
Resumo A Guerra da Cisplatina (1825-1828) ocupou por muito tempo um lugar paradoxal na historiografia do Cone Sul. Apesar de seu profundo impacto sobre o Brasil, as Províncias Unidas do Rio da Prata e o surgimento do Uruguai independente, e a despeito da vasta literatura militar, diplomática e política dedicada ao tema, o conflito permaneceu relegado a uma posição secundária nas memórias nacionais, raramente integrado às narrativas de formação de cada país e marcado pela escassez de diálogo entre as historiografias nacionais. Este ensaio, centrado sobretudo na perspectiva brasileira e, em parte, na produção uruguaia, persegue três objetivos. Primeiro, mapear parte das contribuições de uma nova geração de historiadores, sem pretender cobrir toda a produção sobre o tema, mas destacando os trabalhos que considero mais generativos na renovação das perspectivas regionais e nacionais, atentos às práticas de recrutamento, à circulação de discursos políticos e ao papel da imprensa na conformação da cultura política. Segundo, analisar a guerra como ponto de ruptura nas redes comerciais transimperiais que estruturavam o espaço platino desde o período colonial, evidenciando o colapso do projeto Cisplatino e a desarticulação das conexões mercantis de Montevidéu, agravada pelo corso insurgente de Buenos Aires. Por fim, retomando a interpretação clássica de Spencer Leitman e os historiadores que recentemente avançam nessa direção, refletir sobre como os impasses socioeconômicos deixados pelo conflito alimentaram as tensões que culminaram na Guerra dos Farrapos (1835-1845).
Resumo O presente artigo tem como objetivo central discorrer sobre a historiografia das eleições, bem como sobre as primeiras instruções eleitorais para eleições a nível municipal do Brasil oitocentista. Para isso, o texto recorre a fontes de comunicação política, como queixas enviadas a autoridades provinciais, para demonstrar que a disputa eleitoral ocorria para além do momento eleitoral. Essas queixas, muitas vezes dirigidas contra autoridades eleitorais, revelam o exercício de cidadania e o uso de instrumentos peticionários na cultura do voto do Brasil Imperial. O estudo toma como base fontes da província de Minas Gerais para mostrar as práticas eleitorais no início do constitucionalismo brasileiro.
Resumen La Guerra da Cisplatina o Guerra del Brasil es un buen prisma para indagar las características de los contendientes. Lo que se propone en este ensayo es una breve comparación con base en la bibliografía especializada de algunos aspectos del Imperio brasileño y de las Provincias Unidas del Río de la Plata: sus diferentes sistemas de gobierno, sus rasgos esclavistas, sus dificultades militares y problemas económicos durante la guerra, sus procesos de centralización política y las oposiciones que generaron, la intervención popular en su escena política, el peso sobre ambos del Reino Unido y algunas cuestiones más. La mirada “en espejo” muestra más semejanzas que diferencias entre los dos en la década de 1820.
Resumo Este artigo realiza, sob o formato de um “parecer aberto”, uma avaliação crítica das contribuições de Ana Frega, Gabriel Di Meglio e Fabrício Prado ao Fórum “A Guerra da Cisplatina, 200 anos depois”, destacando as particularidades de cada uma e suas intersecções.
RESUMO Este trabalho buscou compreender a experiência dos trabalhadores do transporte em Salvador na segunda metade do século XIX, utilizando como fontes principais dois livros de matrículas. A análise focou em constituir o perfil social dos 713 trabalhadores matriculados. Além disso, foi possível observar a maneira como carroceiros e cocheiros desenvolveram relações sociais e de trabalho próprias no cotidiano das ruas de Salvador. Embora o carregamento de mercadorias fosse uma atividade dominada por carregadores africanos escravizados e libertos, o fim do tráfico de escravos, em 1850, impulsionou novas dinâmicas de trabalho e investimentos nas cidades. Isso levou a modificações na estrutura urbana, como o nivelamento e a ampliação das ruas para a circulação de veículos, como carros, carroças e bondes, que gradualmente transformaram o espaço urbano de Salvador ao longo do período estudado.
