
Neste trabalho, refletimos sobre a intertextualidade como tema pertinente da Linguística Textual, apresentando sumariamente a contribuição de Koch (2004) e Koch; Bentes; Cavalcante (2008), as quais colaboraram para os estudos do fenômeno, especialmente no que tange à proposição de categorias analíticas fora do escopo da teoria e análise literária. Apresentamos, em seguida, dois quadros teóricos resultantes das pesquisas conduzidas sob a orientação da professora Mônica Magalhães Cavalcante: 1) Nobre (2014), que propõe a organização de parâmetros simultâneos a qualquer tipo de relação intertextual, e 2) Carvalho (2018), que redimensiona o debate partindo da divisão amplo x estrito. Abordamos a produtividade de ambas as propostas mediante a identificação de seu desdobramento em uma série de investigações e, por fim, realizamos um balanço crítico sobre o tema.
O fenômeno da (im)polidez como estratégia de argumentação permite pensar em maneiras de orientar um ponto de vista (PDV) e tratar os sentidos. Vinculado às condições de produção do ato ameaçador da face do ouvinte, esse fenômeno pode ser uma via de compreensão do real, centrado em uma dimensão argumentativa intrínseca segundo estudos do texto e do discurso. Neste artigo, objetivamos analisar a emergência da (im)polidez no comentário avaliativo acadêmico como um mecanismo de ativação do PDV crítico e patêmico, além da intensificação do grau de (im)polidez, usando como ferramenta um modelo de inteligência artificial generativa como o GPT (Generative Pre-trained Transformer). O corpus é composto por um “comentário avaliativo” referente à reprovação de um artigo acadêmico, situação que envolve práticas apreciativas e a mobilização de PDV com frequentes tensões entre a crítica empática e a agressiva. Partimos da descrição e da contextualização desse gênero da esfera acadêmica para testar um chatbot, observando as estratégias de (im)polidez na orientação do PDV a partir de versões oriundas de comandos (prompts) dos pesquisadores. Os resultados das análises das versões demonstram o emprego da ferramenta como uma técnica empreendedora na geração de discursos derivados e/ou para a ampliação ou a manutenção da orientação argumentativa no texto.
Este artigo objetiva investigar pesquisas de doutorado sobre letramento(s) que tenham sido defendidas em Programas de Pós-Graduação (PPG) de Instituições de Ensino Superior (IES) do estado de Pernambuco nos últimos 15 anos. Especificamente, busca: a) mapear objetos temáticos contemplados; e b) verificar filiações teóricas mobilizadas nestes trabalhos. Metodologicamente, classifica-se como metapesquisa (Paiva, 2019), de caráter exploratório-descritivo (Gonsalves, 2018) e abordagem qualitativa (Chizzotti, 2000). Apoia-se na consulta a teses publicadas no Catálogo de Teses & Dissertações da CAPES. Utiliza-se da análise de conteúdo (Moraes, 1999) para a categorização e análise do corpus. As 14 teses são organizadas em 3 categorias: letramento(s) acadêmico(s) e gêneros textuais/discursivos; letramento(s) digital(is); letramento(s) e inclusão.
O presente artigo examina as inter-relações entre a propriedade do tópico discursivo – centração, e a Competência 2 da redação do Enem, especialmente no que concerne aos critérios avaliativos da abordagem completa do tema, do tangenciamento e de fuga. As concepções de Cavalcante et al. (2017; 2022), Jubran (2006) e Sá (2018) embasam nossas discussões, por meio da análise de uma redação da Cartilha do Participante 2024. Amparados na fundamentação teórica, são explorados os traços da propriedade centração, quais sejam: concernência e relevância, as quais são responsáveis pela continuidade tópica na avaliação de textos dissertativo-argumentativos. Além disso, investiga-se como a centração pode funcionar como ferramenta avaliativa para delimitação de elementos temáticos e desenvolvimento coerente, conforme exigências da competência 2 da matriz de referência da redação. Os resultados inscrevem as reflexões aqui empreendidas como benéficas para o trabalho pedagógico em sala de aula da educação básica, tendo em vista que apresentamos mais uma possibilidade de ensino de como candidatos ao Enem podem evitar fuga e tangência ao tema, garantindo a abordagem completa do tema por meio da observação da centração.
