
This paper analyzes the relationship between the Doctrine of Double Effect (DDE), rooted in Thomistic philosophy, and the philosophy of intention developed by G.E.M. Anscombe in her work Intention (1957). Starting from Anscombe’s critique of consequentialism, it is argued that a rigorous application of the DDE requires a proper understanding of intentional action as described by Anscombe. The distinction between intended effects and merely foreseen effects is emphasized as fundamental for the moral evaluation of actions, especially in contexts involving complex ethical decisions. To illustrate this issue, the case of Adolf Eichmann is discussed through the lens of Hannah Arendt’s analysis, identifying in the defendant’s neutral language an example of action description that conceals his moral responsibility. It is concluded that, without an honest description of the action, intention can be manipulated or disguised, compromising ethical evaluation and obscuring the boundaries between what is permissible and what is morally condemnable.
O objetivo deste artigo é examinar as possíveis relações entre as concepções procedimentais de democracia de Jürgen Habermas e de Norberto Bobbio. Para tanto, seguem como referência principal os livros O futuro da democracia (2019), de Bobbio, e Direito e Democracia (1997), de Habermas. Trata-se de explicitar as concepções procedimentais de ambos os autores, evidenciar as diferenças e as poucas aproximações entre os procedimentalismos e analisar a crítica procedimental de Habermas direcionada a Bobbio.
Já em 1911, enquanto trabalhava na redação de sua última grande obra, Bergson declarou se dedicar à estética em seus estudos tendo em vista sua proximidade com a moral. Ainda que uma obra específica sobre as concepções artísticas nunca tenha se concretizado, As Duas Fontes da Moral e da Religião nos ofereceu uma ampla exposição da experiência estética e suas implicações. Todavia, propomos examinar os apontamentos bergsonianos concernentes ao tema da estética por outra via: através de O Riso. É evidente, tal como discorre Dominique Janicaud, que o filósofo da duração frequentemente “bergsoniza” a filosofia de Ravaisson. Isso sugere que ao mencionar as teses de seu predecessor Bergson pode estar também, em certos casos, apresentando suas próprias. Assim, propomos a leitura complementar de parte de O Riso com excertos da obra de Ravaisson para demonstrar que, para ambos os autores, a arte pode ser considerada uma espécie de “metafísica figurada” a qual possui como objetivo principal revelar a multiplicidade da natureza.
O ensaio de Merleau-Ponty intitulado A linguagem indireta e as vozes do silêncio pode ser tomado como uma proposta de interpretação filosófica da pintura, mas sobretudo como uma resposta do filósofo às teorias estéticas de André Malraux e Jean-Paul Sartre, apresentadas em As vozes do silêncio e O que é literatura?, respectivamente. No presente artigo, proponho uma análise de sua resposta a Sartre, no que tange a questão da absoluta distinção, proposta por este, entre a pintura e a prosa em relação ao seu engajamento no mundo real.
Foucault começa a utilizar a expressão técnicas de si no início dos anos 80, quando passa a desenvolver outra investigação para além da análise dos dispositivos de saber-poder que havia conduzido até então. O estudo do dispositivo da sexualidade é compreendido então como um capítulo introdutório de uma ampla pesquisa sobre o que ele designou como técnicas de si. Essa investigação, por sua vez, estaria fundamentada em um projeto filosófico formulado na mesma época, denominado Ontologia Crítica. Sendo assim, este trabalho busca discutir o significado de técnicas de si no quadro geral da Ontologia Crítica.
This article discusses the philosophical and intellectual relations of the Vienna Circle with left-wing socio-political movements in the interwar period of the 20th century. It notes that opposing movements, with a totalitarian tendency, were predominant in the German-speaking world since the beginning of the century, giving rise to Nazifascism in the 1930s. The totalitarian movements were based on traditional Austro-German philosophy. From this historical context, this paper argues that the Vienna Circle’s stance of breaking with philosophical tradition was a counterculture to the prevailing intellectual trend. As such, the Vienna Circle’s philosophy is seen as being in direct opposition to the theoretical foundations of the rising totalitarian movements. The first part of the text establishes the historiographical frame based on the perspectives of Janek Wasserman, Helmut Gruber, Hans-Joachim Dahms, George Mosse and Friedrich Stadler, positioning the Vienna Circle in the context of Central European, specifically Austrian, modernism. The second part shows that the Vienna Circle’s critical analysis of the philosophy of its time reflects the directed apprehensions of social, religious and political relations that extended to the scientific field of its historical context. This is represented through the works of Philipp Frank, who critically identified the pernicious and hierarchical relationships in the history of traditional philosophy, providing an understanding of the barriers to scientific progress that occurred in the first decades of the 20th century.
