
Ontologias são artefatos de representação do conhecimento adotados para enriquecer dados no formato digital através de sua classificação e axiomatização. Em muitos aspectos, ontologias são empreendimentos similares as iniciativas de classificação bibliográfica, mas possuem etapas um tanto técnicas que demandam conhecimento básico de lógica e tecnologia da informação. Para incrementar a construção de ontologias na Ciência da Informação, o presente artigo introduz uma metodologia para construção de ontologias denominada Projeto de Recursos Ontológicos (PRONTO). Trata-se de uma metodologia que objetiva ajudar a construir ontologias de todos os tamanhos e níveis de complexidade, pensada para ser prática, e concebida considerando aspectos orientados por necessidade de governança e por aspectos instrumentais. Além disso, a PRONTO objetiva atender ao pesquisador e profissional de Ciência da Informação em suas particularidades e necessidade de detalhamento técnico, uma vez que as metodologias tradicionais são voltadas para a cientistas da computação. A PRONTO é apresentada integrada ao mais popular editor de ontologia do mundo – o Protégé – desenvolvido na Stanford University e mantido pela universidade americana desde a década de 1990.
Nos últimos anos, tem-se observado um crescente debate e uma proliferação de informações sobre sustentabilidade em todo o mundo. No Brasil, o discurso sobre sustentabilidade abrange múltiplos domínios — incluindo os setores jornalístico, corporativo e científico. Consequentemente, há uma necessidade premente de sistematizar o conhecimento acumulado sobre esse tema. Como iniciativa do Laboratório de Informação para Sustentabilidade (LIS) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), este estudo empregou Linguística de Corpus e Processamento de Linguagem Natural (PLN) para mapear e organizar o conhecimento linguístico sobre sustentabilidade no Brasil. Utilizando um corpus de aproximadamente 50 milhões de palavras, abrangendo cinco gêneros textuais, candidatos a termo foram extraídos e posteriormente validados por especialistas do IBICT. Esses termos foram organizados em conjuntos temáticos e classificados semanticamente com apoio do Agrovoc. O mapa conceitual resultante foi transformado em uma estrutura dinâmica, publicada no portal do LIS. Este artigo apresenta o desenvolvimento desse produto terminológico por meio de uma proposta metodológica interdisciplinar, detalhando os resultados e os desafios enfrentados.
Este artigo apresenta um modelo metodológico de organização terminológica e integração semântica desenvolvido no contexto institucional da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), com foco na gestão de vocabulários especializados e na interoperabilidade entre recursos terminológicos heterogêneos. O modelo combina a compilação de corpora especializados e a validação de candidatos a termo com procedimentos de incorporação semântica de recursos institucionais externos, diferenciando as abordagens de acordo com a natureza das fontes de informação envolvidas. Sua aplicação e discussão são realizadas por meio de casos de uso representativos, incluindo o Glossário Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o Vocabulário Controlado de Geoinformação (VocGeo) e a organização terminológica de cultivares registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária. O modelo é sustentado por uma infraestrutura baseada em padrões da Web Semântica e em ambientes colaborativos de gestão de vocabulários, assegurando governança terminológica, rastreabilidade editorial e interoperabilidade semântica. Os resultados demonstram a viabilidade de um modelo metodológico integrado para a organização e manutenção de vocabulários controlados, tal como adotado no Agrotermos 2.0, espaço conceitual da Embrapa para a organização e representação do conhecimento agropecuário brasileiro; esse modelo apresenta potencial de reutilização em outras iniciativas de gestão do conhecimento em domínios técnico-científicos distintos da agricultura.
Discute-se o desenvolvimento de sistemas de recuperação de informação inteligentes capazes de promover a interoperabilidade semântica entre bases de dados distintas e heterogêneas. Destaca-se a importância e a viabilidade de estabelecer mecanismos que permitam determinar identidades semânticas para os conceitos presentes em sistemas de organização do conhecimento (SOC), de modo que possam ser compatibilizados e mapeados pelo seu conteúdo e significado semântico, possibilitando a criação de sistemas de recuperação da informação inteligentes entre vocabulários heterogêneos. O objetivo central consiste em permitir que agentes de software identifiquem, de maneira automatizada e precisa, relações de equivalência e proximidade entre vocabulários, superando as limitações dos localizadores tradicionais da web e transformando dados isolados em um espaço semântico navegável e integrado. A fundamentação teórica apoia-se nos métodos da Metalinguagem da Economia da Informação, de Pierre Lévy e no Registro do Conceito de Dahlberg, além de contribuições de algoritmos oriundos da Ciência da Computação e áreas correlatas, como análise de grafos e similaridade de cadeias de caracteres, a fim de mapear significados além da simples forma verbal. Adota-se uma metodologia de pesquisa bibliográfica, exploratória e qualitativa. Como resultado, apresenta-se caminhos para a utilização do registro do conceito como um método viável para nossos propósitos de interoperabilidade entre SOC, indicando perspectivas e desdobramentos para trabalhos futuros.
