
Este artigo discute vivências e pertencimentos nas Torcidas Organizadas para além do futebol, e propõe atualizações metodológicas de um fazer etnográfico multimodal para desbravar suas formas de sociabilidades contemporâneas. A proposta de ampliação metodológica, em diálogo com a Antropologia Multimodal, é baseada na experiência atual da etnografia com Torcidas Organizadas que também são Escolas de Samba (SP). Onde a extensão da produção etnográfica para múltiplas formas de observação, análise e devolutiva para além do texto acadêmico, tem tido a perspectiva multimodal como protagonista. Sugerindo assim novas possibilidades - como a produção audiovisual -, como importante vetor de relações de interlocução, expressão visual e sonora das formas de sociabilidades e pertencimentos presentes nas dinâmicas cotidianas das Torcidas-Escolas. Intenta-se com isso, debater a importância para o campo de estudos em torno das torcidas (e do futebol), a experimentação de formas multimodais de confecção das pesquisas e seus produtos finais, como aqui proposto a partir de um experimento etnográfico multimodal.
A Copa do Mundo de Futebol masculino é considerada o evento esportivo de maior magnitude do planeta. A partir deste entendimento, este artigo pretende refletir, de uma perspectiva ensaística, sobre o mundial do Catar, realizado em 2022. A proposta é reconhecer o local em que o jogo é disputado, pensando megaeventos como espaços simbólicos privilegiados, sobretudo em um contexto de globalização, midiatização e mercantilização do esporte imposta pelo capitalismo-neoliberal. São abordados o processo de escolha do país-sede, manobras de bastidores e a tentativa do Catar de usar um poder suave para criar um discurso positivo sobre si diante do mundo. Entende-se que o cenário geopolítico e a pressão de atores em busca de influência, e o desrespeito aos Direitos Humanos em países autocráticos passaram a integrar a discussão pública além da esfera esportiva. No Catar, antes de a bola rolar, começou um outro jogo: o jogo de poder e interesses.
Apresentamos a resenha do livro “As pioneiras do futebol pedem passagem: conhecer para reconhecer”, de autoria de Silvana Vilodre Goellner e Juliana Ribeiro Cabral, publicado pela Editora Ludopédio (São Paulo) em 2022.
Neste trabalho, abordamos práticas e apropriações do futebol que tensionam uma predominância masculina cisheternormativa característica deste esporte. As etnografias foram realizadas nas cidades de São Paulo (SP) e Salvador (BA), entre 2020 e 2022, em meio à pandemia de COVID-19, no acompanhamento de treinos, torneios, jogos e “resenhas” de dois times de futebol: o primeiro formado por homens trans e pessoas transmasculinas; e o segundo composto majoritariamente por mulheres cisgênero lésbicas, que acolhe pessoas transgênero. Embora esses times tenham como referência alguns códigos do esporte oficial, são considerados dissonantes por desestabilizar convenções de gênero e corporalidades do futebol masculino espetacularizado. Assim, disputam e produzem outros sentidos sobre o jogar bola e o pertencer a um time, o que envolve estratégias de ocupação de espaços públicos e afirmação política de seus corpos, assim como a promoção e o cuidado do seu bem estar físico e mental.
El artículo analiza el encuentro entre fútbol, política y feminismos en la Argentina contemporánea, a partir de los procesos de politización que atravesaron al fútbol practicado por mujeres en la última década. Se observa cómo el avance del movimiento feminista –particularmente desde la irrupción de Ni Una Menos– contribuyó a visibilizar y disputar las desigualdades estructurales del campo futbolístico, históricamente organizado bajo lógicas androcéntricas, precarizadas y excluyentes. El trabajo se centra en el período inaugurado por el anuncio de la profesionalización en 2019, atendiendo a las tensiones entre reconocimiento institucional y persistencia de condiciones amateurs. A partir de un enfoque cualitativo y etnográfico, basado en entrevistas y observaciones participantes realizadas entre 2021 y 2023 con futbolistas de dos clubes de primera división de la provincia de Buenos Aires, se analizan las narrativas, experiencias e identificaciones políticas construidas por las jugadoras. Se sostiene que, en este contexto, emergen nuevas formas de politización en clave feminista, expresadas en identificaciones situadas como semiprofesionales, trabajadoras del fútbol y, en algunos casos, futbolistas feministas. Estas identificaciones no sólo permiten denunciar la precariedad laboral y disputar derechos materiales, sino que también operan como prácticas políticas que interpelan los sentidos dominantes del profesionalismo, el trabajo y la pretendida neutralidad al interior del campo de las prácticas deportivas. Asimismo, el artículo da cuenta de las tensiones, ambivalencias y costos que supone la politización feminista en un campo que sanciona la expresión política de las mujeres deportistas.
