes. A realização deste trabalho, justifica-se no conflito que mobiliza a importância dada ao único morador de Javé que sabe escrever. Para a construção do referencial teórico desta pesquisa, consideramos Bagno (1999), Bortoni-Ricardo (2004) e Urbano (2011), entre outros. Esta é uma pesquisa de abordagem qualitativa, documental e descritiva. A relevância desta pesquisa se dá por poder contribuir com o trabalho de professores de língua portuguesa, especialmente para os que procuram ensinar variação linguística usando o cinema e textos literários.
O presente trabalho tem como objetivo demonstrar como o professor pode abordar a variação linguística em sala de aula, sem reafirmar o preconceito linguístico. Para isso, enfocamos a questão da variação linguística em sala de aula, buscando evidenciar qual a postura viável a ser adotada pelo professor de língua portuguesa frente ao uso das variedades padrão e não padrão da língua dentro da instituição escolar, de forma a mostrar aos alunos que aprender língua portuguesa inclui, além de estudar as regras da gramática, compreender a coexistência de um conjunto de variedades linguísticas em uma sociedade, para, assim, valorizar a identidade cultural e linguística de cada comunidade, evitando a propagação do preconceito linguístico. Para que isso possa ocorrer efetivamente, apresentamos propostas de atividades de ensino centradas na variação linguística, mais especificamente na variação estilística, para alunos do 6º ano do ensino fundamental II, ancoradas em diferentes gêneros discursivos que circulam na sociedade, atendendo, portanto, ao pressuposto da BNCC acerca da centralidade dos gêneros no ensino, que possibilitam reflexões sobre a língua em funcionamento, em uso. Nossas discussões e propostas apresentadas fundamentam-se nas obras: Zilles e Faraco (2015); Bortoni-Ricardo (2004); Faraco (2008); Bagno (2007; 2013); Bortoni-Ricardo e Almeida (2023), entre outros estudiosos da área.
O objetivo do trabalho é analisar as diretrizes da BNCC (Brasil, 2018) para o ensino de concordância verbal a fim de verificar o compromisso do documento com uma educação sociolinguística. Partimos de Vieira (2008; 2017), Kato (2005), Faraco e Zilles (2017) Franchi (2006), Bortoni-Ricardo (2004; 2021) e Faraco (2008), dentre outros, para mapear a variação da concordância de terceira pessoa do plural no português brasileiro, para compreender o percurso para se chegar à gramática do letrado brasileiro e para pensarmos uma pedagogia da variação. Em seguida, analisamos a proposta da BNCC para o ensino fundamental e médio. Concluímos que a BNCC não abre espaço para reflexão e análise sobre a variação na concordância verbal no Ensino Fundamental. Além disso, quase não há cruzamento com gêneros textuais e situações comunicativas em que encontraríamos variação na concordância no português vernacular. No Ensino Médio, vemos que a BNCC entende que a comparação com o conhecimento gramatical do aluno é ponto de chegada, e não ponto de partida, na contramão dos estudos supracitados. Por fim, apontamos possibilidades para uma educação sociolinguística da concordância a partir da BNCC e dos pressupostos apontados, articulando análise linguística de gêneros orais, conhecimento prévio, adequação linguística e retextualização.
Neste estudo buscamos realizar um batimento entre o provérbio Quem cala consente e a música Cálice, de Chico Buarque, tendo em vista a relação que se estabelece entre essas duas materialidades discursivas e a noção de silêncio, pelo funcionamento linguístico e simbólico do verbo calar. Nos filiamos à Análise de Discurso Materialista para responder à seguinte questão de pesquisa: “como o calar é posto em funcionamento, em relação ao silêncio, a partir do provérbio Quem cala consente e na sonoridade produzida pelo título da música Cálice?”. Metodologicamente, primeiro nos detemos no provérbio enquanto prática discursiva que funciona em diferentes condições de produção do discurso; depois, lançamos olhar para a música, da qual recortamos sequências discursivas em que o calar comparece. As considerações a que chegamos indicam que calar, no provérbio, nem sempre é consentir; e, na música, o silêncio, pela expressão Cálice, em substituição ao Cale-se!, imperativo imposto pela ditadura militar brasileira, é a resistência, uma forma de não se calar, diante do silêncio local (Orlandi, 2007).