Pesquisa que investiga a representação da informação de objetos digitais acessíveis nas perspectivas descritiva e de acessibilidade em biblioteca digital. Caracteriza-se como uma pesquisa que utiliza o método dedutivo de raciocínio e que se define como básica, exploratória, bibliográfica, documental e qualitativa, a qual coletou dados na Biblioteca Digital e Sonora da Universidade de Brasília. Averígua-se que a biblioteca digital estudada disponibiliza dois tipos de objetos digitais acessíveis, ou seja, áudio e texto, em diferentes formatos, e que esses objetos são descritos a partir dos 15 elementos básicos do padrão de metadados Dublin Core, sendo alguns qualificados. Constata-se que essas descrições possuem certos laços de padronização, assumem estratégia de granularidade fina e são promovidas via formulários simplificados e completos, incluindo, por exemplo, campo específico para informar o estado de acessibilidade do recurso informacional. Conclui-se que os objetos digitais acessíveis, com fins de representação da informação, são descritos a partir de padrão de metadados específico, apoiado por normas (nacional e internacional), mas que não possuem padronização na ordem de elementos e na adoção e qualificação dos campos para descrevê-los, enquanto apresentam alinhamento a dispositivos legais sobre direitos autorais e promoção da acessibilidade informacional.
Este artigo apresenta o processo de especificação e validação dos requisitos funcionais da Ontologia Pinakes, desenvolvida para integrar os serviços bibliográficos do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), incluindo o Catálogo Coletivo Nacional (CCN), a Rede Bibliodata e o Comut. O estudo adota uma abordagem qualitativa baseada na Metodologia NeOn, com a formulação de questões de competência derivadas das tarefas do usuário definidas no IFLA Library Reference Model (LRM). A pesquisa inclui uma revisão sistemática da literatura que revelou a escassez de estudos que abordem de forma aprofundada a especificação e validação de requisitos ontológicos, especialmente no campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação. Os requisitos foram validados com base em critérios consolidados da Engenharia de Requisitos de Software, incluindo corretude, completude, consistência, verificabilidade, clareza, ausência de ambiguidade, concisão, rastreabilidade, modificabilidade e realismo, assegurando rigor metodológico ao Documento de Especificação de Requisitos de Ontologia (ORSD). Os resultados demonstram que a Ontologia Pinakes fornece uma base estruturada para a padronização e a interoperabilidade semântica dos serviços bibliográficos, contribuindo para a modernização dos sistemas de informação e para o reuso e a integração de dados bibliográficos em ambientes digitais. O estudo oferece um referencial teórico e metodológico aplicável ao desenvolvimento e à integração de ontologias em contextos institucionais.
O Controle Bibliográfico Universal abrange o processo de desenvolvimento de um sistema de abrangência global para o controle e o intercâmbio de informação bibliográfica. Inserido cada vez mais no cenário da Web Semântica e do Linked Data, o Controle Bibliográfico Universal ganha novas demandas e possibilidades para a descrição e o compartilhamento de dados e de recursos. Objetiva-se identificar e apresentar os principais elementos norteadores da prática de Controle Bibliográfico Universal no contexto digital. Para tanto, realizou-se a análise das publicações científicas atinentes ao tema no campo da Ciência da Informação. Como resultado, verificou-se que, no contexto digital, o Controle Bibliográfico Universal torna-se dinâmico, descentralizado e colaborativo e os metadados possuem papel preponderante. Diante disso, a prática do Controle Bibliográfico Universal adquire quatro principais características: (I) interoperabilidade e integração; (II) gerenciamento de identidade e a transição epistemológica de registros para entidades; (III) proveniência de dados e autenticidade de consenso, e (IV) Open World Assumption. Finalmente, verificou-se, que os modelos conceituais do universo bibliográfico, particularmente o IFLA LRM, tornam-se elementos essenciais para o Controle Bibliográfico Universal no contexto digital, constituindo-se como instrumentos de unificação e de consolidação de um melhor entendimento e comunicação do universo bibliográfico.
