
Olhando para a forma como as sociedades relembram a sua história vemos muitas das vezes refletida a perpetuação da narrativa de vencedores e a obliteração da história dos vencidos, aqueles que ficaram na e à margem da História, nas periferias da memória. A opressão existe também em forma de memória coletiva ou da falta dela. O caso dos assassinatos em massa na Indonésia entre 1965 e 1966 é um destes exemplos, em que a memória oficial escolheu suprimir as vítimas e com elas, a possibilidade de reparação coletiva. O presente artigo procura analisar neste contexto a obra cinematográfica de Joshua Oppenheimer composta pelo díptico O Ato de Matar (The Act of Killing, 2012) e O Olhar do Silêncio (The Look of Silence, 2014), identificando e observando de que forma pode o cinema documental, através da criação autoral engajada, provocar e convocar a discussão sobre o que escolhemos lembrar e esquecer, e qual o papel do poder das instituições nessa escolha que molda vidas e sociedades, tantas vezes envoltas em trauma, injustiça ou opressão
El propósito de este artículo es discernir el marco de colaboraciones e influencias recíprocas producidas en escenarios políticos y culturales muy similares. La popularidad de Cineclub Universitario del Sindicato Español Universitario de Salamanca y de los proyectos llevados a cabo por este, le pusieron en contacto con algunos homólogos portugueses, como el Club Português de Cinematografía/Cine-Clube do Porto (Cpc-CCP). Algunos cineclubs se convirtieron en un foco de intercambio y de oposición cultural, ideológica e intelectual a sus respectivos regímenes. Esto, a través de las cualidades sociales del cine en contextos donde era prácticamente imposible acceder a obras cinematográficas y bibliográficas al margen de los circuitos oficiales. Estos contactos se iniciaron gracias a la actividad cultural y política de José Francisco Aranda en Portugal y a las revistas Objetivo y Cinema Universitario
An Atonal Cinema critically examines Palestinian cinema through Edward Said’s contrapuntal method and the concept of musical atonality. Surveying films by various directors, White demonstrates how Palestinian filmmakers use innovative aesthetics as a form of political resistance, challenging dominant narratives in their exploration of memory, identity, and displacement.
Editorial do número 1 do volume 13 da Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento.
A entrevista com Renée Nader Messora e João Salaviza revela a profundidade da relação entre o casal de cineastas e o povo Krahô, com quem trabalham há mais de uma década. O encontro entre ambos e a comunidade indígena da Amazónia Brasileira transformou-se num compromisso de vida e numa prática cinematográfica fundada na convivência, na amizade e na partilha de mundos. O cinema, para eles, é menos um instrumento de registo do real do que um espaço de relação — um “manejo” da realidade que espelha o próprio modo de existir dos Krahô: antiextrativista, coletivo e em permanente diálogo entre humanos, não humanos e espíritos. Messora e Salaviza recusam os rótulos de ficção e documentário, entendendo o seu trabalho como uma forma de tradução sensível de um mundo em que corpo e paisagem, vida e morte, estão em continuidade. Filmes como Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018) e A Flor do Buriti (2023) emergem de processos colaborativos longos, onde a narrativa nasce do quotidiano da comunidade e das suas memórias partilhadas. Nesta entrevista, os realizadores refletem também sobre o próximo projeto, Awkê, que explora a invenção mítica do “homem branco” segundo os Krahô, articulando a colonização com o presente. Ao longo das próximas páginas, evidencia-se uma ética estética fundada na reciprocidade, onde o cinema se torna ferramenta de pensamento e de resistência — um espaço de tradução entre mundos e de reconfiguração das formas de narrar e habitar o sensível.
En Sudamérica, los procesos de transición a la democracia de los años ochenta incluyeron componentes de regulación, vigilancia, control y censura estatal sobre la sociedad civil y sus producciones culturales. Estas políticas fueron un fenómeno compartido por varios países que contaban con antecedentes históricos comunes en las experiencias de las dictaduras militares de las décadas del 60 y 70. Particularmente, el Estado argentino se concentró en perfilar a través de diversas acciones de control los límites del fenómeno conocido como el destape, que se caracterizó por un predominio de mujeres desnudas o en poses sexuales y por los usos atrevidos del cuerpo en revistas, televisión y el cine. Sin embargo, en la Argentina existe una imagen en la que se asocia la caída del último gobierno militar y la transición democrática con la ausencia de autoritarismo y una apertura ilimitada de libertades. El objetivo de este artículo se centra en interrogar las formas en que, con el retorno al orden constitucional y en el marco de un Estado que ejercía plenamente su capacidad de control, el cine argentino desarrolló espacios de visibilidad crecientes para el erotismo, en particular lo que en la actualidad se refiere a las diversidades sexuales.