O presente artigo propõe um diálogo entre a obra Solo para vialejo, da poeta pernambucana Cida Pedrosa (2019), e os dois mecanismos básicos de compreensão das produções literárias neobarrocas (Sarduy, 1979). A pesquisa, de natureza descritiva, apresentará um panorama sobre a poética de Cida Pedrosa, os distanciamentos e as aproximações entre o barroco histórico da Europa e o neobarroco da América Latina, e uma análise das metalinguagens neobarrocas contidas em Solo para Vialejo, a fim de que se compreenda a reverberação dessa estética na contemporaneidade. A análise será norteada pelos estudos de Severo Sarduy (1979) que constrói um esquema operatório de compreensão do neobarroco em uma perspectiva latino-americana, Irlemar Chiampi (2010; 2015) ao tratar acerca dos ciclos do barroco e as suas possibilidades de reciclagem na modernidade estética e histórica, bem como Haroldo de Campos (1975; 2021) sobre a inclusão do barroco dentro de uma historiografia não-linear da literatura brasileira, sob a ótica de uma aproximação com a modernidade por meio da linguagem. Para tanto, conclui-se, previamente, que a obra de Pedrosa será analisada à luz de tais estudos literários, de modo que a estética neobarroquizante seja percebida enquanto um elemento integrante do estilo multifacetado da obra em questão.
Neste artigo, dedicamo-nos, à luz da Análise Crítica do Discurso, descortinar as significações discursivas de uma realidade trágica: o afundamento de cinco bairros em Maceió-AL, provocado pela empresa Braskem, ao explorar o subsolo da região, desde 1976. O objetivo é analisar o discurso dessa empresa em um, dos treze, Informe Publicitário divulgado nos meios de comunicação pela Série Entenda. A metodologia utilizada é a qualitativa (Flick, 2009), por voltar-se ao estudo da aquisição do saber em processo e não na sua obtenção como produto, com atenção especial à escolha dos documentos, ao acesso e à sua análise (Godoy, 1995). Dessa maneira, ao entrelaçar argumentos discursivos com imagens, cujo objetivo é persuadir o leitor para embotar o verdadeiro sentido das ações-feitiço da ajuda da Braskem, percebe-se que a empresa utiliza elementos referentes para construir uma tessitura imagética de si descolada do problema causado por si. Os construtos teóricos são: Aristóteles (2005, 2011), Barthes (1964, 1964a), Fairclough (1989, 1995, 2001), Ferreira (2017, 2019, 2019a, 2021), Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005), entre outros. A relevância deste trabalho está por enfatizar o uso de argumentos interpolados pela ancoragem de texto e imagens, no cotexto, para persuadir e mascarar uma realidade pela relação linguagem-mundo.
Neste artigo, por meio de um percurso teórico-epistemológico, objetivamos discutir a formalização da língua enquanto objeto da linguística e a síntese epistemológica operada por Saussure no Curso de linguística geral (1916). Questionamos em que sentido se pode afirmar que Saussure opera uma ruptura com a gramática comparada ao estabelecer o “corte epistemológico” capaz de fundar a ciência linguística. Assim, concluímos que é a partir da teorização de “erros” reconhecidos por Saussure em relação ao método comparativo que permite a ele operar um corte epistemológico capaz de, ao mesmo tempo, continuar e superar a gramática comparada, e, assim, ser reconhecido como o fundador de uma verdadeira ciência da linguística por descortinar seu verdadeiro objeto e seu método de descrição e análise e das línguas, o método sincrônico
Este artigo tem como objetivo divulgar estudos sobre como a estrutura das redes sociais contribui para a manutenção de dialetos regionais e vernaculares em contato com a norma dominante, destacando os fatores que favorecem a preservação da variação linguística em contextos de interação social para ampliar a relevância dos conhecimentos sobre variação. Trata-se de uma revisão narrativa de literatura na área da sociolinguística, com a utilização de pesquisas publicadas no período de 2019 a 2024, na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), buscando preencher a lacuna relativa ao estado da arte nas investigações que empregaram a metodologia da análise de redes sociais. A fundamentação teórica está alicerçada em Bortoni-Ricardo (2005; 2011), Hymes (1971), Labov (1972) e Milroy (1980), cujas contribuições embasam a análise das relações entre interação social e práticas linguísticas. Adotou-se uma abordagem metodológica qualitativa, quantitativa e interpretativista para a análise dos estudos revisados. Os resultados indicam que, no período determinado, as pesquisas analisadas reforçam a tese de que redes sociais densas e multiplexas desempenham um papel crucial na manutenção de dialetos regionais e vernaculares, evidenciando sua capacidade de resistir às pressões da norma urbana de prestígio, ainda que a quantidade de pesquisas seja reduzida. O estudo contribui para o aprofundamento do entendimento da interação entre estrutura social e variação linguística, oferecendo subsídios para futuras investigações e políticas educacionais que valorizem a diversidade linguística.
