
As mudanças climáticas impulsionam debates sobre a questão energética e revelam interesses de agências internacionais e diversos setores privados e públicos, tais fatos, analisados pela geopolítica, permitem a realização de estudos sobre as relações multiescalares que envolvem o financiamento e execução da extração do minério de Cobalto na produção de baterias para os veículos elétricos e isso possibilita estabelecer relações entre as questões climática, energética e agrária, revelando redes globais de expropriação territorial
Este dossiê tem como foco central celebrar o legado intelectual de Milton Santos e, ao mesmo tempo, expressar alguns dos diversos caminhos de revisitar a sua obra, explorando a atualidade de suas categorias analíticas diante das transformações contemporâneas, como evidenciam os artigos que o compõem.
Buscamos discutir algumas questões em torno da categoria de formação socioespacial, proposta por Milton Santos em 1977 no contexto do debate das geografias radicais e marxistas. Entendemos essa noção como uma categoria sintética da Geografia que pode ser operacionalizada a partir de categorias analíticas. Para isso analisamos definições de modo de produção e formação social, atentando para suas relações e diferenças e, em seguida, para a articulação entre modo de produção e espaço, o qual permitiu ao autor propor a ideia de formação socioespacial. Em segundo lugar, abordamos a noção vista como totalidade concreta e empírica e as possibilidades de cisão metodológica a partir de categorias como a divisão territorial do trabalho, entre outras. Em terceiro lugar refletimos sobre as características constitutivas da globalização – momento atual do modo de produção – e a nova realidade da formação socioespacial e dos lugares, assim como também sobre as sinonímias com outros conceitos para contribuir ao entendimento e renovação da teoria geográfica nos dias de hoje.
O presente trabalho tem como objetivo descrever e analisar três experiências comunitárias de agricultura urbana localizadas na Zona Oeste do Rio de Janeiro, aproximando-as da perspectiva teórica do Bem Viver. Tais experiências representam espaços heterotópicos que se contrapõem ao individualismo e à liquidez das relações humanas, características marcantes da vida nas grandes cidades. Na seção de metodologia, detalhamos os procedimentos adotados para o levantamento dos dados primários e secundários. A partir da leitura do material bibliográfico, da observação participante e das entrevistas semiestruturadas, conclui-se que uma ação política coletiva torna possível a construção de um novo mundo, no qual as experiências comunitárias de agricultura urbana desempenham um papel crucial na criação de uma sociedade baseada na ajuda mútua e na harmonia entre os seres humanos e a natureza, visando um futuro compartilhado.
Analisamos a situação alimentar urbana em São Luís (MA) a partir da teoria dos dois circuitos da economia urbana formulada por Milton Santos. Inserido no dossiê sobre o centenário do geógrafo, este artigo revisita suas categorias analíticas para compreender as desigualdades que estruturam o abastecimento alimentar nas cidades brasileiras. Metodologicamente, articulamos revisão de literatura, dados socioeconômicos e trabalho de campo. Demonstramos que a situação alimentar de São Luís se organiza pela coexistência de dois circuitos interdependentes: o circuito superior – com destaque para a expansão do varejista Grupo Mateus – e o circuito inferior, formado por mercados populares, feiras, pequenos estabelecimentos familiares e vendedores ambulantes. Este último desempenha papel central na garantia da alimentação cotidiana da população trabalhadora, sobretudo negra e empobrecida, por meio de estratégias como venda fracionada, fiado e redes de proximidade. Argumentamos que a fome e a desigualdade no acesso aos alimentos estão diretamente relacionadas aos usos contraditórios do território brasileiro. Assim, evidenciamos a atualidade do pensamento de Milton Santos para interpretar as contradições da urbanização brasileira e compreender a relação entre pobreza, mercado popular e alimentação nas metrópoles periféricas.
No campo brasileiro, a materialização do modo de produção capitalista ocorre por meio da difusão de diversas ondas de modernização do setor agropecuário, que sobrepõe novos sistemas de objetos, ações e normas àqueles já existentes no território. Discutir modernizações é discutir as relações entre os períodos históricos em que elas ocorrem e os compartimentos do espaço que são reestruturados por esses processos. No caso do agronegócio globalizado, o Cerrado é o foco principal das modernizações, desde a década de 1960. O Objetivo deste artigo é discutir a periodização da agricultura científica globalizada, proposta por Milton Santos, a partir da difusão dos novos elementos técnico-científico-informacionais utilizados pelo agronegócio globalizado no Cerrado brasileiro no início do século XXI. A metodologia se baseia na periodização dos eventos que caracterizam os paradigmas produtivos e na análise dos elementos que compõem a tecnosfera e a psicosfera das recentes modernizações do campo. Na medida em que aumenta a densidade técnico-científico-informacional nas regiões produtivas, também aumentam as desigualdades socioespaciais. Por esse motivo, o pensamento de Milton Santos, além de elucidar a compreensão do campo brasileiro, é necessário para desvendar as atuais contradições do agronegócio, como resultado da globalização das ações hegemônicas sobre o território brasileiro.
