
Este artigo analisa a aplicação do conceito de “comunidade remanescente quilombola” na Vila Esperança de Mariental, Paraná, abordando seu processo de etnogênese e contexto social, ambiental e territorial. Utilizou-se uma metodologia que engloba a caracterização socioeconômica por meio de questionários e levantamentos aerofotogramétricos, além de análises teóricas baseadas na legislação brasileira de 1988 e estudos antropológicos. A pesquisa reconhece a Vila Esperança como uma população negra tradicional, destacando a complexidade dos quilombolas no Brasil contemporâneo e mostrando que essas comunidades nem sempre mantêm a memória ancestral como prevê o conceito oficial. Os resultados são úteis para a elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da comunidade, revelando diversas dimensões da identidade quilombola em contextos periurbanos. O trabalho amplia a compreensão das dinâmicas sociais e culturais dessas comunidades e enfatiza a importância de integrar perspectivas socioambientais na autogestão territorial e no reconhecimento de direitos tradicionais. A pesquisa enfatiza a necessidade de políticas públicas mais inclusivas e eficazes que atendam às especificidades e vozes quilombolas, fomentando uma gestão territorial que priorize a sustentabilidade ambiental e a justiça social.
Neste artigo, ensaiamos algumas reflexões sobre a escrita dos geógrafos que buscam, na fenomenologia, embasamento para realização do seu fazer-científico. Entre essas reflexões estão a crítica ao modo moderno de se fazer geografia, a geograficidade como relação existencial com a realidade geográfica e a escrita como fazer-científico engajado. Ao final, concluímos que a geografia engajada, atrelada à nossa situação existencial no mundo-da-vida e comprometida com as realidades geográficas vivas, carece de uma escrita que dê vazão à geograficidade dos fenômenos, isto é, uma escrita engajada com as experiências geográficas, e não apenas com os conceitos e categorias científicas da Geografia. Como o geógrafo Eric Dardel nos ensinou, a escrita geográfica perde muito ao abandonar a linguagem literária e se ancorar na linguagem cientificista, principalmente em expressividade, que é um dos modos de tocar o leitor que se debruça sobre um texto.
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa que buscou analisar as relações entre técnica, tecnologia e lugar na experiência de microempreendedores/microempresas em Salvador-BA, com ênfase nas áreas populares e periféricas da cidade. O objetivo central foi o de compreender como os pequenos empreendimentos vêm se apropriando das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e de outras ferramentas digitais como formas de fortalecimento, visibilidade e inserção no mercado, sem se desvincular de suas realidades espaciais. A metodologia incluiu uma etapa inicial de classificação dos empreendimentos com base na frequência de atividade digital, seguida do envio de formulários por redes sociais e da realização de entrevistas com 16 empreendedores de diferentes setores. Os resultados estão organizados em dois eixos principais. No primeiro discute-se o papel da inovação, das TIC e da automação tecnológica nos microempreendimentos, evidenciando que, embora o acesso a essas ferramentas ainda seja desigual, muitos empreendedores as utilizam de forma criativa e adaptativa, como estratégia de sobrevivência e diferenciação. No segundo eixo aborda-se a relação entre lugar e tecnologia, mostrando que, mesmo diante da virtualização dos negócios, o lugar permanece como base simbólica, afetiva e prática para o desenvolvimento das atividades empreendedoras. As redes digitais ampliam as possibilidades de circulação, mas não eliminam os vínculos e estéticas locais, bem como os desafios estruturais enfrentados. A pesquisa reafirma a importância de se compreender os processos de inovação a partir do chão vivido da cidade, reconhecendo o lugar como base de criatividade e resistência frente às dinâmicas excludentes da urbanização e da digitalização desigual.
Torto Arado é uma obra contemporânea, de autoria de Itamar Vieira Júnior, que foi publicada, em 2019, pela editora Todavia. O referido livro sensibiliza os seus leitores pela alta carga emotiva de grande parte dos (as) personagens na relação com um lugar fictício (“Água Negra”). Nesse contexto, este manuscrito tem por objetivo analisar a topofilia, presente na narrativa em epígrafe, na interlocução com a Geografia Humanista, além da Filosofia e Sociologia, a fim de evidenciar as percepções afetivo-culturais de uma comunidade quilombola, localizada no sertão da Bahia. Como método de pesquisa, adotou-se a “Análise do Discurso de Linha Francesa” (Pêcheux, 2008, p. 11; Orlandi, 2012, p. 9). Desse modo, aponta-se, como principais resultados, que a topofilia em Torto Arado reflete um profundo sentimento de pertencimento histórico dos moradores na relação com o lugar de origem e / ou de sobrevivência, destinando a essa terra afeição, cuidado e proteção numa analogia ao termo “morada-ninho” (Bachelard, 2008, p. 35). Portanto, os moradores de “Água Negra” transmitem resistência e resiliência, negando-se a abandonarem os seus lares, reivindicando, assim, a sua permanência como bens culturais e simbólicos do espaço historicamente habitado.