Resumo Celeste é um romance publicado em 1893, considerado naturalista e escrito pela gaúcha Maria Benedita Bormann, sob o pseudônimo de Délia. A narrativa tematiza a sexualidade feminina em um momento de silenciamento, negação e controle do sexo e do prazer das mulheres burguesas. A obra mobiliza explicações médicas e científicas para comportamentos humanos classificados e medicalizados à luz da ciência da época. Além disso, expõe o casamento como uma instituição social abominável que leva, inevitavelmente, à infelicidade das famílias. Nesse artigo, discutimos, a partir de um ponto de vista histórico e literário, como a sexualidade feminina e a questão do matrimônio são trabalhadas por uma escritora que parecia defender a legalização do divórcio ainda nos primeiros anos da Primeira República. A pesquisa tem por intuito analisar o romance a partir do seu momento de produção e do lugar social ocupado por sua autora. Para tanto, é utilizado como fonte de pesquisa o periódico A Notícia, no qual Bormann trabalhava como jornalista e publicou Celeste como folhetim, e com o qual seu romance dialogava em relação às notícias do mundo real, assim como ocorria com outros textos ficcionais. O conceito de interseccionalidade é utilizado para discutir a aproximação entre a sujeição e as violências de gênero e racial utilizadas como imagens retóricas na narrativa do romance e em outros textos com o qual dialoga.
Resumen El texto recoge las líneas presentadas en el Forum Almanack sobre la Guerra da Cisplatina/Guerra del Brasil. Está organizado en torno a un concepto clave -la soberanía- y su relación con proyectos de independencia y de unión, orden social, derechos de los pueblos y delimitación territorial. Todo ello en un marco regional e internacional complejo, conflictivo, interconectado y con un alto nivel de incertidumbre. El material documental, que incluye manuscritos, actas legislativas, impresos y cartografía, ha sido relevado a lo largo de varios años en repositorios de diferentes países o en archivos digitales. Para esta presentación se retoman trabajos de colegas y de mi autoría, así como algunos avances de una investigación en curso.
Resumen Durante las guerras napoleónicas, en el Perú gobernó entre 1806-1816 el virrey Frenando de Abascal. En ese periodo se presentaron varios conflictos bélicos que trastocaron el curso del comercio a distancia y como consecuencia el comercio interior del virreinato. Le tocó vivir la crisis de la monarquía española y el comienzo de las guerras de Independencia. Abascal fue un gran estadista y, en su afán de defender el imperio, adaptó las decisiones tomadas por la Junta Central, actuando prácticamente como soberano independiente, para lo cual contó con el apoyo indiscutido del Consulado de Lima. En este trabajo se verán las decisiones tomadas en el Perú frente al comercio neutral adoptado durante las guerras con Inglaterra y la Francia de Napoleón, así como también los aportes dados por el virreinato para sostener dichas guerras. Las fuentes utilizadas para esta presentación son los informes del Consulado de Comercio y la memoria de Gobierno del virr Abascal donde se presentan interesantes críticas a las decisiones tomadas por la Junta Central y a las autoridades virreinales y su postura frente a ellas. ¿Qué llevó a Abascal tomar medidas independientes a la Junta Central? ¿Por qué el Consulado de Lima tomó una posición similar y se presentó como el mejor aliado de Abascal? Estas son algunas de las preguntas que este texto busca responder.
RESUMO O artigo analisa um conjunto de sermões panegíricos e exequiais produzidos por frades da Província de Santo Antônio do Brasil na segunda metade do século XVIII, focalizando aqueles dedicados aos monarcas D. João V e D. José I. O principal problema abordado é a maneira como esses textos construíram uma teologia política da monarquia católica no espaço colonial luso-brasileiro, articulando retórica sacra e legitimação régia. A metodologia consistiu na análise textual e retórico-discursiva de peças homiléticas setecentistas, considerando sua estrutura, dispositivos de enunciação, uso de exempla e integração simbólica entre trono e altar. Os resultados mostram que os sermões exaltam o rei morto ou aclamam o novo soberano, além de reafirmarem a centralidade da Ordem franciscana como mediadora do pacto simbólico entre a Coroa e seus súditos. Em síntese, os textos analisados evidenciam uma sofisticada gramática da exaltação régia, combinando tradição homilética ibérica e contexto político-religioso colonial, o que leva a entender a retórica franciscana como importante instrumento de construção das culturas políticas vigentes no Brasil colonial em sua articulação com o reino.
Resumo Trabalhando a partir da História dos Conceitos, o objeto do texto é o vocabulário político da Revolução Farroupilha (1835-1845), com especial atenção aos usos e sentidos do conceito de América em vários de seus textos. As fontes, retiradas da Coleção Alfredo Varela, são essencialmente correspondências, proclamações, artigos de imprensa e outros documentos oficiais da República Rio-Grandense. Na análise, propusemos explorar a rede conceitual mais ampla na qual o vocábulo América estava inserido e investigar sua centralidade na definição que os rebeldes faziam de sua luta e do Império que passaram a combater. Defendemos que esse conceito, com uma destacada conotação política, carregava significados e contornos desenvolvidos anteriormente no mundo ibero-americano e permitia que os revoltosos se inserissem em uma cadeia de eventos iniciada com as revoluções de independência no continente. Nesse sentido, pudemos aferir que a experiência hispano-americana, em especial alguns eventos da história rio-platense, foi central para o desenvolvimento de um horizonte separatista e republicano no Rio Grande do Sul a partir da radicalização do levante iniciado em 1835.