Às aulas têm sido atribuídas diversas metas, fiscalizações e avaliações que, muitas vezes, atendem às demandas externas e de caráter privado, ocupando o espaço-tempo dos conhecimentos e reduzindo as aprendizagens elementares a uma lógica de mera sobrevivência. Neste estudo teórico, elaborado como ensaio hermenêutico-crítico, com base em autores da Geografia e da Educação, tematizamos a seriedade do ensino, tomando o riso como metáfora à problematização na mediação dialógica. O objetivo é discutir o riso como dispositivo geográfico, pela potência das GeoCapacidades, à seriedade da aula, enquanto apoio à centralidade dos conhecimentos. Como resultado, apontamos a especificidade dialógica e problematizadora da aula, a potência do tom geográfico do riso e a força emancipatória dos conhecimentos e das capacidades geográficas. Ainda, reconhecemos a aula como ato revolucionário e como espaço-tempo dos conhecimentos disciplinares, que podem ser mobilizados por meio de categorias geográficas à construção de GeoCapacidades.
Este artigo objetiva construir um arcabouço teórico acerca dos efeitos da luz e da escuridão sobre a leitura do espaço a partir de pressupostos mais-que-representacionais. Isto significa dizer que a linha argumentativa aqui posta rejeita interpretações ontológicas da luz e da escuridão e propõe a defesa da pluralidade da apreensão espacial e de múltiplos entendimentos que irrompem a partir das relações em rede envolvendo elementos humanos e não-humanos. Considera-se que o ponto de partida da interpretação mais-que-representacional é a compreensão das relações afetivo-performáticas que se dão em assemblages, incluindo as relações que deliberadamente buscam manipular afetos com o intuito do exercício do poder. Ademais, em um dos pontos fulcrais do artigo, verifica-se a potencialidade de interpretar o espaço iluminado e escuro a partir de lentes espectrais, que consideram a capacidade afetiva de elementos ausentes em certa temporalidade.
O artigo investiga a teoria de Milton Santos, mediante excertos selecionados e um procedimento de caráter exploratório e compreensivo. Com ênfase na dialética espacial das relações indissociáveis entre espaço e tempo, espaço e sociedade, e o espaço e os lugares, tem o objetivo de estudo da metropolização e organização metropolitana, fundamentado na ideia de que o “centro está em toda parte” através da metrópole, recriando-se e singularizando-se em cada lugar. Ao abordar os movimentos dessa dialética, discute-se a ideia de uma mutação filosófica em processo por outro universalismo apoiado no humanismo concreto e a proposição de um novo modelo cívico-territorial, a partir de novas regras de convivência social e redistribuição de bens, serviços e equipamentos indispensáveis a todos os cidadãos e lugares. Por fim, para reaver as relações entre o todo e as partes, o espaço e os lugares, elaborações sobre a organização cêntrica do espaço urbano-metropolitano e a deslocalização metropolitana a regiões e lugares constituem uma retomada conceitual e interpretativa da “dissolução” da metrópole e convergem à proposta de uma federação de lugares, um reordenamento político-territorial para enfrentar os efeitos fragmentadores da globalização e promover a geografização da cidadania
O entendimento da questão do fogo passou por transições nos últimos anos, saindo do Fogo Zero e chegando, com a lei nº 14.944, na Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, que compreende o papel do fogo nos ecossistemas dependentes do fogo, a necessidade de manejo com o fogo, e reconhece a autonomia e conhecimentos tradicionais e originários na gestão dos territórios. Dessa forma, aqui está apresentada uma aproximação do fogo com a Geografia, contextualizando seus usos antrópicos, principalmente no que tange à sua institucionalização, conflitos territoriais, mudança de paradigma até chegar nesta nova Política e os desafios futuros. O trabalho foi escrito a partir de revisão bibliográfica exploratória de leis ambientais e pesquisas sobre o mesmo tema, amparados em conceitos da disciplina geográfica.