Trata-se de um estudo teórico que aborda vias para uma justificativa da educação, especialmente da educação escolar, que possam se configurar como formas legítimas de compreensão da função da escola, tendo em vista um projeto efetivamente republicano de educação. Em termos de objetivos, este estudo discute as concepções de educação de Durkheim e Arendt com vistas a pensar as contribuições e limites desses autores considerando a relação entre educação, indivíduo e sociedade. Metodologicamente, referenda-se as análises teóricas em fontes primárias da obra dos pensadores selecionados, fazendo uso também de uma bibliografia auxiliar para ratificar certas posições. Aponta que os conceitos de adaptação e renovação do mundo são fundamentais para a compreensão do projeto educacional destes autores, uma vez que em ambos a educação encontra seu sentido e sua razão de ser na tarefa de aproximar o indivíduo da vida social.
O objetivo deste texto é refletir sobre as relações entre transcendência, ética e religião no pensamento de Emmanuel Lévinas (1906-1995). Utilizando-se do método de pesquisa bibliográfico, são apresentadas as categorias fundamentais presentes em seus textos, organizadas conforme os temas mencionados. Busca-se a partir desse levantamento identificar o vínculo entre filosofia e teologia para a construção do pensamento ético nesse autor. Para sustentar tal relação, empreende-se ainda um diálogo com textos de outros intérpretes do pensamento levinasiano.
The purpose of this article is to analyze John Rawls's (1921-2002) ideas about the original position, veil of ignorance, reflective equilibrium and overlapping consensus, present in his theory of justice as fairness. Taking as background of the examination the challenge of creating or restructuring a tax system that has justice – as fairness – in the heart and mind of the norms and legal-tax institutions. The method used in the investigation is dialectic, which reviews the philosopher's ideal, confronting some of the main objections, to reach the end in a synthesis. It is concluded that the contributions of Rawlsian theory are of paramount importance to awaken socioeconomic actors to a fair and legal tax practice. And as tax policies or rules are instituted or managed, the interests of the perpetuation of political power are not aimed at, but those of the community, especially the socioeconomically disadvantaged.
Meu objetivo neste ensaio é contender pelo lugar da filosofia no Brasil contemporâneo. Atualmente, muito se tem discutido acerca dos problemas de nossa filosofia. Vários autores têm argumentado que nosso ensino e pesquisa em filosofia se resumiriam tão somente à história da filosofia e por isso careceria de originalidade. Ademais, sucessivos governos têm atacado a filosofia, diminuindo – quando não extinguindo – a carga horária da disciplina de filosofia na educação básica e procurando cortar investimentos para a pesquisa em filosofia nas pós-graduações. Parece inegável que a conjuntura atual cria sintomas de uma crise, a qual desloca a filosofia no Brasil de um lugar que lhe seja próprio. Com o objetivo de refletir a respeito desses problemas, proponho dois caminhos neste ensaio, um negativo e um positivo. Primeiramente, partirei do diagnóstico a respeito da falta de originalidade e autonomia da filosofia praticada no Brasil, ratificando-o. No entanto, a despeito de tais observações pessimistas, defenderei que podemos recolocar a filosofia como um campo de reflexão autônomo e ressaltar a sua imprescindibilidade diante das ciências, ainda que a tornemos cientificamente orientada enquanto uma propedêutica para a educação científica.
O texto intitulado Considerações sobre a reputação, lealdade, maneiras e religião de Thomas Hobbes de Malmesbury, escritas por ele mesmo, na forma de carta a uma pessoa culta — ou, simplesmente, Considerações sobre a reputação de Thomas Hobbes — foi originalmente publicado em 1662, no contexto da prolongada disputa intelectual entre Hobbes e John Wallis, clérigo anglicano e renomado matemático de Oxford. Redigido na forma de uma carta aberta, o texto constitui uma resposta direta ao panfleto Hobbius Heauton-timorumenos (1662), no qual Wallis acusa Hobbes de infidelidade à monarquia inglesa e de nutrir tendências ateístas. Em tom marcadamente irônico, Hobbes aproveita a ocasião para esclarecer alguns dos pontos mais controversos de sua trajetória intelectual e política — desde seu posicionamento durante a Guerra Civil Inglesa até sua relação com a religião e com os poderes constituídos. A presente tradução tem como base a reimpressão da obra realizada em 1680, posteriormente incorporada ao quarto volume da coletânea The English Works of Thomas Hobbes, organizada por Sir William Molesworth. Com o intuito de preservar a fidelidade à edição de referência, mantiveram-se os trechos destacados em itálico, as indicações de paginação e as referências constantes no corpo do texto. Além disso, procurou-se manter, tanto quanto possível, a pontuação e a coesão originais. Os trechos do Leviatã eventualmente citados em notas de rodapé são traduções próprias.
