
A realização do /l/ pós-vocálico, ou seja, em coda medial (ex.: “palco”) ou final (ex.: “sal”) pode apresentar variantes como o rotacismo, a velarização, a vocalização ou o apagamento (Tasca, 1999; Pinho; Margotti, 2010; Quednau, 1993; Espiga, 2001; Collischonn; Quednau, 2009; entre outros). No Sul do Brasil, entretanto, há registros também de uma tendência à preservação da lateral (Pinho; Margotti, 2010; Machry da Silva et al., 2020). Neste artigo, propomos uma descrição e discussão, pautada em uma análise sociolinguística, da preservação da lateral pós-vocálica no município de Francisco Beltrão-PR, a partir de estudos preliminares que indicam haver na região a probabilidade de manutenção da lateral, com pouca ocorrência de fenômenos como o rotacismo e a vocalização. Para tanto, foram coletados dados de fala de 14 informantes domiciliados no município, que se localiza na região sudoeste do Paraná, observando a preservação da lateral em relação a variantes como a vocalização, o rotacismo e a velarização. Os dados procedentes de uma análise descritiva e inferencial permitem confirmar a hipótese de que há predominância do uso da lateral pelos participantes. Formas variantes como o rotacismo e a vocalização aparecem em proporções consideravelmente menores, estando associadas a grupos mais específicos, com o uso do rotacismo entre os falantes com mais idade e, da vocalização por mais jovens.
Este artigo discute a natureza morfossemântica dos morfemas de aspecto gramatical do português – em particular, da variedade brasileira – com destaque para os expoentes das então chamadas “formas nominais do verbo”, a saber, infinitivo (-r), gerúndio (-nd-) e particípio (-d-). Com base em dados coletados via introspecção bem como a partir de pesquisa documental (ou seja, consulta a dicionários e buscas na internet), este trabalho discute a composição aspectual, à luz da Semântica Formal, dos morfemas que compõem o inventário aspectual do português. Para tanto, este artigo, primeiramente, aborda o problema da caracterização aspectual do ponto de vista empírico e conceitual e, na sequência, discute que tipos de leitura são (ou podem ser) associados aos diferentes empregos dos morfemas de infinitivo, gerúndio e particípio. Ao final, a ideia é mostrar que esses morfemas preservam sua composicionalidade semântica, independentemente do ambiente em que ocorrem e, adicionalmente, fornecer um quadro mais amplo dos morfemas aspectuais no português, na interface entre morfologia e semântica.
O presente trabalho propõe considerar a leitura de textos da esfera científica como uma atividade de formação cidadã que se torna possível desde a escola básica. Tomando a previsão curricular de que textos científicos e de divulgação científica devem compor as atividades de leitura das aulas de língua portuguesa, por força da Base Nacional Comum Curricular e do Campo das Práticas de Estudo e Pesquisa (Brasil, 2018), discute-se a relação indissociável entre ler a ciência e acessar a vida cidadã e democrática. Para tanto, toma-se parâmetros teóricos dos estudos em Linguística Textual (Koch, 1997; 2013; Elias, 2016; Bentes, 2024), com enfoque em leitura (Marcuschi, 2002; Brambila; Elias, 2023; Hübner; Souza, 2024) e interface com o campo do letramento científico (Motta-Roth, 2011; Silva, 2016; Cunha, 2017; Brambila, 2024). Resultados da proposta apontam a existência de norteadores voltados à customização de atividades de leitura em textos da esfera científica, a fim de transformá-las em contextos facilitadores à promoção do letramento científico, da cidadania e de relações emancipatórias entre o leitor, o texto e o conhecimento cientificamente construído.
O presente artigo propõe reflexões a respeito do ensino da ortografia, sob a perspectiva da teoria da Complexidade. Essa discussão é pautada na análise das atividades e também das orientações do manual do professor em duas coletâneas de língua portuguesa do ensino médio, tanto em práticas de leitura quanto de produção textual escrita. Para isso, o aporte teórico centra-se no estudo da ortografia do português (Morais, 1994, 2007, 2008; Scliar-Cabral, 2003) tendo como base a noção de que o conhecimento linguístico é um sistema complexo e mutável (Morin, 2003a, 2003b, 2005a, 2005b). A metodologia é do tipo documental e de abordagem qualitativa. Os resultados mostram atividades mais e outras menos convergentes com a complexidade, conforme as diretrizes nos manuais que fundamentam ambas as tendências. Nesse sentido, justifica-se a necessidade de uma formação sólida, permitindo ao professor reconhecer e mediar adequadamente os desafios ortográficos apresentados pelos discentes.
