
A partir da análise de documentos oficiais, identificamos a noção de segurança como elemento central na caracterização da ditadura empresarial-militar. Observando as concepções e exigências postas por proprietários rurais, técnicos burocráticos e militares, distinguimos os sentidos de classe e raça da ditadura e seu projeto autocrático e paternalista de desenvolvimento historicamente colonial e branco. PALAVRAS-CHAVE: segurança; propriedade privada; questão agrária; capitalismo racial; ditadura empresarial-militar.
O presente ensaio visa detalhar procedimentos de transitivismo metodológico em ciências humanas. A partir do recurso feito à psicanálise por Lélia Gonzalez nas ciências sociais, defende-se que processos de marcação social da diferença, como o racismo e o sexismo, devem ser analisados por meio da superação de fronteiras teórico-metodológicas entre disciplinas.
Na entrevista, Gabriel Feltran discute sua trajetória e a violência como cerne da política. A partir de etnografias nas periferias de São Paulo, ele conceitua o “mundo do crime” e o PCC como regimes de poder autônomos que desafiam o monopólio estatal, refletindo sobre a falência do projeto democrático e a ascensão de reações totalitárias.
Este artigo analisa a transformação da filantropia brasileira em termos da passagem de uma lógica de projeto para outra de política. Argumenta-se como o sentido atual promove os saberes especializados da microeconomia aplicada e dos consultores estratégicos, deixando de lado os modos de conhecimento e de ação que haviam apostado nos “projetos comunitários” e no horizonte do “fortalecimento da sociedade civil”.
O artigo oferece uma discussão teórica interdisciplinar do conceito de aspiração, considerando estudos das áreas da psicologia, sociologia e economia e refletindo sobre sua importância para as ciências sociais e aplicadas. Ao levar em conta tanto os fatores internos como externos de sua formação, apresenta a aspiração como um conceito amplo para a análise de temas que envolvem o desenvolvimento humano.
O artigo analisa os limites das teorias democráticas que buscam interpretar os efeitos da digitalização sob uma ótica teórica e normativa. Defende que perspectivas deliberativas e agonistas são restritas,impedindo diagnósticos políticos e sociais mais complexos do problema.Assim,propõe uma visão ampliada da digitalização e sua relação com a teoria democrática, sugerindo uma agenda de pesquisa mais abrangente. Palavras-chave: esfera pública; teoria política; deliberação; agonismo; digitalização
O estudo analisa as recomendações do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura do Rio de Janeiro (MEPCT/RJ), principal órgão da política de prevenção à tortura no estado e pioneiro no Brasil, e revela os desafios em sua elaboração, articulação e monitoramento. Apesar de seu potencial comoferramenta estratégica, a efetividade do MEPCT é limitada por falhas internas e fatores externos,como falta de recursos e vontade política.
O artigo investiga o extremismo de direita nos Estados Unidos a partir da categoria de “economia moral”. Argumenta-se que dinâmicas de radicalização não podem ser reduzidas a patologias sociais nem a escolhas racionais,mas devem ser compreendidas como reações morais de grupos historicamente privilegiados diante da contestação de hierarquias sociais. A análise ilumina a relação entre autoritarismo, violência e crise democrática.
A financeirização sempre esteve ausente do debate público do ponto de vista do setor estatal. Este artigo discute o relatório do Senado da França Financiarisation de l’offre de soins: une opa sur la santé?, de 2024, que quebrou esse silêncio. Por meio de análise documental, o estudo de caso rastreou a interpretação dos legisladores franceses sobre o fenômeno e seus possíveis impactos na implementação de uma Política Nacional de Cuidados no Brasil.
O artigo discute as assessorias técnicas e os mutirões em São Paulo, compilando aportes elaborados por profissionais que fizeram parte dessas ações e apontando a centralidade paulista como gênese para tais práticas. Propõe-se a construção de uma “montagem genealógica” latino-americana que conecte a produção paulista a outros eventos, inserindo-a em um campo historiográfico abrangente e enriquecendo a prática e crítica dessas ações.
Proponho reflexão sobre as principais características dos agentes protagonistas da criação e do desenvolvimento do Instituto Moreira Salles, em Poços de Caldas, entre 1989 e 1995, analisados sobretudo como grupo de intelectuais e conhecidos mineiros, bastante experientes no período da redemocratização do país.
