
O objetivo deste artigo é analisar o modelo de governança e a dinâmica operacional dos elos produtivos da Indústria Farmacêutica sob a ótica das Cadeias Globais de Valor. O estudo investiga a configuração da estrutura produtiva e de governança dessa indústria diante do cenário contemporâneo de fragmentação e internacionalização da produção. A metodologia ancora-se em uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, fundamentada em um levantamento bibliográfico em acervos físicos e digitais, abrangendo literatura técnica e científica especializada. O arcabouço analítico adotou o referencial de Gereffi e Fernandez-Stark (2016) para a decomposição dos elos da cadeia. Os resultados indicam que a Indústria Farmacêutica enquadra-se no modelo de cadeia liderada pelo produtor (producer-driven chains), dado que o controle tecnológico, as atividades de P&D e a propriedade intelectual concentram-se nas empresas líderes. Conclui-se que a estrutura de governança da Indústria Farmacêutica manifesta-se predominantemente nos tipos Hierárquico e Cativo, evidenciando que o entendimento dessas dinâmicas é indispensável para que formuladores de políticas públicas possam orientar a inserção soberana de países nas CGVs e promover o desenvolvimento econômico e social.
Este artigo analisa as transformações estruturais do setor sucroenergético entre 2003 e 2025. O objetivo é identificar os fatores econômicos e institucionais que moldaram a trajetória da atividade após a introdução dos veículos flex-fuel. A metodologia adota abordagem qualitativa e explicativa, com o uso do método histórico-dedutivo e levantamento de dados secundários da CONAB, ANFAVEA e UNICA. O tratamento estatístico e a organização das séries históricas ocorreram na linguagem R. Os resultados demonstram que a tecnologia de combustíveis flexíveis se estabilizou em patamares superiores a 80% dos licenciamentos nacionais, o que garantiu segurança de demanda e elevou o piso produtivo de etanol para mais de 30 bilhões de litros anuais. Observa-se uma reconfiguração geográfica em direção ao Centro-Oeste, impulsionada pela ascensão do milho como matéria-prima complementar, o que reduziu a ociosidade industrial e gerou coprodutos relevantes para a nutrição animal. A análise evidencia a resiliência da oferta de biocombustíveis frente às oscilações no mercado de veículos novos e à volatilidade dos preços internacionais do açúcar. Conclui-se que marcos regulatórios como o RenovaBio consolidaram o combustível renovável como ativo estratégico na agenda climática global.
O crescimento acelerado e desordenado das cidades brasileiras tem impulsionado o uso de aterros hidráulicos como estratégia de expansão urbana, provocando profundas transformações ambientais, sociais e econômicas. Este estudo analisou a legislação vigente sobre aterros hidráulicos em corpos hídricos, bem como suas consequências, por meio de revisão de literatura científica, documentos técnicos e normas ambientais. Os resultados indicam que, apesar da existência de instrumentos como a Política Nacional do Meio Ambiente, a Lei das Águas, o Estatuto da Cidade e resoluções do CONAMA, não há uma regulamentação específica e abrangente para os aterros hidráulicos, gerando insegurança jurídica e a aplicação de normas de forma indireta ou por analogia. No campo ambiental, verificou-se que tais obras intensificam a impermeabilização do solo, reduzem a infiltração hídrica, contribuem para assoreamento, perda de biodiversidade e poluição aquática. Socialmente, fomentam ocupações irregulares e desigualdades urbanas, enquanto economicamente resultam em prejuízos relacionados a inundações e custos de saneamento. Conclui-se que a ausência de um marco legal específico e coeso compromete a gestão adequada dessa prática, sendo recomendo a criação de regulamentação própria que considere os riscos técnicos e impactos multidimensionais dos aterros hidráulicos, de modo a orientar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento urbano sustentável.