Este texto parte integrante de uma tese de doutorado buscou acompanhar, em fluxo, as linhas de vida de um jogador de futebol atuante no interior do Rio Grande do Sul, ao longo de um período e através de distintas localidades, não para traçar uma trajetória linear, contudo, para seguir os movimentos enquanto se desenrolavam. O objetivo foi permanecer atento aos gestos, silêncios e hesitações que não se deixaram fixar em categorias ou conceitos rígidos, reconhecendo que a experiência se constitui no próprio caminhar. A etnografia, concebida como um modo de andar junto, se deixou afetar e se transformou conforme as linhas percorridas redesenhavam perguntas e modos de estar no mundo. Mais do que uma análise conclusiva, buscou-se abrir espaço para aquilo que reverberou e insistiu, acompanhando as linhas hesitantes que se formam nas margens do futebol que resiste em ser somente periférico.
Este artigo propõe uma reflexão antropológica sobre a medicina como prática social e ontopolítica, com base na obra de Annemarie Mol. Argumenta-se que Mol rompe com a visão da medicina como representação de entidades biológicas fixas, enfatizando a produção de doenças, corpos e cuidados em práticas clínicas situadas. Discute-se a multiplicidade ontológica das doenças, a performatividade das tecnologias médicas, os efeitos normativos dos protocolos e a crítica à lógica da escolha individual. Em vez de entender a clínica como aplicação de saberes universais, propõe-se vê-la como espaço de composição de mundos, onde o cuidado emerge da improvisação, escuta e responsividade. A medicina é abordada como dimensão central das sociedades contemporâneas, marcada por disputas, exclusões e possibilidades de reinvenção. O texto contribui para repensar o cuidado, a saúde e o corpo além dos paradigmas biomédicos tradicionais.
Nesta pesquisa, analisamos a diversidade de configurações do torcer, nas quais possuir vínculo com o clube, acompanhar os jogos, frequentar os estádios, são pontos em comum nas vivências torcedoras, e neste trabalho destacamos as relações estabelecidas por mulheres torcedoras vascaínas residentes em Santa Catarina. Nossas interlocutoras, envolvem-se nas práticas torcedoras identificadas com uma equipe de outra região/estado. A estratégia identificada em nosso estudo, foi a inserção em uma torcida organizada do seu clube desde o estado de Santa Catarina. Nosso objetivo, foi compreender as configurações torcedoras assim como os discursos e representações envolvendo gênero assim como a diversidade do torcer, para tanto, realizamos uma etnografia acompanhando torcedoras vascaínas. Concluímos que vivenciar a cultura torcedora relaciona-se a estabelecer estratégias de alianças e negociações onde futebol, gênero e identidades são constantemente permeados por resistências, desafios e a produção de vínculos torcedores os quais redimensionam as expectativas de rivalidades, distância e regionalidade.
Este artigo tem como proposta realizar reflexões sobre as narrativas da mídia televisiva brasileira e uruguaia sobre a morte do jogador Juan Izquierdo. Para esse objetivo toma os discursos produzidos pelos programas, reportagens e mesas-redondas dos canais Teledoce, El Pais Uruguay, SportTV, Rede Globo e ESPNBrasil e faz uso de aspectos da etnografia de tela para interpretar as narrativas e imagens elaborados por estes meios de comunicação. Evidencia-se que, quando o futebol se vê diante da morte, as narrativas midiáticas destacam, principalmente, a medicalização desta, a comunhão do luto e desornamento da organização familiar.
O artigo propõe uma análise comparativa da cobertura midiática brasileira dedicada às Copas do Mundo de Futebol de Mulheres da FIFA, nas edições de 2015, 2019 e 2023. O objetivo é identificar permanências e rupturas nos achados de pesquisa relativos aos espaços de visibilidade, às temáticas mobilizadas e às formas de representação das jogadoras, da modalidade e do evento. O referencial teórico articula os estudos de gênero e futebol, com base nas contribuições de autoras como Silvana Goellner, Ludmila Mourão, Márcia Morel, Mariane Pisani e Aira Bonfim. A metodologia adotada é a análise comparativa, conforme proposta por Odília Fachin. Os resultados apontam avanços significativos na visibilidade e na representação das jogadoras, na construção da memória da modalidade e na ampliação da diversidade de personagens e discursos presentes na cobertura esportiva. Todavia, observam-se também a persistência de práticas e narrativas sexistas ainda enraizadas no universo futebolístico.