O presente artigo visa evidenciar a cadeia de relacionamentos que entrelaça humanos e escorpiões no espaço urbanizado do município de Salinas-MG. Abandonando pretensões de determinância dessas relações, o trabalho em questão utiliza pressupostos mais-que-representacionais que visam exibir as manifestações de afeto e performance que integram não somente humanos e escorpiões, mas outros partícipes que ajudam a intermediar as relações entre estas duas espécies. Parte-se da hipótese de que as relações mais-que-representacionais são marcadas pela indeterminação que, por sua vez, fica evidenciada no levantamento das performances dos actantes. Ao abordar humanos e escorpiões, a metodologia utiliza estratégias assimétricas: entrevistas semiestruturadas para o levantamento do afeto e performance humana e, no caso dos escorpiões, levantamentos s partir de estudos técnicos a respeito de informações acerca de sua performance. É sugerido o termo assemblage humano-escorpiônica para aludir a zoopolis que emerge a parte do relacionamento de actantes. Destaca-se que este trabalho aborda metodologias ainda não bem disseminadas na geografia brasileira, mas já bem consolidadas na geografia anglófona. Mais do que determinar como se dão as relações, a metodologia visa atender o objetivo de apontar possibilidades de interação dos actantes, revelando distintas respostas à vida em rede. A relevância deste trabalho reside na originalidade em apresentar uma tentativa empírica de evidenciar a associação entre espécies mediante pressupostos mais-que-representacionais.
O sistema Geossistema-Território-Paisagem (GTP) é uma proposta teórico-metodológica articuladora que busca desenvolver estudos socioambientais baseados no diálogo entre as dimensões biofísica (geossistema), socioeconômica (território) e sociocultural (paisagem). Entretanto, apesar de se apresentar como uma proposta útil para análises e debates integradores, percebe-se o desconhecimento do seu potencial e a pouca utilização por parte de muitos geógrafos e geógrafas. Esse cenário dificulta o reconhecimento do real dimensionamento da utilização atual e das contribuições da proposta para a Geografia. Dessa forma, objetiva-se compreender as trajetórias e tendências da utilização do sistema GTP na Geografia, com foco no período de 2016 a 2023. Para isso, catalogou-se de maneira qualitativa e quantitativa, as dissertações e teses dos 73 programas de pós-graduação em Geografia do Brasil. Tal ação foi realizada através da definição e tabulação de variáveis bibliométricas coletadas em repositórios institucionais e bibliotecas digitais. Essas ações permitiram mapear a produção científica, identificar tendências e lacunas e fomentar análises geográficas mais robustas sobre os caminhos da pesquisa socioambiental. Os resultados indicaram: uma manutenção de sua aplicação em centros consolidados; crescimento na utilização do sistema GTP associado a um processo de interiorização da proposta em programas recentes; utilização de uma ampla variedade recortes, escalas/unidades de análise e áreas temáticas; e que o sistema GTP demonstrou ser versátil ao ser aplicado em diferentes contextos geográficos.
