
A história pré-colonial de Alagoas se encontra em construção de hipóteses e modelos explicativos. Pouco é de conhecimento público em currículos da educação básica. Na arqueologia, tal temporalidade aparece em estudos sincrônicos (sepultamentos, cerâmicas, megafauna, pinturas rupestres, ocupações e sítios arqueológicos). Nas narrativas, observa-se ausência de uma nomenclatura histórica que priorize a diacronia, servindo-se os pesquisadores de balizas temporais climático-geográficas, material-tecnológica e sócio-formativa. Esse ensaio pretende contribuir com uma proposta de periodização enfatizando às experiências de migrações, assentamentos e formações sociais, em experiências “alagoanas”, especificando-as em uma nova nomenclatura para didática de ensino local dentro do complexo do Brasil pré-colonial.
Edward Harris é um arqueólogo bermudiano cuja produção teve impacto decisivo na consolidação da estratigrafia como eixo analítico central da arqueologia contemporânea. É reconhecido pela formulação da Matriz de Harris, desenvolvida na década de 1970 a partir de uma crítica às práticas de escavação então vigentes, consideradas insuficientes para representar, de forma sistemática, as relações estratigráficas. Essa proposição resultou na elaboração de um modelo metodológico próprio, posteriormente apresentado em Principles of Archaeological Stratigraphy (1979), obra que se tornou referência na disciplina e que pode ser consultada em https://harrismatrix.com/. Sua trajetória acadêmica teve início nos Estados Unidos, na Universidade de Miami, onde o contato com a arqueologia ocorreu a partir das aulas da antropóloga Lydia Lloyd Wyckoff. Em 1967, passou a integrar escavações em Winchester, na Inglaterra, experiência que marcou sua formação prática ao longo de sucessivas campanhas de campo. Posteriormente, concluiu sua formação em Antropologia pela Universidade de Columbia (1971) e obteve o doutorado em Arqueologia pelo University College London (1979), consolidando um percurso marcado pela articulação entre prática arqueológica e reflexão teórica. Suas linhas de atuação concentram-se na teoria da estratigrafia arqueológica, nos métodos de registro e na gestão do patrimônio cultural. Para além da produção acadêmica, desempenhou papel extremamente importante na preservação do patrimônio nas Bermudas, onde atuou como diretor do National Museum of Bermuda por mais de três décadas, além de colaborar com iniciativas editoriais e de divulgação histórica. Ao longo de sua carreira, recebeu reconhecimento de instituições acadêmicas e patrimoniais internacionais. A entrevista foi realizada em março de 2026, com base em respostas fornecidas por escrito, originalmente em inglês. A tradução para o português foi realizada pela autora.
O artigo apresenta os resultados do estudo arqueológico-histórico das cerâmicas utilitárias provenientes do sítio urbano Albergue da UFPA, situado no centro histórico de Belém (PA), datado da virada para o século XX. O objetivo é compreender de que forma os padrões de produção cerâmica refletem as transformações associadas à economia da borracha e às dinâmicas sociais do período. Coletados em contexto de Arqueologia Preventiva e analisados no LADS-UFPA, os materiais integram a chamada Tradição Neobrasileira, expressando diversidade técnica e formal. Tais evidências revelam processos de crioulização resultantes de sociabilidades entre grupos locais, regionais e estrangeiros na Amazônia.
O sítio arqueológico do Lajedo do Soledade, localizado no município de Apodi, no estado do Rio Grande do Norte, Brasil, destaca-se por suas pinturas e gravuras rupestres. Reconhecido principalmente pelas representações simbólicas pintadas de zoomorfos, a área não possui publicações específicas sobre as gravuras. Este estudo concentrou-se exclusivamente nas gravuras rupestres, analisando os temas representados, as técnicas utilizadas e a composição cenográfica. A pesquisa sugere que essas gravuras foram realizadas por um único grupo pretérito, de cronologia ainda desconhecida e, possivelmente, sem conexão com os autores das pinturas rupestres do sítio.
