
Na Antiguidade, o orador pautava-se pela elocutio para fazer de seu discurso um rico ornato com a intenção de convencer seu auditório de que ele, orador, defendia uma tese justa, e que sua oratória era, antes de tudo, uma peça para deleite. Na Idade Média, os ornamentos de que se serviam os oradores antigos passam à composição poética não só como um trabalho do léxico, mas também como o modo pelo qual a poesia era estruturada. Vejam-se as rimas, o ritmo, a métrica, mesmo que estas duas fossem já parte da criação retórico-poética dos antigos. A rima e a estrofe são, então, partes do ornamento juntamente com as figuras e os tropos, antes usados na eloquência oratória. Os humanistas medievais, no seu culto à civilização antiga, transpõem para o ato de poetar os mesmos elementos e preocupações característicos dos oradores passados. Os recursos de que se servem os poetas seriam, através da revalorização da poesia, a harmonia e a musicalidade, pelas quais se expressavam os conteúdos mais diversos da indagação humana, o que revela as preocupações antigas que os poetas medievais emularam. A poética expressada no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende vale-se dessas expressões retóricas para embelezar os poemas. Neste estudo, proponho elencar essas expressões relacionadas ao tema do amor. Para tanto, faço uso de teóricos e estudiosos da Literatura como Quintiliano, Heinrich Lausberg, Maria Isabel Morán Cabanas, Massimo Marini, Pierre Le Gentil, Edmond Faral, Juan Casas Rigall, entre outros.
No presente texto procura-se apresentar, de forma muito sintética, os dados históricos, arqueológicos e urbanísticos que concorrem para a hipótese aqui sustentada: a mesquita aljama de al-Ushbuna localizava-se no local onde hoje se implanta a Sé Catedral de Lisboa. A construção do templo cristão representa um exemplo clássico de reversibilidade dos espaços sagrados urbanos, entre o Gharb al-Andalus e o medievo reino de Portugal. Sob o claustro e o aterro que o infra-estrutura, a nascente da Catedral, conservam-se ruínas de um monumental edifício de época islâmica que se interpreta como complexo da mesquita aljama de al-Ushbuna.
Commemoration and caritas were deeply intertwined and in Douai, this relationship was evident in the strategies that testators employed between 1228 and 1362. During this period, Douaisiens’ commemorative strategies brought together existing and new religious institutions and intercessors responsible for the salvation of the parish community. At a time when the penitential movement in the town was flourishing, testators considered beguines as among those efficacious in interceding for their souls. Testators requested pittances, simple prayers, and funerary services. The women performed these services alongside many other intercessors, including the parish church and its personnel, the mendicant orders, and the common poor. Thus, this period in Douai involved the formation of a network of commemoration in which intercessors, including beguines, contributed to the salvation of parishioners.
A celebração da morte em contexto cisterciense estava sujeita à normativa emanada do Capítulo Geral da Ordem, mas não deixa de revelar marcas específicas de comunidade para comunidade. Neste texto identificamos algumas das pessoas que escolheram o Mosteiro de Lorvão para lugar de inumação, ao longo de vários séculos, com o objetivo de conhecer alguns daqueles cuja morte aí era celebrada, para além, obviamente, dos vários membros da comunidade conventual e daqueles definidos pela Ordem de Cister. Num segundo momento, a partir da análise dos documentos e, em particular, de alguns dos códices litúrgicos que pertenceram ao Mosteiro de Lorvão, focar-nos-emos na celebração da liturgia associada à morte e aos momentos que a antecedem (ritual da unção das enfermas), bem como nas fórmulas e nas orações associadas às exéquias. Por fim, analisaremos o culto e as comemorações em torno dos defuntos. Esta análise terá em conta, por um lado, a normativa e outras questões identitárias da Ordem de Cister, como a uniformidade litúrgica, e, por outro, a female agency, ou seja, se é possível perscrutar, através destes testemunhos, o protagonismo de monjas e abadessas num conjunto de rituais e práticas litúrgicas feitas por homens e para homens.
Este artigo constitui uma abordagem exploratória ao estudo da comemoração dos mortos em tempos medievais, usando como exemplo a Sé de Coimbra e os seus obituários. A partir deste caso, procura-se perceber que tipo de informações fornecem essas fontes escritas e colocam-se questões relativamente às suas limitações no que toca à reconstituição das cerimónias relacionadas com os serviços litúrgicos por alma dos defuntos.