A poluição por microplásticos (MPs) nos solos constitui uma problemática ambiental emergente, que tem sido objeto de crescente atenção científica nos últimos cinco anos. No entanto, a maioria dos estudos concentra-se em regiões temperadas, havendo ainda uma lacuna significativa de conhecimento em ambientes tropicais. Tal preocupação revela-se particularmente pertinente em países como o Brasil, onde a taxa de reciclagem de resíduos é inferior a 5%. A situação é ainda mais crítica em municípios que não dispõem de sistemas adequados de coleta seletiva e reciclagem de resíduos sólidos urbanos. Este estudo apresenta uma avaliação espacial da contaminação por microplásticos na camada superficial de solos (0-1 cm) do município de Cruz das Almas, Bahia. Foram coletadas 50 amostras compostas de solo em áreas rurais dentro de um raio de 2 km da sede urbana, geralmente sem contaminação aparente por plásticos. Os microplásticos (0,15–5 mm) foram extraídas por separação densimétrica (ZnCl₂,1,5 g cm-3) e quantificadas por estereomicroscopia e análise digital de imagens. As concentrações variaram de 833 a 25.271 partículas kg-1, com média de aproximadamente 6.723 partículas kg-1, uma das maiores abundâncias MPs em solos comparado a diversos estudos no mundo, mesmo em contexto de solos com mulching ou aplicação de lodo de esgoto. As partículas apresentaram tamanhos médios de 240 µm, sendo majoritariamente fibras (89%), seguidas por fragmentos (10%) e alguns filmes, espumas e pellets. As cores predominantes foram azul (53%) e branca (41%). A krigagem ordinária permitiu mapear com eficiência a distribuição espacial da contaminação, revelando gradientes de concentração mais elevados nas porções leste e oeste da cidade, relacionados a atividades humanas e dispersão atmosférica. A presença generalizada de microplásticos, inclusive em áreas rurais isentas de macroplásticos, indica uma contaminação difusa associada ao descarte e coleta inadequados de resíduos urbanos, gerando decomposição e fragmentação em microplásticos e transporte aéreo em toda a região. Este estudo contribui com dados inéditos sobre a poluição por microplásticos em solos do Recôncavo Baiano e evidencia a utilidade de ferramentas geoestatísticas no monitoramento de poluentes emergentes no meio terrestre.
O desenvolvimento urbano próximo a rios no Brasil tem causado problemas como inundações, exigindo medidas estruturais e não estruturais para mitigação. Este estudo propõe integrar a simulação hidrodinâmica e sistemas de monitoramento para aprimorar a previsão e resposta a inundações, como a que ocorreu em 2000 em Itajubá – MG. A pesquisa utiliza o programa HEC-RAS e se baseia em dados de estações de monitoramento e entrevistas com moradores, no conceito de Ciência Cidadã, para suprir a escassez de informações detalhadas sobre o evento de 2000. A metodologia adotada inclui a construção de cotagramas, simulação hidrodinâmica bidimensional e análise de sensibilidade para validar a confiabilidade dos métodos. A proposta inspira-se em sistemas como o EFAS europeu e no sistema implementado pela UNIFEI na bacia do rio Sapucaí. Os resultados apontam que a integração entre modelos hidrodinâmicos e sistemas de monitoramento, aliados a ferramentas como a metodologia de Marciano (2019), melhora significativamente a capacidade de previsão e resposta a inundações. Embora existam limitações, a simulação bidimensional apresentou resultados consistentes. O estudo reforça a importância de combinar diferentes tecnologias para uma gestão eficaz de desastres naturais, especialmente em áreas urbanas vulneráveis como Itajubá – MG.
Neste artigo, discutimos sobre a relevância do campo e do futebol na organização socioespacial das comunidades tradicionais da Amazônia, tendo como recorte espacial as comunidades localizadas ao longo dos rios Negro e Solimões, assim como em seus afluentes. A metodologia do trabalho consistiu em trabalhos de campo com a aplicação de questionários em 119 comunidades, observação participativa, mapeamento com drone e realização de entrevistas semiestruturadas com interlocutores da região. Os resultados indicaram que o campo de futebol é um dos objetos geográficos estruturantes da organização socioespacial interna das comunidades, na medida em que influencia na disposição de outros objetos (residências e vias de acesso). Para além da prática de lazer, os jogos de futebol são um momento de sociabilidade relevante na construção das relações sociais intra e intercomunitária, com respaldo educativo e implicando no desenvolvimento da integração socioespacial das comunidades em áreas protegidas. Em dia de jogo, há uma intensa mobilidade da população para as comunidades que sediam a prática, o que estimula o comércio local através da venda de produtos caseiros e industrializados para o consumo durante a realização das partidas. O artigo trata sobre uma prática esportiva característica da cultura brasileira, com contornos específicos ao contexto amazônico, contribuindo para os estudos sobre o gênero esportivo e o seu papel na organização social e espacial.