Aqui discutimos o conceito de doença e saúde na Arqueologia da Doença, explorando suas variações históricas e culturais, e o próprio papel da disciplina, revisitando a Bioarqueologia, Antropologia Biológica e a Paleopatologia e sua evolução. Também, exploramos as possibilidades da cultura material relacionada às doenças e suas percepções em diferentes contextos históricos e culturais. Sugere-se uma ampliação dos horizontes de pesquisa para incluir mais aspectos sociais, culturais e materiais, além do biomédico, e uma reflexão acerca da cultura material envolvida nas práticas de tratamento e rituais relacionados a saúde, recuperação e doenças.
Os Museus e as Instituições de Guarda e Pesquisa do Patrimônio Arqueológico são fiéis depositários de primeira ordem de bens arqueológicos. Os processos de investigação, curadoria e extroversão decorrem de uma imbricada relação interdisciplinar entre os campos da Museologia e da Arqueologia, os quais, além de friccionarem as suas epistemologias na compreensão dos acervos, têm a expressão fática dessa interdisciplinaridade na materialidade dos seus respectivos objetos arqueológicos. O intuito deste artigo é apresentar didaticamente, com foco na imponderável materialidade dos bens arqueológicos, os aspectos que constituem a compulsória relação interdisciplinar entre a Museologia e a Arqueologia.
O artigo analisa um cemitério que apresenta dois pontos de interesse e curiosidade como atrações turísticas: uma parte destinada a enterramentos da religião Judaica, sendo o primeiro cemitério Judeu do Condado de Orange, cujos artefatos e elementos da cultura material são as pedras tumulares colocadas verticalmente no solo, que assinalam os locais de sepultamento que não são feitos em túmulos ou mausoléus, mas em covas e um Memorial para Veteranos de Guerra mortos em batalha, com enterramentos e áreas onde são realizados eventos no Memorial Day, cujos artefatos são canhões e esculturas em bronze.
O objetivo deste artigo é apresentar conceitos e ideias relevantes para se pensar o gênero, e mais especificamente, o gênero na interpretação arqueológica. Para tanto serão necessárias a elucubração de ideias que tangenciam o conceito e como este foi compreendido como um fenômeno natural em associação aos órgãos genitais. Quando o gênero é situado no tempo e espaço percebe-se que o mesmo é uma construção social e histórica e, desse modo, não pode ser universal, tampouco natural. O letramento de gênero subsidia a compreensão de que muitas interpretações arqueológicas podem estar enviesadas por uma perspectiva machista, fruto do patriarcado que estrutura nossa atual sociedade.
A pesquisa arqueológica realizada na Área Diretamente Afetada (ADA) da Central Geradora Hidrelétrica (CGH) Marini, em Alta Floresta d’Oeste, Rondônia, revelou vestígios cerâmicos e padrões de ocupação humana pré-invasão europeia em áreas ripárias elevadas do Igarapé Colorado. Através de prospecção arqueológica, geoprocessamento e análises estratigráficas foram identificados e delimitados dois sítios: Marini I e Marini II. Os resultados apontam para uma adaptação ao ambiente amazônico, com uma subsistência baseada no aproveitamento de recursos hídricos e estratégias específicas de uso do solo. Essa pesquisa amplia o entendimento sobre as dinâmicas culturais e de manejo das populações antigas no sudoeste amazônico.
Resenha de: ARAÚJO, Astolfo G. de M. 2019. Por uma Arqueologia cética: ontologia, epistemologia, teoria e prática da mais interdisciplinar das disciplinas. Curitiba: Editora Prismas,
Este artigo apresenta o Projeto de Conservação e Restauro do antigo Paiol de Pólvora da Fábrica da Estrela, localizado no Morro do Calundú, às margens do Rio Estrela, no município de Magé. O edifício se encontra na área do Sistema Dutoviário do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ) e faz parte do Projeto de Consolidação, Recuperação e Valorização do Bem Cultural, a cargo da TRANSPETRO-PETROBRAS. Foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar da empresa ANX Engenharia e Arqueologia Ltda.