O avanço da fronteira agrícola em Rondônia tem intensificado o uso de insumos agroquímicos, ampliando a necessidade de sistemas eficientes de logística reversa para embalagens vazias de agrotóxicos. Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo analisar a estrutura e a operacionalização do sistema de logística reversa de embalagens vazias de agrotóxicos no estado de Rondônia, considerando sua articulação com os princípios da economia circular e sua contribuição para a sustentabilidade ambiental no agronegócio rondoniense. A pesquisa caracteriza-se como aplicada, de abordagem quali-quantitativa e natureza exploratório-descritiva, fundamentada em revisão bibliográfica, levantamento documental da legislação pertinente e análise de dados secundários provenientes do inpEV e da IDARON. Foram examinados dados referentes à comercialização e devolução de embalagens de agrotóxicos no período de 2022 a abril de 2026. Os resultados demonstraram que, no período analisado, foram comercializadas 11.165.115 embalagens de agrotóxicos em Rondônia, das quais 9.203.520 foram devolvidas, correspondendo a um índice total de devolução de 82,43%. Embora esse percentual revele capacidade operacional relevante do sistema, constatou-se que 17,57% das embalagens não retornaram ao fluxo formal de destinação, indicando gargalos no ciclo reverso. Além disso, apenas 14 dos 52 municípios do estado possuem unidades de recebimento, o que evidencia limitações territoriais e logísticas. Conclui-se que o sistema contribui para a economia circular e para a sustentabilidade ambiental, mas requer ampliação da infraestrutura, fortalecimento da fiscalização e ações educativas voltadas aos usuários de agrotóxicos.
A discussão sobre o neodesenvolvimentismo no Brasil tem ocupado posição relevante nos debates acadêmicos e políticos das últimas décadas, especialmente em razão das diferentes interpretações acerca do papel do Estado na promoção do desenvolvimento econômico e social. Nesse contexto, o tema também passou a ser abordado em estudos voltados às Políticas Públicas de Saúde, campo diretamente influenciado pelas estratégias de financiamento, planejamento e intervenção estatal. Diante disso, esta pesquisa parte do seguinte questionamento: como a discussão sobre o neodesenvolvimentismo no Brasil emerge nos trabalhos acadêmicos acerca das Políticas Públicas de Saúde publicados entre 2003 e 2025? Para responder a essa questão, foi realizada uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), utilizando o software Harzing’s Publish or Perish para o levantamento bibliográfico em bases indexadas pelos catálogos Crossref e OpenAlex. Após a seleção dos estudos, foram identificadas diferentes perspectivas teóricas do neodesenvolvimentismo presentes na literatura especializada, as quais serviram de referência para a análise dos trabalhos relacionados às Políticas Públicas de Saúde. Os resultados indicam que, embora o neodesenvolvimentismo constitua um importante referencial para compreender o contexto político, econômico e institucional das políticas de saúde no Brasil, sua presença nos estudos analisados ocorre de forma fragmentada, heterogênea e, na maior parte dos casos, sem articulação direta e sistemática com áreas específicas do setor da saúde.
O objetivo deste artigo é analisar o modelo de governança e a dinâmica operacional dos elos produtivos da Indústria Farmacêutica sob a ótica das Cadeias Globais de Valor. O estudo investiga a configuração da estrutura produtiva e de governança dessa indústria diante do cenário contemporâneo de fragmentação e internacionalização da produção. A metodologia ancora-se em uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, fundamentada em um levantamento bibliográfico em acervos físicos e digitais, abrangendo literatura técnica e científica especializada. O arcabouço analítico adotou o referencial de Gereffi e Fernandez-Stark (2016) para a decomposição dos elos da cadeia. Os resultados indicam que a Indústria Farmacêutica enquadra-se no modelo de cadeia liderada pelo produtor (producer-driven chains), dado que o controle tecnológico, as atividades de P&D e a propriedade intelectual concentram-se nas empresas líderes. Conclui-se que a estrutura de governança da Indústria Farmacêutica manifesta-se predominantemente nos tipos Hierárquico e Cativo, evidenciando que o entendimento dessas dinâmicas é indispensável para que formuladores de políticas públicas possam orientar a inserção soberana de países nas CGVs e promover o desenvolvimento econômico e social.