Este artigo aborda a “Apresentação” da revista Les Temps Modernes, manifesto no qual Sartre expõe o essencial de suas teses sobre a função intelectual e o sentido político do ato de escrever. Trata-se de verificar como essas teses ganham corpo no entrecruzamento dos pressupostos filosóficos do autor com os impasses de sua época. O objetivo é reconstruir um momento-chave das origens intelectuais da noção de engajamento.
Este artigo analisa a política de Estado do salário mínimo (SM) desde 1994, e seus impactos sobre a remuneração do trabalho. Baseado na teoria da determinação dos salários, investiga a influência do SM sobre os estratos de renda. Conclui haver forte correlação com a renda abaixo da mediana, evidenciando limitada efetividade da negociação coletiva e da barganha individual sob as garantias constitucionais de liberdade sindical.
A ideia de “lugar de fala” tem sido muito presente no debate público brasileiro por pelo menos dez anos, e em 2017 Djamila Ribeiro escreve Lugar de fala buscando definir o conceito. Este artigo visa apresentar tal tentativa, apontando inconsistências e problemas, para então, apoiado nos trabalhos de autoras como Collins, Young, Benhabib e Spivak, apresentar uma crítica aos desdobramentos políticos e teóricos da ideia de “lugar de fala”.
Este artigo analisa a trajetória das concepções católicas sobre gênero, feminismo e maternidade, da formulação teológica pelo magistério católico à sua defesa no mundo secular. Examina o desenvolvimento dessas ideias na teologia e como autores de outras áreas, especialmente do direito e da filosofia, lhes atribuem embasamento acadêmico e científico.
Entre as décadas de 1990 e 2000, certa estrutura de oportunidade política ensejou o protagonismo do movimento Pré-Vestibular para Negros e Carentes - PVNC na “batalha” pelas cotas na UERJ. A análise de fontes orais e escritas buscou demonstrar que a atuação do PVNC, juntamente a outros PréVestibulares Populares e organizações do Movimento Negro, foi crucial para a institucionalização de ações afirmativas no acesso ao ensino superior no Brasil.
Conheci o professor Luiz Antonio Machado da Silva em abril de 2005 no Instituto de Estudos da Religião, em um seminário sobre lideranças de favela. Estávamos próximos e participávamos do debate. Sem muita cerimônia, fui trocando com ele algumas ideias sobre o governo de Leonel Brizola. É possível dizer que aquela interação foi muito distinta da relação tensa da minha seleção para o doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) um ano antes. O melhor de tudo, em minha avaliação sulista, foi vê-lo sair do seminário para ter tempo de assistir ao jogo do Fluminense naquela noite. Ao longo daquele ano, eu me tornei sua orientanda e dei início às leituras de Luc Boltanski, Bruno Latour, Veena Das e teóricos que ganhavam a atenção de Machado em suas inquietações sobre o mundo social, conflito, sofrimento, ordem e a temática urbana naquele momento...>
O artigo faz uma leitura combinada de Sérgio Ferro e David Harvey sobre a produção capitalista do espaço. Ambos iluminam aspectos cruciais da reprodução e circulação do capital no ambiente construído e formulam horizontes emancipatórios que envolvem arte, trabalho livre, imaginação e ecologia. Em diálogo, suas formulações críticas têm muito a oferecer, especialmente aos interessados na teoria crítica que articula o canteiro de obras e o urbano.
Considerando a censura ao livro Religião e conflito, apresentarei algumas das estratégias da extrema direita para definir suas pautas, como o lawfare para impedir a publicização de pesquisas, e seus impactos na produção de conhecimento acadêmico. Isso será feito a partir da discussão sobre exigências metodológicas da antropologia e suas implicações na formação da ideia de que antropólogas sempre defendem as populações pesquisadas.
O massacre do Carandiru é chaga aberta na história da democracia brasileira. Ainda que seja emblemático da violência de Estado, esta pesquisa revela que a desativação dos pavilhões da Casa de Detenção não se inicia com este evento histórico. Reconstruímos o conjunto nada linear de propostas de desativação, cuja origem remonta ao menos a 1965. A partir de uma lente de análise que combina política prisional e espaço urbano, mostramos como as propostas equiparam desativar a demolir.