RESUMO: Nunca é demais afirmar a importância da sociolinguística educacional para as atividades relativas ao ensino e à aprendizagem em língua portuguesa, ao lado de todas as contribuições teóricas que a sociolinguística variacionista registra para a concepção de língua, que consolidou a variação como um fenômeno sistemático e socialmente condicionado. Logo, considerando a fundamentação teórica postulada por Bortoni-Ricardo (2004) e por Labov (2008), este artigo se debruça sobre o ensino de língua Portuguesa na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para tanto, apresenta os resultados de pesquisa empírica que analisa o conceito de variação linguística em materiais didáticos utilizados no Projeto de Educação de Jovens e Adultos (PEJA), modalidade desenvolvida no município do Rio de Janeiro, na Coordenação de Educação de Jovens e Adultos ( CEJA), modalidade desenvolvida no estado do Rio de Janeiro, e no Exame Nacional de Educação de Jovens e Adultos (ENCCEJA), avaliação em esfera federal que certifica jovens, adultos e idosos na terminalidade dos níveis de ensino fundamental e médio. A análise de documentos oficiais e dos conteúdos didáticos, disponibilizados em 2023, foi guiada por sete parâmetros de reconhecimento da variação linguística cujo ponto de partida é Lima (2022), que enfatiza o papel dos materiais didáticos na construção de representações sobre a linguagem. Parte-se da premissa de que os referidos materiais devem envolver desde a valorização das experiências socioculturais dos/ das estudantes, até a incorporação de estratégias avaliativas que contemplem diferentes usos da linguagem. Os resultados revelam a ausência dos dois primeiros parâmetros, relacionados ao reconhecimento da diversidade linguística e ao acompanhamento do desenvolvimento do aluno nesse aspecto e apontam para uma presença pontual e superficial dos demais, o que nos leva a afirmar que prevalece na abordagem da variação, nos materiais analisados, restrições de abordagem, pois tratam o tema como uma unidade isolada, de mero enfoque de conteúdo, sem articulação contínua com o currículo, ou melhor, desconsiderando o conceito de variação, que é inerente a uma língua natural. Além dos autores supracitados, a pesquisa toma como base Coseriu (1980) que consolidou a distinção entre norma, sistema e fala como dimensões essenciais para compreender a diversidade linguística. A pesquisa ratifica a visão de Bortoni-Ricardo (2004), ao considerar a importância da pluralidade linguística a partir das práticas reais de fala das comunidades. Além disso, retoma a reflexão de Mello (2010), que destaca a necessidade de considerar a heterogeneidade social e cultural dos estudantes da EJA como eixo estruturante das práticas pedagógicas. Os resultados apontam para comprometimento do potencial formativo da EJA como espaço de construção de saberes linguísticos e sociais contextualizados.
O fenômeno da palatalização das oclusivas /t/ e /d/ tem sido amplamente estudado no Brasil, ganhando espaço, especialmente, na região Nordeste do país. Parte dessas pesquisas tomam a Fonologia Autossegmental/ Geometria de Traços como base teórica (Goldsmith, 1976; Clements e Hume, 1995) a fim de explicar fonologicamente como se dá o processo da palatalização. Diante disso, neste estudo buscamos sumarizar como pesquisas que adotam a perspectiva da Geometria de Traços explicam tal fenômeno. A partir das diretrizes metodológicas de uma revisão sistemática, realizamos nossa coleta de dados ancoradas em uma expressão de busca definida previamente. As buscas foram realizadas no Catálogo de dissertações e teses da CAPES e no Google Scholar. Encontramos o total de 415 textos, dos quais 404 foram excluídos, pois não atenderam ao objetivo da revisão, restando 11 estudos, que abordaram a geometria dos traços e, em sua maioria, focalizaram o fenômeno da palatalização de /t/ e /d/ em suas análises. A partir das leituras, constatamos que apesar de muitos autores apontarem o espraiamento do traço [coronal] como principal desencadeador do processo de palatalização das oclusivas alveolares /t/ e /d/, o traço [contínuo] também é destacado por alguns autores como influenciador de tal processo.
