
Este artigo constitui uma revisão narrativa crítica, de natureza conceptual, que não pretende apresentar evidência empírica direta sobre a eficácia clínica da osteopatia, mas sim sintetizar e integrar contributos teóricos e empíricos emergentes para uma compreensão atualizada do potencial do cuidado osteopático nos sistemas de saúde contemporâneos. A saúde é hoje compreendida como um processo dinâmico, relacional e multiescalar, que transcende a visão biomédica redutora centrada exclusivamente na ausência de doença. Neste contexto, a osteopatia tem vindo a ser progressivamente redefinida como uma prática clínica ecológica e centrada na pessoa, orientada para a promoção da regulação adaptativa, da resiliência e da auto-organização dos sistemas vivos. Com base em avanços da ciência cognitiva — em particular no enativismo, no processamento preditivo e na inferência ativa —, bem como numa compreensão sistémica da inflamação crónica de baixo grau e nos dados emergentes sobre a modulação neuroendócrina-imunitária através do toque, argumenta-se que a osteopatia poderá ser compreendida não apenas como um conjunto de técnicas manuais, mas como um processo incorporado e relacional de co-regulação. Através do toque terapêutico, da aliança terapêutica e da construção partilhada de significado, sugere-se que o cuidado osteopático poderá modular processos interoceptivos, autonómicos, imunitários e afetivos, facilitando potencialmente a recalibração alostática e a atualização de modelos preditivos desadaptativos associados à dor persistente, à inflamação e às perturbações da saúde mental. Propõe-se, como hipótese teórica, que, quando integrada em redes de cuidados multidisciplinares, a osteopatia poderá contribuir para sistemas de saúde mais preventivos, integrativos e centrados na pessoa.
Introduction: Forensic evidence plays a decisive role in judicial decision-making, criminal investigation, and internal security. Despite its centrality, the Portuguese legal system lacks a structured framework for the professional recognition of forensic experts, relying instead on the indeterminate notion of a “person with special knowledge.” This regulatory gap undermines methodological reliability, legal certainty, and international interoperability, placing Portugal at odds with consolidated forensic science standards that require demonstrable validity, awareness of error rates, and scientific scrutiny of expert evidence [1]. Objective: To analyse the portuguese legal framework governing forensic evidence and expert recognition, and to substantiate on legal and scientific grounds the need to establish a Statute of the Forensic Specialist aligned with international validation, accreditation, and professional responsibility standards. Materials and Methods: A qualitative legal-dogmatic and comparative analysis was conducted, focusing on: (i) forensic evidence regimes under the Portuguese Criminal and Civil Procedure Codes; (ii) national legislation on regulated professions; (iii) applicable international technical standards, namely ISO/IEC 17025 for testing and calibration laboratories [4] and ISO/IEC 21043 for trace analysis and chain-of-custody requirements [5]; (iv) comparative regulatory models from jurisdictions where compliance with forensic standards is legally enforceable, including the United Kingdom [2]; (v) institutional contributions developed within the APCF since 2019. Results: The analysis identifies critical deficiencies in the Portuguese system, including: (i) absence of legally defined minimum qualifications for forensic experts; (ii) lack of a transversal professional statute for non-biomedical forensic disciplines; (iii) absence of mandatory requirements for methodological validation, error-rate estimation, and traceability; (iv) dissociation between laboratory accreditation and individual competence; (v) inexistence of a specific disciplinary framework; (vi) territorial asymmetries in expert appointment and assessment; (vii) reduced capacity for international cooperation. Comparative analysis demonstrates that mature forensic systems require individual certification, periodic competence assessment, compliance with international technical standards, and independent regulatory oversight [2]. Discussion: The lack of a dedicated forensic professional statute compromises scientific reliability and judicial predictability. Contemporary forensic science requires validated methodologies, probabilistic reasoning, and transparent communication of uncertainty, particularly in evaluative reporting. These requirements are clearly reflected in European best-practice guidelines for forensic reporting [3]. Without a statutory framework ensuring individual competence and methodological compliance, the probative value of forensic evidence remains uneven and vulnerable to challenge. Conclusions: The legal recognition of the forensic specialist profession constitutes a structural reform of the portuguese justice system. Establishing a dedicated statute: defining the profession, access requirements, mandatory continuing education, deontological rules, periodic evaluation, and disciplinary liability, is essential to ensure evidentiary reliability, protection of fundamental rights, and alignment with international best practices.
