
Neste artigo, reconhecemos que a correlação entre gênero social e variação linguística tem sido frequentemente orientada por interpretações essencialistas. Como alternativa, propomos tratar a variável gênero enquanto dimensão social e histórica, performativamente constituída e reiterada por práticas discursivas, por meio de uma releitura teórico-metodológica fundamentada nas teorias da performatividade (Butler, 2018a, 2018b) e da tecnologia de gênero (Lauretis, 1994). Para demonstrar a aplicabilidade dessa perspectiva, realizamos uma análise sociolinguística histórica da variação de marcas de segunda pessoa (2P/tu) e terceira pessoa (3P/você) na posição de sujeito no início do século XX (1915-1932) no português brasileiro. Utilizamos um córpus composto por 432 cartas publicadas na revista A Cigarra, voltada ao público feminino, contrapondo-o a um grupo controle, formado por outras 416 cartas distribuídas em duas diferentes amostras, definidas por um continuum de representações de gênero: Revista da Semana ([+feminina ↔ -masculina]) e o Correio Paulistano (publicação [+masculina ↔ -feminina]). Os resultados evidenciam que o contexto social e a proposta discursiva das publicações influenciam o uso das variantes em estudo. Nossa análise revela como a imprensa feminina, enquanto tecnologia de gênero, constitui espaço de performatividades, oferecendo novos olhares para a compreensão do significado social na mudança linguística.Palavras-chave: Sociolinguística Variacionista. Sociolinguística Histórica. Estudos de Gênero. Gênero feminino. Imprensa feminina.
A professora Ana Maria Carvalho é uma destacada sociolinguística brasileira com um importante trabalho acadêmico sobre contato linguístico, especializada desde o seu doutoramento – realizado na Universidade de Califórnia, Berkeley – em situações de contato como o espanhol falado no Arizona, EUA, e o português uruguaio, uma variedade linguística falada na região norte do Uruguai, ao longo da fronteira com o Brasil, nos departamentos de Rivera, Artigas, Cerro Largo, Tacuarembó e Salto. Nesta entrevista, a diretora do filme “Vozes das Margens” nos fala sobre as motivações e as características do gênero cinematográfico “documentário sociolinguístico”, e os desafios e oportunidades que apresenta para os pesquisadores e comunidades de falantes, além de explicar aspectos fundamentais dessa situação concreta de contato linguístico: os efeitos da sobreposição do espanhol como língua do Estado, a questão da nomeação da variedade linguística, com suas implicações ideológicas, ou a relação com o português brasileiro e o conflito entre identidade local e ideal normativo.
Neste artigo, o nosso objetivo é apresentar os resultados de nossa pesquisa sobre o objeto acusativo anafórico de 3ª pessoa na variedade carioca do português brasileiro a partir da análise de entrevistas do PEUL. Tendo em vista as pesquisas de Duarte (1986), Cyrino (1994), Casagrande (2012), Kato, Martins e Nunes (2023) e as nossas pesquisas (Simões, 2015, 2022), partimos da hipótese de que haveria restrições ou impossibilidade de realização do pronome lexical com SNs [-animados; -específicos] indefinidos ou quantificados. Como referencial teórico, aliamos a teoria gerativista (Chomsky, 1981, 1986) à sociolinguística (Labov, 2008; Weinreich; Labov; Herzog, 2009). Confirmamos a nossa hipótese e propomos nossa análise gerativista desenvolvida em Simões (2015) para as construções com pronomes lexicais e objetos nulos na variedade carioca do PB.Palavras-chave: Português brasileiro. Objeto acusativo anafórico. Variação linguística. Concordância de objeto. coexistência de gramáticas.