O portfólio é um gênero textual utilizado, originalmente, em áreas como arquitetura e moda, com o propósito de registrar os melhores trabalhos profissionais. Há mais de três décadas (Lam, 2018), porém, também vem sendo utilizado em instituições de ensino. Neste estudo, o objetivo é explorar o portfólio educacional no ensino superior, com foco em suas contribuições para o letramento acadêmico-científico de estudantes autodeclarados indígenas. Metodologicamente, a pesquisa se insere na área da Linguística Aplicada Crítica (Pennycook, 2001) e tem natureza qualitativa, com orientação etnográfica (Madison, 2005). Os dados foram gerados no curso de extensão “Monografia e autoria indígena: encontros e desencontros na interculturalidade”, promovido pelo IFRN, e compreendem produções textuais escritas produzidas por estudantes da etnia Potiguara, no Rio Grande do Norte. Do ponto de vista teórico, o artigo encontra embasamento nos estudos decoloniais (Castro-Gómez, 2007; Mignolo, 2007), no letramento acadêmico-científico (Street; Lillis; Lea, 2015) e em pesquisas sobre gêneros textuais (Marcuschi, 2008; Lima-Neto; Araújo, 2012), com foco no portfólio (Colén; Giné; Imbernón, 2006; Giralt, 2009). Os resultados evidenciam que, na esfera universitária, o portfólio educacional pode apresentar três dimensões (a comunicativa, a pedagógica e a metodológica), sendo útil, no contexto de ensino-aprendizagem, tanto para estudantes minorizados quanto para professores-pesquisadores. PALAVRAS-CHAVE: letramento; ensino superior; portfólio educacional.
Em um contexto de tecnodiscursividade (Paveau, 2017; Muniz-Lima, 2024), característico de uma sociedade multiletrada (Santaella, 2008), textos verbo-imagéticos são comumente compartilhados nas redes sociais. Dentre essas ações de linguagem possíveis, a partir de gestos tecnolinguageiros, o meme se destaca por ser um objeto enunciativo-discursivo de leitura rápida, de fácil produção e viralização, o qual é criado muitas vezes por traços de remixabilidade (Cavalcante; Oliveira, 2019) pautados em intertextualidades. No ambiente digital, os locutores podem utilizar o meme também como estratégia argumentativa. Diante disso, o objetivo deste trabalho é averiguar como as relações intertextuais contribuem para a construção da dimensão argumentativa em memes do perfil @artesdepressao. Quanto ao percurso metodológico, este trabalho se classifica como uma pesquisa qualitativa, com viés de cunho analítico e interpretativo (Paiva, 2019), em virtude da interface realizada entre a argumentação e a intertextualidade, na perspectiva da Linguística Textual. Foram analisados 4 memes de uma publicação do perfil @artesdepressao, extraídos do ecossistema digital Instagram, que exemplificam o uso de estratégias de persuasão, com foco nas relações intertextuais. Os resultados revelam que a intertextualidade pode ser utilizada como estratégia de textualização argumentativa e seu uso exige dos leitores um reconhecimento de conhecimentos partilhados e necessários nesta interação, ainda que os pontos de vista precisem ser recuperados pelo leitor durante a interação digital on-line. A partir da análise do corpus, notamos a recorrência de intertextualidades estritas associadas às modalidades argumentativas patêmica e por coconstrução.