Introdução: As doenças inflamatórias intestinais são condições crónicas do aparelho digestivo, com um curso imprevisível e uma evolução prolongada. Estes pacientes lidam diariamente com sintomas como dor abdominal, diarreia crónica, artralgia e perda de peso indesejada, o que tem um impacto negativo nas suas atividades diárias, levando ao isolamento, ansiedade e depressão. Objetivo: Avaliar a prevalência de ansiedade e de depressão em doentes adultos com Doença Inflamatória Intestinal. Material e Métodos: Foi realizada uma revisão sistemática da literatura, de acordo com a metodologia PRISMA, utilizando as bases de dados PubMed e Scielo. Resultados: Dos 10 estudos incluídos nesta revisão sistemática, 2 (20%) avaliaram a prevalência de ansiedade e depressão nos doentes com doença de Crohn; 2 (20%) na colite ulcerosa e 6 (60%) na doença inflamatória intestinal. A prevalência de depressão variou entre 7,3% e 58,6%. No que respeita à ansiedade, verificou se uma prevalência entre 14,4% e 65,7%. Na doença de Crohn e na colite ulcerosa, a ansiedade apresenta uma prevalência superior à depressão. Na doença inflamatória intestinal, em 50% (n= 3) dos estudos releva-se que a prevalência de ansiedade era superior à de depressão nestes doentes. Assim, verificou-se que, em 70% dos estudos incluídos na presente revisão a prevalência de ansiedade em doentes com este tipo de patologias era superior à prevalência de depressão. Conclusões: Considerando a prevalência de ansiedade e depressão nestes indivíduos deve instituir-se um tratamento mais holístico e alinhado às necessidades físicas e psicológicas dos mesmos.
Introdução: A Doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa que se caracteriza por déficit no controlo postural e equilíbrio, aumentando o risco de quedas. As tecnologias emergentes, como o BlazePod®, oferecem potencial para complementar abordagens convencionais, integrando estímulos visuais dinâmicos com dupla tarefa no treino de equilíbrio. Objetivo: Descrever um protocolo de intervenção em fisioterapia, que integrou treino de equilíbrio com BlazePod®. Material e Métodos: Estudo de caso de um paciente do sexo masculino, de 79 anos, com DP há 11 anos (estágio 3 Hoehn e Yahr). O protocolo teve a duração de quatro semanas, com três sessões semanais (duas com BlazePod® e uma de fisioterapia convencional). A avaliação e reavaliação incluíram o equilíbrio (Mini-BESTest) e a mobilidade funcional (Time Up Go test (TUG)) simples e com dupla tarefa). Resultados: Verificou-se melhoria na pontuação da Mini-BESTest de 19/28 para 21/28, ultrapassando o cut-off para risco de queda. As principais melhorias ocorreram nas respostas posturais reativas para trás e no subscore da orientação sensorial. Não se observaram alterações no teste TUG sem e com dupla tarefa motora, apenas ligeira variação negativa no teste TUG com dupla tarefa cognitiva. Conclusão: Os resultados sugerem que o protocolo de intervenção integrando o treino de equilíbrio com BlazePod® possibilita reduzir o riso de queda do paciente. As limitações metodológicas inerentes ao estudo de caso impossibilitam estabelecer relações de causa-efeito. Ensaios clínicos randomizados são necessários para validar a eficácia da intervenção e retenção dos ganhos a longo prazo.
A documentação tradicional da cena de crime apresenta, entre outros, limitações na reconstrução espacial e temporal. A emergência da 3D Forensic Science [1] propõe a integração de técnicas de digitalização, modelação e animação 3D para melhorar a análise da dinâmica do evento e a comunicação da prova em tribunal, respondendo à crescente complexidade investigativa. Esta comunicação teve como objetivo sintetizar criticamente a evidência recente sobre digitalização 3D da cena de crime, avaliando: (i) o potencial para evitar o regresso físico ao local; (ii) o contributo para testar hipóteses reconstrutivas; e (iii) o impacto na compreensão da prova por magistrados e jurados. Para isso foi realizada uma revisão narrativa da literatura (2010–2024) na base Scopus, complementada com referências cruzadas. Incluíram-se estudos de caso com reconstruções 3D da cena [2][3], workflows de fotogrametria automatizada [4] e investigações empíricas com visualizações 3D em contexto judicial [5]. Os trabalhos foram analisados quanto a objetivos, metodologias e principais contributos. Como resultado, pode-se aferir que os modelos 3D integrados mostraram capacidade para reconstruir trajetórias de projéteis, atropelamentos e eventos complexos, dispensando, por exemplo, novas deslocações ao local [2]. Reconstruções baseadas em documentação fragmentar permitiram excluir versões fisicamente incompatíveis e restringir hipóteses plausíveis [3]. Workflows fotogramétricos automáticos possibilitaram um “virtual return to the scene” com resolução subcentimétrica [4]. Estudos com jurados simulados indicam que flythroughs 3D de nuvens de pontos aumentam a compreensão e retenção da prova de Bloodstain Pattern Analysis sem acréscimo significativo de impacto emocional [5]. Todavia, apesar dos enormes avanços na última década, persistem desafios na validação, na gestão de grandes volumes de dados e no enquadramento ético da aplicação de Artificial Intelligence para, por exemplo, simulações ou análise de grandes quantidades de dados. A literatura da especialidade demonstra, ainda, que