Este estudo investiga a avaliação dos sotaques das capitais da Região Sudeste do Brasil — Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Vitória — à luz dos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística, com foco nos estudos de percepção e avaliação linguística. Parte-se da concepção de que o sotaque é um fenômeno socialmente construído, associado a identidades, representações sociais e valores simbólicos, e de que as percepções dos ouvintes são sistemáticas, variáveis e ordenadas. Para tanto, foi elaborado um formulário on-line, aplicado via Google Forms, no qual participantes brasileiros, maiores de 18 anos, de diferentes níveis de escolaridade e de ambos os sexos, avaliaram o modo de falar de pessoas das capitais do Sudeste em quatro dimensões: prestígio, beleza, correção e agradabilidade, totalizando 1.401 respostas válidas. Os resultados indicam que os sotaques do Rio de Janeiro e de São Paulo foram mais frequentemente associados ao prestígio; o de Belo Horizonte destacou-se nos critérios beleza e agradabilidade; e o de Vitória foi percebido como a variedade mais “correta”. Tais resultados evidenciam que as avaliações não são homogêneas e refletem estereótipos linguísticos e sociais historicamente construídos, influenciados tanto por fatores linguísticos quanto pelo perfil social dos ouvintes. Ao discutir esses padrões, o estudo reforça a importância do respeito linguístico, especialmente no que se refere às variedades linguísticas típicas de cada região, reconhecendo-as como formas legítimas de expressão do português brasileiro. Dessa forma, a pesquisa contribui para o debate sobre atitudes linguísticas, variação e identidade no contexto urbano contemporâneo. Palavras-chave: Sociolinguística. Estudo de percepção. Sotaque. Identidade. Região Sudeste.
São analisados os resultados de dois testes de avaliação subjetiva de variáveis linguísticas aplicados a 36 indivíduos com ao menos a graduação completa, distribuídos pelos dois sexos e três faixas etárias das cidades de Salvador e do Rio de Janeiro. No primeiro teste, o participante deveria avaliar frases contendo variáveis morfossintáticas do português brasileiro, como típicas de uma linguagem: formal demais, formal, informal ou incorreta. No segundo teste, o participante deveria escolher, em cada frase apresentada, uma variante que fosse adequada para ser usada em uma situação de comunicação formal, na primeira parte, e numa situação de comunicação informal, na segunda parte. O participante também deveria rejeitar alguma forma que considerasse imprópria para o uso naquela situação. Foram analisados apenas os resultados das frases que focalizavam as três estratégias de relativização do português brasileiro: padrão, cortadora e resumptiva. Os resultados revelaram que os participantes, todos membros da elite letrada do país, valorizam bastante a variante prescrita pela tradição gramatical, apesar dessa estratégia estar praticamente ausente de sua linguagem corrente, o que revela a força da ideologia normativista. A estratégia cortadora, no geral, não sofreu uma avaliação negativa, o que aconteceu com a estratégia resumptiva. Por outro lado, o estudo também identificou dois perfis que distinguiram os participantes do teste: um conservador, mais alinhado ao padrão normativo, e um mais progressista, não alinhado ao padrão normativo. Por fim, o estudo revelou as características sociais de cada um desses dois perfis.Palavras-chave: Elite letrada. Orações relativas. Crenças e atitudes. Norma padrão. Tradição gramatical.
Este artigo propõe compreender o Pajubá como um laboratório sociolinguístico privilegiado para a investigação da linguagem no século XXI. Em oposição às leituras que o reduzem à condição de gíria, código restrito ou repertório marginal, defende-se que o Pajubá constitui um sistema linguístico socialmente regulado, cuja organização permite observar, de forma integrada, processos de variação, performatividade, indexicalidade, legitimidade linguística e resistência discursiva. Fundamentado na Sociolinguística Variacionista, especialmente nas contribuições de William Labov e Anthony Julius Naro, em diálogo com a Linguística Queer e a Análise de Discurso Crítica, o estudo parte da hipótese de que o Pajubá amplia as possibilidades analíticas da Sociolinguística contemporânea ao evidenciar a indissociabilidade entre língua, corpo, identidade e poder. A pesquisa adota abordagem qualitativa, baseada em questionário eletrônico de caráter descritivo e entrevistas semiestruturadas realizadas com cinquenta participantes LGBTQIAPN+ distribuídos entre cinco metrópoles brasileiras. A interpretação do corpus articula pressupostos da Sociolinguística Variacionista, da Linguística Queer e da Análise de Discurso Crítica, privilegiando os sentidos atribuídos pelos participantes às suas práticas linguísticas. Os resultados demonstram que o Pajubá apresenta regularidades de uso, mecanismos de alternância sensíveis ao contexto interacional e elevado potencial de construção de pertencimento social, funcionando simultaneamente como repertório linguístico, prática performativa e tecnologia de resistência ao preconceito linguístico e à violência simbólica. Conclui-se que o Pajubá constitui um espaço privilegiado para compreender as transformações da linguagem contemporânea e reafirma a necessidade de ampliar os horizontes epistemológicos da Sociolinguística por meio de repertórios historicamente marginalizados.Palavras-chave: Pajubá. Laboratório Sociolinguístico. Sociolinguística Variacionista.
