
A partir da presença paradigmática do modernismo de 1922, tanto no projeto da poesia marginal dos anos 1970, quanto no projeto disruptivo da literatura marginal nos anos 2000, o presente artigo pretende discutir como a poesia de Paulo Leminski antecipa as soluções estéticas da poesia e da literatura marginal, como o coloquialismo literário, como encenava em seu interior a cisão do sistema literário culto branco erudito. Para tanto, organiza-se de forma que, em um primeiro momento, discutiremos a poesia marginal e a literatura marginal, para, a partir disso, podermos conceituar e entender as relações entre a produção do poeta curitibano e os projetos de vanguarda discutidos, estabelecendo, também, as influências modernistas de 1922 em sua escrita. Assim, poderemos fazer a análise das poesias intimistas, marcantes e repletas de intertextualidade da obra póstuma La vie en close, publicada em 1991, dois anos após a sua morte, organizada por sua esposa, Alice Ruiz.
Este artigo analisa as relações entre territorialidade, memória, resistência e identidade no Quilombo São José de Icatú, localizado no município de Mocajuba, no estado do Pará. O estudo toma como foco a Dança da Farinhada, manifestação cultural desenvolvida pela comunidade como forma de transmissão de saberes ligados ao cultivo e à produção da farinha de mandioca. Busca-se compreender de que modo essa prática mobiliza memórias coletivas, fortalece vínculos intergeracionais e reafirma pertencimentos territoriais. Metodologicamente, trata-se de pesquisa qualitativa, de caráter descritivo, realizada por meio de observação participante, diário de campo, registros fotográficos e audiovisuais, articulados à revisão bibliográfica. O referencial teórico dialoga com autores que discutem memória, território, cultura e resistência quilombola. Os resultados indicam que a Dança da Farinhada ultrapassa o campo performático, constituindose como prática pedagógica comunitária, dispositivo de preservação cultural e estratégia de continuidade histórica. Conclui-se que o território quilombola não se restringe ao espaço físico, sendo também lugar simbólico onde memórias e identidades são continuamente recriadas.
O presente trabalho analisa a obra Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, sob uma perspectiva decolonial, investigando como a narrativa dos personagens escravizados atua como um mecanismo de descolonização da nossa própria memória coletiva. Embora o romance apresente como trama central a trágica história de amor de dois jovens, o foco da narrativa é a trajetória de personagens historicamente invisibilizados. A partir de uma perspectiva do lugar de fala, a escritora expõe a exploração e a subjugação de sujeitos negros arrancados de suas terras pela violência colonizadora, devolvendo-lhes a autoridade narrativa sobre suas próprias vivências. Alicerçada nessas informações, esta investigação parte de uma pesquisa bibliográfica de cunho qualitativo, pautada nas ideias de autores como Halbwachs (2013), Candau (2011), Mignolo (2005) e outros. Os resultados mostram que os relatos dos personagens da obra Úrsula não são meros recursos literários, mas depoimentos que configuram uma contra-história, desafiando a lógica colonial que, até hoje, tende a silenciar o protagonismo negro no Brasil. Portanto, ao restituir a voz aos escravizados, Maria Firmina preserva memórias individuais e desafia o leitor a questionar sua própria herança histórica.
Este artigo propõe uma reflexão do conceito de ecologia decolonial, criado e pensado pelo martinicano Malcom Ferdinand, no livro homônimo. Esta reflexão teórica será arrolada a partir do livro testemunho A queda do céu, de Davi Kopenawa, um xamã yanomami, uma das mais importantes lideranças indígenas mundiais e uma das vozes mais potentes para falar sobre a relação dos brancos com a natureza. Em A queda do céu, encontra-se um testemunho de alguém que viu, ao longo da História (assim capitalizada), a violência e o massacre de familiares e outras comunidades indígenas. Em diversas partes do seu livro encontramos trechos nos quais o yanomami denuncia a tragédia ecológica vindoura, a violência à natureza e aos não humanos. Portanto, discutir uma ecologia decolonial a partir do depoimento de Kopenawa faz-se importante para pensar as consequências do modo de habitar e decolonizar a terra. Seguindo a lógica benjaminiana para a escrita da História, dá-se preferência aqui às vozes dos "vencidos", como o pensamento de Ailton Krenak e Werá Jecupé. Para intercambiar o pensamento de Ferdinand com outros estudos de ecologia decolonial, far-se-á uma relação daquele com Enrique Dussel, Félix Guattari e Achille Mbembe.