a digitalização 3D ultrapassa a função documental, constituindo uma ferramenta reconstrutiva e comunicacional robusta e de difícil corrupção. Podendo também ser agregadora de outras formas de prova e de mais fácil acesso e exploração comparativa às formas tradicionais. Como exemplo disso salientam-se os estudos analisados que convergem na relevância do 3D para testar hipóteses concorrentes, melhorar a inteligibilidade da prova e permitir revisitações virtuais da cena. Porém, apesar da evolução assistida nas últimas duas décadas, permanecem lacunas como a ausência de protocolos normalizados, a variabilidade de workflows, e insuficiente avaliação da incerteza, o que leva a que a 3D forsensic science não seja ainda considerada como prova em muitos tribunais. Concluindo, a digitalização 3D tem potencial para fortalecer a prova pericial e a sua apresentação em tribunal, sobretudo quando articulada com ambientes imersivos, mas no contexto português há ainda a necessidade de avanços (tanto técnicos como de formação e legislação) para sua consideração como sendo verdadeiramente 3D Forensic Science.
É imperativo reafirmar a integridade científica como um princípio inegociável. A ciência não pode ser moldada para servir interesses económicos, políticos ou ideológicos, sob pena de perder a sua função primordial: a produção de conhecimento rigoroso, verificável e orientado para o bem comum. Pugnar pela integridade científica implica garantir transparência em todas as etapas do processo de investigação, desde o financiamento e desenho dos estudos até à análise e comunicação dos resultados. Implica também reforçar mecanismos de revisão por pares independentes, declarar e gerir conflitos de interesse de forma inequívoca e promover uma cultura académica assente na responsabilidade e no pensamento crítico. Num tempo em que novas ferramentas, como a inteligência artificial, potenciam tanto a criação como a distorção de conhecimento, a defesa da integridade científica não é apenas desejável — é essencial. Só assim será possível preservar a confiança na ciência e assegurar que esta continua a servir a sociedade com rigor, ética e responsabilidade. Neste editorial pretende-se refletir sobre o posicionamento da RevSALUS quanto ao uso da Inteligência Artificial na escrita científica.
Introdução: A rápida expansão dos sistemas de inteligência artificial (IA) na saúde, entendidos como sistemas que exibem comportamento inteligente com um certo grau de autonomia na resolução de problemas, está associada a transformações profundas na investigação biomédica, na prática clínica, na gestão em saúde e na saúde pública. Esta “quarta revolução” tecnológica, que até pode ser já a quinta, coloca em causa fronteiras tradicionais entre o humano e a máquina, reconfigura a relação terapêutica e levanta três preocupações éticas centrais das quais derivam muitas outras: a privacidade dos dados e a crescente dificuldade de anonimização, a exacerbação de preconceitos e a criação de um “modo ideal de ser”, e o agravamento das desigualdades globais. Objetivo: Clarificar as principais questões éticas colocadas pela utilização da IA em saúde e propor orientações programáticas para um desenvolvimento e utilização responsáveis destes sistemas na investigação biomédica, na assistência clínica, na administração e saúde pública, bem como na educação e formação em saúde, no quadro das recomendações do Livro Branco do CNECV sobre IA. Resultados: A reflexão realizada identifica a IA em saúde como uma transformação inevitável mas eticamente não neutra, que não deve ser entendida como substituto do encontro terapêutico humano. São sistematizadas preocupações relativas à privacidade e proteção de dados, à reprodução de preconceitos, à falta de evidência robusta sobre eficácia, segurança e efeitos a longo prazo, e ao risco de aumento das desigualdades. Discussão: A análise mostra que os sistemas de IA reconfiguram as expectativas morais dirigidas a humanos e máquinas, acentuando fenómenos como a “aversão algorítmica” e a exigência de infalibilidade das máquinas, enquanto levantam questões sobre consentimento informado, autoria, responsabilidade e qualidade da evidência em saúde. Os resultados convergem com as discussões internacionais sobre “responsible AI”, sublinhando a necessidade de verificação independente, explicabilidade proporcional ao risco, governança de dados centrada na pessoa (incluindo modelos de entidades fiduciárias de dados) e políticas ativas de mitigação de enviesamentos e de proteção dos mais vulneráveis. Conclusões: A IA em saúde oferece oportunidades significativas de melhoria da investigação, da prática clínica e da gestão de sistemas de saúde, mas levanta desafios éticos complexos que exigem uma abordagem prudente, baseada nos princípios de verificabilidade e de responsabilidade, bem como na proteção de dados, justiça e respeito pela autonomia. A integração da IA deve preservar a relação terapêutica, distinguir funções delegáveis de funções intrinsecamente humanas e investir em literacia digital e ética de profissionais e cidadãos. Há falta de investigação empírica robusta sobre impactos reais, e é necessário o desenvolvimento de modelos de governança de dados equitativos e a inclusão sistemática da ética da IA nos currículos de formação em saúde e nas políticas públicas.