La migración internacional proveniente del Triángulo Norte de Centroamérica, integrado por Guatemala, Honduras y El Salvador, constituye uno de los fenómenos sociales más complejos, persistentes y multidimensionales de la región latinoamericana en las últimas décadas. Este artículo tiene como objetivo analizar la migración internacional del Triángulo Norte de Centroamérica. Metodológicamente, el estudio se sustenta en un enfoque cualitativo-cuantitativo, basado en una revisión bibliográfica sistemática y documental de informes de organismos internacionales, entre ellos la OIM, la CEPAL y el Banco Mundial, así como en el uso de datos secundarios provenientes de fuentes nacionales e internacionales. La migración de esta región tiene como principal destino de atracción a los Estados Unidos de América, donde para el año 1970 se encontraban 117.300 inmigrantes residiendo en dicho país, cifra que supera en 2024 los 6 millones de personas. A su vez, la migración de esta población responde a una combinación de factores estructurales históricos, como la pobreza, la desigualdad, la violencia y la exclusión social, cuya intensidad varía de manera significativa en cada contexto nacional. Por otro lado, las remesas familiares monetarias representan un componente fundamental de las economías nacionales, alcanzando en 2024 aproximadamente el 19,0 %, 26,3 % y 24,3 % del PIB, respectivamente por país. Se concluye que la migración se configura como un fenómeno estructural y sostenido en el tiempo, con profundas implicaciones en las dinámicas demográficas, económicas y sociales de la región.
A urbanização altera a cobertura do solo, o balanço hídrico e as condições climáticas locais, especialmente em áreas ambientalmente estratégicas. Este estudo analisou a evolução das superfícies impermeáveis na região norte de Goiânia e discutiu sua relação com a variabilidade temporal da temperatura média anual do ar e da umidade relativa entre 1985 e 2020. A área de estudo foi delimitada em ambiente SIG com base em dados vetoriais oficiais. A dinâmica da cobertura do solo foi analisada por meio de imagens Landsat processadas no Google Earth Engine e classificadas por abordagem supervisionada. As tendências climáticas foram avaliadas utilizando o teste de Mann–Kendall e regressão linear. Os resultados indicaram tendência de aumento da temperatura média anual do ar e tendência de redução da umidade relativa ao longo da série histórica, com ajuste moderado para a temperatura (R² = 0,5778) e menor ajuste para a umidade relativa (R² = 0,2484). A área impermeável apresentou tendência geral de crescimento quando considerada a média móvel de 5 anos (R² = 0,7226). Entretanto, as correlações lineares entre área impermeável e variáveis climáticas foram fracas, indicando que a variabilidade termo-higrométrica observada não pode ser explicada exclusivamente pela impermeabilização do solo. Conclui-se que a região norte de Goiânia passou por um processo de transformação territorial compatível com a expansão urbana, acompanhado por aquecimento local e redução da umidade relativa, em interação com forçantes climáticas regionais. Os resultados destacam a importância do planejamento urbano orientado à adaptação climática e à preservação da funcionalidade ambiental dessa porção do município.
Este estudo analisa o papel do cooperativismo na cadeia produtiva do mel a partir da experiência da Cooperativa Apícola da Macrorregião de Picos (CAMPIL), no estado do Piauí, com foco em sua contribuição para o desenvolvimento rural sustentável e para a organização territorial da apicultura no Semiárido piauiense. Com abordagem exploratória e qualitativa, a pesquisa articula levantamento bibliográfico e documental, análise de dados secundários, entrevistas semiestruturadas e análise espacial da distribuição dos cooperados. A pesquisa considera a área de atuação da cooperativa na macrorregião de Picos, inserida predominantemente no bioma Caatinga, podendo abranger áreas de transição ecológica conforme a distribuição territorial dos cooperados. Os resultados indicam que a CAMPIL exerce função estratégica na organização da produção, no escoamento do mel, na redução da dependência de atravessadores e na ampliação do acesso a mercados mais exigentes, inclusive externos. Também se destaca sua contribuição para a reprodução social da agricultura familiar, por meio da redistribuição da renda, da realização de ações coletivas e do fortalecimento territorial. Contudo, a cooperativa enfrenta desafios relacionados à estiagem, à redução das floradas, aos custos operacionais e à vulnerabilidade institucional. Conclui-se que o cooperativismo apícola constitui importante mecanismo de resistência camponesa e de promoção do desenvolvimento rural sustentável.