Este artigo propõe a metáfora do “ler levantando a cabeça” (Barthes, 2004) como um modo para compreender a leitura literária como um gesto que interrompe o fluxo da leitura, não por distração, mas em decorrência da ativação da memória. Entendemos que, nesse instante, texto e leitor se enredam em uma experiência relacional, na qual se articulam dois modos de memória: o reconhecimento, ligado à identificação consciente de referências intertextuais, e a reminiscência, que emerge como lampejo involuntário. A partir dessa distinção, propomos que o ato de “ler levantando a cabeça” provoca um deslocamento na leitura capaz de reinscrever sentidos ao entrelaçar o presente de leitura às memórias do leitor.
Este artigo investiga como a fotografia atua como rastro de reinscrição existencial dos mortos, inclusive daqueles que não chegaram a nascer, articulando imagens, memória e presença sob uma perspectiva transdisciplinar. A partir das contribuições teóricas dos autores Paul Zumthor e Vinciane Despret, o estudo propõe que a fotografia é mais do que uma técnica de registro visual: ela funciona como enunciação cultural viva, convocando os mortos à cena do presente. Por meio de uma abordagem qualitativa e teórico-reflexiva, o texto perpassa por álbuns fotográficos até imagens médico-técnicas como as ultrassonografias, entendidas como dispositivos de antecipação de existência. As fotografias compreendidas como veículos de memória, afetos e continuidade relacional, podem ser um tipo de “suplemento biográfico”, no sentido dado por Despret ao se referir aos dispositivos pelos quais os vivos continuam escrevendo a existência dos mortos, resistindo a sua dissolução. O estudo conclui que narrar os mortos — por meio principalmente da imagem, mas também através de palavras ou gestos — é também afirmar o desejo de viver com eles, reinscrevendo sua presença no tecido sensível da cultura e da vida cotidiana.
O artigo mapeia as memórias evocadas sobre o território de Jambaló pela comunidade indígena Nasa da Colômbia, através da “palavra que caminha” (história oral) e (re)visita a força do lugar a partir da conexão ancestral com a “Mãe Terra”, estabelecendo pontos de referências geo-espaciais e elementos identitários da cultura Nasa. A pesquisa, de natureza etnográfica, fundamenta-se na Semiótica Social; propõe-se, assim, uma memória cartográfica que abarca sete categorias memoriais que refletem sobre a multiplicidade e a diversidade de situações e de processos construídos socialmente no território indígena. Finalmente, compreender os traços identitários, simbólicos e geoespaciais como suporte material de suas vidas constitui um melhor entendimento de nossas paisagens humanas e multidimensionais.
Este artigo apresenta um relato reflexivo e analítico sobre a experiência no Estágio Supervisionado II, componente obrigatório do curso de Licenciatura em Letras Língua Portuguesa da Universidade do Estado do Pará. O objetivo é descrever as etapas do estágio — observação, planejamento, intervenção e socialização — realizadas em uma escola pública da rede estadual. A metodologia adotada é de natureza qualitativa, do tipo relato de experiência. A intervenção pedagógica foi estruturada a partir das dificuldades observadas nos alunos quanto à leitura, interpretação e produção textual, com ênfase nos gêneros conto e dissertação argumentativa. Os fundamentos teóricos baseiam-se em autores como Pimenta e Lima (2004), Barreiro (2006), Marcuschi (2008) e Dolz e Schneuwly (2004). Os resultados indicam que o estágio supervisionado proporciona vivências significativas, contribuindo para o desenvolvimento profissional, a articulação entre teoria e prática e a construção da identidade docente. A experiência reforça a importância da mediação pedagógica e do planejamento didático como elementos essenciais para uma atuação docente crítica e comprometida com a aprendizagem significativa dos estudantes.