Introdução: A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por alterações persistentes na comunicação, no comportamento e na interação social. Embora a etiologia seja multifatorial, tem aumentado o interesse em compreender o papel da nutrição como intervenção complementar capaz de modular sintomas comportamentais e gastrointestinais frequentemente associados à PEA. Objetivos: Avaliar o efeito de intervenções nutricionais na sintomatologia de indivíduos diagnosticados com PEA. Material e Métodos: A pesquisa foi realizada nas bases PubMed, Scopus e Web of Science. Foram incluídos 11 estudos que analisaram intervenções nutricionais em crianças e adolescentes com PEA, abrangendo suplementação e modificações dietéticas. Resultados: A maioria dos estudos, 72,73% (n = 8), investigou suplementos como vitamina D, ómega 3, ácido folínico, sulforafano, prebióticos e probióticos. As intervenções dietéticas — dieta baixa em FODMAPs, dieta sem glúten e dieta sem glúten e/ou sem caseína — foram avaliadas em 27,27% (n = 3) dos artigos. A dieta baixa em FODMAPs demonstrou melhorias significativas em sintomas gastrointestinais e em alguns comportamentos associados. Já as dietas sem glúten e/ou sem caseína apresentaram resultados inconsistentes. As intervenções com suplementos evidenciaram reduções em irritabilidade e hiperatividade, além de melhorias na comunicação social e na saúde intestinal, embora com variação entre estudos. Conclusões: As intervenções nutricionais mostram potencial para influenciar positivamente a sintomatologia da PEA. Contudo, a heterogeneidade metodológica e o número limitado de estudos exigem investigação adicional para confirmar a eficácia destas abordagens e identificar os subgrupos que podem beneficiar de forma mais consistente.
Introdução: A toxicologia forense desempenha um papel crucial nas ciências forenses, fornecendo provas científicas essenciais para o sistema judicial através da deteção, identificação e análise de substâncias tóxicas em amostras biológicas[1]. A evolução tecnológica tem impulsionado a transição dos laboratórios tradicionais para o paradigma dos Laboratórios 5.0, que integram automação avançada, inteligência artificial (IA) e princípios da Qualidade 5.0 (Q5.0 = Q4.0 × Inovação × Sustentabilidade × Cultura Humanista)[2]. Objetivo: O presente trabalho tem como objetivo descrever a implementação e aplicação de tecnologias emergentes de automação e inteligência artificial nos laboratórios de toxicologia forense, analisando as suas capacidades decisórias, desafios éticos e legais, e o potencial transformador na gestão de processos forenses centrados no cidadão. Material e Métodos: Foi realizada uma análise descritiva das tecnologias de automação implementadas no contexto dos laboratórios de toxicologia forense, incluindo: (i) sistemas de robótica e automação laboratorial; (ii) gestão digital de amostras com tecnologias Datamatrix, RFID e CCTV; (iii) algoritmos de inteligência artificial aplicados ao diagnóstico toxicológico; (iv) modelos de análise de dados (descritiva, diagnóstica, preditiva, prescritiva e generativa). A avaliação focou-se nos princípios de reengenharia de processos, automação de fluxos de trabalho através de RPA (Robotic Process Automation), IPA (Intelligent Process Automation) e aplicações de machine learning, deep learning e modelos de linguagem generativos. O enquadramento considerou os requisitos normativos da ISO 17025, a agenda europeia para Ciência Aberta e o plano European Forensic Science Area 2030. Resultados: A implementação de sistemas automatizados demonstrou capacidade para: (i) realizar análises repetitivas com elevada precisão, reduzindo o tempo de processamento e minimizando erros humanos; (ii) processar grandes volumes de dados toxicológicos, identificando padrões e anomalias impercetíveis pelos métodos tradicionais; (iii) fornecer suporte inteligente à decisão através de algoritmos de IA que auxiliam na identificação de substâncias tóxicas e interpretação de dados complexos [3]. Discussão: Os resultados evidenciam o potencial transformador da IA nos laboratórios de toxicologia forense, alinhando-se com os princípios "do once-only" e "do it right the first time"[4]. A integração de tecnologias emergentes permite otimizar o fluxo de valor em função do cidadão, criar evidência consistente de capacidade técnica e desenvolver uma cultura organizacional de gestão de dados. Contudo, persistem desafios significativos relacionados com: (i) aceitação legal dos resultados baseados em IA nos tribunais, requerendo padronização internacional e regulamentação clara que garanta validade, reconhecimento legal e auditabilidade; (ii) conciliação entre os princípios de confidencialidade da ISO 17025 e a agenda de Ciência Aberta da União Europeia, através de técnicas de anonimização de dados, partilha de dados agregados e acesso aberto a metodologias; (iii) gestão da mudança organizacional necessária para a adoção efetiva destas tecnologias. A colaboração multidisciplinar entre especialistas em IA, toxicologia e direito, aliada à formação contínua, emerge como fator crítico de sucesso. Conclusões: A inteligência artificial e a automação avançada estão a redefinir os laboratórios de toxicologia forense, promovendo ganhos significativos em eficiência, precisão e capacidade de análise. O paradigma dos Laboratórios 5.0 oferece uma visão integradora que alia tecnologia, inovação, sustentabilidade e humanização dos processos. Apesar das oportunidades substanciais, a implementação plena requer a superação de obstáculos éticos, legais e técnicos, bem como o desenvolvimento de estratégias de formação e integração multidisciplinar. Investigação futura deve focar-se na validação científica e legal dos algoritmos de IA, no desenvolvimento de frameworks de auditabilidade e na harmonização de normas internacionais que permitam a plena aceitação judicial destas tecnologias. A aplicação prática destas inovações tem potencial para transformar radicalmente a qualidade e celeridade da justiça forense, alinhando Portugal com as melhores práticas internacionais definidas no plano European Forensic Science Area 2030.