Este artigo explora efeitos da duração da coda /-s/ em final de palavra em percepções de gênero/sexualidade acerca de vozes masculinas em português brasileiro. Tais efeitos foram testados experimentalmente, com a técnica matched-guise, a partir de estímulos acústicos caracterizados por coda /-s/ breve (s-) ou alongada (s+). De acordo com as respostas de 122 ouvintes, em escalas de diferenciais semânticos, verifica-se que os quatro falantes cujas vozes foram utilizadas soam “menos masculinos/mais gay” quando ouvidos no disfarce s+. Tal efeito não varia de acordo com o sexo do ouvinte, sua escolaridade, faixa etária ou orientação sexual - o que sugere generalidade da correlação entre a variável linguística e percepções de gênero/sexualidade. Por outro lado, ouvintes que declaram ter poucos amigos gays em suas redes de relacionamento (relativamente a ouvintes que dizem ter muitos amigos gays) tendem a perceber os falantes do experimento menos vezes como “menos masculino/mais gay” diante de s+, o que sugere que o funcionamento de /-s/ como índice de gênero/sexualidade em vozes masculinas é sujeito ao acesso que os ouvintes têm a essa variação (cuja produção, associada a práticas sociais ainda não foi estudada). Este estudo insere o português brasileiro no rol de línguas em que a indicialidade de /-s/ vem sendo investigada e aponta para encaminhamentos na continuação das pesquisas sobre esse tema.Palavras-chave: Duração da coda /-s/. Gênero. Sexualidade. Percepção sociolinguística.
Focalizamos a representação da primeira pessoa do plural na fala alagoana, com o intuito de apresentar uma sistematização de resultados de pesquisas sobre a variação nós e a gente na posição de sujeito e na posição de não sujeito, bem como sobre a concordância verbal com os pronomes nós e a gente. Para tanto, adotamos métodos de análise de estatística descritiva e inferencial e controlamos a variável comunidade, de modo a responder às seguintes questões: qual o comportamento linguístico da representação da primeira pessoal do plural na variedade alagoana? Há diferenças estatisticamente significativas nesse comportamento em relação à comunidade de fala? Os resultados evidenciam que a comunidade é uma variável importante na representação da primeira pessoa na variedade alagoana, pois mostra que a gente tanto na posição de sujeito quanto na posição de não sujeito é mais frequente em comunidades mais urbanizadas, bem como que a variante não padrão da concordância verbal com nós é mais frequente em comunidades mais rurais, ao passo que a variante não padrão da concordância com a gente é mais frequente em comunidades mais urbanas, o que nos leva a ponderar que o processo de urbanização é um fator importante para esses contextos linguísticos variáveis.Focalizamos a representação da primeira pessoa do plural na fala alagoana, com o intuito de apresentar uma sistematização de resultados de pesquisas sobre a variação nós e a gente na posição de sujeito e na posição de não sujeito, bem como sobre a concordância verbal com os pronomes nós e a gente. Para tanto, adotamos métodos de análise de estatística descritiva e inferencial e controlamos a variável comunidade, de modo a responder às seguintes questões: qual o comportamento linguístico da representação da primeira pessoal do plural na variedade alagoana? Há diferenças estatisticamente significativas nesse comportamento em relação à comunidade de fala? Os resultados evidenciam que a comunidade é uma variável importante na representação da primeira pessoa na variedade alagoana, pois mostra que a gente tanto na posição de sujeito quanto na posição de não sujeito é mais frequente em comunidades mais urbanizadas, bem como que a variante não padrão da concordância verbal com nós é mais frequente em comunidades mais rurais, ao passo que a variante não padrão da concordância com a gente é mais frequente em comunidades mais urbanas, o que nos leva a ponderar que o processo de urbanização é um fator importante para esses contextos linguísticos variáveis. Palavras-chave: Variação. Nós. A gente. Comunidade. Alagoas.