La lucha en defensa de nuestros bosques amazónicos es algo que ya no puede esperar, puesto que a un ritmo cada vez más acelerado y que parece no poderse atajar, vemos a nuestra floresta “acostarse de pie y despertarse tumbada”, según denuncian los pueblos indígenas que, a duras penas, todavía resisten en nuestro territorio. En ese sentido, el presente artículo trata de tejer reflexiones en torno a la ancestralidad pedagógica de la literatura de tradición oral, de manera especial a partir del mito Curupira (Brasil)/Chullachaqui (Perú) en cuanto ley de la selva, y destacar el papel que juega esta criatura encantada en defensa de la propia vida en el planeta. El trabajo está guiado por autores como Krenak (2020a; 2020b, 2022), Loureiro (2015), Colombres (2010, 2016), Bispo dos Santos (2023), Vaz Filho y Carvalho (2023), entre otros. Como fundamento para nuestra reflexión ponemos de relieve la perspectiva contracolonial de la educación, de manera que podamos contribuir a los debates en torno a lo que llamamos educación piracémica, que es la incorporación de los saberes y conocimientos ancestrales en nuestra praxis docente, en todos los niveles y contextos educativos.
Neste artigo, analisamos currículos e práticas discursivas em torno da sexualidade nas escolas de educação básica da Amazônia. Para tanto, buscamos com os estudos de Pierre Bourdieu (1983) compreender o currículo como um campo teórico-conceitual, resultante da relação entre cultura, educação e sociedade e a importância da reflexão epistemológica no processo de desnaturalização das formas hegemônicas de conhecimento. Ademais, utilizamos um gesto de leitura a partir dos estudos de Michel Foucault, para analisar o tabu linguístico em torno da sexualidade nas práticas discursivas em contextos de escolarização. Nosso principal objetivo é analisar como o tabu linguístico acerca da sexualidade se manifesta nas práticas curriculares em sala de aula e implica uma correlação de forças, as quais operam na formação das identidades e das subjetividades. Essa abordagem enfatiza o entendimento pedagógico sobre como os currículos transformam os discursos escolares em conteúdo a partir do tripé saber-poder-resistência. Em termos metodológicos, optamos pela Análise do Discurso e a caixa de ferramentas foucaultiana, notadamente a noção de discurso, saber-poder e resistência. Os resultados apontam para um currículo que é tecido por relações de saber-poder que instauram práticas contra hegemônicas que, ao serem materializadas na escola, são recepcionadas por mecanismos de força que rechaçam e polemizam suas ocorrências.
Este artigo, fruto de um trabalho maior desenvolvido no contexto da Amazônia paraense, apresenta uma análise dos aspectos sociais e verbo-visuais do conto “Metamorfose”, de Geni Guimarães, que contempla a temática do racismo vivenciado pela personagem no âmbito escolar. A análise, que precedeu a elaboração didática de uma proposta de intervenção implementada na educação básica, ampara-se no dialogismo, proposto pelo Círculo de Bakhtin, especialmente nos conceitos axiológicos (Volóchinov, [1926]/2017) e nos estudos de pesquisadores que seguem essa vertente. Os objetivos consistem em compreender de que forma os aspectos sociais influenciam na escrita do enunciado e verificar de que maneira os recursos linguístico-enunciativos evidenciam as apreciações valorativas da enunciadora. A análise considerou a dimensão social, em que foram observados os aspectos históricos e sociais da época em que a obra foi produzida, e a dimensão verbo-visual do enunciado, a considerar as ilustrações que o acompanham e os recursos da língua em prol da produção de sentidos do conto. Os resultados evidenciam que “Metamorfose” busca revelar que a transformação não acontece apenas como uma conscientização individual, representada na figura da protagonista, mas no sentido abrangente, de descortinar o social, de provocar uma metamorfose visando à construção de valores sociais antirracistas.
Este artigo analisa, sob a perspectiva dos elementos axiológicos do Círculo de Bakhtin (Volóchinov, [1926]/2019), a mudança terminológica nas unidades prisionais do estado do Pará, com o foco na alteração do nome da penitenciária de Cametá (PA), de “Centro de Recuperação” para “Unidade de Custódia e Reinserção”. O objetivo é compreender os sentidos ideológicos subjacentes à substituição do termo “recuperação” pelo termo “reinserção”, evidenciando como essa mudança parece refletir a tentativa do Estado de reconstruir a imagem do sistema prisional. A pesquisa é de natureza qualitativa e dialógica, centrada na Análise do Discurso (AD), tendo como objeto de análise discursos inscritos em documentos oficiais e em reportagens da grande mídia, com base nas categorias bakhtinianas de julgamento de valor, entonação e elementos extraverbais. Os resultados apontam que a nova nomenclatura, longe de ser neutra, está carregada de intenções ideológicas e representa, por assim dizer, um esforço institucional para reconfigurar a percepção social sobre o cárcere, camuflando, de certo modo, outras questões como a superlotação das unidades e as evasões, por exemplo. Conclui-se que a linguagem institucional, com o poder de verdade, é usada estrategicamente para produzir uma nova imagem do sistema penal, sustentada por valores sociais, ideológicos, históricos e políticos.