A Estação da Bacia Hidrográfica do Rio Piava, em Umuarama (PR), é a única fonte de abastecimento público do município, beneficiando mais de 100 mil pessoas e assumindo, assim, um papel fundamental para a sustentabilidade da cidade. Embora de importância estratégica para a segurança hídrica regional, a bacia está sob a influência de pressões antropogênicas relacionadas à expansão urbana, à produção pecuária predominante, à compactação do solo, à remoção da vegetação ribeirinha e ao aumento dos processos erosivos. Os canais de ordem zero desempenham um papel importante ambientalmente, uma vez que são áreas de convergência de fluxos superficiais e subsuperficiais, e associam-se frequentemente às zonas temporárias de saturação hídrica, às áreas úmidas e ao início de processos erosivos de incisão. O objetivo do estudo foi avaliar a utilização de geotecnologias e índices morfométricos para a identificação desses canais na APA do Rio Piava, em especial por meio do Índice Topográfico de Umidade (ITU) e do Índice de Fluxo Máximo (IMF) – este último derivado do Modelo Digital de Terreno processado no QGIS e no SAGA GIS. Foram observadas diferenças entre as cartas topográficas oficiais na escala 1:50.000 e o que foi representado por geoprocessamento e validação em campo, evidenciando a subestimação dos sítios naturalmente vulneráveis. Conclui-se que a inclusão dos canais de ordem zero no planejamento ambiental é crucial para revisão das margens vegetacionais, para a mitigação do assoreamento e para a consolidação da gestão integrada do manancial.
O presente estudo tem como objetivo analisar a variabilidade espacial da produtividade da soja nos municípios do estado do Rio Grande do Sul. Para isso, foram utilizados dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes à produtividade da cultura da soja no estado, aplicando-se as técnicas de Análise de Variância (ANOVA) e análise de conglomerados (clusters). A ANOVA foi aplicada ao período de 1974 a 2023, identificando três fases distintas de mudança na dinâmica produtiva da soja, caracterizadas por uma transição de padrões homogêneos para heterogêneos entre os municípios. A análise de clusters, aplicada ao intervalo de 2004 a 2023, permitiu a formação de sete agrupamentos compostos por municípios com níveis de produtividade semelhantes. A variabilidade espacial observada pode ser atribuída a múltiplos fatores, com destaque para a expansão territorial da cultura para áreas marginalmente aptas e a influência das condições edafoclimáticas sobre o desempenho produtivo regional.
O crescimento desordenado das cidades tem afetado também os municípios de pequeno porte, nos quais são verificados problemas de mobilidade semelhantes aos ocorridos em cidades de grande porte, porém em proporção menor, mas com efeitos semelhantes (inúmeros sinistros de trânsito, perdas de vidas e grande prejuízo social e econômico). Esta pesquisa combina o índice de severidade de sinistros de trânsito com um Sistema de Informação Geográfica (SIG), através da criação de Mapas de Densidade de Kernel, para identificar pontos críticos de sinistralidade em Novo Horizonte, cidade de pequeno porte localizada no estado de São Paulo. A metodologia aplicada consistiu na coleta de dados entre os anos 2018 e 2024, seguida do processamento dos dados, cálculo do índice de severidade, definição e georreferenciamento dos pontos críticos em um SIG e criação de Mapas de Densidade de Kernel. Motociclistas, pedestres e ciclistas representaram 73,07% do total de óbitos no período analisado e a Avenida da Saudade a via que apresentou a maior mancha de calor, com uma variação significativa de cores ao longo de toda a sua extensão, indicando uma alta concentração de sinistros em diferentes trechos e sugerindo que essa via deve ser priorizada para intervenções e melhorias na segurança viária. Palavras-chaves: Segurança Viária; Sinistros de Trânsito; Sistema de Informação Geográfica; Mapa de Densidade de Kernel.
O presente estudo tem como objetivo caracterizar a produção e alimentação dos agricultores familiares do Projeto de Assentamento Celso Furtado, localizado no município de Santo Amaro das Brotas/SE. De natureza quantitativa, a pesquisa foi realizada a partir da coleta de dados primários por meio de questionário semiestruturado, que foram posteriormente sistematizados na plataforma Excel e analisados por meio de estatística descritiva. As variáveis analisadas englobam a produção agrícola e pecuária, composição da alimentação dos assentados de acordo com os produtos agrícolas e pecuários e àqueles adquiridos fora do estabelecimento, e o número de refeições diárias. Como resultados, constatou-se a alta diversificação produtiva e diversidade alimentar no assentamento. Contudo, verificou-se que a produção nos estabelecimentos não supre integralmente as necessidades alimentares das famílias assentadas, que ainda dependem da aquisição de alimentos fora do estabelecimento. Ademais, aufere-se que a produção interna é designada sobretudo ao autoconsumo, com pequeno excedente destinado à venda, contribuindo para o cenário de Segurança Alimentar e Nutricional dos assentados. Por fim, conclui-se que a diversificação produtiva no assentamento contribui com a Segurança Alimentar das famílias.