A surdocegueira é considerada uma condição única na qual a pessoa apresenta perdas visuais e auditivas concomitantemente em diferentes níveis que pode levar ao prejuízo de acesso a informações. Independentemente de ser congênita ou adquirida, o uso do tato e do toque são fundamentais para a aquisição de conhecimentos e situações de comunicação. O presente artigo tem como objetivo propor uma reflexão sobre o uso da Comunicação Social Háptica e “imagens táteis” a fim de identificar os benefícios e acessibilidade proporcionadas em situações de aprendizagem para pessoas com surdocegueira. São utilizados como referenciais teóricos, principalmente, os estudos de Lahtinen, Palmer e Lahtinen e Nicholas. A metodologia utilizada é da pesquisa narrativa segundo Aragão. Como questão norteadora tem-se: quais são os benefícios do uso da Comunicação Social Háptica e “imagens táteis” para acessibilidade de estudantes com surdocegueira em situações de aprendizagem? Os resultados mostram que fazer uso de ambos pode facilitar e proporcionar a aprendizagem de pessoas com surdocegueira em diferentes contextos, pois possibilitam o recebimento da informação com mais detalhes e de maneira mais eficiente por meio do tato e do toque. O artigo foi produzido a partir das discussões feitas no Grupo de Estudos e Pesquisa em Inclusão e Comunicação Social Háptica (GEPISCH). Palavras-chave: Surdocegueira. Imagens táteis. Comunicação Social Háptica. Acessibilidade. Aprendizagem.
Esta pesquisa aborda o ensino escolar de estudantes surdocegos, enfatizando a importância das práticas inclusivas e da formação dos professores no Atendimento Educacional Especializado (AEE). Apresenta o contexto da surdocegueira e os desafios enfrentados pelas instituições de ensino ao promover uma Educação Inclusiva. O objetivo é compreender quais são as abordagens inclusivas para atender às necessidades específicas desses estudantes, explorando metodologias, tipos de comunicação, adaptações curriculares e materiais didáticos adequados, na perspectiva de professores que atuam com estudantes surdocegos. Esta pesquisa justifica-se pela escassez de materiais e práticas direcionadas à surdocegueira, uma vez que a inclusão desses estudantes é relativamente nova nas escolas, gerando a necessidade de apoio e capacitação contínua dos profissionais envolvidos. A metodologia utilizada foi de natureza qualitativa, descritiva e exploratória, envolvendo uma revisão bibliográfica sobre o tema e entrevistas semiestruturadas com professores bilíngues que atuam no AEE de estudantes surdocegos. A análise de dados buscou identificar as principais estratégias adotadas no cotidiano escolar, além da importância do trabalho colaborativo entre educadores e demais profissionais da escola. Conclui-se que a formação continuada é essencial para que os professores se adaptem às especificidades de cada estudante e para que o ambiente educacional seja realmente inclusivo. Ao integrar as melhores práticas pedagógicas e os recursos de acordo com o perfil do estudante, é possível melhorar o processo de ensino-aprendizagem e oferecer uma educação de qualidade que valorize a individualidade e o potencial dos estudantes surdocegos.Palavras-chave: Surdocegueira. AEE. Abordagem inclusiva.
Este artigo apresenta criação de um material didático de escrita de sinais para adaptar os símbolos escritos de configurações de mão para formas gráficas, táteis e confeccionadas em relevo, mas possibilita que, através do sentido do tato, o aprendiz surdocego realize atividades de ensino de escrita de sinais. O objetivo dessa pesquisa é apresentar uma produção de material de escrita de sinais em recursos táteis. A metodologia é utilizada por formas confeccionadas em escrita de sinais na modalidade tátil e uma pesquisa bibliográfica. Desse modo, defende-se neste trabalho a necessidade de interação entre teoria e prática no ensino de escrita de sinais para os alunos surdocegos, bem como de integração entre a língua brasileira de sinais (Libras) e a escrita de sinais, avaliando desempenho com flexibilidade.Palavras-chave: Material didático adaptado. Escrita de Sinais. Pessoas surdacegas.
Este artigo tem como objetivo principal investigar o funcionamento do discurso sobre a Comunicação Social Háptica utilizada com sujeitos surdocegos. Baseia-se na fundamentação teórica da Análise do Discurso materialista, tradição inaugurada por M. Pêcheux, na França, e largamente desenvolvida por E. Orlandi no Brasil. Trata-se de uma disciplina constituída a partir da tríade: linguística, psicanálise e materialismo histórico. Nesse bojo, destacamos as noções teóricas de discurso, sujeito, sentido. De forma a alcançar o objetivo proposto, observamos redes de sentidos que constituem tal discurso e analisamos um recorte de entrevista realizada com uma mulher surdocega. Consideramos que a discursividade analisada aponta para um funcionamento de acréscimo, soma a outras materialidades que concorrem na interação com o sujeito surdocego.Palavras-chave: Análise do Discurso. Surdocegueira. Comunicação Social Háptica.