Investiga-se, de forma analítica e comparativa, a possibilidade de modelagem semântica para representação de instrumentos musicais, propondo ampliação da interoperabilidade semântica do Museu Virtual de Instrumentos Musicais (MVIM). Parte-se do pressuposto de que não há uma ontologia única capaz de representar integralmente as especificidades dos instrumentos musicais em contextos museais, especialmente no cenário brasileiro. Metodologicamente, adotou-se abordagem exploratória, com levantamento bibliográfico em bases nacionais e internacionais, análise documental das ontologias selecionadas e aplicação dos princípios da Pesquisa-Ação, tendo o MVIM como campo empírico. Das ontologias examinadas, foram selecionadas a Music Instrument Ontology (Polifonia) e a SMI Ontology, pois possuem foco na aderência à classificação de instrumentos musicais do modelo conceitual do MVIM. Os resultados indicam que a Music Instrument Ontology apresenta maior compatibilidade estrutural e semântica, possibilitando adaptação mediante mapeamento ontológico. A pesquisa reforça o papel estratégico das ontologias e dos Sistemas de Organização do Conhecimento na promoção da interoperabilidade em ambientes museais digitais. Conclui-se que o reúso ontológico favorece a padronização semântica, o enriquecimento de metadados e a integração do MVIM com outras plataformas.
Propõe-se neste trabalho uma ontologia para o domínio de letras musicais, com foco na rica diversidade da Música Popular Brasileira, utilizando uma abordagem de crowdsourcing para sua construção e enriquecimento. A relevância de uma ontologia dedicada a letras de músicas é destacada, e a linguagem Web Ontology Language é empregada para a formalização do conhecimento. O estudo discute os desafios inerentes ao uso do crowdsourcing em plataformas colaborativas de língua portuguesa para a criação da ontologia, especialmente no que tange à garantia da qualidade dos dados. A ontologia proposta abrange elementos essenciais como título, artista, gênero, letra, compositor e ano de lançamento, com especial atenção à letra, possibilitando a extração de termos-chave para futuras inferências e análises de extensos conjuntos musicais, sublinhando a importância da música enquanto forma de entretenimento. Adicionalmente, o artigo apresenta uma análise detalhada do pré-processamento de milhares de letras da MPB, identificando problemas recorrentes como erros linguísticos, atribuições incorretas de autoria e a presença de cifras mescladas ao texto lírico. A pesquisa conclui que ontologias musicais oferecem um arcabouço valioso para estudos aprofundados nas dimensões cultural, regional e temporal da música, consolidando um acervo de conhecimento significativo para as áreas de musicologia e gestão do conhecimento.
Enquanto os dados reais são coletados de diferentes contextos do mundo real — como a observação de fenômenos diversos ou a interação de pessoas com sistemas e máquinas — os dados sintéticos são gerados por meio da aplicação de diferentes técnicas, com o objetivo de ampliar, equilibrar ou diversificar um determinado conjunto de dados. O uso de dados sintéticos não é recente: há muito tempo é empregado em análises estatísticas e, com frequência, no campo da Inteligência Artificial. No entanto, o atual contexto tecnológico, marcado pela proliferação de Grandes Modelos de Linguagem e pela popularização das Inteligências Artificiais Generativas, tem evidenciado a necessidade de volumes massivos de dados para o treinamento e a evolução contínua desses modelos, o que tem ampliado significativamente a adoção de dados sintéticos no treinamento de diferentes tipos de Inteligência Artificial. Reconhecendo a importância dos dados sintéticos nesse cenário, a presente pesquisa busca apresentar e discutir conceitos relacionados a esse tipo de dado, bem como identificar suas possíveis interfaces com as áreas de Organização e Representação da Informação e do Conhecimento. Para isso, parte-se da identificação e discussão dos conceitos pertinentes, por meio de um estudo de terminologia pontual e de uma análise exploratória baseada em um protocolo de pesquisa. Como resultado, espera-se traçar relações entre o contexto dos dados sintéticos e a representação da informação e a organização do conhecimento, identificando tanto os desafios que esses dados impõem à representação quanto as potenciais contribuições que a representação e a organização podem oferecer a esse universo.