In the 20th Century, in the midst of the development of Iluminism and science, Kant defends the Enlightenment and claims that reason is the way for man to overcome his inferiority in the direction of a free life. Once a rationalist intellectual majority is reached, human society would walk to the evolution of its capabilities, generating a mature public debate and agreements willing social and epistemological improvement. In the 20th Century, along various social catastrophes made with support of technical advancement, staring at a planned and administered genocide, Adorno and Horkheimer write Dialetic of Enlightenment. Among the problems highlighted by the authors there is the “rationalist enlightenment ” as a tool for the construction of a cultural industry, a mechanism that limits the freedom and the capabilities to think. In dialogue between Kant and frankfurters philosophers, we raise the question about Enlightenment in the fine line between freedom and Imprisonment.
Conta-se que em meio as balas de canhão da invasão napoleônica em Iena que Hegel só se preocupava em preservar os manuscritos da sua magistral obra, a Fenomenologia do Espírito (1807). Obra densa, considerada de difícil compreensão, é essencial para o entendimento não apenas do sistema hegeliano, mas de toda a filosofia pós-hegeliana, como o marxismo ou o existencialismo. A incompreensão desta obra é uma lacuna que deve ser preenchida por todo jovem dedicado aos estudos filosóficos. Nosso objetivo é realizar uma breve introdução da obra Fenomenologia do Espírito, focando em como ela trata das formas que o sujeito (consciência) se relaciona com o objeto (mundo) e com outros sujeitos, com isso destacando conceitos fundamentais para o entendimento do hegelianismo. Esperamos auxiliar o leitor a iniciar a leitura da obra hegeliana, pois estará minimamente familiarizado com o vocábulo do importante filósofo alemão.
Procuramos analisar neste artigo algumas das principais interpretações que a fenomenologia filosófica apresenta sobre a arte. Inicialmente, examinamos a noção que Edmund Husserl desenvolve sobre a consciência da imagem e como ele procura explorar através dessa noção um viés compreensivo para identificar os objetos do mundo e as obras de arte. Num segundo momento, tratamos a respeito da concepção ontológica que Heidegger elabora sobre a obra de Van Gogh (Os sapatos), bem como de determinadas controvérsias geradas pelo enquadramento de suas interpretações. Em seguida, abordamos a questão conceitual sobre a fenomenologia da imagem em Sartre e como este filósofo concebe a materialidade da arte como algo intrínseco ao fazer artístico em geral. Por fim, vamos explorar o entendimento de Merleau-Ponty acerca da experiência com a arte pictórica e como esta nos permite visualizar o ambiente para além de uma simples visão ordinária, tornando visível o que antes era invisível.
With the publication of Knowing How, Stanley and Williamson revived the debate around practical knowledge. Essential to the intelectualist project is the application of practical modes of presentation (PMPs) in the framework. The goal of this article is to argue in defense of such application. For that, we are briefly introducing, in the first section, the role PMPs play in intelectualist epistemology. Soon after, we will appeal to the neofregean literature that, after Evans, defines regular modes relationally. The idea is to understand what modes tradionally are. With that in hand, we will present Glick's criticism towards PMPs. Shortly, for Glick, it is not possible to define PMPs in the same way as bona fideI modes. We'll aim to show how Glick's argument undermines canonical applications of the notion of sense. The solution to correctly define PMPs is to appeal to more theory. In the fourth section, we'll present Pavese's practial senses model and one of its instances, namely, motor commands. At last, we conclude in defense of the intelectualist application.