A literatura brasileira contemporânea tem se configurado como espaço privilegiado de confronto com as contradições políticas, sociais e morais que atravessam o país, especialmente em tempos marcados pela ascensão de discursos conservadores e autoritários. Nesse contexto, o presente artigo analisa o conto A (des)importância do pau, de Renato Gouveia, pelo viés do insólito moral (ruptura social) e propõe-se o conceito de narrativa messiânica decadente como chave interpretativa. O objetivo é demonstrar como a obra encena o colapso simbólico de figuras masculinas investidas de autoridade política e religiosa, cujos discursos de moralidade se dissolvem diante de seus próprios desejos reprimidos e contradições éticas. A narrativa, ao retratar o encontro de uma travesti com um deputado e um padre, mobiliza o insólito não como sobrenatural, mas como deslocamento do verossímil, construindo uma estética do grotesco e do banal que desnuda pactos de exclusão e a teatralidade da hipocrisia institucional, e essa análise se sustenta nas reflexões de Schøllhammer (2009), Gallego Cuiñas (2021), Alazraki (2001), Garcia (2010) e Candido (2000), autores que fundamentam a compreensão do insólito, do grotesco e da função crítica da literatura no cenário atual.
Este artigo analisa crenças e atitudes linguísticas de estudantes do Ensino Médio de uma escola pública de São Bento do Una (PE), focalizando como os participantes avaliam e reagem a asserções sobre língua, fala, escrita, norma e prestígio linguístico, bem como as implicações desses posicionamentos para o fortalecimento de uma pedagogia da variação linguística. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa quantitativo-interpretativa, ancorada na Sociolinguística Educacional, desenvolvida a partir da aplicação de um questionário estruturado em quatro partes a 67 estudantes. Para fins analíticos, as asserções foram reorganizadas em cinco eixos: (i) crenças sobre fala e escrita; (ii) escola e visão normativa da língua; (iii) reconhecimento da diversidade e da adequação; (iv) autoavaliação da competência linguística; e (v) atitudes frente à variação e ao prestígio. Os dados foram processados no R, com geração de gráficos de dispersão (boxplots) para examinar tendências de concordância/discordância e padrões de variabilidade. Os resultados evidenciam a coexistência de ideologias normativas persistentes—associadas à escrita como lugar de correção, à centralidade da gramática e ao papel regulador da escola—com indícios relevantes de deslocamento, expressos no orgulho do próprio modo de falar, na valorização identitária e na emergência da adequação como princípio de competência comunicativa. Conclui-se que, embora a variação linguística figure no plano curricular, sua incorporação crítica às práticas escolares permanece desigual, demandando ações pedagógicas sistemáticas que articulem transposição didática, consciência sociolinguística e formação docente continuada.
O presente artigo retoma a provocação de Bortoni-Ricardo (2005) para discutir a ineficiência da escola universal no trato com a gramática natural do aluno frente às exigências da norma padrão. A análise dos dados focaliza o emprego das variantes de primeira pessoa do plural (nós vs. a gente) e a arquitetura das cláusulas relativas, contrastando a marcação zero com a forma explícita do marcador relacional. A pesquisa demonstra que a inoperância pedagógica da escola reside no tratamento desses fenômenos como erros assistemáticos, visão diversa da defendida por Cardoso e Cobucci (2014), Lima (2025) e Mollica (2026). Para superar o impasse, apresentam-se propostas de retextualização com base em Marcuschi (2010), fundamentadas também sob a ótica dos multiletramentos (ROJO, 2012). O texto conclui que o reconhecimento da lógica do sistema vernáculo é o fundamento necessário para que a instituição escolar promova a efetiva ampliação do repertório exigido no ambiente formal.