Baba é a forma como o futebol vivenciado no lazer é denominado em Salvador-BA. No feriando nacional da sexta-feira da Paixão e nas festas de fim de ano, acontece tradicionalmente em seus bairros populares um evento futebolístico denominado “Baba de Saia”. Consiste em um ritual, em que homens de grupos futebolísticos amadores jogam futebol vestindo trajes e adereços lidos como femininos. O objetivo central desta pesquisa foi interpretar os significados socioculturais do “Baba de Saia” que acontece na comunidade do Calabar em Salvador (BA). O método, de inspiração etnográfica, recorreu às observações participantes, diário de campo e entrevistas através da imersão na comunidade em que o evento se realiza. Os resultados sinalizaram a potência do “Baba de Saia” como espaço para discussão das relações entre esporte e gênero, ao mesmo tempo em que significa um espaço de resistência cultural comunitária e reprodutor de lógicas machistas e misóginas.
A presente entrevista aborda a trajetória da socióloga e pesquisadora Fatima Martin Rodrigues Ferreira Antunes, que atua no Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Fatima é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP); na mesma universidade obteve o título de mestre e doutora em sociologia. Com um interesse de longa data pelo futebol, seus estudos se concentram na sociologia da cultura. Realizada através de uma plataforma de vídeo, essa entrevista abordou não somente a trajetória de Fatima enquanto pesquisadora, mas também certos temas que ajudam a entender como o futebol pode ser entendido como um tipo de patrimônio cultural imaterial.
Este artigo investiga o fenômeno da resistência à transformação do Clube Atlético Juventus em Sociedade Anônima do Futebol (SAF), analisando as implicações culturais e identitárias envolvidas. A “safização” tem sido uma tendência crescente no futebol brasileiro, impulsionada por dificuldades financeiras e pela busca por maior competitividade. No entanto, no caso do Juventus da Mooca, observa-se uma forte oposição, sobretudo de sua torcida e do entorno comunitário, que percebem o clube como um elemento fundamental da identidade do bairro. O estudo se baseia em revisão bibliográfica e abordagem qualitativa de estudo de caso, explorando a relação entre futebol, tradição e modernidade. Os resultados indicam que a resistência à SAF no Juventus é impulsionada pela forte conexão entre o clube, a história da Mooca e sua tradição operária e imigrante. Conclui-se que a preservação dessa identidade transcende aspectos econômicos, configurando-se como uma forma de resistência à mercantilização do futebol e à descaracterização de sua memória coletiva.
Trata-se de um relato de experiência das atividades do INCT – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos do Futebol Brasileiro/CNPq, com foco na mobilização da Linha de Pesquisa “Mídias, Torcidas e Movimentos Antirracistas no Futebol Brasileiro”. Descrevemos as atividades desenvolvidas pela Linha, como, por exemplo, a iniciação científica voltada à análise da abordagem midiática sobre esporte, futebol e racismo; as reuniões internas da Linha; a estratégia dos webinários temáticos, que têm dado visibilidade à linha e aproximado pesquisadores(as); e as publicações em formato de dois dossiês temáticos (um, com enfoque na perspectiva antropológica e sociológica do futebol, e outro, sobre educação antirracista). A articulação promovida tem resultado em um aumento no interesse de estudantes e na adesão de grupos de estudos, fortalecendo a rede. Espera-se que as atividades resultem em implicações educativas e sociais significativas, contribuindo para avanços no debate sobre futebol, racismo e transformações sociais no Brasil.
Este artigo analisa a biografia de Ibn Baṭṭūṭah como uma construção narrativa indissociável de sua riḥlah, problematizando os limites da escrita biográfica na historiografia islâmica medieval. A partir da Tuḥfat al-nuẓẓār fī gharāʾib al-amṣār wa ʿajāʾib al-asfār, complementada por dicionários biográficos e referências historiográficas posteriores, o estudo combina análise textual e indiciária, com atenção aos silêncios, às incongruências cronológicas e às estratégias de autorrepresentação, situando o relato no contexto político marínida. O referencial teórico dialoga com os debates sobre biografia e narrativa histórica, mobilizando as noções de ilusão biográfica, identidade narrativa e pacto autobiográfico. Conclui-se que a trajetória de Ibn Baṭṭūṭah não se apresenta como uma vida plenamente recuperável, mas como o efeito de uma narrativa situada, na qual experiência, poder e autorrepresentação se articulam, fazendo da biografia um instrumento crítico para a análise da alteridade e da autoridade no Islã do século XIV.