A partir das pesquisas arqueológicas realizadas nas cidades operárias de Fordlândia e Belterra (Pará), neste artigo, pretendo chamar atenção para o patrimônio industrial localizado na Amazônia brasileira e, com isso, sustentar a posição de que pesquisas arqueológicas históricas em cidades industriais, ou “cidades na floresta”, que guardam em suas trajetórias os conflitos contemporâneos relacionados aos direitos à terra, à exploração até o esgotamento de recursos, à precarização do trabalho e ao controle sobre as comunidades tradicionais e os povos da floresta, podem contribuir para uma melhor compreensão das transformações vivenciadas na região e dos impactos gerados pela implantação dos grandes projetos industriais.
O propósito deste estudo é aproximar os arqueólogos dos recursos que as estratégias da logística podem oferecer no aprimoramento e na qualidade dos trabalhos de campo e, a partir disto, propor um conceito do uso logístico para a ciência arqueológica chamado “logística arqueológica terrestre”. Além disso, foi realizada uma pesquisa opinativa com arqueólogos da Região Nordeste brasileira com o intuito de evidenciar a importância da logística em trabalhos arqueológicos. Apesar de o trabalho ser direcionado para a região Nordeste do Brasil, a logística e seus recursos, que serão apresentados, poderão ser aplicados e adaptados a outros contextos de ambientes ou sítios arqueológicos de diferentes regiões do país.
Neste artigo, abordamos os impactos da inteligência artificial em Arqueologia a partir de uma perspectiva cronológica sobre a evolução da interface entre computadores e arqueologia brasileira da década de 1980 aos dias atuais. Indicamos uma série de desafios que se manifestam com a introdução dessa nova tecnologia dentro para as pesquisas arqueológicas em contextos brasileiros. Uma perspectiva cronológica permite avaliar a gradual incorporação dos métodos informáticos na área e observar um lapso temporal entre o desenvolvimento das tecnologias e sua discussão crítica, que contrasta com a velocidade na qual a inteligência artificial ganhou os mais diversos espaços do cotidiano, inclusive na Arqueologia. Concluímos que a IA já está presente, queiramos ou não, e que necessitamos de pesquisas explicitamente voltadas para o tema.
O presente artigo objetiva apresentar os resultados dos estudos arqueológicos realizados no sítio Caiçara. O resultado das análises dos vestígios e as datações obtidas a partir de amostras de carvão provenientes de quatro estruturas de combustão identificadas em subsuperfície remetem à presença de distintos grupos culturais relacionados a pelo menos três horizontes de ocupação datados do final do Holoceno médio até os dias atuais. Destaca-se a ocupação de grupos horticultores ceramistas Tupiguarani e de grupos pescadores-coletores-caçadores-ceramistas, cujos vestígios são encontrados em diversos sítios do litoral dos estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.
Este artigo aborda o patrimônio cultural arqueológico levantado em Nova Iguaçu, Japeri, Queimados, Belford Roxo e Mesquita e uma parcela do Município de Miguel Pereira, a partir de um projeto iniciado na década de 1980 que resultou numa tese de doutoramento no Museu Nacional/UFRJ. Se desdobra em frentes de pesquisas e ações de gestão do patrimônio cultural arqueológico ameaçado por um intenso processo de urbanização que marca a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. É proposta a elaboração de um plano de manejo adequado às especificidades locais, contribuindo com o desenvolvimento sustentável a partir do patrimônio arqueológico, entendido aqui, como recurso cultural.
O sítio arqueológico Engenho do Meio está inserido, desde 2018, nas atividades didáticas do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco, fornecendo uma oportunidade para discentes participarem em pesquisas na Arqueologia Histórica, enquanto aprendem métodos e técnicas de escavação. Concentrada na área da casa grande, demolida e soterrada nos anos 1940, os estudos incluem prospecções geofísicas, escavações por diversas técnicas, fotografia e desenho de contextos estratigráficos, identificação e processamento inicial de materiais arqueológicos. Este relatório apresenta os métodos empregados nos estudos de campo e resume alguns dos resultados das atividades realizadas até a campanha de 2023.
Os povos Indígenas foram apagados nos cinco séculos de construção do passado e presente de São Paulo. Este artigo é uma discussão de alguns aspectos desta situação, destacando o fato de que a arqueologia em perspectiva interdisciplinar deve agir para reverter tal prática e contribuir na consideração das comunidades tradicionais e de seus direitos civis.