In this article, we intend to clarify the relationship between the neoliberal government and the different ways that psychological suffering is constituted from ways of life and work that, combined with social injustices, lead the individual to subjective loss. To do so, we will focus on the literature of contemporary authors. These phenomena associated with the development of neoliberalism, such as social distancing, repetitive work, the competitive logic of work, resilience and productivity in all areas of life would be associated with psychological symptoms, and the use of psychiatric medications as a quick solution to the suffering without considering other forms of care and human subjectivity.
O artigo aborda possíveis proximidades existentes entre a teoria da liberdade defendida por Axel Honneth em O direito da liberdade, e o liberalismo igualitário de John Rawls, exposto em Uma Teoria de Justiça, especificamente em relação à ideia de liberdade individual. Para isso, no primeiro tópico, serão apresentados os pressupostos teóricos a partir dos quais Honneth forja o seu conceito de liberdade. Após, será mostrada a perspectiva do liberalismo igualitário de John Rawls em sua teoria da justiça, em contraposição ao pensamento libertário. Por último, será apresentada uma síntese comparativa, indicando possíveis pontos de proximidade entre as duas perspectivas, bem como as principais divergências verificadas. Concluímos que ambos os autores se assemelham na oposição ao individualismo libertário, construindo uma teoria com foco social. Além disso, pensamos que a teoria de justiça de John Rawls não dispensa o reconhecimento, trabalhado por Honneth, eis que ele se encontra implícito no contrato social rawlsiano. A principal diferença entre as duas concepções está nos marcos teóricos distintos, sendo Honneth um teórico crítico e Rawls um liberal analítico.
In the Critique of Pure Reason, Kant focuses much of his discussion on the problem of freedom in the section devoted to the Third Antinomy. It is clear that the results achieved there provide the basis for subsequent Kantian research on the issue of freedom in the writings on moral philosophy. However, in the antinomies section, Kant is ostensibly concerned with a conflict between cosmological ideas, which seems unrelated to the problem of free will. If so, would the cosmological dimension of the problem of freedom have any relevance to the critical foundation of practical philosophy? Our aim is to analyze the importance of the cosmological dimension of the problem of freedom and how it is linked to the practical use of reason. For this, we try to show the links that the Critique establishes between the concepts of transcendental freedom (cosmological) and practical freedom (psychological) in each point of the argument of the Third Antinomy. There are, however, some difficulties with this strategy. First, Kant's argumentative movement in the exposition of the Third Antinomy is not clear, which seems, without further ado, to pass from the cosmological field to the psychological field through a link between cosmological freedom and psychological freedom. Second, how can Kant maintain that transcendental freedom, in resolving the Third Antinomy, can be the foundation of practical freedom. Our hypothesis, given these difficulties, is that there is a primacy of the practical interest of reason in the cosmological question of freedom, which justifies the links between the concepts of freedom and expresses the importance of the cosmological dimension for morality.
Este artigo articula as teorias dos sentimentos existenciais (Matthew Ratcliffe) e da dúvida corporal (Havi Carel) para analisar o caso de Schneider, estudado por Merleau-Ponty. Os sentimentos existenciais – fundamentos afetivos pré-reflexivos que estruturam nossa relação com o mundo e o corpo – são perturbados pela dúvida corporal, resultante de enfermidades que comprometem a confiança no corpo próprio. Aplicando esses conceitos ao distúrbio de Schneider, demonstra-se como sua lesão cerebral transforma seu corpo em um corpo inabitual, afetando sua percepção de pertencimento, familiaridade e possibilidades de ação. A análise revela a interdependência entre corporeidade, afetividade e existência, transcendendo explicações fisiológicas ou cognitivas.
O estudo e análise sobre um objeto requer a elaboração e construção de saber científico. Foucault, ao estudar com procedimentos arqueológicos e genealógicos, parte da ideia de inexistência de metodologia científica, mas sim de uma caixa de ferramentas que pode ser modificada conforme o objeto estudado. A volatilidade do seu pensamento permitiu a realização de estudos em áreas como medicina, história, filosofia e economia. Posto isso, o presente artigo partirá do questionamento quanto à existência de método científico em Foucault. Inicialmente, serão abordados os eixos arqueológicos e genealógicos utilizados por ele; posteriormente, o questionamento será respondido. A metodologia utilizada foi principalmente revisão bibliográfica a partir de estudiosos do autor, seja por livros, seja por artigos. Ao final, será visível que a noção metodológica foucaultiana diverge dos demais estudiosos em diversos aspectos, mas não impede a elaboração do conhecimento.