Este artigo observa como o ambiente pode ser usado como ferramenta poético-discursiva capaz de discutir o tema da transformação enquanto experiência de morte. Para isso, analisa o filme Aniquilação (2018) de Alex Garland a partir de um comentário sobre os usos que o autor dá ao espaço abandonado para criar o que Sarah Al Shrbaji designa de espaço liminar (2020), o que torna essas zonas fora da normalidade em agentes transformadores dos indivíduos que entram neles. Isso é feito a partir das lentes usada no filme, da ficção científica e do horror corpóreo, usando o estranhamento em relação ao ambiente e a si mesmo para fazer paralelos entre arruinamento e degeneração. Essas relações servem no filme como tensões entre o eu e o outro, internalidade e externalidade e finalmente alteridade e transformação. Para consolidar essa hipótese faz-se também paralelos outras obras que compartilham temas e influenciaram na produção deste filme, além das perspectivas propostas em Morte e Alteridade (2020) de Byung-Chul Han, assim como os usos de espaço enquanto poética de Gaston Bachelard (1993)
A partir da análise de recortes extraídos de algumas edições da revista Écrans d’Afrique/African Screen, o objetivo do presente artigo é observar como textos críticos relacionados à cobertura de festivais europeus, particularmente do Festival de Cannes, permitem acessar um mapeamento histórico de quais filmes realizados por cineastas africanos circularam pelo festival e também analisar a forma como uma revista de cinema africana avalia os critérios utilizados no processo de curadoria de um festival de cinema europeu. Partindo da concepção de Janet Staiger (1992, 2000, 2005) acerca do texto crítico como uma rica fonte histórica, percebe-se que a crítica cinematográfica apresentada na publicação tem um caráter relevante para os cinemas africanos tanto para os seus agentes imediatos quanto, sobretudo, para a composição de mudanças e continuidades nas interpretações históricas desses cinemas, ao oferecer uma perspectiva distinta daquela oferecida pela crítica especializada europeia.
Este dossier propõe uma reflexão crítica sobre o conceito de periferia, enquanto categoria espacial ou geográfica e como um processo dinâmico, relacional e multidimensional. Partindo do questionamento das leituras que opõem centro e periferia segundo lógicas de distância, privação e subordinação, a periferia é enquadrada como espaço material e simbólico produzido por relações de poder, dinâmicas capitalistas e práticas sociais, culturais e estéticas de resistência. Ao mobilizar contributos da geografia crítica, da sociologia urbana e dos estudos culturais, defende-se a distinção entre periferia geográfica e periferização enquanto processo histórico e político que pode decorrer em zonas remotas e no interior de territórios centrais. O dossier destaca, também, a produtividade social, cultural e epistemológica das periferias, sublinhando o seu papel enquanto espaço de inovação, de cidadanias insurgentes e de produção de conhecimento. Neste contexto, a paisagem, enquanto dispositivo relacional que condensa temporalidades, regimes de visibilidade e práticas espaciais, permite compreender como os territórios periféricos são vividos, disputados e representados. Medium de representação e prática geradora de espaço, de memória e de pensamento crítico, o cinema ocupa, naturalmente, um lugar central nesta abordagem. Ao analisar filmes e cinematografias provenientes de diferentes contextos geográficos e históricos, os ensaios aqui reunidos questionam estéticas contra-hegemónicas e formas de resistência simbólica. Assim, “Espaços Periféricos” confirma a periferia como lugar epistemológico e o cinema como ferramenta crítica capaz de desestabilizar hierarquias, questionar imaginários dominantes e reconfigurar os modos de ver e pensar o mundo contemporâneo.
Imagens Paralelas: Planos Americanos é um livro coletivo que expande o conceito de citação cinematográfica à relação entre o cinema americano e outras cinematografias do mundo e formatos audiovisuais. Esta herança multicultural do cinema contribui para a renovação da estética cinematográfica e para a criação de obras por novos autores.
A exposição Efforts of Nature IV do artista visual Morgan Quaintance, apresentada na Solar – Galeria de Arte Cinemática, aquando da 32ª edição do Curtas Vila do Conde, é a quarta de uma série de seis exposições em torno do filme Efforts of Nature (2023).