O estudo tem por objetivo elencar as principais limitações dos agentes de inovação na construção de ambientes regionais de inovação em um formato de trabalho home office. Para consubstanciar as análises e discussões, realizou-se revisão de literatura sobre ecossistemas de inovação e limitações digitais. Quanto ao desenho metodológico, trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e diagnóstico, realizada no Sistema Regional de Inovação do Rio Grande do Sul, com coleta de dados por meio da técnica de grupo focal. A análise de conteúdo foi orientada por categorias a priori. Os principais resultados indicam: (i) dificuldades na interlocução universidade-empresa; (ii) desafios relacionados às ferramentas utilizadas para a execução do trabalho home office; (iii) problemas de conexão com a internet; (iv) limitações associadas ao uso de artefatos físicos; (v) aspectos ergonômicos do trabalho; e (vi) implicações de trabalhar próximo da família. As discussões sugerem a necessidade de proposição de políticas que mitiguem essas dificuldades, contribuindo para qualificar a atuação dos gestores de inovação e tecnologia (GITs) na consolidação do ecossistema regional de inovação. À luz do atual contexto de transformação digital, o estudo oferece contribuições práticas ao evidenciar a importância de analisar, de forma integrada, as limitações digitais, materiais, cognitivas e comportamentais na atuação de agentes públicos responsáveis pela articulação de ecossistemas regionais de inovação.
O presente artigo analisa as desestatizações no Brasil como manifestação contemporânea dos "cercamentos" neoliberais, a partir do referencial teórico do "paradigma dos comuns". Utilizando a revisão bibliográfica como metodologia, o estudo articula as contribuições de Pierre Dardot e Christian Laval, David Harvey, Karl Polanyi e Naomi Klein para examinar criticamente o processo de apropriação, pelo capital, de bens e serviços historicamente pertencentes ao domínio público. Argumenta-se que o neoliberalismo, enquanto nova racionalidade hegemônica, instrumentaliza as privatizações como mecanismo de "acumulação por despossessão", transferindo ao mercado recursos comuns essenciais, materiais e imateriais, e aprofundando desigualdades sociais. No contexto brasileiro, observa-se que a agenda desestatizadora, inaugurada pela Lei nº 8.031/1990 e intensificada pelo Novo Marco Regulatório do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), consolida um padrão de "empresalização" dos serviços públicos essenciais, com implicações diretas sobre o acesso à água, ao esgotamento sanitário e à efetivação de direitos fundamentais. Conclui-se que o paradigma dos comuns oferece um quadro teórico e político relevante para a resistência às novas formas de cercamento neoliberal, constituindo-se em alternativa crítica ao neoliberalismo que transcende o retorno ao welfare state clássico, ao identificar as raízes estruturais da expropriação capitalista e reivindicar a proteção dos comuns como imperativo de bem-estar e justiça social.
No final da década de 1990, em Campos dos Goytacazes, houve um breve período de tempo em que foram criados assentamentos de reforma agrária após a falência de usinas de açúcar que causou altas taxas de desemprego, um grande estoque de trabalhadores ociosos e grandes dívidas fiscais. Nesse contexto, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) chegou à cidade em 1997 para pressionar o governo federal a conduzir um longo processo de reforma agrária. Como resultado das ocupações de terras lideradas pelo MST foram criados onze assentamentos de reforma agrária para assentar 829 famílias. O objetivo do estudo foi analisar os gargalos que afetam a comercialização da produção fornecida pelos assentamentos de reforma agrária. A coleta de dados teve como objetivo verificar as conexões entre os assentamentos de reforma agrária e as áreas urbanas. Os nossos resultados mostram que, face aos fracos canais de comercialização colectiva, os beneficiários da reforma agrária são fortemente dependentes do intermediário para vender a sua produção. Esta dependência é ligeiramente reduzida pela existência de feiras de rua organizadas pelos agricultores e insuficientemente apoiadas pelo governo municipal.
