
Este trabalho visa a apresentar, com base em dados da fala do Português Brasileiro e do Português Europeu, uma análise empírica e formal das construções de redobro do sujeito com DPs iniciais de referência definida, a fim de mapear tanto a sua frequência quanto os traços sintático-semânticos e prosódico-discursivos a que estão associados. A amostra provém do Corpus Concordância, parte do “Projeto COMPARAPORT”. Ancorados em Duarte (1995), a nossa hipótese é a de que há uma relação entre o estatuto do Parâmetro do Sujeito Nulo (cf. Chomsky, 1981; Roberts; Holmberg, 2010) e a implementação (frequência e qualidade) de estruturas com o redobro. O arcabouço teórico que guia esta investigação se fundamenta na associação entre a Teoria da Variação e Mudança (Weinreich; Labov; Herzog, 1968) e a Teoria de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1981, e trabalhos subsequentes), uma vez que tal associação nos possibilita relacionar as referidas estruturas a línguas românicas [-SujeitoNulo]. A representação formal segue, até certo ponto, a proposta de Krieck (2022), uma abordagem “cartográfica” para a derivação das construções de redobro do sujeito.
Este trabalho reporta as inter-relações entre a experiência de ensino na pandemia de COVID-19 e as emoções de uma professora de línguas à luz de estudos da Linguística Aplicada. A metodologia é qualitativa e baseada na Pesquisa Narrativa com análise de conteúdo. Os resultados indicam emoções de tristeza e frustração em relação à falta de apoio institucional, à sobrecarga de atividades com tecnologias digitais e à ausência de reconhecimento social pelo trabalho desempenhado. As mudanças repentinas na vida da docente nos indicam um agravamento do mal-estar no trabalho. Argumentamos em favor do papel da reflexão sobre as emoções na vida docente como auxiliar na lide com um cenário de uma profissão imersa em uma vida social em crise. O estudo reitera a necessidade de inserirmos as tecnologias digitais e a reflexão sobre as emoções na formação de professores de línguas.
O artigo analisa a representação do torcedor de futebol nas arquibancadas por totens de papelão em jogos disputados sem a presença física da torcida durante as restrições da COVID 19. Objetiva-se identificar: como a imagem pode comunicar e transmitir mensagens a partir dos estudos de Joly (2007) e os efeitos patêmicos gerados pelas imagens do torcedor, a partir de Charaudeau (2015); compreender as relações torcedor-arquibancadas antes e durante a pandemia, segundo Teixeira (2013); comparar a realidade da torcida de futebol no período da crise sanitária. Seleciona-se imagens a partir da relevância para o nosso foco temático, considerando o período de proibição e de retorno da presença de torcidas nas arquibancadas. Coletou-se duas fotografias de torcedores na arquibancada em jornais esportivos e duas em plataformas de fotos. Encontra-se nas fotografias torcedores representados por totens e ainda há a fotografia em que se misturam pessoas e totens, além da que retrata a torcida em tempos “normais”. Estas quatro imagens constroem, propositalmente elencadas por nós, uma narrativa que é analisada neste trabalho. Conclui-se que, a partir dos totens, reconstroem-se imaginários de torcidas com representações que podem ser retomadas na memória sobre ser torcedor na pandemia.
Esta pesquisa foi realizada com o intuito de explorar as possibilidades de aprendizagem de maneira remota, diante do contexto da Covid 19. O trabalho se concretiza a partir da estruturação de uma proposta de intervenção com foco no ensino de Língua Portuguesa para o 3º semestre do Técnico Integrado ao EM. Para tanto, selecionamos textos multimodais que abordam a Variação e o Preconceito Linguístico com base no Letramento Crítico. O trabalho fundamenta-se nos preceitos da pesquisa ação com proposição de transposição didática. O conteúdo foi previsto para um período de 9h/aula com atividades síncronas (google meet) e assíncronas (google forms). Como contribuição, este trabalho mostra-se relevante no processo de aprendizagem de LP, pois os estudantes podem ler, refletir, dialogar e produzir textos além de cooperar para o trabalho de educadores interessados em aulas mais interativas.