Mundos que são continuamente inventados e reinventados numa trama de representações e processos identitários que subtraem o “outro”. “Alguém pode chamar um nativo?”, o ator e músico O Novíssimo Edgar nos apresenta em sua performance essa “outra” história do passado que não se descola do presente. A princípio, com base no curta-metragem de Silvio Margarido (Correria, 2021), abordarei uma das justificativas para o genocídio dos “infiéis” e tenho como objetivo discutir como o imaginário se funde aos dogmas religiosos, provocando o delírio devoto de todos que fazem parte da engrenagem colonizante na Amazônia acreana. A seguir, apresento o delírio de purificação da floresta em pastos e os efeitos da lógica da floresta morta, adentrando no longa-metragem produzido por Gerson Albuquerque (A vida sem vida, sem morte, sem nada, 2018). Por fim, pretendo dialogar sobre a “terra morredoura”, onde nada vive ou frutifica. Entretanto, a memória de uma terra sem mortes pode fazer, criar e reconstruir, por meio das múltiplas formas de ser e estar no mundo, diversos modos de viver.
Esta investigação consiste no recorte da dissertação de mestrado intitulada “Relações de alteridade e letramento literário no conto indígena brasileiro de Daniel Munduruku: a pele nova da mulher velha”. Objetiva-se, com o estudo, refletir sobre o letramento literário a partir da literatura ameríndia. Esta ainda é vista com olhar restritivo, apesar das políticas e leis que exigem a utilização de seus textos em sala de aula. Com a intenção de tornar estas narrativas conhecidas, bem como divulgar a sua cultura e identidades ameríndias, apresentamos a relevância da literatura de Daniel Munduruku e sua importância para a formação de leitores literários. Efetivamente, se toda prática de leitura deve levar o aluno à reflexão de que, ao ler, abrirá uma nova porta de conhecimento entre seu mundo e o mundo do outro, as literaturas dos povos originários constituem expressões artísticas particularmente importantes na direção pretendida. Por isso, a necessidade da incansável busca por encontrar esse caminho de escolhas literárias que formem leitores por meio de práticas de leitura que humanizam e transformam a mentalidade, as escolhas, as percepções de mundo e as atitudes no cotidiano. Para tanto, nos ancoramos nos estudos de Candido (2011), Munduruku (2004, 2021), Wapichana (2018), Cosson (2014), Lajolo (2001), entre outros autores que são basilares neste estudo.
O presente artigo propõe um exercício de reflexão sobre deslocamentos epistemológicos e poéticos provocados pelo verbete “Pororoca — e seus arredores” (2018), de José Amálio de Branco Pinheiro. A análise parte da confluência entre correntes teóricas e poéticas, em especial aquelas enraizadas nas culturas amazônicas e indígenas, para pensar a linguagem não como sistema estável de signos, mas como corpo, travessia e experiência. Em diálogo com autores como Deleuze (1997), Glissant (2005), Kopenawa e Albert (2015), Albuquerque (2021), Krenak (2019) e Neves (2023), o texto aponta para uma crítica às abordagens ocidentais centradas na representação e na lógica do Eu, defendendo, em contrapartida, uma escuta radical do Outro. A pororoca emerge como imagem e matéria linguística, metáfora de uma ética da palavra em constante rebentação, onde ouvir se torna mais fundamental do que definir. Trata-se de uma abertura ao sensível e à pluralidade de mundos que habitam as sonoridades, movimentos e silêncios da linguagem nas margens.
