
Este artigo aborda a questão queer, através de suas aproximações com ahistória da fotografia e com a arte contemporânea, especialmente aquela que se apoiano signo fotográfico. A partir do conceito de dispositivo em autores como MichelFoucault e Giorgio Agamben, e da noção de regimes de verdade, trazida por JohnTagg, a fotografia e a arte são pensadas como produtoras de contradiscursos queameaçam as performatividades do corpo historicamente construídas. A análisepropõe, ainda, uma reflexão sobre os retrocessos sofridos por artistas ou instituiçõesquando levantam publicamente a questão dos corpos e desejos dissidentes no Brasildos últimos anos.
Após enchentes de maio de 2024, em Porto Alegre o autor encontrou na rua uma reprodução da pintura Las meninas, de Diego Velázquez. A partir do recolhimento da reprodução, ela passa a fazer parte do Museu de Resgates, realizado pelo autor em colaboração com um catador de recicláveis. Mediante a coleta e posterior integração de Las Meninas ao museu, o artigo relaciona imagem, barbárie, cultura, civilização, temporalidades junto a diversos autores e autoras, dentre eles Walter Benjamin e Hannah Arendt.
Como você reagiria ao saber que essas fotos foram registradas um mês antes das enchentes em Porto Alegre? Este ensaio fotográfico da Avenida Amazonas, que percorri a pé em março de 2024, foi manipulado com Inteligência Artificial para simular uma inundação e discutir a crise climática. Reunidas em um vídeo, foram intercaladas com falsos anúncios de produtos antienchente. No final de maio, a simulação tornou-se realidade. Mas o que é a realidade hoje em dia, senão uma sobreposição de simulacros?
En una contemporaneidad signada por la emergencia climática, surgen poéticas ligadas al territorio que buscan reconfigurar los diálogos entre la humanidad y lo viviente. Para su reconocimiento, realizamos una cartografía conceptual de operaciones poéticas generadas por colectivos activistas conscientes de esta problemática. Indagamos, en clave posthumanista, sus prácticas crítico-políticas e identificamos recurrencias en la necesidad de profundizar en el conocimiento de los vínculos sensibles entre poética y vida para redefinir las matrices de producción del activismo artístico histórico.
Resumo: Este artigo apresenta o baldio como conceito em que se parte de paisagens e espaços sem uso. O pensamento é interrogado pelo fato biológico que, por sua vez, desorganiza sistemas do saber, deslocando-o rumo à desordem natural na qual poderes orgânicos dinamizam a vida. Tal movimento se estabelece como método complexo de manipulação da paisagem e do jardim tendo permissividade, manejo de plantas com tendência à vagabundagem e reflexões que extrapolam compreensões ecológicas fechadas como bases para um jardim planetário. Palavras-chave: Baldio [Friche]. Paisagem. Jardim em movimento. Plantas vagabundas.
A partir da arte hieroglífica baseada no parentesco linguístico estabelecido entre a língua faraônica e as outras línguas kandianas (africanas) modernas, esta arte (na língua bekwel do Gabão) representa uma imagem-fala que aborda a reação das águas, quando o ser humano maltrata a terra. A arte traz a discussão a partir de uma perspectiva kandiana. Se a terra e o humano derivam da mesma fonte (orgânica e linguística), o dano causado à terra terá consequências na vida (humana e outras).
Aprendemos com os sapos que diante dos tempos de catástrofes é necessário sair da denúncia dos impactos das atividades humanas capitalizadas, precisamos de práticas sensíveis que valorizem a interação multiespécie. Combinando mesas de trabalho, residência artística e a mostra coletiva buscamos nos afetar pelos modos de existir dos sapos, tornando-os “espécies companheiras” de pesquisa-criação. Apresentaremos e analisaremos essas experiências destacando como elas nos fazem pensar nas potências dos encontros entre artes e ciências para nos reconectarmos a uma Terra viva.
Este ensaio tem como base um conjunto de fotografias e anotações realizadas durante a ação de observação de uma araucária multi-centenária, ação realizada ao longo de um único dia, da alvorada ao crepúsculo, na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, na Região Serrana do Rio Grande do Sul, Brasil. O texto aborda, entre outros temas, a dinâmica de expansão das florestas, a oposição entre o tempo cíclico das árvores e o tempo linear da História e o próprio processo de contemplação contínua de um ente que é percebido comoimpassível e ancestral. Empreendido poucos meses após a morte de duas pessoas amadas, este ensaio verbo-visual inevitavelmente se impõe como uma reflexão fundamentada na experiência do luto.
Porto Alegre foi uma cidade colonizada por açorianos que estabeleceram-se às margens do lago Guaíba no final do século XVIII. Ao longo de dois séculos, as políticas de planejamento urbano aterraram áreas que costeiam o lago com a intenção de triplicar o Centro Histórico e bairros do seu entorno.No episódio da enchente de maio de 2024, uma das áreas mais atingidas pelas águas que avançaram na cidade são aquelas onde houveram aterramentos, tais como os bairros Centro Histórico, Cidade Baixa e Menino Deus. Este ensaio é um breve inventário que visou documentar as marcas de água lamacenta nas edificações icônicas e residenciais dessas regiões centrais da capital gaúcha logo após a drenagem das águas, quando o Guaíba recuou e voltou para sua margem normal.
