Este artigo apresenta um protocolo de análise paleográfica computacional aplicado ao Códice 69, manuscrito setecentista que reúne uma gramática e um dicionário da Língua Geral Amazônica. A proposta parte de uma premissa simples, mas decisiva: antes de descrever a língua, é preciso compreender o gesto que a fixa no papel. Combinando observação paleográfica tradicional e procedimentos de visão computacional em Python, mensuramos traços como inclinação, módulo, espessura, espaçamento e ligaduras. O tratamento quantitativo desses dados — sempre acompanhado de validação filológica — permitiu distinguir dois scriptores e associar seus padrões gráficos a formações caligráficas distintas. Ao demonstrar que características tradicionalmente atribuídas à “sensibilidade do olhar” podem ser formalizadas sem reduzir a complexidade do manuscrito, argumentamos que a Paleografia Digital não automatiza a leitura: ela a torna demonstrável. O método reforça a necessidade de controlar variáveis materiais na constituição de corpora históricos, especialmente no contexto missionário amazônico, em que a escrita é também um espaço de contato cultural.