Pensar em um cinema queer é refletir sobre como o audiovisual pode contribuir para uma proposta antinormativa de gênero e sexualidade. Partindo da noção de que uma série de filmes contemporâneos tem concretizado esse propósito por meio da encenação de um ato de criação queer (Silva 2021), este artigo busca identificar esse ato no longa-metragem brasileiro Tatuagem (Hilton Lacerda 2013). Por meio da teatralidade das performances musicais, cômicas e melodramáticas encenadas pelos personagens da trama a partir de um ponto de vista periférico e marginal, o filme desestabiliza e ressignifica o contexto histórico, político e geográfico ao seu redor, queerizando a resistência à ditadura civil-militar brasileira. Com base nessa leitura, a análise examina como o cineasta Hilton Lacerda usa isso para desestabilizar a própria mise-en-scène cinematográfica por meio do teatral: evidenciar o cinema como encenação historicamente heteronormativa, que pode ser também queerizada. Para isso, o artigo busca compreender como esse uso da teatralidade se aproxima ou não do camp – e em que medida Tatuagem propõe sua própria versão, geográfica e historicamente localizada, do termo. A partir da revisão teórica de alguns/mas dos/as autores/as que se debruçaram sobre o estudo do camp, contrapostos a depoimentos colhidos em entrevista feita ao realizador, a investigação interroga até que ponto o filme se apropria das estratégias apontadas por esses/as teóricos/as, ou as reinventa e desconstrói, oferecendo como alternativa o deboche, procedimento mais próximo da tradição artística e cinematográfica brasileira
Neste ensaio propõe-se uma leitura crítica do filme Still Life (2006), de Jia Zhangke, a partir das representações do arruinamento no contexto das rápidas transformações provocadas pela abertura econômica da China. Associado à sexta geração do cinema chinês, Zhangke detém-se sobre espaços e sujeitos marginalizados pela modernização, revelando as contradições geradas pela globalização nas paisagens milenares e no tecido social do país. Ambientado na antiga Fengjie, cidade demolida e submersa pela construção da barragem das Três Gargantas, o filme desenvolve-se em torno de jornadas pessoais que atravessam um território em dissolução. Articulando teorias do cinema, do espaço e da memória, o ensaio analisa as múltiplas configurações do arruinamento na obra — materiais, sociais, simbólicas e subjetivas — por meio de conceitos como ruína, escombro, arruinamento, memória espacial, solastalgia e heterotopia. Destaca-se o modo como a prática cinematográfica de Zhangke conjuga urgência e lentidão: uma aproximação realista de registro do desaparecimento que dilata o tempo e resiste à temporalidade espetacular do capitalismo global, exibindo seus efeitos nefastos. Ao examinar o engajamento corporal dos personagens com os espaços arruinados, a análise investiga como a demolição, o deslocamento e a perda reconfiguram a experiência espacial individual e coletiva. O ensaio aborda ainda a natureza heterotópica dos lugares transitórios no filme, onde a vida cotidiana e o apagamento coexistem, criando zonas temporárias para o improviso de práticas espaciais alternativas. Ao justapor documentário, ficção e momentos de ruptura fantástica, Still Life oferece não somente uma representação da destruição, mas também uma meditação sobre a memória, a persistência e a sobrevida de lugares rompidos. O filme afirma-se, assim, como uma resposta crítica à violência do modelo dominante de desenvolvimento, reivindicando a lentidão como ferramenta para repensar o espaço, a noção de progresso e a subjetividade sob condições de acelerada transformação da paisagem.
Desde a década de 1980, as cinematografias indígenas de Abya Yala vêm se consolidando no cenário audiovisual, nas instituições acadêmicas e nas comunidades, com suas redes de comunicadores, núcleos de produção e escolas de comunicação. A partir dos estudos de cinema, históricos e antropológicos, da perspectiva de intelectuais e cosmologias indígenas, conjugando com o trabalho de análise das imagens, sistematizamos cenários do campo epistemológico (apagamento/(re)afirmação), das denominações (adoção/reversão) e dos estereótipos coloniais (redução, especialização, naturalização). Neste texto analisamos perspectivas fílmicas contracolonizadoras Mapuches (Jeannette Paillán, Gerardo Berrocal, Juan Rain, Adkimvn), que, problematizando os regimes visuais, combatem o colonialismo permanente, apresentando outras versões e variáveis históricas.
