
Em 1983, Ana Cristina Cesar fora convidada para falar de sua escrita aos alunos do curso Literatura de Mulheres no Brasil, ministrado por Beatriz Resende. Na ocasião, a poeta sugeriu uma relação entre três significantes: alegria, literatura feminina e uma coisa que escapa. Para retomar esse fio de pensamento deixado por Ana C., pretendemos investigar a alegria como uma questão feminina na literatura. Como amparo teórico e crítico, detemo-nos, especialmente, em O que é escrita feminina (2024) e Escreviver (2025), ambos de Lucia Castello Branco, numa leitura que intersecciona as teorias literária e psicanalítica. Nesse percurso, recorremos também às considerações filosóficas sobre a alegria propostas por Clément Rosset (2000); às discussões sobre a presença da alegria na cultura brasileira, em diálogo com pesquisadores como Italo Moriconi (2002), Antonio Candido (2006), Pedro Duarte (2013), Beatriz Vieira (2022) e Heloisa Teixeira (1981, 2021); à reflexão sobre a lacuna e/ou o endereçamento no texto de Ana Cristina Cesar, elaborada por Annita Costa Malufe (2018) e Marcos Siscar (2023); e, por fim, aos destinos de um texto, em companhia de escritores como Roland Barthes (2005, 2012) e Maria Gabriela Llansol (2016). Por meio dessa prosa, vejamos como a alegria pode, femininamente, escapar e avançar.
Se todo texto demanda, de seu leitor, a implicação de seu reconhecimento como destinatário (Siscar, 2025), a marginalia (anotações nas margens e espaços em branco nos livros, como discutida por Jackson, 2001) será uma das primeiras formas de escritas da resposta. Sendo a obra de Ana Cristina Cesar importante exemplo tanto do diálogo com a tradição literária, quanto do endereçamento poético e da relação com o interlocutor, interessa ao presente estudo investigar a forma como uma jovem Ana Cristina responde às obras de Clarice Lispector por ela lidas, e cuja prolífica marginália consta na sua biblioteca pessoal custodiada pelo Instituto Moreira Salles. Além de lançar luz sobre a formação de Cesar enquanto leitora, escritora e crítica, esse objeto, pontuado pela reação entusiasmada e elogiosa do texto original, mas também pela resposta discordante ou irônica, permite refletir sobre o endereçamento e o exercício de interlocução, investigando a instabilidade da relação entre “eu” e “o outro” em uma produção textual que, baseando-se no diálogo por excelência, aproxima tempos (Culler, 2015; Lopez, 2007), e desafia limites entre o texto próprio e alheio.
This article analyzes the poem “Esse rio depois,” by Edimilson de Almeida Pereira, in dialogue with the poetics of Paul Celan, taking as its theoretical axis the notion of a poetics of response. It advances the hypothesis that Pereira’s poem not only pays homage to Celan but also inscribes itself within a responsive logic that reactivates, in the present, the ethical and political dimensions of Celan’s poetry. The reading draws on contributions by Walter Benjamin, Georges Didi-Huberman, Jean-Luc Nancy, and Giorgio Agamben, among others, in order to examine how memory, survival, and language configure a poetic practice grounded in responsibility before history.
O presente artigo analisa textos de Paul Celan (1920-1970) da perspectiva de seu direcionamento ao real e ao outro. Divide-se em duas partes: a primeira trata do chamado “Discurso de Bremen” [Bremer-Rede] (1958), olhado no contexto de outras reflexões desenvolvidas nos anos 1950 em língua alemã; a segunda, de poemas do livro Ar-reverso [Atemwende] (1967), observando em especial seu caráter poetológico e procurando discutir em que sentido a poesia de Celan pode ser compreendida como uma escrita da resposta. Em Celan, a formulação de uma ideia dialógica de poesia, longe de se colocar como abstração teórica, surge da necessidade de inquirir a – e responder à – história da Shoah.
Esse artigo explora a escrita como um espaço de invenção e resposta diante do outro, fundamentando-se no pensamento de Jacques Derrida. A análise se inicia associando o mito de Psiquê ao conceito de luto, que o filósofo descreve como o limite da reapropriação narcísica. Nesse sentido, exploro a ideia de invenção não como uma criação subjetiva, porém como uma desordem que interrompe a mesmidade e permite que o inesperado aconteça. O texto ainda investiga a gênese da desconstrução, notando que, antes de consolidar o termo, Derrida utilizava a palavra latina “solicitação” [sollicitare], numa operação que não visava à aniquilação, mas sim à inquietação da estrutura para revelar suas fragilidades e os estratos que a compõem. Nesse contexto, a escrita emerge como o verdadeiro método derridiano, uma aventura do olhar que lida com o objeto insólito da literatura através da lógica do rastro [trace], que se esquiva da presença plena. Como modo de articulação entre filosofia e literatura, tomo a via de Flaubert, que manipula ideias prontas para esvaziar conteúdos metafísicos, e Hawad, cuja furigrafia representa uma escrita de fúria e resistência, ao pulverizar a sintaxe colonial e a memória fixada, propondo um movimento nômade de repetição e transe que libera o sujeito de limites impostos. Por fim, a escrita é definida como uma passagem ao outro e uma descida para fora de si, isto é, como uma resposta. Escrever é habitar uma ferida e aceitar a errância, compreendendo que o sentido não precede o ato de grafar, mas nasce ao diferir de si mesmo no deserto da linguagem. Assim, a escrita exige uma exposição ao risco e à fúria para desestabilizar totalidades e acolher a vinda do outro.