Este artigo resulta da investigação sobre a conceptualização metafórica de Ciência em vídeos de graduandos do Bacharelado em Ciências e Tecnologia e de Engenharias, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, publicados no canal do YouTube “Penso, logo opino”. Realizamos esta pesquisa básica e qualitativa (Fonseca, 2022) norteados pela Teoria da Metáfora Conceptual (Lakoff; Johnson, 1980) e pelas categorias de análise metáfora conceptual, metáfora primária e metáfora complexa (Grady, 1997; Lakoff; Johnson, 1999.). Observamos que emergem, das falas analisadas, as metáforas primárias Organização é estrutura física, Ajuda é suporte, Mau é estar no escuro, Material necessário a um processo é comida, Ações são movimentos autopropulsionados e Dificuldades são obstáculos e as metáforas conceptuais CIÊNCIA É EDIFÍCIO, CIÊNCIA É ENTIDADE QUE PRESTA ASSISTÊNCIA e CIÊNCIA É ORGANISMO, além da metáfora complexa CIÊNCIA É ENTIDADE SEMOVENTE QUE ULTRAPASSA OBSTÁCULOS. Com base nesses resultados, ressaltamos a correspondência, evidenciada na linguagem, entre aspectos da Ciência e elementos que compõem tanto estruturas físicas de edifícios e de organismos quanto atividades cotidianas relacionadas a experiências sensório-motoras básicas. Além disso, evidenciamos a importância de observar como, por meio da linguagem, reforçamos (ou combatemos) visões de mundo que, dentro ou fora dos círculos acadêmicos, precisam estar alinhadas ao compromisso tácito com a promoção do bem-estar social, inclusive por meio do enfrentamento, em ambientes virtuais, ao tão propagado anticientificismo.
As anáforas encapsuladoras constituem o foco de investigação deste estudo, destacando sua relevância para a análise e ensino da escrita. Considerando os avanços no uso de Inteligência Artificial (IA) na linguística computacional, a pesquisa justifica-se pela necessidade de integrar metodologias inovadoras na análise textual. A motivação surge da lacuna na aplicação de grandes modelos de linguagem (LLMs) para identificar e categorizar encapsulamentos descritivos e opinativos em redações. O estudo propõe uma abordagem híbrida que combina a análise humana, rica em nuances contextuais, com as capacidades e escalabilidade dos LLMs utilizando prompts zero-shot e few-shot. Os experimentos realizados com redações do Enem mostram que o uso de prompts few-shot melhora significativamente a identificação de anáforas encapsuladoras pelos LLMs, quando comparado a prompts zero-shot, mas ainda aquém do observado em análises humanas. Em suma, este trabalho busca contribuir para o avanço da pesquisa em linguística e IA, oferecendo uma nova perspectiva para análise de textos e demonstrando o potencial da combinar métodos humanos e computacionais para identificar padrões linguísticos complexos.
Este trabalho homenageia o legado teórico de Mônica Magalhães Cavalcante, destacando a rica interface entre a linguística textual brasileira e a teoria da argumentação no discurso (TAD), proposta por Ruth Amossy (2018). A partir de Cavalcante et al. (2020; 2022), considera-se que o texto, entendido como uma unidade de sentido contextualizada e negociada, tem argumentatividade como um componente intrínseco. Essa argumentatividade se manifesta na orientação argumentativa de todo texto, como resultado das escolhas linguísticas e das estratégias de textualização (Cavalcante, 2016). Para demonstrar a relevância desse pressuposto basilar para a LT brasileira, este artigo estrutura-se em três partes: a primeira justifica a pertinência da TAD no diálogo com a linguística textual; a segunda revisita os avanços teórico-metodológicos que emergem dessa interface; e a terceira seção explora os desafios contemporâneos, especialmente diante das transformações trazidas pela tecnodiscursividade (Paveau, 2017; Martins, 2024). A argumentação é tratada como um fenômeno discursivo-textual, em que o texto constitui o espaço privilegiado para a expressão de intenções argumentativas e negociações de sentidos.