Descrevo neste texto o Aspecto verbal na Língua Portuguesa, em que essa categoria não dispõe de categorias próprias. Assim, para expressar o imperfectivo, o perfectivo e o iterativo, os falantes lançam mão de categorias da Gramática, do Léxico e do Discurso. Para identificar as categorias aspectuais, vali-me de uma estratégica a que tenho chamado “abordagem multissistêmica das línguas naturais”. Indo por aqui, é possível identificar três aspectos verbais: o imperfectivo, o perfectivo e o iterativo, e seus subtipos. Este trabalho tem um caráter descritivo, o que não exclui um tratamento diacrônico do tema.
Este artigo discute o Dread Talk como registro sociolinguístico de resistência na Jamaica. Articulando estudos marxistas e linguístico-antropológicos, o estudo adota uma perspectiva de análise em que a língua(gem) é concebida como prática social inseparável de condições materiais e ideológicas. Emergente no movimento Rastafari, o Dread Talk transforma o inglês e o crioulo jamaicanos por meio de diacríticos como a ressignificação semântica (atribuição de novos sentidos a palavras existentes, como Babylon para “Estado opressor”), os overstandings (inovações morfológicas que invertem valores negativos, como overstand em lugar de understand), a I-formation (generalização do pronome I [eu], como marca de coletividade e espiritualidade) e o fenômeno positivo-negativo (rejeição de termos associados a “morte” ou “inferno”). Essas inovações gramaticais e pragmáticas funcionam como comentários reflexivos que rejeitam valores coloniais e projetam alternativas de vida coletiva e espiritualizada. Conclui-se que o Dread Talk constitui uma prática comunicativa decolonial que pode ser lida à luz da sociolinguística da esperança, oferecendo gramáticas de vida diante da necropolítica e abrindo perspectivas comparativas para outros registros de resistência.
Este estudo visa a problematizar a denominação “Caribe francófono”, usada para designar países como Haiti, Guadalupe, Guiana Francesa e Martinica, antigamente colonizados pela França, para, em seguida, alicerçar o conceito de créolifrancophone (“crioulifrancófono”) para designar esses países e suas produções culturais e artístico-literárias. Trata-se inicialmente de abordar as raízes etnolinguísticas do termo Caribe e de percorrer limitações da denominação “Caribe francófono” sob a luz de uma abordagem sociolinguística. Ao mobilizar conceitos como Relação, Crioulização, de Édouard Glissant (1990, 1996), Créolité (“Crioulidade”), de Jean Bernabé, Raphaël Confiant e Patrick Chamoiseau (1989), e ao adotar um método que envolve um movimento duplo ou dialético, articulando o passado e o presente para projetar o futuro, este estudo sugere que o conceito de “crioulifrancófono” se tem mostrado mais amplo para dar conta da realidade linguística daquela região do que o conceito de “Caribe francófono”.
Neste texto, de caráter seminal e de natureza mais descritiva que propriamente teórica, buscamos descrever e analisar o amplo emprego de letras na criação lexical, a exemplo de ‘e-social’, ‘G4’ e ‘zêbado’. Pretendemos explicar, com base nos dados, coletados a partir de fontes as mais variadas, as letras iniciais e-, G- e z-, dentre outras, que formam novos itens lexicais, defendendo que essas letras morfológicas advêm de três diferentes fontes: (a) empréstimos do inglês, (b) abreviação e (c) analogia.
Este artigo parte do princípio teórico de que os estudos sobre as preposições devem ter como escopo tanto a descrição da variação contextual das diversas ocorrências dos itens preposicionais, quanto a formulação da invariância semântica subjacente a tais ocorrências. Isso significa que a abordagem pressupõe que as formas preposicionais guardam uma identidade de sentido – revelada pela análise –, reconhecível em todos os seus usos. Tal é o espírito e a letra da Teoria das Operações Predicativas e Enunciativas (TOPE), desenvolvida por Antoine Culioli e sua escola, no seu amplo e rigoroso trabalho metalinguístico de gramática das preposições, como veremos, em pormenores, adiante. Tal é a diretriz deste texto, que trata da preposição a no português brasileiro.