Ursula Franklin’s delineation of “holistic” and “prescriptive” modes of technology offers a useful lens for viewing cinematic methods of artistic research. As new cinematic tools become available to researchers, artistic autonomy can be impacted by the weight of media infrastructures, which often assign tasks to their users, rendering user behaviours as the outputs of technological systems. A suggested strategy for researchers is to adopt “self-reflexivity” as an inherent aspect of cinematic research methodologies, thereby embedding critical attitudes towards new-media technological environments.
Este dossier temático da revista Aniki aborda os desafios metodológicos e conceptuais colocados à Arts-Based Research no campo das artes cinemáticas. Este tipo de investigação, ainda em consolidação, cruza artes, ciências e humanidades, propondo uma ecologia de práticas que valorizem a criação como forma de conhecimento. A investigação baseada na prática artística desafia as normas académicas tradicionais ao propor métodos híbridos, interdisciplinares e especulativos, ampliando o alcance epistemológico e estético da pesquisa. O dossier reúne cinco artigos selecionados entre diversas propostas, evidenciando o impacto sociocultural das práticas artísticas no audiovisual. Júlia Rodrigues analisa o filme A Media Voz (2019), de Heidi Hassan e Patricia Pérez, como uma autoetnografia poética do exílio e da identidade. Brian McKenna discute como as tecnologias audiovisuais, embora possibilitadoras, podem restringir a autonomia artística se não forem criticamente apropriadas. Vivian Castro Villarroel propõe o ensaio audiovisual como método para explorar memórias da desindustrialização, interligando imagem, som e arquivo. Tania de León investiga o desenho em realidade virtual como gesto imersivo e somático, repensando a presença e o corpo como agentes criativos. Por fim, Diana Toucedo, partindo da montagem como acto político, escreve um texto onde a criatividade é descrita como a capacidade de nos deixarmos tocar pelo assombro e o desejo de responder ao que nos deslumbra. Este conjunto de reflexões enfatiza a capacidade do cinema e das artes visuais para gerar conhecimento sensível, político e situado, promovendo novas linguagens e metodologias. Assim, o dossier reafirma o potencial da pesquisa artística para transformar não só a criação, mas também os modos de recepção e estudo, abrindo espaço a epistemologias contra-hegemónicas, decoloniais, feministas, queer e ecológicas.
Recensão crítica do livro Cinema e Dialéctica: Uma Gramática Profunda (2024), escrito por Sérgio Dias Branco.
Em Espelho Mágico: Uma história do cinema, Francisco Valente reflete acerca de uma vasta e rica seleção de filmes, cujo visionamento formou a sua existência enquanto espectador. Essa reflexão revela ou sugere diálogos entre as obras analisada e toma a forma de um convite ao diálogo com outros espectadores.
Entrevista com Dídio Pestana, realizador de Sobre Tudo Sobre Nada (2018), estreado no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na qual se discute o processo de produção do seu filme-diário, desde a filmagem à metodologia de montagem. Pestana relata o começo do seu trajecto no cinema enquanto sound designer, a importância das colaborações que desenvolveu em projectos documentais, e o princípio da prática diarística com câmaras analógicas. O realizador descreve a abordagem à prática fílmica, as inspirações no campo do cinema diarístico, e a relação que tem com as imagens que filmou. A montagem dos registos fílmicos e o processo de ressignificação das imagens de arquivo também fazem parte tópicos analisados pelo diarista nesta entrevista.
La práctica del montaje cinematográfico ofrece un terreno fértil para la investigación artística, donde forma, contenido y pensamiento convergen en un proceso dialéctico de creación y reflexión. Este texto explora cómo el montaje, entendido como un acto generativo y epistemológico, trasciende los límites de la narrativa industrial para convertirse en un espacio de indagación artística, estética, ética y política. Desde una perspectiva genealógica, benjaminiana y performativa, se examina cómo el montaje permite conectar tiempos y espacios, rastrear memorias y abrir caminos hacia futuros posibles. Este enfoque genera un campo expandido de creación audiovisual donde las imágenes trabajan por asociación, se conectan, interpelan y cohabitan con los/las creadoras en un proceso de intercambio simbólico y afectivo. Así, el montaje se revela como un gesto transformador capaz de propiciar nuevos imaginarios colectivos, epistemologías críticas y cuestionar la percepción, ofreciendo una reflexión profunda sobre el potencial político y ético del cine como herramienta de investigación y creación.