The article explores four foundations by priests in Thorn (Toruń) as good examples of the bourgeois religious culture of Late Medieval Prussia. These institutions were established by wealthy priests who were simultaneously prominent members of the town community. As a result, detailed documents were issued, providing valuable insights into the extent of the priests’ responsibilities and the financial basis of the foundations. Furthermore, the fact that the funders themselves were priests shows clergymen not only as providers of prayer services but also as members of the town community who benefited from such commemorative practices.
Na segunda metade do século XIV, viviam-se anos de dificuldades económicas e de convulsão social, decorrentes das epidemias que dizimavam populações, dos maus anos climáticos que causavam fome, das guerras que mobilizavam homens e dinheiro e geravam violência e destruição. Este contexto de dificuldades vivia-se no reino e localmente, sentindo-se por isso também na cidade de Coimbra. Nesta cidade, na sua parte alta – a Almedina –, onde se erguia a catedral, sua paróquia mãe, faziam-se sentir outras tensões. Nesse espaço instalavam-se o paço episcopal, a residência de muitos cónegos, o paço régio, a residência de muitos oficiais e ainda o Estudo Geral e o bairro dos estudantes, coexistindo diversos poderes. Toda a tensão desses anos entrava mesmo por dentro da Sé, onde se enfrentavam o prelado Pedro Tenório e os cónegos do cabido. A perceção dessa ambiência difícil, leva-nos a questionar: essa situação terá tido repercussões na vida religiosa da paróquia da catedral? Poderia esse conflito condicionar o serviço religioso e, concretamente, o ofício de sufrágio pelos mortos? Tais questões, assim como as suas respostas, foram originadas pelo “Livro das Capelas”, um manuscrito compósito elaborado na década de 1370, que nos discrimina as capelas existentes na Sé e as reformas que nelas foram introduzidas. Esse pequeno códice será o objeto de estudo deste artigo, em que daremos a conhecer a materialidade desse manuscrito, enquanto analisaremos o seu conteúdo, para, através dele, respondermos aos quesitos que formulamos.
A trajetória do manuscrito com a cota Livro 4 de Inquirições de Afonso III apresenta particularidades, tanto ao nível arquivístico como de conteúdo, que o individualizam entre os Livros de Inquirições. Neste artigo procura-se identificar o seu percurso no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, atentando à sua inventariação e inclusão na série a que atualmente pertence. É também comentado o seu conteúdo, em particular a documentação cuja cópia motivou a produção do códice: a documentação relativa às comunidades muçulmanas em Portugal no século XV. Procura-se ainda esclarecer se este manuscrito pode ser considerado um Livro de Inquirições. Para tal, foi realizada uma breve análise da matéria das Inquirições Gerais e de como foi adicionada ao formato códice que atualmente apresenta.
El estudio pretende analizar las disposiciones testamentarias de las oligarquías urbanas navarras, y de modo especial las de Pamplona, para reflexionar sobre sus comportamientos a la hora de elegir sepultura. Su preferencia por la catedral, las parroquias y las iglesias de los conventos urbanos, el interés en mantener tradiciones familiares o establecer nuevos criterios; el deseo, en suma, de significar de algún modo su prestigio social, jurídico y económico a la hora de perpetuar su memoria a través de los espacios de inhumación.
L’église Saint-Pierre du Queyroix de Limoges abrite depuis au moins le Moyen Âge central la plus grande et la plus respectable paroisse de la ville. Située à deux pas de l’abbaye Saint-Martial, au sein du quartier appelé le Château – distinct de la Cité -, elle accueille la vie religieuse et sacramentelle des familles environnantes, parmi lesquelles se distinguent des bourgeois, riches et influents. Il est donc parfaitement naturel qu’ils aient recours au clergé de cette paroisse pour assurer la prise en charge de leur mémoire après leur mort. Or, la paroisse est également le siège d’une communauté de prêtres, sorte de proto-chapitre, très bien structuré aux XIVe et XVe siècles qui fut la bénéficiaire de dons pour le salut de l’âme de la part des membres de ces familles. Les archives conservées aux Archives départementales de la Haute-Vienne en série G permettent ainsi d’analyser les relations tissées entre laïcs et clercs à cette époque et de mettre en lumière plusieurs figures de paroissiennes.