Resumo Este artigo é um comentário ao texto de Marcus Carvalho em torno da Confederação do Equador. Escrito a partir da efeméride de seu centenário, este texto estabelece nexos e conexões entre o processo de independência ocorrido no Rio de Janeiro e os revolucionários em Pernambuco (1824) e no Pará (entre 1824 e 1835).
RESUMO De 1905 a 1910, Emília Moncorvo Bandeira de Mello, sob o pseudônimo Carmen Dolores, conduziu a seção “A Semana” do jornal carioca O Paiz. Comentando o noticiário dos dias anteriores, Dolores tomava como tema privilegiado os acontecimentos com “cheiro de sangue e de morte”. Suas crônicas inscreviam-se em uma conjuntura transnacional em que o crime se tornava objeto de consumo midiático, ganhando espaço de destaque nas páginas impressas. Tomando as representações sociais presentes nas crônicas em sua relação dialógica com a realidade social e o caráter generificado da atuação jornalística, este artigo analisa duas produções de Dolores que tratam sobre a relação entre mulheres e crimes. Por meio da análise intertextual dos documentos, identificaram-se os diálogos estabelecidos entre as crônicas de Dolores, outros discursos sobre o crime e os valores hegemônicos e contra hegemônicos do período sobre as relações de gênero. Os resultados evidenciam que a cronista defendia as instituições e valores tradicionais, como a família, o casamento e o pudor, mas a partir de uma perspectiva própria, desnudando as múltiplas violências que incidiam sobre as mulheres e defendendo um lugar mais equânime a estas na sociedade cariocal.
RESUMO As traduções de romances-folhetim franceses “ao gosto popular” marcaram a imprensa periódica e o mercado editorial portugueses da segunda metade do século XIX, disponibilizando estes textos a um público mais vasto. Publicadas quer em fascículos colecionáveis, quer no espaço reservado ao folhetim em jornais e revistas, estas obras apostavam em temáticas sensacionalistas, frequentemente abordando o crime, e em estratégias narrativas exploravam a emoção como estratégia para atrair e fidelizar leitores. Dentro do género, Xavier de Montépin foi um dos autores mais populares e traduzidos no período em estudo. Este artigo explora duas traduções publicadas em Portugal de um dos seus romances, Confessions d’un bohême (1849). A primeira tradução foi editada em fascículos, entre 1852- 1853, numa coleção económica ligada ao periódico literário lisboeta intitulado Galeria Litteraria. A segunda foi publicada entre 1880 e 1883 na seção do folhetim do Diario Illustrado, periódico lisboeta de grande circulação. Nos dois casos, a adequação aos formatos e suportes de difusão, bem como ao público a que se destinavam, determinou cortes ou amenização de passagens do original, evidenciando o papel do tradutor na mediação e no processo de apropriação do texto ao contexto cultural e aos leitores portugueses. A análise desses exemplos oferece novas perspectivas sobre o recurso ao sensacionalismo na imprensa periódica portuguesa da época.
Resumo Por meio da análise parcela da produção historiográfica recente, o artigo tem por objetivo apontar um pouco do que sabemos atualmente sobre a história da escola elementar no Brasil Império. Em termos metodológicos, no exercício de síntese historiográfica, a pesquisa empreende uma leitura “de fora para dentro” da relação histórica da escola primária imperial com a sociedade brasileira e seus diferentes sujeitos, procurando demarcar o que sabemos sobre o papel da escolarização elementar na formação da sociedade daquele período e o que a pesquisa histórica recente tem revelado sobre o funcionamento pedagógico dessa escola. Em linhas gerais, as conclusões a que a análise chegou apontam que a escola elementar tornou-se uma instituição social conhecida e reconhecida no Brasil Império, alvo de diferentes apropriações por parte do Estado e de determinados grupos sociais, e em que pese suas preocupações moralizantes, foi também espaço de iniciativas pedagógicas significativas no período.
RESUMO Fundado em 14 de setembro de 1920, mas acalentado por João do Rio desde 1919, quando as campanhas jacobinas se intensificavam no Brasil, A Pátria, que foi, inicialmente, concebido como Pátria luso-brasileira, diário a ser publicado simultaneamente nos dois lados do Atlântico, restou ser, no Brasil, nas palavras de seu diretor, o único protesto contra a onda lusófoba. E não seria com expediente diferente daquele com que o artista praticou sua literatura - a produção do chocante -, em formato capaz de provocar polêmica e transpor para o âmbito da política o sensacionalismo que desde muito envolvia o noticioso criminal, que João do Rio constituiria seu diário. O artigo, abordando o jornal como espaço cênico, em especial na sua estética discursiva e performativa, explora como a campanha desfechada contra a obrigatoriedade de nacionalização dos poveiros lhe permitiu efetuar uma luta política diária em prol da fraternidade latina e aproximação entre Portugal e Brasil.