A chegada repentina da COVID-19 no Brasil demandou uma pronta estruturação de estratégias para enfrentar a pandemia. Utilizando a semiótica francesa como aporte teórico, objetivamos averiguar quais mecanismos de manipulação e de sanção são acionados para persuadir os enunciatários a aderirem a uma de duas abordagens distintas: isolamento horizontal ou isolamento vertical. O corpus correspondeu ao recorte de dois debates da emissora CNN Brasil, disponíveis no Youtube. Os enunciadores da primeira abordagem utilizaram como estratégia de manipulação a intimidação e a sedução, no primeiro vídeo, e a sedução e a provocação, no segundo. Eles mantiveram a uniformidade dos discursos: a reclusão total da população e o fechamento dos espaços, ou saída para o trabalho para evitar a derrocada econômica. Ambos discursam sobre uma ameaça letal. Pelo desemprego e pela fome, que apresenta efeito atenuado e se torna uma estratégia mais eficaz do que a mortífera ação do vírus, que surpreendera a todos.
Este trabalho investiga as propriedades morfossintáticas e semânticas dos verbos espaciais na língua de sinais brasileira (Libras), em comparação com os verbos com concordância, especificamente quanto ao papel do movimento direcional (DIR) na codificação de argumentos na estrutura sintática das sentenças. Consideramos, com Meir (2002), que: o movimento direcional identifica papéis temáticos, enquanto a orientação das mãos identifica o argumento interno dativo; a oposição entre corpo e espaço retrata a categoria gramatical de pessoa (1p versus não-1p) ou outras localizações no espaço. O corpus da pesquisa foi constituído por sentenças com verbos de movimento, eliciadas segundo a classificação semântica feita por Levin (1993). A análise demonstrou que há diferenças morfossintáticas nos parâmetros fonológicos dos verbos espaciais e dos verbos com concordância, resultando na seguinte proposta: verbos espaciais em Libras são verbos de concordância simples, apresentando apenas um traço [localização] a ser valorado na sintaxe (Lourenço, 2018a,b e seguintes); quando empregados com argumentos dativos, esses verbos apresentam uma estrutura complexa que combina um verbo de concordância simples ao sintagma dativo, introduzido por um núcleo relacional (Mesquita, 2019); os traços [localização] e [pessoa]/[número] integram o feixe de traços-phi do núcleo D0 e correspondem, respectivamente, ao movimento direcional e à orientação da mão.
Ao celebrar os 25 anos do Programa Cartográfico no Brasil, o artigo tem por objetivo revisar estudos produzidos no país sobre a Cartografia Sintática, considerando um dos objetivos do programa, nomeadamente o de recorrer às hierarquias reveladas pela pesquisa cartográfica como um explanans (i.e., como explicações, no sentido dos epistemólogos (Hempel; Oppenheim, 1948)). Para isso, faz-se uma revisão de alguns trabalhos produzidos por pesquisadores brasileiros, com destaque para estudos — que recorreram às hierarquias como um explanans — sobre a cartografia da oração nos domínios do CP, IP e vP. O estudo não só atesta contribuições da cartografia à Teoria e Análise Linguística no Brasil como também a vivacidade do programa em território nacional.
Analisamos, neste artigo, as variantes denominativas com ou sem consequências cognitivas no domínio da Moda, sobretudo nos acessórios usados como proteção contra o vírus da Covid-19. Nesse sentido, desenvolvemos a pesquisa seguindo os parâmetros epistemológicos e metodológicos da Terminologia à luz de Freixa (2002), Fernandez-Silva (2010), Costa (2015), dentre outros. Os resultados nos mostram maiores ocorrências de variantes denominativas sem consequências cognitivas, que ocorreram na intenção de criar sinônimos no discurso especializado da Moda; em oposto, as variantes com consequências cognitivas tiveram ocorrências menores, em contextos nos quais os termos precisavam de maiores especificidades ou adaptações para o campo da Moda.
Este artigo tem como temática a interface Linguagem e Trabalho com base nas conjecturas teóricas da Ergologia. O objetivo é identificar e analisar as dramáticas do uso do corpo-si, os saberes constituídos e investidos, as renormalizações e renormatizações enfrentadas por professores de Letras da educação básica durante o ensino remoto e no retorno às aulas presenciais em 2021. O estudo pauta-se em conceitos advindos da temática mencionada, como: noção de atividade, tarefa e trabalho, dramáticas do uso de corpo-si no trabalho, saber constituído e saber investido, renormalizações e renormatizações. Contempla uma abordagem qualitativa por meio de uma pesquisa aplicada exploratória e de campo. Foi realizado um levantamento bibliográfico e procedeu-se a uma Análise Textual Discursiva (ATD) de entrevistas semiestruturadas com três docentes de Letras. Como resultados, evidencia-se que há uma intensificação das práticas trabalhistas docentes identificadas nas dramáticas do uso de si por si e pelos outros, que pressupõe sobrecarga laboral e esgotamento mental e psicológico.