Recentemente, a expansão das milícias no Rio de Janeiro se consolidou como um tema central no debate público e na agenda acadêmica. Contudo, compreender o funcionamento desses grupos não é uma tarefa trivial. O controle territorial e a ameaça constante da violência impõem barreiras ao trabalho de campo, tornando a aproximação física do pesquisador algo arriscado. Diante desse problema, este artigo propõe a etnografia biográfica como uma estratégia de pesquisa e protocolo de segurança que viabiliza a investigação em territórios sob governança armada; e, simultaneamente, como aposta epistêmica capaz de revelar estruturas de poder a partir da experiência individual. Por meio de três fragmentos da trajetória de Scott, um morador de área de milícia, defendo que essa metodologia permite acessar ambivalências morais e como as formas de dominação são experienciadas, negociadas e tensionadas por meio de quem convive com essa realidade. Busco, assim, ampliar o repertório de pesquisas qualitativas disponíveis para os estudos sobre violência urbana no Brasil.
O presente relato de experiência descreve a organização e realização da 1ª edição dos Jogos Tradicionais Indígenas do povo Xerente (JIX), ocorrida entre 14 e 16 de julho de 2023, na Aldeia Salto Kripre, município de Tocantínia-TO. Essa iniciativa partiu do nosso propósito, enquanto pesquisador indígena, em parceria com a Diretoria de Esporte da comunidade, de valorizar e revitalizar as práticas corporais tradicionais indígenas. O evento contou com quatro modalidades principais (Arco e Flecha, Corrida da Tora, Cabo de Força e Corrida de Revezamento 4x100m) e integrou diferentes gerações da aldeia em momentos de convivência, celebração e aprendizado. A metodologia adotada baseou-se na narrativa autobiográfica, reconhecendo a experiência vivida como fonte legítima de produção de conhecimento e de resistência cultural. Os resultados evidenciam o papel dos jogos tradicionais como instrumentos de fortalecimento identitário, educação intercultural e preservação dos saberes ancestrais, contribuindo para a valorização das práticas corporais indígenas no campo da Educação Física.
Diante da crescente integração da Inteligência Artificial (IA) no contexto universitário, o debate oscila entre narrativas utópicas e distópicas. Contudo, nota-se uma carência de estudos que investigam a experiência vivida do usuário, a dinâmica relacional e as transformações subjetivas decorrentes da colaboração com a IA. Este ensaio enfrenta essa lacuna ao analisar os limites éticos e as potencialidades pedagógicas da interação humano-máquina. A metodologia combina a análise teórica do conceito “Ciborgue”, com um estudo de caso autoetnográfico e comparativo, a partir de interações com orientadoras simuladas nas plataformas ChatGPT e Gemini. Os resultados parciais apontam que a interação humano-IA se configura como uma relação ciborgue, na qual as fronteiras entre subjetividade humana e tecnologia se dissolvem. Conclui-se que esta figura oferece um potente arcabouço pedagógico para conceber a IA não como rival, mas como uma parceria colaborativa, reconfigurando positivamente as práticas de escrita e aprendizagem na academia.
Esta pesquisa se situa no campo dos estudos (auto)biográficos, em que toma a memória e a narrativa como objetos de análise e compreensão sociológica. Trata da biografia de Luiz Parise, jogador e gestor no futebol do interior do Rio Grande do Sul entre as décadas de 1970 – 2010. Para a elaboração dessa história de vida, utilizou-se o método progressivo-regressivo sartriano e os conceitos de Projeto e Desejo. Buscou-se o cruzamento entre fontes orais, documentos pessoais, fotos e fontes jornalísticas. Todos catalogados e analisados a partir daquilo que representavam nas quatro etapas existenciais do biografado: infância, jogador de futebol, preparador físico e gestor. As entrevistas foram transcritas através do software Reshape. Como análise, utilizou-se a Análise Narrativa. Foram dez entrevistas realizadas, e mais de 150 documentos analisados. Diante deste material, evidenciou-se a intensa e marcante presença de Luiz Parise no futebol do interior do Rio Grande do Sul, contribuindo para o estreitamento das relações entre ciência, e futebol.
Este artigo investiga como as narrativas autobiográficas, produzidas por estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, atuam como dispositivos de memória, sensibilidade e re-existência no espaço escolar. A partir de uma pesquisa-intervenção cartográfica, inspirada em Deleuze, Guattari e Freire, acompanhamos o cotidiano de uma escola pública, com destaque para a emergência dos “Contos de Recreio” — narrativas breves que convertem episódios cotidianos em matéria de reflexão coletiva e registro sensível. A análise evidencia que a leitura e a escrita operam como ferramentas de educação das sensibilidades, permitindo a ressignificação de experiências e a articulação entre subjetividades e questões comunitárias. Conclui-se que essas narrativas constituem arquivos vivos de memória escolar, que desafiam a massificação curricular e promovem uma práxis educativa sensível, na qual o desejo atua como força criadora e potência histórica e formativa.