O ensino explícito de pronúncia tem ocupado espaço importante nas aulas de LA. Dentre os muitos fenômenos explicitáveis, a liaison do francês constitui um elemento relevante de reflexão em sala de aula. Esta pesquisa teve como objetivo geral investigar se aprendizes brasileiros de francês como língua adicional com maior capacidade de memória de trabalho (MT) e de controle inibitório (CI) tenderiam a apresentar um maior aproveitamento da intervenção com instrução explícita (IE) acerca do fenômeno de liaison. O estudo realizado foi de caráter exploratório, analítico, quase-experimental e transversal. Participaram 25 brasileiros, residentes no RS, com níveis A1 e A2 de proficiência. Os participantes realizaram as tarefas Stroop Victoria para CI e N-back para MT; preencheram um questionário de histórico linguístico; realizaram a gravação de frases em pré-teste e pós-teste randomizadas em contexto de liaison obrigatório e proibido e participaram de quatro sessões de IE online sobre o fenômeno. Observou-se que, para a tarefa de CI, obteve-se uma correlação de Spearman positiva (contexto obrigatório) e negativa (contexto proibido) e, para tarefa de MT, observou-se uma correlação de Spearman negativa (contexto obrigatório) e positiva (contexto proibido). Entretanto, não houve significância estatística nas correlações. Verificou-se que a IE proporcionou aos participantes ganhos linguísticos.
O objetivo deste trabalho é recuperar o horizonte ideológico do livro-manifesto Da natureza e limites do Poder Moderador, de autoria de Zacarias de Góis e Vasconcelos, mediante a análise da presença deste horizonte nas formas de transmissão do discurso alheio. Trata-se de um dos textos mais relevantes da história política do Brasil, que se constrói em diálogo com o contexto político imediato e com tendências ideológicas amplas. O trabalho partiu da definição do gênero manifesto e da organização tripartida da obra, selecionando as duas partes mais importantes e extensas para análise. À luz de conceitos das obras do Círculo de Bakhtin, analisamos como o discurso alheio se manifesta nos enunciados, ora construindo os alicerces para a defesa do posicionamento do autor, ora tornando-se o alvo de uma polêmica aberta entre o autor e os seus opositores políticos. Os resultados apontam que Zacarias de Góis e Vasconcelos contempla um amplo horizonte ideológico e que o seu modo de cotejar ideias opostas em torno de um mesmo tema, valendo-se da polêmica e das formas de transmissão do discurso alheio, faz com que o livro-manifesto em questão seja um registro da possibilidade de defesa de pontos de vista conservando um posicionamento moderado.
Esta pesquisa tem como objetivo principal revelar as crenças e atitudes linguísticas presentes nos discursos das professoras da escola Santa Luzia, localizada na comunidade Canela Fina, no município de Cruzeiro do Sul, estado do Acre. A proposta consiste em refletir sobre as percepções linguísticas existentes em torno do ensino de línguas e do fenômeno da variação linguística, buscando compreender de que maneira tais percepções influenciam as práticas pedagógicas desenvolvidas pelas docentes da referida escola. Para a análise de dados, foram aplicados testes de crenças e atitudes linguísticas com as professoras participantes. O referencial teórico-metodológico baseou-se nos pressupostos de Bortoni-Ricardo (2005), Antunes (2007), Labov (2008 [1972]), Luck (2009), Lambert e Lambert (1972), Bagno (2009), entre outros autores que discutem sociolinguística, variação e ensino de línguas. Os resultados obtidos com os testes de atitudes demonstram que as qualificadoras associadas a poder – inteligente, competente e rico – receberam avaliações mais elevadas quando associadas ao trecho representado pela variedade padrão da língua portuguesa. Isso evidencia a percepção de que o domínio da norma padrão é compreendido como um fator de ascensão social. Por outro lado, a qualificadora simpático obteve pontuações mais altas no trecho associado à variedade não padrão, revelando um vínculo afetivo positivo com essa forma de fala. Em relação ao teste de crenças, observou-se a persistência de concepções normativas e tradicionalistas, expressas na crença de que ensinar língua significa, necessariamente, ensinar a variedade gramatical normativa. Esses dados apontam para a urgência de repensar a formação docente no que tange à abordagem da variação linguística, à luz de uma perspectiva mais crítica, inclusiva e condizente com a diversidade sociolinguística brasileira.