A mesorregião de São José do Rio Preto - SP (MSJRP), além de contexto histórico, possui características naturais favoráveis para o cultivo agrícola, resultando numa região de agricultura de características diversificadas, relacionadas tanto ao mercado internacional de commodities quanto ao desenvolvimento local. O trabalho objetiva entender a dinâmica da produção dos três cultivos mais significativos da MSJRP no período de 1990 a 2022. Para tanto, utilizou-se o método do Quociente Locacional (QL) para a seleção e definição do grau de especialização produtiva regional desses cultivos, considerando-se dados obtidos na Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) e utilizando variáveis quantitativas, área colhida e produtividade, além de qualitativas, com hipóteses baseadas em revisões bibliográficas. Assim, as metodologias empregadas se mostraram muito pertinentes para a compreensão do desenvolvimento das três culturas analisadas: borracha, limão e cana-de-açúcar. A borracha é alternativa interessante para os pequenos produtores da MSJRP, não demandando grande investimento de capital e nem muito tempo de trabalho aos agricultores. O limão é alternativa para a cana, que enfrentou uma baixa após um período de estabilidade, enquanto a cana-de-açúcar é significativo tanto para o estado de São Paulo quanto para a MSJRP, com grande quantidade de área colhida, influenciada por programas governamentais.
No turismo, as mudanças climáticas são amplamente discutidas devido aos riscos e impactos que podem causar aos destinos, como a perda de biodiversidade, a degradação paisagística, a erosão do litoral, o derretimento precoce da neve, a ocorrências de eventos climáticos extremos, dentre outros. Os eventos climáticos extremos emergem como uma das principais manifestações de mudanças climáticas, sendo definidos como uma anomalia ou desvio de comportamento de um padrão médio ou habitual. No Brasil, esses eventos estão mais relacionados às secas e aos extremos de precipitação. Estes, por sua vez, compreendem os dias de precipitação intensa que ocasionam alagamento ou inundações, causando perdas e danos materiais e/ou humanos. Os destinos turísticos podem ser categorizados em dois tipos, a) o sensível ao clima, isto é, o clima não determina a decisão de viajar, mas interfere na maneira como a experiência turística é vivenciada; e b) o turismo dependente do clima: a própria viagem é decidida pela atratividade e viabilidade das condições climáticas no destino escolhido. O Parque Nacional do Iguaçu (PNI) pode ser considerado um atrativo dependente do clima. Logo, o objetivo deste trabalho é analisar a variabilidade da precipitação em Foz do Iguaçu-PR-Brasil, identificar anos extremos e pontuar riscos associados à prática do turismo no PNI. Para tanto, a metodologia adotada foi a análise, por meio de técnicas estatísticas, dos dados anuais de precipitação acumulada na série histórica de 1980 a 2017, bem como revisões bibliográficas e documentais sobre a relação clima e turismo em uma perspectiva espacial e temporal. O estudo da variabilidade possibilita melhor compreensão dos fenômenos atmosféricos que ocorrem de forma eventual ou episódica, visto que causam os maiores impactos na sociedade. Os resultados indicam que os anos extremos apresentam relação com a ocorrência do fenômeno ENOS em sua fase quente – El Niño, e em sua fase fria – La Niña, com predominância de intensidades forte e moderado. O El Niño propicia o aumento da precipitação e o La Niña provoca estiagem. No que se refere ao turismo, esse fenômeno climático interfere diretamente na movimentação de pessoas, seja por causa do aumento da vazão que ocasiona a interdição das passarelas de acesso à Garganta do Diabo; dos períodos de estiagem, que mudam completamente a paisagem característica das Cataratas do Iguaçu; ou pela disseminação de doenças, reduzindo a atratividade do destino, já que se encontra em uma área de fronteira.
Espaços públicos urbanos possuem, ao menos no campo discursivo, faces ambivalentes sobre os preceitos que o tema vulnerabilidade tem suscitado na contemporaneidade. Ao mesmo tempo em que eles possuem uma dimensão “vulnerabilizada”, identificados como lugares de fonte de insegurança social, através de problemas relacionados à exposição da violência, marginalização e depredação urbana, eles são também, sobre os preceitos do moderno conceito de democracia, analisados como espaços de afirmação política e exercício de cidadania, o que lhe daria a qualidade de espaços de segurança social. A partir do viés ambiental, alguns espaços públicos tradicionais são também objeto de políticas públicas urbanas destinadas à recuperação e proteção de áreas ambientalmente vulneráveis, tais como parques e bosques urbanos. Esse panorama dualista coloca estes específicos lugares urbanos em uma complexa discussão entre lugares vulneráveis e lugares produtores de vulnerabilidades. A ideia do presente artigo é contextualizar essas dimensões sociais e ambientais sobre os riscos relacionados aos espaços públicos urbanos, em contextos metropolitanos, e pensá-las a partir de uma abordagem fenomenológica da vulnerabilidade.