ISO 21043 Forensic Sciences is a new international standard for forensic science. It provides requirements and recommendations designed to ensure the quality of the forensic process. It includes: Part 1 Vocabulary Part 2 Recovery, transport, and storage of items Part 3 Analysis Part 4 Interpretation Part 5 Reporting Parts 1 and 2 were first published in 2018. In 2025, a revised Part 1 was published and Parts 3–5 were first published. Part 2 is currently under revision. This presentation provides an overview of ISO 21043, focusing primarily on Parts 1, 4, and 5. The presentation reviews ISO 21043 from the perspective of the forensic-data-science paradigm, which involves the use of methods that: are transparent and reproducible, are intrinsically resistant to cognitive bias, use the logically correct framework for interpretation of evidence (the likelihood-ratio framework), are empirically calibrated and validated under casework conditions. The presentation also provides an overview of a new online master’s-level continuing-professional-development course Concepts of Forensic Inference and Statistics, that provides training from the perspective of the forensic-data-science paradigm and of conformance with ISO 21043. The presenter was Chair of the British Standards Institution’s Forensic Science Committee (2019–2025), Member of the ISO Forensic Science Committee (2018–2025), Project Lead for ISO 21043 Part 1, and an active contributor to the development of ISO 21043 Parts 4 and 5. The presenter also developed and delivers Concepts of Forensic Inference and Statistics.
Introdução: O impacto direto da Ciência Forense nas decisões judiciais torna imperativa a garantia de qualidade, credibilidade e responsabilidade profissional. A ausência de certificação e de um código de ética transversal para Especialistas Forenses tem sido identificada como um fator de risco relevante, potenciando erros técnicos, vieses interpretativos e a perda da confiança pública na prova pericial. Objetivo: Integrar e apresentar dois instrumentos estruturantes para a qualidade na Ciência Forense: (i) um modelo de certificação de Especialistas Forenses (Dinis-Oliveira et al., 2022) e (ii) um código de ética e de conduta profissional para os Especialistas Forenses (Madureira-Carvalho et al., 2023), analisando o seu contributo conjunto para a regulação da prática forense, a proteção do interesse público e o reforço da credibilidade científica no contexto judicial. Material e Métodos: Realizou-se uma análise dos documentos propostos pela Associação Portuguesa de Ciências Forenses, em concreto, dos princípios, requisitos, níveis de certificação, direitos e deveres profissionais e mecanismos éticos e deontológicos, identificando pontos de convergência e complementaridade. Resultados: O modelo de certificação estabelece cinco níveis progressivos de reconhecimento profissional, baseados na formação académica, experiência profissional e atividade científica, promovendo uma maior harmonização de competências entre Especialistas Forenses. Paralelamente, o código de ética e de conduta profissional define princípios gerais, deveres profissionais, responsabilidades científicas e normas de independência, imparcialidade, confidencialidade e proteção do interesse público. A análise evidencia uma relação de complementaridade funcional, que alinha competência técnica formalmente certificada com padrões éticos explícitos e transversais às diferentes áreas forenses. Discussão: A certificação, quando dissociada de um referencial ético, revela-se insuficiente para garantir a qualidade global da prática forense, tal como a adoção isolada de um código de ética não assegura, por si só, competência técnica adequada. A articulação entre certificação e ética configura um modelo robusto de autorregulação profissional, capaz de mitigar riscos associados a vieses cognitivos, conflitos de interesse, pressão institucional e utilização de práticas insuficientemente validadas cientificamente. A eficiência deste enquadramento depende da sua adoção efetiva, monitorização contínua e atualização periódica. Conclusão: A integração de um modelo estruturado de certificação com um código de ética e de conduta profissional específico para Especialistas Forenses constitui um passo decisivo para a promoção da qualidade, fiabilidade e credibilidade da Ciência Forense. Este enquadramento reforça a confiança do sistema judicial e da sociedade na prova pericial, e protege os profissionais e o interesse público, estabelecendo bases sólidas para uma regulação científica e ética sustentável da prática forense.