Este artigo apresenta as discussões realizadas por grupos de estudos que pesquisam o ensino das linguagens como forma de interlocução entre diferentes saberes e culturas presentes no modo de vida amazônico, ocorridas durante o 1º Congresso Pan-Amazônico dos Professores de Língua, Linguagem e Literatura da Educação Básica (Cllimaz), realizado na Universidade Federal do Pará. Entre as temáticas abordadas, destacam-se os aspectos relacionados à preservação das Amazônias, como Educação Escolar Indígena, Educação do Campo, das Águas e das Florestas, entre outros. As discussões seguiram um roteiro propositivo organizado em grupos de roda de conversa, com o intuito de fortalecer o debate sobre a práxis pedagógica operada em diferentes espaços de educação. O objetivo principal pautou-se em torno das mudanças climáticas acometidas no espaço amazônico pela forma predatória de ocupação e exploração dos recursos naturais e de como essas questões chegam às escolas por meio dos conteúdos curriculares. Os diálogos entre os grupos propositivos apontaram para a promoção de políticas públicas de educação como necessárias à preservação ambiental e o reconhecimento das identidades e etnicidades Amazônidas.
Este estudo propõe a análise de sete publicações no feed da rede social Instagram, cujas legendas, redigidas em português brasileiro, revelam aspectos multimodais característicos da linguagem digital. O foco recai sobre construções que apresentam a sequência [pronome sujeito + verbo no gerúndio], como exemplificado em: “eu acordando depois de ter amamentado a noite inteira: [balão da Hello Kitty esvaziado, em movimento de caminhar]”. Argumenta-se que tal construção não constitui ocorrência frequente no português brasileiro, seja na modalidade oral ou escrita, e distingue-se do fenômeno conhecido como gerundismo, ilustrado por expressões como “vou estar ligando para a senhora”, amplamente discutido na literatura (Torres; Coan, 2016). O objetivo central é descrever e analisar essas ocorrências e discutir sua possível classificação no âmbito dos usos do gerúndio no português brasileiro (Braga; Coriolano, 2009). Segundo Bechara (2009), o gerúndio expressa ações simultâneas ou subsequentes. Já Diniz Cunha Alves e Chaves (2020) destacam seu emprego criativo em gêneros digitais como o publipost. Hipotetiza-se que a natureza multimodal dos textos no Instagram favorece construções que buscam representar, de forma breve e simultânea, um sujeito em ação no momento da enunciação.
Este ensaio propõe uma reflexão sobre a educação na Amazônia, tendo como eixo central uma palestra do intelectual e líder indígena Gersem Baniwa, em diálogo com produção bibliográfica. O texto analisa os desafios históricos impostos pela concepção educacional ocidental, marcada pelo processo de colonização e por uma perspectiva eurocêntrica que, ao longo do tempo, negou e silenciou as epistemologias indígenas. Gersem Baniwa defende uma educação fundamentada em uma “ontologia viva”, que articula as dimensões do ser humano, da natureza, do saber e da espiritualidade como elementos indissociáveis. O pensamento de Gersem Baniwa nos convoca à construção de um projeto pedagógico comprometido com a pluralidade epistêmica, a justiça territorial e o fortalecimento das identidades indígenas. Ao propor a valorização das epistemologias dos povos tradicionais, especialmente dos povos indígenas, Baniwa nos conclama a naturalizar a humanidade e a humanizar a natureza, como forma de resistência à lógica colonial, ecocida e monocultural que caracteriza a modernidade.
Este artigo apresenta resultados de investigação sobre os desafios e possibilidades da pedagogia decolonial em uma unidade socioeducativa da região metropolitana de Belém- PA, analisando como a incorporação de epistemologias marginalizadas pode transformar práticas educativas em contextos de privação de liberdade. Por meio de análise documental crítica, examinamos iniciativas como letramentos de reexistência (com uso do hip-hop), saraus artísticos e oficinas de bonecas Abayomi, que valorizam saberes periféricos e amazônicos. A pesquisa revela que, embora o Documento Curricular do Estado do Pará apresente avanços teóricos na perspectiva decolonial, sua implementação esbarra em lacunas práticas, como a falta de diretrizes para integrar culturas juvenis e a manutenção de hierarquias epistêmicas eurocêntricas. Concluímos que a educação socioeducativa só se tornará emancipatória ao romper com paradigmas colonialistas, garantindo protagonismo juvenil e formação docente alinhada à interculturalidade crítica. O estudo reforça a urgência de políticas que articulem educação, cultura e justiça, transformando as unidades em espaços de produção crítica de conhecimento.