As pausas desempenham um papel fundamental na fala, facilitando a compreensão da mensagem, além de contribuir para a argumentação e persuasão. Objetivo: Avaliar o uso do recurso prosódico pausa na fala de políticos brasileiros, comparando no início da carreira com o momento atual. Materiais e métodos: A coleta de dados foi realizada por meio da seleção de vídeos disponíveis gratuitamente na internet. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa, sob o parecer nº 6.152.685. Foram analisadas amostras de propagandas eleitorais de quatro políticos, com comparações entre o início de suas carreiras e o presente. A análise incluiu a transcrição literal das falas, a avaliação perceptiva auditiva das pausas e a análise acústica, utilizando o programa Praat. As pausas foram classificadas de acordo com a duração em breves, médias e longas; e na análise perceptiva auditiva, como adequadas ou inadequadas (excessivas, ausentes e não coincidentes com a pontuação gráfica. Para manter a confidencialidade, os políticos foram identificados como A, B, C e D. Resultados: No que diz respeito à classificação de duração, os políticos A e C utilizavam pausas médias, longas e muito longas no início de suas carreiras, mas atualmente limitam-se a pausas médias e longas. O político D manteve o uso de pausas médias e longas tanto em 2002 quanto em 2022. Já o político B utilizou pausas médias, antes e depois. Embora os políticos D e B tenham mantido a mesma classificação de pausas, houve uma redução no tempo total das pausas. Todos os políticos analisados, em 1989, apresentavam pausas excessivas, médias, longas e muito longas. Em 2022, os políticos A, C e D aumentaram o uso de pausas médias e diminuíram o uso de pausas longas, enquanto o político B passou a utilizar pausas médias com menor duração. De modo geral, observou-se uma redução no tempo total das pausas entre os quatro políticos analisados. Na análise perceptiva auditiva, os quatros políticos utilizaram pausas inadequadas. A e C usavam pausas excessivas e longas; D utilizava pausas inadequadas e excessivas, enquanto o político B apresentava pausas ausentes. Em 2022, os políticos A, C e D continuaram a usar pausas excessivas, porém de durações mais breves. Já o político B passou a utilizar pausas adequadas ao conteúdo falado. A redução na duração e na quantidade de pausas sugere uma aproximação do discurso político com a coloquialidade. No entanto, ao comparar os políticos com outros profissionais da voz, como telejornalistas, observou-se que os políticos ainda utilizam pausas excessivas, médias e longas, o que pode ser uma característica da fala do político brasileiro. Os políticos analisados neste estudo caracterizam-se pelo uso de pausas excessivas, médias e longas. As mudanças observadas no uso das pausas ao longo do tempo sugerem uma evolução para um discurso político mais espontâneo, natural e expressivo. Atualmente, os políticos falam de forma mais fluida, sem aparentar a leitura de um teleprompter, o que potencializa a confiança e a proximidade com os eleitores.
O objetivo deste trabalho é propor uma (re)classificação de categorias de análise de erros ortográficos inicialmente apresentadas por Cagliari (2009). O referencial teórico adotado envolveu basicamente a descrição do trabalho de Cagliari (2009), o trabalho de Abaurre (1999) a respeito da importância da estrutura silábica na análise de erros ortográficos, e o de Massini-Cagliari (1999), que destaca o princípio acrofônico como igualmente importante nessa análise. Considerando os argumentos elencados nesses trabalhos, apresentamos um quadro de análise que poderia contribuir para uma maior compreensão das motivações subjacentes à produção de erros ortográficos juntamente com sugestões de orientações linguísticas e pedagógicas para ajudar a escrever de modo ortograficamente adequado.