O artigo em questão, de viés epistemológico, versa sobre as congruências e divergências entre a geopolítica crítica e a geopolítica mais-que-representacional, com o intuito de apresentar os fundamentos da segunda. Ambas abordagens são incipientes na geografia brasileira, sendo mais facilmente acessáveis nas geografias anglófonas. Todavia, o campo da geopolítica mais-que-representacional apresenta-se ainda mais imaturo, sendo que a reflexão acerca dos seus contornos epistemológicos é o objetivo principal deste artigo. Dada a proximidade temporal dos desenvolvimentos seminais da geopolítica crítica e da geopolítica mais-que-representacional, é difícil traçar uma linha rígida entre as duas abordagens. Ambas surgiram com o foco na desconstrução de conceitos tomados-como-certos e na percepção que tais conceitos e representações pouco flexíveis servem ao exercício da política. Todavia, a geopolítica mais-que-representacional se difere ao propor o uso dos arranjos relacionais heterogêneos como método analítico, com o potencial de abordar questões associadas a (des)territorialização e ao ciclo performático que incide sobre os partícipes das redes. Acrescenta-se que a geopolítica mais-que-representacional é baseada em uma ontologia plana, ou seja, em um conjunto de pressupostos que não hierarquiza certas entidades em detrimento de outras. Isto significa dizer que tal corrente é influenciada por uma virada pós-humana e propõe a quebra da hegemonia humana na análise geopolítica.
As Unidades de Conservação (UC’s) Federais no centro do Estado do Paraná tem grande importância conservacionista, pois abrigam uma área muito explorada e fragmentada, a ecorregião das Florestas das Araucárias e Campos Gerais. O isolamento destas regiões causa perda de diversidade local, evidenciando a relevância do planejamento de áreas de interligação e restauração entre estas UC's. O presente estudo usou modelagem multicritérios com análise hierárquica (AHP) para estimar a localização de corredores ecológicos entre as seguintes UC’s Federais no Paraná Central; 1) Parque Nacional (Parna) Campos Gerais, 2) Reserva Biológica (Rebio) da Araucárias, 3) Floresta Nacional (Flona) Irati, 4) Flona Assungui, 5) Flona Piraí do Sul. Foram modelados três áreas ligando as cinco UC’s. Os polígonos resultantes coincidem com locais importantes para a biodiversidade regional, como calhas de grandes rios e áreas de preservação permanente. Apesar de muitas conincidirem com outras áreas de preservação Estaduais e Particulares, também incluem localidades naturais não consideradas anteriormente. Estudos como o proposto mostram a importância do geoprocessamento aplicado a área ambiental e auxiliam no planejamento de medidas necessárias para a conservação da biodiversidade no Estado do Paraná e no Brasil.
Este ensaio propõe uma reflexão crítica, pragmática e esperançosa sobre a Ecopedagogia, a partir de uma investigação autorreflexiva inspirada em Montaigne e fundamentada no pensamento Freireano. Apresenta o conceito de Ecopedagogia Ecosófica Planetária Complexa, defendendo uma práxis educativa que transcende discursos ambientais coloniais e reducionistas. Com base em Edgar Morin e Paulo Freire, os autores propõem uma educação planetária, decolonial e complexa, orientada para a integração ética, estética, espiritual e ecológica. A educação, embora incapaz de salvar o planeta sozinha, pode adiar sua destruição mediante a conscientização crítica, a solidariedade e a construção de uma consciência planetária comprometida com a vida.
Em ambientes fragmentados, a biodiversidade é afetada pela configuração da paisagem e pela interação das áreas naturais com a matriz, além das habilidades de dispersão das espécies. Indicadores e métricas da paisagem são essenciais para monitorar e gerenciar recursos naturais e uso do solo. Este estudo analisa a dinâmica espaço-temporal na Bacia Hidrográfica do Rio Subaúma, com foco em modificações no uso do solo e fragmentos florestais da Mata Atlântica ao longo de 35 anos. Utilizou-se o Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra do Projeto Mapbiomas Brasil e o plugin “Semi-Automatic Classification” no QGIS 3.28. As métricas da paisagem foram calculadas no Fragstats v.4.2.1. Indicadores como IQA-BIO e IB foram analisados. A cobertura florestal reduziu-se para 43.421,49 ha em 2021, apenas 25,97% do domínio original, indicando uma perda significativa de habitat e biodiversidade devido a desmatamento e uso intensivo do solo.