This paper presents a work on nominal concord in Brazilian Portuguese (BP) structures, such as the following: (ia) “10 ovos caipira vermelhos” (10 egg-PL caipira red-PL / ‘10 red pasture-raised eggs’) and (ia’) “10 ovos [(do TIPO) caipira] vermelhos” (10 egg-PL (of-the TYPE) caipira red-PL / ‘10 red pasture-raised eggs’). Most of the data were collected from written sources that require the use of standard language concerning agreement, id est, the redundant plural marking in the constituents of the DP able to bear inflection. That is why the morpheme -s is marked in ovos and vermelhos (ia). Being so, why is the word caipira (ia) unmarked with the plural morpheme? Following Kayne’s (2005, 2019, 2021a, 2021b), Pesetsky’s (2007, 2013), Höhn’s (2016), and Pereira’s (2016a, 2016b, 2017, 2018, 2020, 2024) approach on structures with apparent mismatch of agreement, I argue that (ia) licenses a silent noun TIPO (TYPE), preceded by the preposition de (‘of’), as illustrated in (ia’). Therefore, caipira is inflected in singular, because it agrees in number with a singular silent noun. This analysis also applies to other structures that license the silent nouns TAMANHO (SIZE), TOM (HUE), and SOBRENOME (SURNAME). As a result, there is no “unagreement”, in the phrases at stake, but agreement between the adjective and a silent noun, in the DP-internal cartography.
Este squib pretende chamar a atenção para a estrutura SN + dar para + Oração Infinitiva, que tem se mostrado inusitada pelo fato de apresentar uma configuração linearmente igual à oração com dar auxiliar aspectual, mantendo, porém, a interpretação de possibilidade das orações modais. O objetivo é compreender por que o SN assume a posição à esquerda do verbo dar impessoal, se por uma necessidade de atribuição de Caso, devido a um enfraquecimento da morfologia verbal (Nunes, 2015, 2016), ou por uma tendência do PB em ocupar a posição pré-verbal das orações (Kato; Duarte, 2014; Ayres, 2021; Ayres; Othero, 2021). Assumimos que esses SNs saem de uma posição de Caso, para ocupar uma posição de tópico da oração matriz. Segundo Nunes (2016), o movimento de uma posição argumental para uma posição não argumental é totalmente lícito, respeitando a economia computacional.
Este ensaio trata de três questões linguístico-discursivas surgidas na pandemia do coronavírus. A primeira, e mais simples, é sobre a grafia e o gênero da palavra covid-19. A segunda diz respeito aos efeitos extralinguísticos provocados pela expressão grupo de risco. A última questão está relacionada ao negacionismo científico e aos limites da argumentação. Essas questões são discutidas a partir das regras de formação de palavras, do Acordo Ortográfico, do conceito de discurso proposto por Michel Foucault (2008), do conceito de pós-verdade mobilizado por Matthew D’Ancona (2018) e das considerações sobre argumentação propostas por Philippe Breton (2003). A discussão dessas questões evidencia que a pandemia do coronavírus provocou, pelo menos, três questões relativas à linguagem, duas das quais provocaram consequências extralinguísticas importantes para a sociedade brasileira.
Neste artigo, investigamos, no português brasileiro, o complemento interno do verbo considerar quando composto por DPs em ordem inversa e as sentenças copulativas simples classificadas como especificacionais. Objetivamos confrontar tais ambientes sintáticos quanto à sua lexicalização e leitura, com a finalidade de saber se o complemento de considerar é também uma estrutura especificacional, o que, por meio dos parâmetros citados, concluímos afirmativamente. Constatamos que as possibilidades e restrições composicionais de um são também averiguadas no outro, que os DPs de ambos são referencialmente assimétricos, distribuídos na ordem não referencial - referencial, e ocorrem sob contexto identificacional, marcados, respectivamente, para pressuposição - foco.
In this paper we present elicitation results from an experiment on the acquisition of 3rd person object clitics by children of Paraguayan parents living in Buenos Aires and their mothers. These children are immersed in a situation of contact between two varieties of Spanish: the Paraguayan system (∅ for inanimate objects and LE for animate objects) and the local Argentinian system which uses LO for Masculine and LA for Feminine clitics. Results show that the Paraguayan mothers use substantially more LO/LA when compared with adults in Paraguay, as described by Choi (2000), suggesting a great deal of attrition. Their children on the other hand use far less LO/LA, but at the same time are not adopting as a group a LE/∅ system. Examining 19 Mother/Child dyads, we find that no children are exclusively using LO/LA users but some children are exclusively using LE/∅. As for mother we find some LO/LA users and the rest uses a mixed system. Interestingly, overall children use fewer forms than mothers.