A areia é um recurso natural muito utilizado, principalmente pela construção civil. Sua extração causa diversos impactos negativos, sendo obrigatória a regulação da atividade por meio do licenciamento ambiental. Em Santa Catarina, o órgão estadual de licenciamento emitiu uma instrução normativa para padronizar o processo de licenciamento ambiental dessa atividade, no entanto, a existência de conflitos durante esse processo tem gerado a necessidade de discussão pautada em evidências. Este trabalho tem como objetivo analisar a aplicação dessa instrução normativa nas bacias hidrográficas dos rios Tijucas, Itajaí e Itapocu, vertente leste do estado catarinense. O resultado apresentou um processo elevado de discricionariedade no órgão estadual de licenciamento ambiental, onde o processo de determinação de condicionantes ambientais não segue a instrução normativa em todos os casos.
O presente texto tem por objetivo retomar parte das propostas do geógrafo Milton Santos sobre o papel dos intelectuais e do conhecimento geográfico no entendimento do atual período histórico. Para isso foram utilizadas principalmente suas propostas mais “recentes” (sobretudo da década de 1990), com ênfase nas definições do autor para o trabalho intelectual e a questão da cidadania nos países pobres. Segundo Milton Santos, pode-se dizer que urge o comprometimento dos intelectuais para a criação de um “novo pacto territorial”, possibilitando assim ser alcançado o período popular da história.
O objetivo deste artigo é investigar em que medida o evento pode ser compreendido como uma proposição espacial, isto é, como uma forma lógica capaz de tornar inteligível a atualização concreta das relações que presidem o espaço geográfico. O estudo adota uma abordagem teórico-conceitual, baseada na análise interpretativa de conceitos centrais da Semiótica de Charles Sanders Peirce e na Teoria Social Crítica de Milton Santos, buscando explicitar convergências que permitam compreender o evento para além de sua dimensão factual. A análise indica que as categorias fenomenológicas de Peirce e sua teoria geral dos signos oferecem um referencial capaz de esclarecer a coerência lógica que articula forma, função, estrutura e processo no interior do evento por meio de uma forma lógica proposicional. Nessa perspectiva, o evento é interpretado como uma configuração na qual diferentes determinações da totalidade espacial se atualizam de modo observável, sem que sua inteligibilidade se esgote na dimensão empírica da ocorrência.
O artigo analisa a atualidade da teoria de Milton Santos a partir do debate das Geografias das Juventudes. Trata-se de ensaio teórico fundamentado em leitura sistemática de suas categorias centrais de espaço, território e globalização, buscando compreender como a condição juvenil condensa as contradições do meio técnico-científico-informacional. Argumenta-se que a precarização do trabalho, a financeirização da vida e a urbanização desigual configuram bloqueios estruturais ao futuro. Contudo, práticas territoriais juvenis podem tensionar tais limites ao produzir usos criativos do espaço, reinscrevendo a possibilidade histórica no presente e atualizando a dimensão política da teoria miltoniana.
As redes sociais são meios de comunicação e informação inseridos no Ciberespaço, representando uma profunda transformação na forma como as pessoas interagem, se comunicam e se organizam. Algumas dessas páginas convergem educação e entretenimento, dando sentido ao conceito de Edutenimento. Nesse contexto, este estudo tem por objetivo compreender como a modificação da paisagem urbana é retratada em imagens publicadas no Instagram e como essas mudanças são percebidas e concebidas nas narrativas e nos comentários dos sujeitos. A partir da metodologia qualitativa, realizou-se a seleção de imagens de momentos distintos (passado e presente) de Natal (RN), Campinas (SP) e Goiânia (GO) na página da Geopizza, as quais apresentam uma série de narrativas/comentários dos sujeitos acerca de suas percepções sobre as mudanças na paisagem urbana, publicadas na página do Instagram. Assim, foram analisados os conteúdos dessas imagens e das narrativas/comentários a partir de Bardin (2016). Os resultados indicam que o Instagram se consolidou como uma plataforma potente para a percepção da paisagem por meio de imagens, permitindo que o conhecimento informal alcance o público de forma visual e acessível.
A intensificação do uso dos recursos naturais em bacias hidrográficas costeiras tem ampliado os níveis de antropização e modificado significativamente a dinâmica dos sistemas ambientais, sobretudo em áreas úmidas associadas a ambientes litorâneos. Diante disso, o presente estudo tem como objetivo realizar análise integrada dos componentes físico-naturais como subsídio para a identificação de indicadores antropogênicos na Bacia Hidrográfica dos rios Cardoso/Camurupim (Piauí), com atenção especial à sua área úmida. Metodologicamente foram realizadas atividades de gabinete e campo, envolvendo revisão bibliográfica, análise integrada da paisagem e aplicação de técnicas de geoprocessamento em ambiente SIG, utilizando o Google Earth e o software QGIS 3.44 (versão Solothurn). A partir desses procedimentos foram identificados nove indicadores antropogênicos distribuídos ao longo da bacia. Os resultados evidenciam uma distribuição espacial desigual dos indicadores antropogênicos na bacia, com maior concentração no baixo curso e na área estuarina, onde se destacam atividades associadas à carcinicultura, infraestrutura viária e captação hídrica. Nos setores médio e alto da bacia predominam intervenções relacionadas ao armazenamento hídrico, captação de água subterrânea e mineração. Esses padrões demonstram que a antropização da BHCC está diretamente condicionada pelas características físico-naturais da bacia, especialmente pelas unidades geomorfológicas, litológicas e hidrológicas.