A água é central para o desenvolvimento das civilizações. No Semiárido brasileiro, como em Apodi (RN), a água assume valor estratégico e econômico, influenciando a ocupação territorial. Com geologia diversificada e solos profundos, o município possui aquíferos e mananciais importantes, como a Lagoa de Apodi e a Barragem de Santa Cruz. Este artigo analisa a distribuição territorial da água em Apodi, com foco no abastecimento por carros-pipa, ocorrendo em etapas de gabinete e campo e contando com a aplicação de questionário e entrevistas a proprietários de mananciais e motoristas de carros-pipa. Dessa forma, identificou-se que Apodi possui uma potencialidade hídrica que atende uma demanda para além de seus limites territoriais, abrangendo um conjunto de municípios dos Estados do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba, cuja dinâmica de distribuição por carros-pipa, ancorada em política pública, apesar de desafios, funciona como uma garantia de acesso à água pelas populações dependentes.
Este trabalho visa realizar, por meio de uma Revisão Bibliográfica Sistemática, o levantamento de estudos relacionados à aplicação da vulnerabilidade e fragilidade ambiental, com foco específico em pesquisas desenvolvidas em Unidades de Conservação, considerando também sua zona de amortecimento. Para isso, foram utilizados artigos disponíveis nas bases de dados da Scientific Eletronic Library Online (SCIELO) e do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), sem definição de período específico. Foram encontradas 34 publicações no total, distribuídas entre as categorias de Unidade de Conservação: Estação Ecológica, Reserva Biológica, Parque, Monumento Natural, Área de Proteção Ambiental, Floresta e Reserva Particular do Patrimônio Natural. Os resultados evidenciaram elevada vulnerabilidade e fragilidade ambiental na maioria das áreas de estudo analisadas, indicando que as ações humanas constituem o principal fator responsável pela degradação do ambiente. Sendo assim, torna-se fundamental que haja o fortalecimento dos diálogos e estabelecimento de parcerias entre a academia, sociedade e poder público, de forma a promover ações integradas voltadas a conservação da natureza e preservação dos recursos naturais.
A conectividade da paisagem expressa a forma como os compartimentos geomorfológicos interagem na transferência de água, sedimentos e nutrientes. Este trabalho analisa a relação da conectividade estrutural e funcional com os estilos fluviais do alto curso do rio Piranhas, no semiárido paraibano. A conectividade estrutural, de natureza estática, foi avaliada com base em variáveis como gradiente, rugosidade superficial e distância, identificando o potencial de deslocamento hidrossedimentar na bacia. Já a conectividade funcional, de caráter dinâmico, foi aplicada em trechos fluviais a partir do método de subtração de raster em diferentes temporalidades em diferentes estilos fluviais, utilizando dados obtidos por VANT e simulações hidrodinâmicas em HEC-RAS. A integração dessas abordagens permite uma análise mais abrangente dos processos de erosão, deposição e escoamento superficial, considerando as especificidades das drenagens intermitentes em ambientes secos. Os resultados indicam que a conectividade na bacia é fortemente influenciada por fatores topográficos, uso do solo e condições antecedentes, sendo modificada por impactos antrópicos e características hidrológicas típicas de regiões semiáridas. Essa abordagem contribui para o entendimento da dinâmica hidrossedimentológica e para o planejamento ambiental em áreas sensíveis à variabilidade climática e à intervenção humana.
A interpretação da formação territorial brasileira está atravessada por uma historiografia que reproduz aspectos da colonialidade que contribuiu para a perpetuação de imagens deletérias e pejorativas em relação aos povos indígenas. Retomar os documentos históricos que serviram de base para a construção da tradição historiográfica, portanto, é uma das possibilidades de rasurar essa narrativa, tomando como referência a perspectiva indígena, ou seja, daqueles que foram tornados “estrangeiros em sua própria terra”. O artigo realiza tal intento a partir de pesquisa documental em um dos principais corpus da historiografia colonial, os Manuscritos Avulsos da Capitania da Bahia, por meio da análise das menções aos povos indígenas. O estudo mostra o recurso à desumanização dos povos indígenas e ao desprezo pela Caatinga como estratégia de desterramento que tinha como objetivo a conquista territorial. Nesse sentido, deslugarizar aparece como maneira de justificar as diversas violências infligidas aos povos indígenas da colonização até o tempo presente.