A participação feminina no mercado de capitais tem aumentado de modo significativos nos últimos anos, mas ainda enfrenta desafios estruturais e culturais que limitam seu pleno desenvolvimento. Este estudo busca analisar os principais fatores que influenciam a inserção das mulheres nesse ambiente, identificando barreiras e oportunidades para uma maior equidade de gênero. A pesquisa adota uma abordagem quantitativa e qualitativa, utilizando levantamento bibliográfico e aplicação de questionários com investidoras para compreender suas percepções, dificuldades e estratégias no mercado financeiro. Os resultados indicam que a falta de educação financeira, o preconceito de gênero e a escassez de redes de apoio são desafios significativos enfrentados pelas mulheres. Conclui-se que a adoção de algumas medidas pode contribuir para a redução da desigualdade de gênero no mercado de capitais, promovendo maior inclusão e participação feminina no setor.
Este estudo tem por objetivo compreender como a perspectiva da intra-ação pode contribuir para a análise das relações e do empoderamento feminino no campo. A perspectiva da intra-ação desafia a noção tradicional de entidades independentes ao propor que as propriedades e identidades são geradas a partir das intra-ações e relações entre os elementos. Os resultados deste estudo evidenciam a perspectiva da intra-ação como uma forma de compreender as dinâmicas de gênero e o empoderamento feminino no campo, a partir dos elementos da perspectiva da intra-ação: materialidade e discursividade; performatividade e agência. Como contribuição teórica, este trabalho consiste em apresentar uma perspectiva de empoderamento como relação, por meio de elementos, para abordar o empoderamento feminino de uma maneira distinta do que tem sido feito em outros estudos. Essa abordagem evidencia que o empoderamento não emerge de sujeitos previamente constituídos, mas de relações entre humanos e não-humanos. A mulher, nesse sentido, não é o centro único do processo, mas faz parte de uma rede de elementos que, em sua intra-ação, possibilitam (ou limitam) seu reposicionamento na sociedade.
A presente pesquisa versa sobre a garantia dos direitos humanos em um processo de planejamento participativo desenvolvido, tomando por referência experiência desenvolvida em Guiné Bissau. O processo desenvolvido com base na pedagogia freireana, a construção coletiva na elaboração das estratégias, a integração de ferramentas metodológicas, como Linha do Tempo, Análise Situacional com base na Matriz SWOT e Quadrimembração. A pesquisa se caracteriza como exploratória, descritiva e Estudo de Caso, quanto aos fins, e bibliográfica, documental e de campo, quanto aos meios. A análise, sistematização e descritação foi realizada com base no objetivo. A experiência estudada contou com uma metodologia de planejamento participativo, permeando um referencial teórico-metodológico, freireana, educação cooperativista e de desenvolvimento regional. Os resultados da pesquisa reconhecem que o processo foi robusto e adaptável, que conecta o passado e o presente e aduz para as ações futuras. Permite melhor compreensão das dinâmicas de planejamento participativo em cenários institucionais desafiadores, como o contexto do País da Guiné-Bissau, que podem ser aplicados a organizações cooperativistas, não cooperativistas, e demais organizações complexas. Agrega-se que a metodologia aplicada e estudada, sustentadas nos referenciais teóricos, os fundamentos dos direitos humanos, do cooperativismo e do desenvolvimento territorial, potencializando a importância e o papel de organizações da sociedade civil e das metodologias de participação e cidadania.
A mobilidade de indivíduos com alta escolaridade recebe atenção nos estudos sobre migrações pelas consequências que pode ter sobre o desenvolvimento e/ou desigualdades entre as regiões/países. No Brasil, dado os diferenciais da demanda por trabalho, tipos de empregos criados e de remuneração, entre as cinco grandes regiões, considerou-se relevante analisar a migração qualificada a partir da inserção no mercado de trabalho regional. O objetivo é verificar como o contexto econômico favorável a partir de 2004 afetou as condições de inserção ocupacional dos migrantes, segundo a qualificação e a região de destino. Para isso, são utilizadas as PNADs de 2005, 2011 e 2015. Como principal resultado, observou-se que apesar de diminuírem as dissemelhanças entre o migrante qualificado e o menos qualificado, que ocupa melhores vagas em anos recentes, as diferenças regionais persistem, propiciando maior informalidade e menores salários para migrantes que se empregam nas regiões Norte e Nordeste, independentemente da qualificação.