Introdução: A criminalidade tributária e económico-financeira atual caracteriza-se por elevada complexidade estrutural, dimensão transnacional e ligação a outras formas de criminalidade organizada[4]. A prova relevante é sobretudo documental, contabilística e digital, exigindo a integração de várias especialidades periciais, em linha com uma visão transdisciplinar da ciência forense[3],[5]. A literatura sobre prova digital e apreensão de correio eletrónico evidencia a necessidade de um enquadramento jurídico-processual próprio e garantístico[1],[2]. Objetivo: Sistematizar, numa perspetiva de ciências forenses, o ecossistema de perícias mobilizado na investigação do crime tributário e económico e clarificar o lugar da prova digital e da perícia informática no cruzamento entre ciência e direito processual penal. Material e Métodos: Estudo descritivo-analítico de natureza jurídico-forense, baseado na prática operacional da Unidade de Ação Fiscal da GNR, na doutrina e jurisprudência recentes em direito penal tributário e investigação económico-financeira[3] e numa revisão seletiva de literatura sobre Lei do Cibercrime, meios de obtenção de prova digital e organização da ciência forense[1],[2],[5]. Procedeu-se à análise comparada dos regimes legais (CPP e Lei do Cibercrime) e à sistematização dos principais tipos de perícia e desafios operacionais. Resultados: Identificou-se um “ecossistema pericial” composto por perícia contabilística (fluxos e lucros), perícia tributária (enquadramento e matéria coletável), perícia digital forense (obtenção e análise de prova em sistemas e dispositivos) e exames laboratoriais a produtos (natureza, qualidade, quantidade e valor). Clarificou-se a distinção entre meios de obtenção de prova digital (preservação, pesquisa, apreensão, interceção) e perícia informática como meio de prova autónomo. Destacou-se o papel da Lei do Cibercrime na separação entre interceção em tempo real e apreensão de comunicações armazenadas, bem como as exigências acrescidas na apreensão de correio eletrónico[1],[2]. Discussão: Os resultados confirmam que o crime tributário e económico é um terreno privilegiado para a aplicação prática da lógica One Forensics, exigindo equipas multidisciplinares e metodologias periciais validadas[3],[5]. A análise reforça a inadequação da equiparação da prova digital às escutas telefónicas e a necessidade de regimes autónomos de recolha e apreensão[1],[2]. Em convergência com a literatura sobre qualidade em ciência forense, sublinha-se a importância da replicabilidade, transparência metodológica e documentação rigorosa da cadeia de custódia também no contexto tributário[5]. Conclusões: A investigação do crime tributário e económico depende de um uso estruturado e cientificamente fundamentado da prova pericial, em particular da perícia digital. A clarificação do papel de cada tipo de perícia e da articulação entre meios de obtenção de prova digital e perícia informática contribui para uma prática pericial mais consistente, juridicamente sólida e alinhada com as garantias processuais. Prioridades futuras incluem o reforço de equipas periciais multidisciplinares, a validação de métodos e a aproximação entre rotina pericial, investigação académica e formação avançada em ciências forenses.