Situamo-nos na área da Linguística Aplicada Indisciplinar (Moita Lopes, 2006), nas perspectivas da Desaprendizagem (Fabrício, 2006) e da Implicação (Souto Maior, 2022, 2023) e discorremos sobre a oralidade (Marcuschi, 1997, 2011a; 2011b; Gnerre, 1998, Crescitelli; Reis, 2011; Geraldi, 2000; Fávero; Andrade; Aquino, 2011; Silva Júnior, 2019; Silva Júnior; Zozzoli, 2021) e sobre o desejo de hegemonia linguística (Geraldi, 2009), problematizando esse desejo dentro da perspectiva dos estudos decoloniais (Quintero, Figueira; Elizalde, 2019; Quijano, 2005; Maldonado-Torres, 2018; Ortiz Ocaña et al., 2021; Nolascio; Rodrigues, 2021; Silva Jr.; Quaresma; Brasileiro, 2022; Castro-Gómez, 2005; Fabrício, 2017). A partir de uma metodologia de análise discursiva, e depois desse primeiro panorama teórico construído, objetivamos analisar a expressão de ideias nas redes digitais e destacar os Discursos Envolventes (Moreira Jr.; Souto Maior, 2020; Souto Maior, Souza; Lima, 2021) em posts do Instagram que tratem sobre a oralidade. A partir disso, problematizamos o lugar que a oralidade ocupou e ocupa com esses discursos. Trabalhamos a construção de dados através do mecanismo de busca do Instagram, com a hashtag vício de linguagem (#viciodelinguagem). Após a análise dos discursos selecionados, observamos a construção de dicotomias, como a de “bem escrever vs o vício de linguagem”, que posicionam traços da oralidade, “gíria”, marcas de informalidade e indícios de linguagem fática com valor social sempre negativo, independentes de sua contextualização, função de linguagem e intencionalidade discursiva. Esses discursos envolventes ressoam e mobilizam discursos colonialistas através de pares de significados, como escrita/oralidade, civilizado/primitivo, certo/errado.
Este trabalho analisa processos escalares projetados em comentários na plataforma YouTube em resposta ao discurso do Deputado Federal Nikolas Ferreira (PL), que, no Dia Internacional da Mulher, satirizou identidades trans ao usar uma peruca. Para tanto, realizamos uma “etnografia de escala” (Carr; Lampert, 2016), metodologia que possibilita analisar de forma detalhada como os sujeitos constroem, posicionam e hierarquizam suas opiniões em redes sociais, evidenciando os processos pragmáticos e semióticos de atribuição de valor e legitimação de discursos. A análise mobilizou teorias sobre linguagem como performance (Austin, 1990; Butler, 1997) e violência linguística (Silva, 2019a; 2019b), performatividade de gênero (Butler, 2018), além deepistemologias transfeministas sobre gênero e transfobia (Vergueiro, 2016).Os resultados indicam que os comentários reproduzem transfobia por meio de discursos médico-científicos e religiosos, naturalizando corpos e identidades trans; promovem antagonismos entre mulheres cis e trans, reforçando hierarquias sociais; e configuram escalas que legitimam a exclusão e invisibilização de sujeitos dissidentes da cisheteronorma. Dessa forma, a análise evidencia como a linguagem em plataformas digitais atua na reprodução de desigualdades e violência simbólica contra pessoas trans, mostrando a importância de investigar a performatividade da transfobia no ambiente online.
Este trabalho busca analisar como ocorre a construção de pontos de vista (PDV) em tirinhas da cartunista Laerte Coutinho que tratam da temática de transição de gênero da personagem Hugo para Muriel. O artigo está embasado na teoria enunciativo-interacional do ponto de vista de Alain Rabatel (2013, 2015, 2016[2008]) e busca compreender como se constroem perspectivas e percepções na narrativa (Rabatel, 2015, 2016[2008], Cortez, 2011), em articulação com a teoria da referenciação de base sociocognitivo e interacional (Mondada e Dubois 2019[1995]; Cavalcante e Martins, 2020; Cavalcante et al., 2022). Nesse contexto, orientamo-nos pelo pressuposto fundamental de que a referenciação é uma das estratégias de construção do ponto de vista (Rabatel, 2016[2008]; Cortez, 2011). Defendemos ainda que a construção dos PDVs deve considerar os elementos multissemióticos do texto, o que se faz neste trabalho pela adoção de uma abordagem qualitativa para o tratamento e a análise das tirinhas. Nossas análises evidenciam a existência de recategorizações em situações de construção de humor nas tirinhas. Nesses casos, observamos que essas recategorizações colaboram para PDVs que dão foco à construção da feminilidade de Hugo durante o processo de transição de gênero, através de situações ou elementos do universo feminino. Observamos, ainda, que os referentes Hugo e Muriel são sempre perspectivados de modo diferente, evidenciando PDVs dissonantes. Enquanto Hugo aparece nas narrativas chateado, insatisfeito ou incapaz de realizar alguma ação/atividade, Muriel aparece contente e capaz de realizar ações/atividades que Hugo não consegue.