O patrimônio cultural representa um conjunto de bens materiais e imateriais que refletem a memória, a identidade e a história de uma sociedade. No contexto dos museus, gerir tais bens são atividades que exigem estratégias de organização da informação e do conhecimento, sobretudo diante da digitalização de acervos e multiplicidade de fontes de dados. Assim, este trabalho apresenta uma ontologia no domínio museológico, tendo como estudo de caso o Museu da Abolição, que está sob gestão do Instituto Brasileiro de Museus, e teve como foco a patrimonialização, o item de coleção, o museu e a tecnologia da informação aplicada. Foi utilizada a metodologia Extended Systematic Approach for Building Ontologies em conjunto com a linguagem OntoUML, com as diretrizes da ontologia de fundamentação Unified Foundational Ontology. O resultado é uma representação gráfica que organiza conceitos, relações e restrições do domínio, além de um glossário de termos, abrangendo desde conceitos sobre catalogação e digitalização até ações de preservação, gestão e difusão digital de acervos. Pretende-se oferecer um artefato de representação conceitual que auxilie na padronização, interoperabilidade, recuperação de informação, agregação e compreensão do domínio, dando suporte não apenas a gestão do patrimônio cultural, mas também a ampliação do acesso, uso e reúso da informação por pesquisadores, instituições e sociedade em geral, seja por meio da melhoria da comunicação entre agentes desse processo, seja por meio de uma representação do conhecimento a ser usada em tecnologias da informação.
Abstract. How is causality/causation associated with parthood? And do parts and their whole interact in distinct causal manners? I introduce a novel concept I call ‘mereocausality’ and its cognates, merging two foundational topics in theoretical and practical disciplines: causality and parthood (or mereology). Topology is often associated with the latter yielding mereotopology. These two topics have been of great personal intellectual interest, and after a few years of sitting on this idea (and papers), I here express it. I apply inquiry into causality and formal causal relations to mereology, developing a new formal concept: mereocausality, mereocausation, causal mereo(topo)logy, etc. This paper offers a preliminary exploration, offering broad concepts, research questions and terminology for what can be a new branch of inquiry; casual mereology and causal mereotopology. Future work will involve a more structured and rigorous investigation, developing the basic ideas presented here. For this project and study, I hope to produce a conceptual system for exploring the intersection of causality, mereology and topology. A contribution of this work is the creation of a new concept and associated terminology. This work is relevant for a variety of disciplines and activities: philosophy, such as metaphysics; conceptual analysis and development; formal and applied/computational ontology; knowledge representation and reasoning in artificial intelligence; conceptual modeling; semantic data modeling; psychology and linguistics; etc. As an unfunded project to date, formal support and collaborations are desired to pursue this promising line of research. Interested readers should contact the author.
Abstract. In the field of applied ontology, it is now commonplace to refer to a top-level ontology, and the Basic Formal Ontology (BFO) has even been recognized as an ISO standard. Like other contemporary top-level ontologies, BFO makes use of distinctions that have been developed in philosophy, many of which are already to be found in Aristotele. In this essay, we revisit Aristotele’s metaphysics and discuss the similarities and differences with BFO.
Abstract. In this article, we continue the study and definition of a class of ontologies known as “epistemic” by laying the foundations for a foundational epistemic ontology called EFO (for Epistemic Foundational Ontology). First, we outline some basic ontological commitments made to establish EFO. We then detail the main categories structuring the ontology. Finally, we sketch out a set of axioms in FOL to formalize a core of EFO.
This paper critically examines the relationship between Basic Formal Ontology (BFO) and the Common Core Ontologies (CCO), offering a comprehensive discussion of their theoretical foundations, design patterns, and implementation practices. The paper highlights BFO’s commitment to realism, perspectivalism, fallibilism, and adequatism, and illustrates how these principles guide the representation of domain-specific entities within CCO. The modular structure of CCO is analyzed, emphasizing its eleven component ontologies and the hub-and-spoke strategy that promotes semantic integration across diverse domains. The paper also engages with practical challenges in distinguishing between TLOs, MLOs, and domain ontologies, proposing heuristic and formal criteria for delineating their scope. Using a dataset from the US Federal Aviation Administration, the paper demonstrates CCO’s modeling capabilities, particularly in integrating design specifications and real-world data. The study concludes by underscoring the importance of aligning data quality and semantic interoperability in ontology engineering, and it calls for sustained methodological rigor and collaboration to advance the BFO-CCO ecosystem.