Resumo Periférica em termos econômicos e demográficos ao longo da história colonial, a Amazônia passou por uma grande transformação durante a primeira onda de globalização (1850-1914). Graças à crescente demanda externa por borracha - que se tornara o segundo principal produto da pauta de exportação brasileira no final do século XIX -, a região passou a atrair capital e trabalhadores, a arrecadação dos governos crescia e suas metrópoles recebiam parte dos progressos que marcaram a Belle Époque. Por isso, causam surpresa ao leitor dos documentos da época as reiteradas críticas, feitas até mesmo pelos dirigentes das províncias do Pará e do Amazonas, às consequências perniciosas da atividade extrativista, com destaque para a superespecialização produtiva. Barbara Weinstein relaciona tais censuras a um conflito entre velhas e novas elites, hipótese que consideramos insuficiente para explicar o fenômeno. A partir da análise de documentos da época, mostramos que tanto a crítica quanto a defesa feitas ao setor estavam em linha com pontos pertinentes da teoria econômica, e que a prevalência de uma ou outra visão parece depender do contexto econômico atravessado pelas províncias.
RESUMO O objetivo deste texto é o de recontar e analisar a conjuntura particularmente dramática da relação entre o poder e a imprensa no tempo do governo do conselheiro regenerador-liberal João Franco (1906-1908), uma aposta pessoal do rei D. Carlos I no quadro da política portuguesa do início do século XX. A lógica partidária desse executivo, a sua pretendida obra reformista, a forma como rompeu com a elite monárquica tradicional e como afrontou a oposição dos republicanos levaram a imprensa de vários quadrantes ao paroxismo da linguagem acusatória contra o rei e o seu conselheiro. Perante uma opinião pública muito mais fragmentada do que em tempos anteriores, porque mais republicanizada, o rei D. Carlos I e os líderes partidários dos seus governos foram sujeitos a um inusitado escrutínio público, onde a linguagem e a imagem (títulos e textos jornalísticos, caricaturas e fotografias) atuaram para criar uma atmosfera acusatória emocional, de sensacionalismo, crítica política e assassinato de reputação, influindo nos acontecimentos e na visão percecionada do monarca e dos governantes, e obrigando estes ao dilema de procurarem captar a simpatia pública, em busca da popularidade, ou a defesa reputacional, em nome da autoridade.
Résumé Le rôle du Consulado de Cadix dans la construction de la situation monopolistique dont bénéficièrent ses membres au XVIIIe siècle au sein de la Carrera de Indias a déjà été largement mis en valeur dans l’historiographie de l’Atlantique hispanique. L’attitude qu’il adopta dans le contexte de la crise qui marqua les deux dernières décennies de la Carrera de Indias, est en revanche moins connue. Si son action décisive au sein de la Comisión de Reemplazo dans le financement de la lutte anti-indépendantiste a déjà été évoquée, les débats et les délibérations internes de la célèbre institution gaditane, tout autant que l’influence réelle que le Consulado continua à avoir dans la détermination de la politique impériale espagnole sont demeurées à ce jour insuffisamment étudiées. En mobilisant une documentation largement inédite issue de l’Archivo General de Indias (procès-verbaux des délibérations des assemblées du Consulado, pétitions, échanges épistolaires avec l’administration), la présente contribution permet de mettre en évidence l’existence du projet fondamentalement conservateur que défendit l’institution gaditane : jusqu’à la dernière heure, elle lutta en effet pour limiter au maximum la pénétration des intérêts étrangers au sein de la Carrera de Indias et pour rétablir le « monopole de fait » dont avaient bénéficié ses membres.
Resumo Este artigo tem como objetivo tratar do relato de viagem ao Brasil de Maria Graham, Journal of a voyage to Brazil, publicado em 1824, como uma tentativa da autora de construir um lugar de autoridade como historiadora, analista política e intelectual. No caso de Graham, a visita ao Brasil tem um interesse maior, na medida em que testemunha a formação de uma nova nação independente, como observadora direta e culta, que participa diretamente dessa construção por meio de suas relações com Lorde Cochrane e os imperadores. Por meio da experiência direta e interna ao processo de independência, de uma diminuição dos luso-brasileiros e da colônia britânica no Brasil, Graham supera seus limites de classe e gênero, apresentando-se como uma observadora competente e uma agente cultural e política no processo de independência do Brasil.