Este trabalho objetiva analisar os referentes em vídeos de beleza feminina de até 15 minutos compartilhados por influenciadoras na plataforma YouTube. Esta pesquisa é decorrência do Projeto de Iniciação Científica (PIBIC) desenvolvido na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e intitulado: A construção dos referentes em vídeos de beleza no YouTube: interlocuções com elementos do suporte na constituição do gênero discursivo. O método seguido no trabalho é o de natureza qualitativa e de teor bibliográfico. Para maior aprofundamento, nos embasamos nas noções dos estudiosos como: Cavalcante (2014); Marcuschi (2003); Mondada e Dubois (2003); Paveau (2021), dentre outros relevantes para o nosso estudo sobre os referentes, à luz da Linguística Textual e dos aspectos midiatizados encontrados no discurso digital. O corpus da pesquisa segmenta-se por três momentos: a revisão de literatura, a coleta de dados e por fim, a análise dos resultados. O apanhado dos vídeos resultou na observação analítica dos vídeos “Pele super fácil para iniciantes! Essa você consegue 100%”, da Mari Maria e da produção "Auto Maquiagem neutra” da Laura Kuczynski. Essas produções foram articuladas de acordo com os estudos versados pela Referenciação. Os resultados da discussão acerca da presença dos referentes nos vídeos de beleza feminina no YouTube revelaram tanto o uso de mecanismos de interação, bem como o aparecimento dos referentes nos discursos midiáticos. Sendo assim, em suma, este trabalho buscou explorar o atravessamento já existente da Linguística Textual e os vídeos do Youtube.
No âmbito da Análise de Discurso Crítica faircloughiana, este artigo propõe uma articulação entre o modelo de pesquisa crítico-discursiva desenvolvido por Resende (2017, 2019), em consonância com o Realismo Crítico bhaskariano, e o pensamento sociofilosófico de Pierre Bourdieu sobre a estruturação da vida social. Ao integrar perspectivas críticas da Análise de Discurso e da Teoria Social, argumenta-se que essa aproximação permite uma compreensão ampliada dos textos como constituintes de processos sociais, conforme sugerido por Chouliaraki e Fairclough (1999, 2003), especialmente no que tange à dinâmica entre estruturas objetivas dos campos sociais e as disposições incorporadas pelos indivíduos (Bourdieu, 1996). Como contribuição, propõe-se um modelo de mapa ontológico crítico-discursivo que incorpora da teoria bourdieusiana (Bourdieu, 1983, 1996, 2001, 2007, 2014) os conceitos de campo, habitus, doxa, nomos e capital. Esse modelo tem como objetivo oferecer ferramentas para identificar os aspectos relevantes para a análise das relações entre o discurso e as dimensões extradiscursivas das práticas sociais em diferentes campos.
Este trabalho tem como objetivo investigar de que maneira a construção do referente “Dona de mim”, no videoclipe homônimo da cantora brasileira IZA, na mídia Youtube, acontece e qual a influência dos níveis de interatividade no processo de retomada e recategorização desse objeto de discurso. Nesta análise, observamos de que maneira aspectos tecnológicos e linguageiros, conforme proposto em Muniz-Lima (2024), colaboram na construção desse objeto de discurso. A fundamentação teórica está pautada na Linguística Textual, sobretudo nos trabalhos de Cavalcante et al. (2022), Cavalcante e Muniz-Lima (2021) e Matos (2018). A metodologia utilizada é descritiva e interpretativista, de abordagem qualitativa. Os resultados da análise demonstram que o referente “Dona de mim” é introduzido e reconstruído no próprio videoclipe a partir dos sistemas semióticos imagético e sonoro. O alto número de curtidas e comentários na postagem em que o videoclipe foi publicado, além do uso de hashtags e emojis, colaborou para a configuração de diferentes modos de ver esse objeto de discurso. Com base nessa análise, propomos uma sequência didática (Dolz, Noverraz e Schneuwly, 2004) para o ensino fundamental e o ensino médio com base em habilidades de produção textual sugeridas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de modo a contemplar os aspectos da interação digital analisados na primeira parte deste artigo.