A maioria dos países, via de regra, têm interesse na gestão fundiária e gestão da terra. Uma questão nesse contexto é como construir, ou melhorar, sistemas de administração de terras que incorporem todos os direitos, restrições e responsabilidades, permitindo a gestão dos interesses fundiários. No Brasil, um país de dimensões continentais, não é diferente, uma vez que diversas instituições e estudos acadêmicos abordam o assunto. Ainda assim, inexiste no país um vocabulário bem estruturado e unificado para representar adequadamente a noção da gestão de terras em sistemas de informação. Uma alternativa para tal tarefa é o uso de ontologias. O presente artigo traz uma revisão sistemática da literatura com o objetivo de identificar estudos que propõem, aplicam ou avaliam ontologias fundamentadas no Land Administration Domain Model (LADM – ISO 19152). Obteve-se a partir de um conjunto inicial de 223 artigos preliminares, um subconjunto de 12 artigos para compor o mapeamento. Observou-se um predomínio de abordagens práticas, voltadas à interoperabilidade e à integração de sistemas. Buscou-se compreender como ontologias no contexto da gestão fundiária têm sido desenvolvidas, em que contextos têm sido utilizadas e quais os benefícios de sua adoção. Essa compreensão objetiva apoiar o desenvolvimento de um artefato ontológico brasileiro e fundamentar pesquisas futuras.
Este artigo propõe uma abordagem ontológica para diferenciar dado cadastral e indício tributário no processo de desenvolvimento de um sistema cadastral nacional. A distinção entre os conceitos fortalece a governança de dados, a justiça fiscal e a função multifinalitária do cadastro, contribuindo para a efetividade de políticas públicas e para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 11. Com base no Land Administration Domain Model (ISO 19152), a proposta apoia a implantação do Sistema Nacional de Gestão de Informações Territoriais (Sinter) e do Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), promovendo interoperabilidade e padronização nacional entre os múltiplos sistemas cadastrais existentes.
Este trabalho tem como objetivo apresentar e discutir os problemas de interoperabilidade semântica presentes na legislação brasileira, assim como em documentos técnicos, para produção das bases cadastrais brasileiras em apoio ao desenvolvimento de um modelo ontológico baseado na ISO 19.152 - Modelo de Domínio de Administração de Terras (LADM). No Brasil não existe uma definição formal da unidade territorial que deve ser cadastrada, existindo diferentes conceitos, tanto em âmbito rural quanto no urbano, definidos de acordo com o objetivo - fundiário, tributário, registral e cadastral. Para implementação de um sistema cadastral é necessário, inicialmente, definir qual unidade será cadastrada, estabelecendo claramente seu conceito, a fim de orientar uma referência cadastral única para perfeita identificação do bem territorial, das relações de direitos de pessoas sobre esses bens e possibilitar sua modelagem. A partir do estudo realizado, identificou-se problemas de entendimento e um vocabulário variado para os termos utilizados para definição da unidade cadastral: imóvel, lote, parcela, dentre várias outras. Os problemas estão presentes na legislação brasileira, assim como em documentos técnicos para estruturação do cadastro territorial nacional. Nesse sentido, o LADM assume um papel central no desenvolvimento do modelo ontológico nacional por fornecer uma estrutura conceitual para gestão territorial.
A Lei Complementar (LC) nº 214, de 16 de janeiro de 2025, ao regulamentar a Reforma Tributária sobre o Consumo (RTC), estabeleceu que todos os imóveis rurais e urbanos deverão ser inscritos, sob identificação única, no Cadastro Imobiliário Brasileiro (CIB), constituído com dados enviados pelos cadastros de origem ao ambiente do Sistema Nacional de Gestão de Informações Territoriais (Sinter). Dado a enorme distinção entre os modelos e o nível de desenvolvimento dos sistemas cadastrais existentes no Brasil, a geração do identificador cadastral único para cada imóvel exigirá um esforço de integração e interoperabilidade para recepção e tratamento dos dados dos imóveis que estarão aptos a receber um CIB. Neste cenário, o objetivo deste artigo é, diante dos desafios a serem enfrentados, propor soluções para a tarefa de integrar diversos sistemas cadastrais do país. Os resultados demonstram que a emissão do CIB para todos os imóveis rurais e urbanos do país demandará a estruturação do ambiente de interoperabilidade do Sinter mediante a adoção de uma arquitetura robusta e com soluções tecnológicas de ponta, de forma a transformar o Sinter em uma plataforma nacional que fomente uma gestão territorial eficaz, transparente e baseada em dados, beneficiando toda a sociedade.