
A trombose venosa dos seios cerebrais (TVSC) é uma causa rara de AVC, geralmente com sinais neurológicos inespecíficos, manifestando-se, ocasionalmente, por sintomas psiquiátricos isolados. Uma mulher de 28 anos sem história psiquiátrica prévia, apresentou com dois episódios de psicose aguda após TVSC. No primeiro, durante uma viagem à Tailândia desenvolveu um quadro de irritabilidade, delírios e insónia com estudo inicial normal. A RM revelou trombose da veia cortical parietal esquerda. Iniciou anticoagulação subcutânea e antipsicóticos, com resolução gradual. Quatro anos depois, após voo para a Madeira, desenvolve nova psicose aguda, sem outros défices neurológicos; a RM confirmou trombose extensa do seio lateral esquerdo e veia jugular interna. Excluíram-se causas infeciosas, autoimunes e neoplásicas. O estudo de trombofilias mostrou fator VIII elevado e variantes em SERPINE1 e na protrombina. A TVSC pode apresentar-se exclusivamente como psicose, sem défices focais, sendo a neuroimagem precoce crucial para o diagnóstico e tratamento eficazes.
O conhecimento acerca do trauma, nomeadamente da sua relação com a psicose, tem sido objeto de estudo intensivo nos tempos recentes. Com o objetivo de apresentar o estado da arte sobre a interação entre trauma e psicose, realizou-se uma revisão narrativa da literatura sobre o tema, procedendo-se a uma subsequente análise crítica dos construtos fenotípicos que se crê serem marcadores de risco ou intermediários na relação bidirecional entre trauma e psicose. Eventos e perturbações traumáticas são frequentemente reportados em indivíduos com psicose, podendo as duas condições estabelecer-se segundo quatro tipos de relação: psicose como resultado de experiências traumáticas; perturbação de stress pós-traumático (PSPT) pós-psicótica; psicose como uma dimensão da PSPT; e PSPT e psicose comórbidas. A interação entre trauma e psicose supõe-se mediada através de disfunções nos domínios cognitivo, emocional, socioambiental e neurobiológico. O conhecimento aprofundado da complexa interação entre trauma e psicose permitirá aos serviços de saúde mental desenvolverem estratégias preventivas e terapêuticas mais dirigidas.
O consumo recreativo de óxido nítrico (N2O) tem aumentado de forma preocupante. Apesar da sua toxicidade hematológica/neurológica estar bem documentada, os efeitos psiquiátricos permanecem subvalorizados. A exposição crónica ou em altas doses pode causar défice de vitamina B12, potenciando estas manifestações. Apresentamos o caso de um homem de 27 anos, com consumo recente de N2O, internado por primeiro episódio psicótico. Os exames laboratoriais revelaram défice de vitamina B12 e ácido fólico. O tratamento com antipsicótico e suplementação possibilitou a completa remissão de sintomas. A determinação de um diagnóstico formal aquando de um primeiro episódio psicótico constitui um desafio clínico. Este caso evidencia o potencial do N2O para desencadear quadros psicóticos, sobretudo em indivíduos vulneráveis. Face ao aumento do consumo recreativo, é essencial definir estratégias de saúde pública e promover a formação dos clínicos para diagnóstico precoce e intervenção eficaz.
Introdução: A esquizofrenia está associada a sofrimento psicológico, défices funcionais e redução da qualidade de vida. Terapias baseadas na compaixão, como o programa Compassionate Approach to Schizophrenia and Schizoaffective Disorder (COMPASS), têm sido propostas como intervenções complementares para promover a recuperação psicossocial. Este estudo explorou as experiências de pessoas com esquizofrenia que participaram no programa COMPASS, avaliando a viabilidade, aceitabilidade e o impacto percebido no bem-estar emocional, sintomas clínicos, funcionamento, relações sociais e qualidade de vida. Métodos: Foi realizado um estudo de intervenção com análise qualitativa. Dezasseis utentes com esquizofrenia foram convidados a participar, dos quais nove completaram o programa. As sessões combinaram psicoeducação, treino de mente compassiva e práticas de mindfulness. Após a intervenção, os participantes foram entrevistados com base num guião semiestruturado, sobre a experiência geral e o impacto percebido da terapia. As entrevistas foram gravadas, transcritas e submetidas a análise temática. A assiduidade e taxa de desistência complementaram a avaliação da viabilidade. Resultados: A taxa de desistência foi de 43,8%, ocorrendo sobretudo nas primeiras semanas. Entre os nove participantes que concluíram o programa, a assiduidade média foi elevada (91,7%). A análise temática revelou seis eixos principais: (1) bem-estar e regulação emocional, (2) impacto nos sintomas de esquizofrenia, (3) impacto nas relações sociais, (4) mudanças funcionais e qualidade de vida, (5) aspetos valorizados na terapia e (6) experiência global de participação. A maioria dos participantes relatou maior tranquilidade, redução da ansiedade, aumento da compaixão, melhoria nas relações e na qualidade de vida. Dois participantes relataram redução de alucinações auditivas e de ideias paranoides. O formato grupal, a psicoeducação e as práticas experienciais foram destacados como elementos valorizados. As principais dificuldades incluíram ansiedade inicial, dificuldades de concentração e assimetria na participação. Também foram exploradas sugestões dos participantes sobre a intervenção. Conclusão: Os resultados sugerem que o programa COMPASS é uma intervenção complementar promissora para a recuperação psicossocial na esquizofrenia, com elevada aceitabilidade. O programa parece promover o bem-estar emocional, melhorar competências relacionais e a qualidade de vida e, em menor grau, reduzir a sintomatologia psicótica. Estudos adicionais são necessários para clarificar a eficácia e otimizar a implementação do programa.