Esse texto propõe uma reflexão sobre a importância do tato nas formas de comunicação dos surdocegos, assim como a interação das pessoas com surdocegueira com o mundo ao seu redor. A partir de uma significativa curadoria de autores que se debruçam sobre o campo da surdocegueira, estabeleceu-se diálogos a respeito da importância do sistema háptico e toque ativo para o desenvolvimento da pessoa com surdocegueira. O texto se inicia com conceituações sobre surdocegueira e, posteriormente, aprofunda nas principais formas de comunicação dos surdocegos e os pré-requisitos existentes para cada uma dessas formas de comunicação. A partir de referenciais teóricos e diálogos entre eles constata-se que a percepção tátil é o pré-requisito mais necessário para a comunicação e sociabilização da pessoa com surdocegueira. Adiante reafirma-se a importância e valorização do tato como um significativo meio de comunicação sensorial, além da importância do sistema háptico e toque ativo para a pessoa com surdocegueira estabelecer uma melhor recepção cinestésica e cutânea. Culminando com a importância da comunicação háptica como um reconhecimento através da recepção tátil sobre as expressões emocionais, descrições de ambientes e mensagens direcionadas. Palavras-chave: Surdocegueira. Sistema háptico. Tato ativo. Formas de comunicação.
Os estudos linguísticos avançaram significativamente desde o Curso de Linguística Geral (1916) que inaugurou essa ciência da observação, descrição, explicação e ensino-aprendizagem das línguas naturais. Essa evolução impactou diversos campos das ciências e se desdobrou no estudo de línguas para além da modalidade vocal-auditiva. No entanto, a comunicação pelo canal háptico ainda tem muito a ser explorada por linguistas em seus diversos níveis. Assim, considerando a epistemologia fundante dos estudos linguísticos, este estudo se propõe a discutir os aspectos comuns das línguas naturais propostos por Hockett (1960) aplicados à Comunicação Social Háptica (CSH). Para isso, analisou-se a compreensão de um enunciado hapterizado relatado por um participante surdocego e observado pelos pesquisadores, por meio do estudo de caso (Gil, 2008). Os resultados indicam a equivalência das treze propriedades de línguas naturais hockeattenas adequando-se aos aspectos específicos da modalidade. Palavras-chave: Educação especial. Comunicação Social Háptica. Surdocegueira. Modalidade tátil. Universais linguísticos.
O presente artigo aborda uma iniciativa inédita para a educação linguística indígena, que foi a adaptação da metodologia da Aprendizagem Linguística Ativa (ALA) e de seus materiais manipuláveis e concretos para o ensino da língua Karajá (Macro-Jê) em uma aldeia localizada na Ilha do Bananal (TO). O objetivo central é desenvolver materiais didáticos e práticas pedagógicas que integrem a cultura indígena, os avanços da linguística moderna e evidências científicas em ensino-aprendizagem. A pesquisa utilizou uma abordagem participativa, com diálogos entre os pesquisadores, um deles diretor da escola indígena, para identificar demandas, revisão bibliográfica sobre a língua Karajá e oficinas piloto. Os resultados iniciais, apresentados no X Encontro de Línguas e Culturas Macro-Jê, realizado na Escola de Altos Estudos da UFRJ, em maio de 2025, foram considerados positivos e promissores. Palavras-chave: Educação indígena. Aprendizagem linguística ativa. Gramática. Karajá.
Entre os possíveis universais semânticos estão as classes acionais propostas por Vendler (1957). Com base na Semântica Formal (Gomes; Sanchez-Mendes, 2018), desenhamos um protocolo de elicitação controlada (Sanchez-Mendes, 2014), aplicado para averiguar se a língua Mebêngôkre (Kayapó, família Jê, tronco Macro-Jê), falada no município de São Félix do Xingu (Pará, Brasil) marca gramaticalmente ou não as distinções aspectuais entre as classes acionais. As sentenças foram traduzidas por falantes bilíngues (Kayapó – português). Em seguida, sua aceitabilidade foi confirmada e sua interpretação averiguada por meio de contextos. Os testes mostraram uma clara diferenciação entre as classes acionais na língua minoritária pesquisada, que está ainda bastante pouco descrita. Encontramos não apenas interpretações distintas para os modificadores adverbiais conforme a classe aspectual, mas também advérbios que não são licenciados em certas classes. Já sabemos um pouco mais sobre os sintagmas verbais da língua-alvo. Além disso, a constatação de classes acionais em uma língua de tronco completamente distinto, com uma gramática tão diferente daquelas das línguas em que essas distinções aspectuais foram atestadas, sustenta a hipótese de um universal semântico. Como desdobramento, os achados sobre as classes acionais na língua foram convertidos em uma sequência didática para o ensino de Mebêngôkre nas escolas indígenas, atendendo à demanda das comunidades gerada pela recente cooficialização do idioma. Dessa forma, o artigo integra a validação teórica do universal com uma aplicação prática de retorno aos falantes, demonstrando como a descrição semântica pode fundamentar materiais de referência para a educação escolar indígena. Palavras-chave: Classes acionais (Vendler). Universais Linguísticos. Família Jê. Semântica Formal. Mebêngôkre (Kayapó).
