
Analisamos neste texto as relações pessoais e intelectuais de Hannah Arendt com Walter Benjamin, destacando sua convivência no exílio e a influência mútua no tratamento da tradição, da assimilação judaica e da crítica ao progresso. Arendt vê em Benjamin um pensador poético e revolucionário, cuja atenção ao fragmento e à s pequenas coisas representa resistência à autoridade e à linearidade histórica. Após seu suicídio, Arendt preservou e publicou suas obras, enfrentando resistência do Instituto de Pesquisa Social. Benjamin tornou-se interlocutor central da filosofia arendtiana, sobretudo na crítica à tradição, na atenção à singularidade dos acontecimentos e no pensamento crítico independente.
O artigo recenseia a maior parte das ocorrências ou citações dos textos dos jesuítas de Coimbra (Fonseca, Góis, Couto e Álvares) feitas pelo Léxico Filosófico (1613) de Rudolfo Goclénio a fim de encetar um projeto de trabalho sobre a receção da escola de Coimbra pela de Marburgo. O exame feito confirma o impressionante contacto de Goclénio com tais textos, em particular com os de Fonseca e Góis, sem, contudo, mostrar que o privilégico concedido a Fonseca resulta exclusivamente de motivos do campo da metafísica deste.
Neste artigo pretendo expor as críticas de Hans Jonas, no capítulo "Third Essay. Is God a Mathematician? The Meaning of Metabolism da sua obra The Phenomenon Of Life/Toward a Philosophical Biology", à conceção matemático-mecanicista da natureza (mormente, materialismo e dualismo cartesiano), obstáculo a uma explicação filosófico-ontológica satisfatória da vida e das suas especificidades biológicas e ontológicas. Para tal, destacarei a importncia do metabolismo, assinalando a especificidade ontológica dos seres animados. Simultaneamente, trarei à liça as críticas que Jonas apresenta ao dualismo cartesiano e ao epifenomenalismo. Por fim, pretendo aproximar a posição de Jonas da perspetiva hilomórfica, de inspiração aristotélica-tomista, defendida por Edward Feser sobre a pessoa humana com destaque para os contributos deixados no mbito da Antropologia Filosófica.
Por ocasião do quinquagésimo aniversário da morte de Hannah Arendt, o Instituto de Estudos Filosóficos da Universidade de Coimbra organizou, no passado dia 3 de Abril, o colóquio internacional «Pensar em Tempos Sombrios», que teve como mote a colectnea de textos de Arendt publicada em 1968 com o título Men in Dark Times. O dossier temático que agora se apresenta reúne versões revistas de alguns dos textos apresentados no colóquio, centrados nas obras de Brecht, Benjamin, Agamben e de outras figuras centrais do pensamento político contemporneo.
O ensaio procura contextualizar o retrato de Bertolt Brecht traçado por Hannah Arendt em Men in Dark Times. A partir do conceito de humanismo crítico exemplificado pela autora no capítulo introdutório sobre Lessing, e seguindo de perto a abordagem de Arendt, tocam-se brevemente alguns aspectos da teoria e da prática brechtianas, sublinhando-se a actualidade do método de crítica do contemporneo ilustrado pelos textos de Brecht.
Para além do seu reconhecido trabalho nas áreas do ambiente e das relações internacionais, Viriato Soromenho‑Marques é um especialista na história da filosofia política – e, em Nesta entrevista, fala‑nos da actualidade do pensamento da autora sobre as relações entre natureza e cultura, a politização dos domínios científico e tecnológico e os riscos globais que dela decorrem. São também abordadas as transformações geopolíticas dos últimos anos, a recente ascensão da extrema‑direita, o crescimento da desinformação digital e o papel que os filósofos e intelectuais podem desempenhar no combate a estes fenómenos,
La corporéité étant au centre du travail philosophique de Maurice Merleau-Ponty, on se demandera s’il est possible de concevoir une esthétique phénoménologique à partir du caractère haptique de la vision, en ayant comme toile de fond la perception cinématographique, en tant que « espace affectif de l’intersubjectivité. C’est pourquoi, aux côtés de Maurice Merleau-Ponty, on mobilisera d’autres penseurs ou artistes qui ont pensé ou travaillé par la voie artistique cette dimension haptique du corps ou l’empiétement du regard et du toucher (perception haptique) dans un espace, dans une atmosphère, qui est toujours émotionnelle. Notre propos sera simplement de montrer, au-delà des approches plus ontologiques, phénoménologiques, politiques ou cognitivistes, qu’il y a peut-être aussi une pensée esthétique chez Merleau-Ponty, qui devient désormais plus cohérente et sédimentée, notamment par les travaux d’une nouvelle génération de chercheurs. Ainsi, en partant d'une a-philosophie comme vraie philosophie, pour en venir au corps charnel comme « sensible exemplaire » de la structure de tout l’être, nous essaierons de poser l’hypothèse de la « vision haptique » comme expression fondamental de notre être-au-monde (ontologique) en tant qu’ouverture par le désir au sens sensible de la vérité des événements. De cette manière, notre propos sera simplement de voir dans quelle mesure l’expression « vision haptique » peut inaugurer une nouvelle compréhension de la sensibilité (aisthÄ“sis), et dans quelle mesure nous pouvons la penser philosophiquement à partir de la « réhabilitation ontologique du sensible » (Merleau-Ponty). En ce sens, l’art est un point d’ancrage indépassable, puisqu’il nous donne des « ways of seeing » (John Berg), c’est-à -dire de voir le voir et de se voir (dimension spéculaire et réversible de la vision tactile ou haptique), et de sentir autrement notre propre existence, de l’habiter au-delà de soi-même, pas seulement avec le regard, mais charnellement, comme révélation primordiale d’une coexistence intercorporelle humaine.