Introdução: Ferramentas de IA passaram a apoiar triagens, busca de padrões e sínteses periciais. Sem governança, surgem riscos de opacidade, enviesamento e violação do contraditório. Objetivo: Apresentar um enquadramento prático para uso de IA na perícia que garanta transparência, explicabilidade e contestabilidade, compatível com o devido processo e com escrutínio por pares e pelo juízo. Material e Métodos: Revisão normativa e científica; derivação de requisitos de documentação (datasheets, model cards, logs de decisão), validação e teste; proposta de matriz de decisão sobre delegação técnica e registos obrigatórios (versões, dados, limites de uso), com estudos ilustrativos. Referenciais normativos principais: ISO/IEC 27037 e ISO/IEC 27041 (International Organization for Standardization, 2012; International Organization for Standardization, 2015). Resultados: Produto: guia de governança para laboratórios periciais com fluxos de aprovação, plano de validação, relatórios de explicabilidade e anexos padronizados para autos (incluindo limitações e incerteza). Discussão: Analisa-se o equilíbrio entre eficiência e garantias processuais, destacando a necessidade de documentação auditável e comunicação clara de incerteza técnica para evitar sobreconfiança em outputs algorítmicos (Garfinkel, 2010; Raji et al., 2020). Conclusões: O enquadramento favorece decisões informadas sobre quando e como empregar IA, preservando transparência, explicabilidade e possibilidades de refutação pelas partes e recomendando governança técnica contínua (Casey, 2011).
Introdução: A gestão da dor na pessoa submetida a transplante hepático é um desafio clínico relevante, e pode ter um impacto direto na sua recuperação funcional, conforto e qualidade de vida. A proximidade contínua do enfermeiro, confere-lhe um papel privilegiado para intervir precocemente e ajustadamente às suas necessidades, contribuindo para cuidados mais humanizados, traduzidos em ganhos em saúde. Objetivos: Com esta revisão pretende-se sintetizar a evidência disponível sobre intervenções de enfermagem na gestão da dor em pessoas recetoras de transplante hepático, durante o período pós-operatório. Material e Métodos: Foi realizada uma revisão integrativa da literatura, recorrendo às bases de dados CINAHL, MEDLINE, Cochrane Library, MedicLatina e RCAAP, entre julho e agosto de 2025. Foi adotada a metodologia PRISMA para a seleção dos artigos. Foram considerados como critérios de inclusão, artigos em inglês, português ou espanhol, publicados entre 2021 e 2025, com texto integral disponível. Resultados: De 940 artigos inicialmente identificados, resultaram 8 artigos finais para análise. Intervenções focadas na prevenção, como a avaliação sistemática da dor, posição antiálgica, mobilização e treino respiratório, são sugeridas e associadas a ganhos clínicos a curto e a longo prazo. Assim como, estratégias farmacológicas multimodais são recomendadas ao invés da utilização de opióides. Conclusões: Apesar da escassez de estudos específicos, a evidência aponta para um papel determinante do enfermeiro na operacionalização de estratégias multimodais através da sua gestão e administração, e intervenções autónomas e humanizadas de enfermagem na gestão da dor, com impacto positivo na recuperação e qualidade de vida das pessoas transplantadas.
Introdução: O ensino superior tem um nível de exigência diferente dos demais ciclos de ensino, pelas características da sua natureza, desafios e crenças que lhe estão associadas. Dada a importância da saúde mental para o desenvolvimento do potencial académico e bem-estar dos estudantes, assim como a ausência de indicadores credíveis no contexto angolano, tem aumentado a valorização da produção científica neste domínio. Objetivos: Identificar a prevalência e analisar os fatores associados à ansiedade em estudantes universitários em Benguela. Material e Métodos: Estudo de natureza exploratória, com recurso a dados quantitativos. Participaram no estudo 447 estudantes do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela e da Faculdade de Medicina da Universidade Katyavala Bwila selecionados por conveniência, sendo maioritariamente do género feminino (51,46%). Para a recolha de dados utilizou-se o Beck Anxiety Inventory e um questionário sociodemográfico. Resultados: Confirma-se que a prevalência da ansiedade (26%), tal como em outros estudos, aparece num valor moderado. As diferenças estatisticamente significativas confirmam-se entre os níveis mais altos de ansiedade e o género (p=0,000), o ambiente familiar stressante e difícil de suportar (p=0,000), o apoio emocional familiar (p=0,000), o diagnóstico de uma perturbação mental (p=0,000), o diagnosticado de ansiedade em familiares (p=0,000), a doença crónica (p=0,000), o desgaste psicológico (p=0,000) e a qualidade de sono e a prática de exercícios físicos (p=0,002). Conclusão: Alinhada com a literatura científica, evidencia-se o facto dos estudantes universitários em Benguela se sentirem psicologicamente desgastados, com necessidade de apoio e intervenção psicológica, orientada para a promoção dos níveis de saúde mental e, particularmente, para reduzir os níveis de ansiedade.