Este artigo investiga o padrão construcional idiomático [IR de arrasta (para ADVloc)] que licencia construtos como foi de arrasta pra cima, comum em interações digitais (Simões Neto; Souza, 2023), com foco em sua descrição sintática, semântica e pragmático-discursiva. A hipótese do estudo é a de que esse padrão construcional tem natureza idiomática cuja gênese está ligada à interação digital a partir de um sentido concreto que se amplia para abarcar sentidos mais abstratos. A pesquisa está fundamentada na Linguística Funcional Centrada no Uso (Furtado da Cunha; Bispo; Silva, 2013; Bybee, 2016), a qual postula que as estruturas linguísticas devem ser examinadas em termos de sua forma e função, enfatizando que a língua serve a funções comunicativas e cognitivas. Metodologicamente, o estudo é de natureza qualitativo-interpretativa e examina 100 dados empíricos provenientes de redes sociais (Instagram, TikTok, X e Facebook). Os resultados da pesquisa desvelam que a expressão se desenvolveu a partir de um uso funcional e literal para contextos mais metafóricos, associando-se a sentidos que evocam a ideia de morte/fim e fracasso. Essa ampliação de sentidos assinala a criatividade linguística subjacente ao uso da língua pelos falantes.
Apresenta-se, nesta resenha, uma (re)imaginação poética e estética da pós-colonialidade em um mundo moçambicano representado e idealizado por Virgília Ferrão, que apresenta a personagem Laila Lubrino Sitole e sua busca por si mesma em realidades físicas e espirituais, assim como o relacionamento com Marcelo, numa narrativa para além das divergências terminológicas entre a ficção científica e a fantasia.
Este trabalho tem como objetivo analisar discursos dispersos e articulados que atualizam memórias discursivas e produzem sentidos que tensionam a legitimidade das lutas negras no Brasil. A partir de um post no Instagram do portal g1, sobre o Dia da Consciência Negra, Partimos da noção de que o discurso é atravessado pela ideologia e pelas condições de produção (Pêcheux, 2009; Orlandi, 2015), o que implica considerar tanto os processos históricos da escravidão e da resistência negra (Moura, 2021; Nascimento, 2007; Gomes, 2006; Freitas, 1982), quanto à colonialidade do saber (Quijano) que estrutura hierarquias epistêmicas. As análises apontam que tais comentários operam como estratégias discursivas de deslegitimação, sustentadas por um imaginário social sustentado pelo discurso colonizador, que se contrapõe saberes históricos e insurgentes.
Nos livros didáticos produzidos nos últimos anos há uma presença cada vez maior de infográficos junto com outros gêneros multimodais. Documentos prescritivos como a BNCC também recomendam o uso de infográficos e outros textos multissemióticos no trabalho de leitura e produção textual. Neste trabalho qualitativo de tipo documental, utilizamos a Gramática do Design Visual de Kress e Van Leeuwen (2006), para descrever os infográficos assim denominados na coleção de livros didáticos "Sentidos en lengua española" (Costa; Freita, 2016), bem como as capacidades de leitura (habilidades/estratégias) que devem ser mobilizadas nas atividades propostas com eles, para o qual utilizamos a lista de capacidades de leitura de textos multissemióticos de Gomes (2017). Um total de quatro infográficos foram encontrados. As competências de leitura que devem ser mobilizadas apresentaram diferenças, conforme as propostas de trabalho apresentadas.
Este artigo analisa os diários de Lúcio Cardoso, com a hipótese de que eles se constituem como uma obra híbrida: diário-ensaio. A conjectura é resultado da observação de que a escrita íntima e a reflexão crítica se entrelaçam em um projeto literário consciente. Com base nisso, a análise identifica tanto marcas diarísticas, como a datação e a autorreflexão, quanto elementos ensaísticos, como o diálogo com a tradição literário-filosófica, o que demonstra que, longe de ser espontânea, a obra é um trabalho estético autônomo. Como instrumental teórico, utilizam-se pesquisas voltadas à diarística (Didier, 1991; Blanchot, 2005) e à ensaística (Barrento, 2010; Starobinski, 2018). Dada a divergência entre versões dos diários, recorre-se à última, organizada e revista por Ésio Macedo Ribeiro: Todos os diários (2023a; 2023b). Conclui-se, assim, que as cadernetas são o cruzamento entre o íntimo e o estético, o vivido e o elaborado.