
A pesquisa em questão investiga a militarização do Estado português entre 1762 e 1812 como expressão da crise do Antigo Regime e da transformação de suas bases estatais e corporativas. Parte-se da hipótese de que as reformas militares não produziram uma ruptura imediata, mas instituíram, de forma gradual e, por vezes, contraditória, novos princípios de organização do poder, vinculados ao reformismo ilustrado, à racionalização administrativa e à crescente centralização régia, contribuindo, a longo prazo, à formação do horizonte constitucional português. O objetivo central é demonstrar como o universo militar lusitano, além de instrumento de defesa, converteu-se em espaço privilegiado de disciplina, vigilância e intervenção sobre a sociedade. Para tanto, mobilizam-se decretos régios, alvarás, regulamentos militares, instruções gerais e documentação normativa – consultados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) e na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) – em articulação com a historiografia especializada. A análise evidencia que as reformas conduzidas sob a atuação do Conde de Lippe reorganizaram padrões de recrutamento, hierarquia, instrução e provimento dos postos, valorizando mérito, técnica e obediência, mas sem eliminar de imediato os privilégios, as redes clientelares e os procedimentos herdados do paradigma corporativista ao longo do tempo. Por fim, conclui-se que a militarização integrou um processo mais amplo de recomposição do poder no mundo luso, no qual a crise do Antigo Regime abriu caminho, de maneira paulatina, para novas formas de governo e para o futuro Estado constitucional, quando o paradigma individualista passou a sobrepor o paradigma corporativista.
Na transição do Antigo Regime para o constitucionalismo liberal em Portugal o clero atravessou um processo de reconfiguração das suas características, da sua extração socioeconómica, das suas tarefas administrativas e da definição da sua tutela institucional. Os contornos desse processo estão, ainda, mal definidos, sendo necessário, antes de mais, conhecer os indivíduos que, na primeira metade do século XIX, acederam à condição de presbítero, estatuto essencial para o desempenho da cura de almas, então tida como a parte socialmente útil da religião. Aqui se situa a relevância dos livros de matrículas de ordinandos, fonte cujas características e limitações se apresentam. Extraem-se, a partir dos materiais existentes, os números dos novos presbíteros ordenados entre 1800 e 1848, tanto do clero secular quanto do clero regular, para se analisar, ensaiando hipóteses explicativas, a variedade dos ritmos de evolução do número de novos padres nas 10 dioceses em que o fenómeno teve maior expressão.
O presente artigo dedica-se aos aspectos relacionais de gênero durante o reinado de D. Miguel I (1828-1834) e utiliza como fonte principal os requerimentos de mulheres enviados à Secretaria de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça. A subida de D. Miguel ao trono foi responsável pelo acirramento das disputas entre os contrarrevolucionários e os defensores da Carta Constitucional portuguesa de 1826 e de suas instâncias representativas. O cenário de perseguição aos acusados de inimigos do rei, associado à crise econômica, foi ainda mais significativo para mulheres pobres. Mediante a metodologia da micro-história, este estudo busca rastrear as especificidades das experiências sociais e políticas das mulheres requerentes, atentando para o contexto da contrarrevolução miguelista.