Este número reúne artigos derivados das apresentações no X Encontro de Línguas e Culturas Macro-Jê, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em maio de 2025. O evento é dedicado exclusivamente ao Macro-Jê e tem por objetivo promover o intercâmbio entre pesquisadores (pós-graduandos, linguistas, antropólogos, educadores, historiadores etc.) dedicados às línguas e aos povos desse tronco linguístico. Os artigos aqui reunidos refletem a diversidade de temas demandados pela realidade indígena no cenário brasileiro, especialmente entre os povos Macro-Jê, abrangendo assuntos relacionados à educação, à etnografia, à história e aos estudos linguísticos (alcançando a fonologia, a morfologia, a sintaxe e a semântica), sob diferentes correntes teóricas.
Entre a primeira metade do século XIX e o final do século XX, publicaram-se dezenas de vocabulários da língua dos Botocudos, do tronco Macro-Jê (Seki, 1990, p. 119-120), ou mais precisamente, de várias línguas de povos indígenas, reunidas sob a família que se convencionou chamar Botocudo e, depois, Krenak (Rodrigues, 1986, p. 56, 1999, p. 167). Na esmagadora maioria, aquelas publicações não passam mesmo de vocabulários (alguns, bastante limitados), e nenhuma delas reuniu tanto texto – isto é, fraseados completos – de qualquer das línguas da família, como o Wörterbuch der Botokudensprache, de Bruno Rudolph (1909). Nas quinze páginas finais de sua obra ele registrou mais de três centenas de frases na língua indígena. O presente texto trata da última parte daquele conjunto, que reproduz – de modo surpreendente – um diálogo entre um mestiço (guia ou líder de um grupo fortemente armado) e o cacique de um grupo Pojitxá que termina sendo massacrado no local. Defendemos a hipótese de ser, esta, a primeira publicação de registro de uma língua indígena no Brasil, baseada em uma gravação. E buscamos, ao lado disso, interpretar o fato também inusitado de ele ser um dos primeiros registros já publicados, por uma testemunha direta, de um massacre contra uma população indígena no Brasil. Palavras-chave: Língua indígena. Botocudo. Pojitxá. Macro-Jê. Bruno Rudolph.
A pesquisa formal em semântica de línguas indígenas necessita de elicitações muito bem desenhadas, em que os contextos estejam bem definidos, para que se possa saber qual é a divisão de trabalho entre os itens lexicais e onde eles podem ou não ser adequadamente empregados. Saber mais sobre a gramática de línguas minorizadas põe à prova teorias e universais linguísticos e pode contribuir para empoderar os falantes da língua. Este artigo apresenta os primeiros resultados de uma pesquisa inédita sobre o sistema nominal em Mebêngôkre (Macro-Jê). Os dados elicitados seguiram os critérios propostos por Dayal (2026) para investigação de (in)definitude nas línguas naturais, com o objetivo de verificar os parâmetros semânticos de Chierchia (1998, 2021). Os resultados preliminares apontam que a língua Mebêngôkre (Kayapó) não possui marcadores de definitude, mas apresenta uma série especializada em indefinitude. Entretanto, resta compreender a distribuição desses marcadores e se a natureza é evidencial ou epistêmica, como alguns dados sugerem. Espera-se contribuir para os estudos sobre línguas indígenas como protagonistas na reformulação de modelos em semântica e para a valorização da língua. Além da documentação, destaca-se a produção de materiais didáticos voltados às escolas Mebêngôkre presentes no município de São Félix do Xingu, no Pará. Palavras-chave: (In)definidos. Nominais nus. Parâmetros semânticos. Mebêngôkre (Kayapó). Línguas indígenas.