
Este artigo analisa o espetáculo Cabaré Sade (2018), criado pelo grupo de pesquisa Cabaré Incoerente na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, como uma atualização cabaretesca da peça Marat-Sade de Peter Weiss. A montagem ocorreu no contexto das eleições presidenciais brasileiras de 2018, marcadas pela ascensão da extrema-direita e pela eleição de Jair Bolsonaro, primeiro presidente militar eleito desde o fim da ditadura. O artigo descreve o processo dramatúrgico colaborativo que caracterizou a criação do espetáculo, sublinhando a inserção de novas narrativas que satirizavam o discurso extremista e denunciavam os efeitos concretos do autoritarismo sobre corpos dissidentes. A análise mobiliza contributos de teóricos do teatro político em diálogo com estudos recentes sobre cabaré no Brasil. Sustento que Cabaré Sade evidencia a potência do cabaré — em especial na sua vertente brasileira — como dispositivo político e estético: um espaço onde a sátira se converte em denúncia social e a vulnerabilidade se transforma em resistência. Mais do que atualizar um clássico do teatro político, o espetáculo projeta o cabaré como linguagem decolonial e transnacional de combate ao autoritarismo contemporâneo.