O foco central deste artigo é a análise da transição da dramaturgia de Tennessee Williams para o cinema hollywoodiano nos anos 1950. Investiga como as obras teatrais, que abordavam pautas tabu, foram adaptadas para o cinema sem perder seu impacto crítico e psicossocial. Ao examinar como Hollywood lidou com esses temas, especialmente sob a censura do Código Hays, entende-se as estratégias de suavização e as implicações culturais dessas adaptações. O estudo explora as concessões feitas e os recursos visuais e narrativos usados pelos diretores para contornar a censura, revelando as contradições da sociedade e como esses filmes pavimentaram o caminho para maior liberdade artística nos anos seguintes. Desta forma, identifica a contribuição e o impacto desses trabalhos para a Hollywood naquele momento histórico.
Este trabalho é uma homenagem às contribuições da professora Mônica Magalhães Cavalcante para os estudos da referenciação, fenômeno da linguagem que examina como objetos de discurso, ou referentes, evoluem no texto e são construídos, em conjunto, pelos parceiros na interação. A referenciação, vista sob essa ótica, surge a partir do que foi proposto por Mondada (1994), orientada pela análise da conversação e da etnometodologia, mas foi apropriada e redimensionada pela Linguística Textual, por pesquisadores como Mônica Cavalcante e seus orientandos. Nesse sentido, nosso objetivo é tratar de alguns tópicos caros a essa grande linguista do texto, a saber: o fato de a referenciação ser uma categoria “guarda-chuva”, central nos estudos do texto, pois se relaciona aos demais critérios analíticos; as implicações de considerar os referentes como objetos de discurso e sua relação com o conceito de texto proposto por Cavalcante et al. (2019); a dêixis e sua relação com os demais processos referenciais, redimensionados por Cavalcante, desde a sua tese, e outros pesquisadores orientados por ela, como Martins (2019, 2024); as redes referenciais como pressuposto e os avanços nas análises textuais operados por elas. Ao longo do artigo, citamos pesquisas orientadas por Mônica como maneira de mostrar a coerência de sua proposta teórica e sua habilidade para orquestrar diferentes temáticas, todas convergentes para os estudos do texto. Por fim, de modo mais modesto, esperamos influenciar novas pesquisas baseadas no legado que nos deixou a professora Mônica em relação à referenciação.
Este artigo faz uma singela homenagem a uma importante estudiosa brasileira do texto e do discurso, a Profª. Dra. Mônica Magalhães Cavalcante, falecida em abril de 2024. Para essa homenagem, em um primeiro momento, numa espécie de historiografia particular, destacamos o papel crucial de Mônica Magalhães Cavalcante na recepção e expansão das ideias de Marie-Anne Paveau sobre discurso digital. Em seguida, propomos uma reflexão sobre o ChatGPT, buscando seguir, em alguma medida, seu melhor estilo inquietante. O ChatGPT é, sem dúvida, um fenômeno linguageiro e, como tal, pode ser objeto de interesse dos estudos linguísticos. Direcionamos a discussão para o campo da Análise do Discurso Digital (ADD) para refletir, a partir dessa perspectiva, sobre a natureza teórica do ChatGPT como fenômeno digital. Para levar a cabo essa discussão, fazemos um cotejamento entre três diferentes concepções de digital e as características de funcionamento do ChatGPT. Essa discussão se justifica pelo fato de que a abordagem do ChatGPT como um fato linguístico/discursivo produzido no ambiente digital pressupõe, antes de tudo, recortá-lo como um objeto de estudo e situá-lo coerentemente em um dado quadro teórico. PALAVRAS-CHAVE: ChatGPT; discurso digital; tecnodiscurso