Este ensaio fotográfico é resultado de uma residência artística realizada em várias localidades de Manaus, no ano de 2023. O conjunto de imagens selecionado para este dossiê apresenta açõesmínimas derivadas do impacto da incursão ao interior da Floresta Amazônica e propõe-se a produzir uma perspectiva poética sobre as camadas do encontro que pode tecer o artista visual em contato físico e crítico com o ambiente da floresta, justo neste momento da urgência de nossas reflexões sobre o antropoceno. Dessa maneira, o trabalho tanto se soma quanto comenta sobre a miríade de processos artísticos interessados nas questões contemporâneas entre arte, paisagem e natureza.
A partir das alegorias das Quatro Estações do Ano, pintadas à óleo sobre madeira, em 1774, por Bernardo Pires da Silva, nas paredes laterais da capela-mor da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto, Minas Gerais, este texto apresenta algumas possibilidades de refletir sobre como se constituíram diferentes formas de percepção e representação dos fenômenos climáticos, organizados como Estações do Ano, baseadas em elementos próprios ao pensamento europeu do século XVIII e suas traduções no território colonizado.
A mudança da estrutura do solo de terra roxa, na região de Ribeirão Preto, tem sido gradualmente provocada, ao longo do último século, pela extensa ação da agricultura, especialmente a monocultura da cana-de-açúcar. O ensaio visual traz obras de duas artistas do interior paulista, com sobreposições e paralelos das fotografias de Bruna Caroline Pereira e pinturas, instalações de Lu Martins, em que o vermelho da terra em processo de desertificação é contraposto com a pintura em colapso.
O foco deste artigo volta-se às paisagens da artista viajante oitocentista Maria Graham e daartista contemporânea Claudia Hamerski, observando suas dimensões críticas no que tange àrelação do homem com a natureza. A partir da noção de anacronismo histórico formulada por Didi-Huberman, o texto propõe um diálogo entre personagens que, em diferentes tempos e diferentes geografias, teriam manifestado preocupações semelhantes. A discussão afasta-se do viés historiográfico mais tradicional que liga a apreensão da paisagem e da flora ao registro de espaços e à catalogação botânica com intuitos meramente científico-mercantilistas. À vista disso, a partir das imagens e em seu cotejo com depoimento das artistas, a abordagem sugere que suas representações da natureza sejam tomadas como monumentos, o que, por sua vez,remeteria à ideia de inversão da lógica antropocêntrica.
Este artigo faz uma reflexão a partir de um conjunto de fotografias como testemunho histórico em respeito à emergência climática. Toma três eixos conceituais: a imagem como testemunho em Didi-Huberman articulado ao sentido de sublime em Kant; o habitar a Terra em Latour e o de intrusão de Gaia em Stengers; a noção de ruína em Simmel. Essa tragédia climática explicita a relação desigual do território, a negligência do governo local e o negacionismo climático, reflexo direto das políticas neoliberais.
As fotografias de catástrofes se apresentam como sintomas e emblemas do Antropoceno ou doCapitaloceno.Alguns artistas contemporâneos,tais comoAlice Micelli aqui analisada, propõem através de poéticas singulares e experimentações técnicas uma reflexão sobre as causas de desastres socioambientais, que põem em risco as condições de vida no planeta. Miceli investiga lugares habitados por um perigo invisível e busca dar visibilidade para aquilo que, apesar de não ser visto, paira ameaçadoramente sobre todas as coisas. Entre 2007 e 2010, a artista fez várias viagens à Pripyat (Ucrânia) onde ocorreu o acidente nuclear de Chernobyl (1986) para capturar através de câmeras especialmente desenvolvidas, com filmes sensíveis aos raios gama, imagens de um perigo mortal invisível ao olhar humano.
A proposta desse artigo reside em um debate sobre práticas artísticas e da imagem na atualidade, centradas na fotografia e nas publicações de artista e entender formas de sua existência tanto em um território de experimentação artística como de pensamento conceitual – tomo como experiência artística fundadora o ensaio fotográfico e livro iminências. Nesse território, proponho ativar essas práticas a partir de discussões sobre teoria da imagem, sertões, ruína e publicações de artista.
Este artículo analiza lo que nosotros llamamos la condición ‘post-etnográfica’ de la visualidad. El centro de atención es la ‘improductividad’ de la mirada etnográfica del arte contemporáneo, una vez que el discurso del arte decolonial se ha instaurado como fundamento ético de la curaduría global. Para abordar estos temas, el artículo revisita “El artista como etnógrafo” de Hal Foster, rastreando las implicaciones que tuvo y sigue teniendo hoy en la práctica de la curaduría global. A partir de las reflexiones de Foster, el artículo sostiene que la mirada etnográfica del arte ha llegado en nuestros días a sus límites y se ha convertido en un dispositivo de representación exhausto de alteridad.