Este artigo analisa os impactos da Zona Econômica Especial de Tânger Med sobre a organização do território marroquino, mobilizando duas contribuições centrais do pensamento de Milton Santos – a categoria de formação socioespacial e a teoria dos circuitos da economia urbana. A pesquisa examina as transformações induzidas por esse megacomplexo logístico-industrial em três escalas inter-relacionadas. Na escala nacional, discute-se como a implantação de Tânger Med se articula às estratégias do Estado marroquino de inserção nas cadeias globais de valor e na atual divisão internacional do trabalho. Na escala regional, analisa-se o adensamento seletivo de infraestruturas e zonas industriais no norte do país, que reconfigura a divisão territorial do trabalho. Por fim, na escala local, o artigo examina os impactos dessa dinâmica sobre a cidade de Ksar Sghir, onde se observa a expansão de atividades características do circuito inferior da economia urbana, voltadas ao suporte cotidiano das operações logísticas e industriais do porto. Ao mobilizar categorias e teorias elaboradas por Milton Santos na década de 1970 para interpretar transformações territoriais do século XXI em um país africano, o artigo reafirma a atualidade e o vigor crítico do pensamento desse geógrafo do Sul para compreender as dinâmicas espaciais do continente.
O campo das Geografias das Juventudes explora as múltiplas dimensões das experiências juvenis e suas interações com o espaço. O objetivo deste trabalho é apresentar o levantamento do estado da arte dos trabalhos sobre juventudes publicados no XIV Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ENANPEGE), realizado em 2021. A metodologia adotada envolveu a revisão bibliográfica dos anais do evento, seleção dos trabalhos relevantes e análise detalhada dos dados. Os principais resultados revelam que 19 trabalhos foram selecionados, com predominância de autores graduados, concentração de publicações na Região Sudeste, e a ausência de produções na Região Norte. Adicionalmente, observou-se que todas as produções foram realizadas em universidades públicas e que a maioria dos trabalhos foi desenvolvida em Programas de Pós-Graduação considerados de excelência. Essas descobertas ressaltam a importância do Ensino Superior Público e destacam a necessidade de ampliar a pesquisa sobre juventudes em outras regiões e áreas temáticas.
A carreira do ensino básico, técnico e tecnológico (EBTT) é uma das mais disputadas entre os licenciados em geografia, mas o processo de preparação do candidato até alcançar a almejada vaga é longo e extenuante diante de um cenário que se alterou muito nos últimos anos. O propósito deste estudo foi evidenciar as mudanças concorrenciais nesses concursos entre os anos de 2010 e 2024, além de pormenorizar cada etapa deste processo. Para a elaboração do artigo, foram analisados cerca de uma centena de editais, captando algumas de suas especificidades e coletando informações sobre o número de vagas disponíveis e candidatos inscritos. Foi identificado que a concorrência aumentou consideravelmente e o número de vagas decresceu, além de uma série de outras dificuldades encontradas ao longo de todo processo de seleção, demonstrando uma possível mudança na perspectiva dos licenciados em geografia em relação a estes concursos.
A intensidade das mudanças na economia urbana na atual fase da globalização – expressas, entre outros, pelo alcance da plataformização – implica a emergência de novos nexos entre os circuitos da economia. Nesse movimento, dinamismos e contradições emergentes demandam investigações que permitam apreender a especificidade de processos em curso nas cidades brasileiras e, ao mesmo passo, contribuam para a releitura e atualização da teoria dos circuitos da economia urbana de Milton Santos. A magnitude das transformações na vida social e econômica revigoram, a nosso ver, a capacidade interpretativa da teoria dos circuitos no desvendar das diferenças entre os agentes no uso do território. Nessa direção, tecemos, neste artigo, reflexões sobre transformações em curso nas cidades brasileiras a partir da teoria dos circuitos da economia urbana na atual fase da globalização, reafirmando a atualidade de uma obra crítica, potente e propositiva.