O presente artigo empreende uma discussão acerca das tendências latino-americanas na produção científica atrelada à Análise de Discurso Crítica. Para a reflexão proposta, partimos da constatação de que o projeto teórico de Norman Fairclough, um dos principais expoentes da Análise de Discurso Crítica, passou por uma reorganização, saindo de uma perspectiva voltada para a análise linguística em direção a uma análise mais social de seus objetos de estudo. A partir desse ponto, preconizamos que a mudança nos objetivos de pesquisa do autor pode ter se reverberado como uma influência nas pesquisas crítico-discursivas produzidas no contexto latino-americano. Sendo assim, procedemos a um estudo de artigos publicados entre 2011 e 2020, por duas pesquisadoras latino-americanas, uma argentina e uma brasileira. Os textos foram publicados na Revista Latino-Americana de Estudos do Discurso e no livro em comemoração aos 20 anos da ALED, Pasado, Presente y Futuro de los Estudios de Discurso en América Latina, de 2015. As referidas estudiosas desempenharam um relevante papel acadêmico-profissional e seus trabalhos nos fornecem elementos de avaliação sobre o estado da arte das pesquisas em Análise de Discurso Crítica no âmbito da América Latina.
O objetivo deste trabalho é iniciar uma reflexão sobre a descrição fonológica do Português Brasileiro disponível na Gramática Construtural do Português Brasileiro. Neste trabalho, apresentamos os pressupostos teóricos da Gramática Construtural e em seguida elencamos pontos em comum e de divergência sobre a análise fonológica apresentada por Mattoso Camara Junior. Metodologicamente, buscamos uma historiografia interna, ao cotejar as diferenças entre as propostas sobre a nasalidade das vogais do Português Brasileiro. Para tanto, realizamos uma busca no banco de dados de teses e dissertações sobre Fonética e Fonologia no Brasil e foi possível constatar que a proposta construtural está praticamente ausente dos debates sobre nasalidade do Português Brasileiro. Por fim, apresentamos alguns insights relacionados à interação da prosódia com a sintaxe e concluímos que outras pesquisas poderiam se dedicar a verificar se suas análises são válidas.
Este trabajo propone un estudio de la incorporación del análisis lógico y gramatical en la enseñanza de la lengua en la Argentina. En particular, se releva la implementación del método analítico en el corpus de la gramática escolar argentina en el período que va de 1863 a 1884, etapa en la que se consolida un modelo de enseñanza a nivel nacional (Dussel, 1997). El análisis –en su doble vertiente, lógica y gramatical–, cuyo primer testimonio en la tradición local se encuentra en la Gramática española teórica analítica (1867) de Andrés Pujolle, emerge en ese momento como una herramienta didáctica fundamental para renovar la enseñanza de la gramática (De Natale, 2022). Desde entonces, y hasta bien entrado el siglo XX, la práctica analítica se consolida como contenido de enseñanza y aporta diferentes desarrollos conceptuales, que van desde la determinación de partes intermedias entre la palabra y la oración (sujeto, predicado, complementos), hasta la inclusión de categorías superiores a la oración (el período, el discurso). De esta forma, la gramática escolar modificó sustancialmente la concepción de la sintaxis, a través de la incorporación de estas categorías ligadas al logicismo, al tiempo que encontró en el análisis una herramienta eficaz para renovar los métodos didácticos vetustos de la tradición greco-latina todavía vigente durante esos años. En este trabajo se postula la hipótesis de que durante la etapa 1863-1884, el método analítico fue incorporado como instrumento didáctico para reformar una enseñanza de la gramática percibida como rutinaria, memorística y contraria a las propuestas científicas y enciclopedistas con que se organizó la enseñanza secundaria a nivel nacional.