Introdução: As doenças inflamatórias intestinais são condições crónicas do aparelho digestivo, com um curso imprevisível e uma evolução prolongada. Estes pacientes lidam diariamente com sintomas como dor abdominal, diarreia crónica, artralgia e perda de peso indesejada, o que tem um impacto negativo nas suas atividades diárias, levando ao isolamento, ansiedade e depressão. Objetivo: Avaliar a prevalência de ansiedade e de depressão em doentes adultos com Doença Inflamatória Intestinal. Material e Métodos: Foi realizada uma revisão sistemática da literatura, de acordo com a metodologia PRISMA, utilizando as bases de dados PubMed e Scielo. Resultados: Dos 10 estudos incluídos nesta revisão sistemática, 2 (20%) avaliaram a prevalência de ansiedade e depressão nos doentes com doença de Crohn; 2 (20%) na colite ulcerosa e 6 (60%) na doença inflamatória intestinal. A prevalência de depressão variou entre 7,3% e 58,6%. No que respeita à ansiedade, verificou‑se uma prevalência entre 14,4% e 65,7%. Na doença de Crohn e na colite ulcerosa, a ansiedade apresenta uma prevalência superior à depressão. Na doença inflamatória intestinal, em 50% (n= 3) dos estudos releva-se que a prevalência de ansiedade era superior à de depressão nestes doentes. Assim, verificou-se que, em 70% dos estudos incluídos na presente revisão a prevalência de ansiedade em doentes com este tipo de patologias era superior à prevalência de depressão. Conclusões: Considerando a prevalência de ansiedade e depressão nestes indivíduos deve instituir-se um tratamento mais holístico e alinhado às necessidades físicas e psicológicas dos mesmos.
Introduction: Cell quantification in the cerebrospinal fluid (CSF) is a critical method for the diagnosis of subarachnoid bleeding, neuro-inflammatory and neoplastic pathologies. Despite the numerous technological advances in automatic hematology analyzers, CSF cell count is still a manual microscopy procedure in several clinical pathology laboratories and therefore a technique not only time-consuming but also labour-intensive, requiring experienced laboratory staff and with a high intra- and inter-operator variability. Methods: To assess the possibility of automating the CSF cell count, a comparative-descriptive study was conducted to validate and implement the method. A comparison between the manual CSF cell counts method (reference method) and the Alinity hq automatic analyzer was performed on 222 samples from the Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil. Data was analyzed statistically by Bland-Altman to determine the limits of agreement between both methods and the ability of Alinity hq (Abbott Laboratories, Diagnostics Division, Hematology, Santa Clara, CA, USA) to discriminate pathological samples (≥ 5 leucocytes/μL) from normal samples (< 5 leucocytes/μL). Results: Leucocytes demonstrated a mean difference between manual count and automatic count of – 2,0 leucocytes/μL and an agreement of [-30,18 to 26,18 leucocytes/μL]. For erythrocyte counts, we obtained a mean difference of -106,36 erythrocytes/μL and an agreement of [-934,64 to 721,96 erythrocytes/μL]. Conclusion: The CSF's low cellular content and the clinically accepted reference values imposed for the method are a hindrance to implementing automation in clinical practice.
Este artigo constitui uma revisão narrativa crítica, de natureza conceptual, que não pretende apresentar evidência empírica direta sobre a eficácia clínica da osteopatia, mas sim sintetizar e integrar contributos teóricos e empíricos emergentes para uma compreensão atualizada do potencial do cuidado osteopático nos sistemas de saúde contemporâneos. A saúde é hoje compreendida como um processo dinâmico, relacional e multiescalar, que transcende a visão biomédica redutora centrada exclusivamente na ausência de doença. Neste contexto, a osteopatia tem vindo a ser progressivamente redefinida como uma prática clínica ecológica e centrada na pessoa, orientada para a promoção da regulação adaptativa, da resiliência e da auto-organização dos sistemas vivos. Com base em avanços da ciência cognitiva — em particular no enativismo, no processamento preditivo e na inferência ativa —, bem como numa compreensão sistémica da inflamação crónica de baixo grau e nos dados emergentes sobre a modulação neuroendócrina-imunitária através do toque, argumenta-se que a osteopatia poderá ser compreendida não apenas como um conjunto de técnicas manuais, mas como um processo incorporado e relacional de co-regulação. Através do toque terapêutico, da aliança terapêutica e da construção partilhada de significado, sugere-se que o cuidado osteopático poderá modular processos interoceptivos, autonómicos, imunitários e afetivos, facilitando potencialmente a recalibração alostática e a atualização de modelos preditivos desadaptativos associados à dor persistente, à inflamação e às perturbações da saúde mental. Propõe-se, como hipótese teórica, que, quando integrada em redes de cuidados multidisciplinares, a osteopatia poderá contribuir para sistemas de saúde mais preventivos, integrativos e centrados na pessoa.