This article offers a philosophical reflection on listening as a core element of the educational experience, particularly in early childhood music education. Listening is explored not as passive auditory perception, but as an active gesture of attention, care, and openness to the other. Through dialogue between music, phenomenology, and education, it presents educational scenes that reveal the ethical and formative dimensions of listening. The article argues that to educate is, at its root, to learn to listen”and that teacher education should begin from this foundational gesture.
Este artigo examina a persistência dos «tempos sombrios» da filosofia arendtiana, sustentando que regimes democráticos contemporneos mantêm formas de desumanização por meio da adoção do estado de exceção como técnica ordinária de governo e do obscurecimento do espaço público. Baseando-se em Hannah Arendt e Giorgio Agamben, o texto mostra como esses mecanismos produzem sujeitos excluídos da proteção jurídica e destituídos de reconhecimento político. Assim, a articulação entre «tempos sombrios», «vida nua» e «estado de exceção» evidencia zonas de indistinção, que banalizam a violência e o abandono, os quais ecoam na história e subsistem como um dilema do nosso tempo.
O Timeu de Platão, uma das obras cosmológicas maiores da antiguidade, foi uma das referências dominantes até à Revolução Científica. Por isso, a sua leitura atual restringe-se, muitas vezes, a uma "curiosidade arqueológica", usada apenas para confirmar as profundas ruturas trazidas pela física moderna. A ciência moderna, ao postular o seu método como o único capaz de alcançar a verdade, expandiu-o até à s ciências humanas, uma abordagem que Platão, contudo, criticaria veementemente. Para si, cada classe de coisas exige uma ciência que lhe seja adequada; estudar o homem pelo método físico seria idêntico a reduzi-lo ao "infra-humano", desconsiderando a sua especificidade. Na verdade, o Timeu investiga o cosmos pelo divino, o "supra-humano" que o desenharia, e parte da premissa de que o homem, para pensar o todo, deve necessariamente levantar hipóteses sobre o todo para deduzir a natureza do cosmos e, consequentemente, o seu próprio "lugar". Nesse sentido, Platão reconhece tacitamente que o ponto de partida para qualquer investigação sobre a totalidade do ser são as opiniões ou noções pré-científicas que alicerçam a ciência humana, ou seja, a arte que culmina no conhecimento dos fins. O carácter elusivo do conhecimento dos fins reflete o carácter elusivo do conhecimento do Bem, o fundamento da moderação, ao passo que o infinito conhecimento dos meios toca na complexidade da organização do Bem nas formas do todo e, por conseguinte, no mundo sensível. Este ensinamento opor-se-ia diretamente à crítica de Francis Bacon aos antigos, em particular a Aristóteles, e aponta para um caminho de conciliação: tal como uma música que recria a harmonização do cosmos nos seus traços permanentes e mutáveis, na sua heterogeneidade (de classes) e homogeneidade (de meios), o Timeu sugere que, embora o homem não seja um Demiurgo, a beleza da sua arte pode elevá-lo. Este artigo visa iniciar uma reflexão sobre a arte do Timeu para chegar aos termos do próprio autor, inclusive sobre o significado, muitas vezes desconsiderado, da presença de Sócrates no diálogo e, por conseguinte, na subtil relação que se estabelece entre as ciências humana e natural. Essa é uma questão complexa que exige a articulação da reflexão sobre o que está em movimento “ o mundo visível “ com a daquilo que permanece em eterno repouso “ as ideias ou formas.
It is not surprising to find, at the centre of Maine de Biran’s anthropological reflection, a constant and critical engagement with Pascal’s account of the human condition. In this paper, I aim to demonstrate how Biran’s dialogue with Pascal’s work, which evolved throughout the various stages of his life, constitutes a decisive moment in the development of his theory of human nature. By deliberately setting aside the theological dimension, I argue that this confrontation enables Biran to revise and progressively refine his conception of human duality. In particular, the analysis of boredom exemplifies this process of critical reworking, in which human duality is seen at work.
Qual o futuro das atividades tradicionais da cultura humana conhecidas como Humanidades, cujos produtos parecem estar perdendo o lugar central que ocuparam por séculos no mundo ocidental? A teoria ou a reflexão sobre a ação humana, tanto histórica quanto criativa, permanecerão exiladas apenas no mundo universitário, distanciando-se da realidade escolar na qual os jovens estudantes não apenas estudam, mas também se formam para a vida? Para compreender o que está acontecendo, propõe-se introduzir o significado da noção histórica de Humanidades e reconhecer que ela não se conforma mais às mudanças sociais e econômicas que caracterizam a história contemporânea. Portanto, propõe-se considerar os produtos criativos das Humanidades não com base na oposição clássica entre “humanidade” e “barbárie”, ou no retorno mais recente de Vico e Heidegger ao logos poético como expressão fundamental da natureza humana. Este artigo propõe uma tentativa de compreender o conceito de Humanidades a partir da noção do “inumano”, entendido como o fundamento sensível do nosso corpo que se relaciona com o poder afetivo e imaginativo que nos caracteriza profundamente como seres humanos. Neste contexto, é possível fazer uma reflexão adequada sobre o futuro destas atividades.