Abstract: Franz Bopp (1791-1867) is commonly regarded as one of the founding fathers of Indo-European comparative grammar. Bopp’s primary interest was in the origin of grammatical forms, a goal he pursued, from 1816 on, through the analytical comparison of formative processes of inflectional word classes in Sanskrit, Greek, Latin, German, and Persian in a first stage (other Indo-European languages were progressively included in his scholarly spectrum). The larger part of Bopp’s work was in the field of Sanskrit, but his interest in the unitary mother language (Stammsprache) led him to write the first comparative grammar of Indo-European (published in three volumes over the years 1833-1852); this comprehensive work (of which a second edition appeared in 1857-1861, and a third in 1868-1871) was preceded and followed by studies in which Bopp applied an analytical procedure to the segmentation, the classification and the explanation of grammatical forms. The present contribution examines the assumptions or hypotheses underlying Bopp’s work, and the resulting claims (regarding the structure of Indo-European roots, the constitution of grammatical forms, and the content-side of grammatical morphemes), with an eye at Bopp’s intellectual and institutional position as well as at his appraisal by contemporaries and by subsequent generations of scholars. Keywords: analytical comparison (of linguistic forms); BOPP, Franz; comparative linguistics; von HUMBOLDT, Wilhelm; Indo-European; Sanskrit
Abordagens internalistas e externalistas estão em embate ao longo da história da Linguística ocidental, desenhando dois tipos de prática: um mais preocupado com a inserção das questões linguísticas nas dinâmicas socioculturais; outro mais concentrado na análise e na sistematização de aspectos da linguagem humana e das línguas. A Linguística desse último tipo algumas vezes tem sido reconhecida como a vertente mais rigorosamente cientifica de trabalho na área. Porém, parece que os saberes que ela produz têm encontrado pouca repercussão nas Humanidades e em alguns contextos sociais mais amplos. Neste texto, apresenta-se, da perspectiva da Historiografia Linguística, um conjunto de contingências históricas correlacionáveis a esse quadro, assim como um conjunto de atitudes e iniciativas contemporâneas que as confrontam e modificam no Brasil.
Advocating for a more extensive use of dictionaries in the history of grammaticography, this case study focuses on the earliest alphabetical dictionary explicitly tailored to the needs of non-native speakers of Flemish. The Thesaurus Theutonicae linguae (1573), which predates by a decade the earliest known grammars of Flemish, contains numerous metalinguistic labels and comments dealing with Flemish grammar. Judging by the extent and the detail of metalinguistic information, this dictionary constitutes a remarkable step in the process of grammaticization of Flemish. While inspired by classical (Latin) framework, the metalinguistic analysis displayed in this work also benefits from the Renaissance interest in Greek and from emerging grammar writing in other vernaculars (French). Its foremost originality lies in the very first attempt to explain the functionning of separable complex verbs in Flemish, a grammatical feature that is alien to all three model languages (Latin, Greek, French).
Embora os adeptos da “nova filologia” (neue Philologie) da primeira metade do século XIX percebessem estar seguindo caminhos distintos daqueles traçados pelos praticantes da filologia clássica, eles não se ocuparam de distingui-las claramente em conformidade com seu escopo. Somente na segunda metade do século XIX, o estudioso alemão August Schleicher viria a formular uma distinção nítida entre Philologie e Linguistik. O objetivo deste artigo é descrever e analisar como Schleicher, sobretudo em sua obra de 1850, concebia a natureza de ambas as disciplinas, seus objetos e métodos próprios de investigação. Este estudo foi realizado dentro do referencial teórico da historiografia da linguística (cf. Swiggers, 2004, 2017), com ênfase na história interna da ciência. Como resultado, observa-se que Schleicher caracteriza as línguas como organismos naturais, cujo desenvolvimento é explicado com base em sua tipologia morfológica. A disciplina que tem a língua como objeto de investigação é a linguística, e seus métodos são análogos aos das ciências naturais. Em contrapartida, a filologia utiliza a língua como meio para a investigação da “vida espiritual” de um ou mais povos, constituindo-se como uma ciência histórica. A originalidade de Schleicher reside em suas formulações sobre a mutualidade de autonomia e complementaridade entre ambas as disciplinas.