
A recente reestruturação do marco regulatório do Ensino Médio promovida pela Lei nº 14.945/2024 e pelas novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNEM/2024) tem sido saudada por parte da literatura como uma revisão substantiva do modelo instituído em 2017. Argumenta-se que a chamada "reforma da reforma" teria reestabelecido, ainda que parcialmente, a centralidade da formação geral básica, enxugado os itinerários formativos e restringido o uso da educação a distância. Este editorial sustenta que tal interpretação constitui um erro analítico que subestima a ingerência dos interesses privatistas na reformulação da política. Argumenta-se que a reforma da reforma opera menos como antítese do modelo privatista e mais como seu aprofundamento. O objetivo é evidenciar aspectos obscurecidos da reforma, situando-a como parte de um pacote orientado pela nova estratégia do Banco Mundial que visa eliminar a centralidade da escola na formação dos jovens das camadas populares. Demonstra-se que PPPs, gerencialismo, EaD e a Pedagogia das Competências (mantida intacta na BNCC) constituem o núcleo privatista da reforma. Conclui-se pela necessária revogação do pacote.
Este estudo investiga a dinâmica da tríade composta pelo docente de Física, pelo Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais (TILS) e pelo estudante surdo, com foco em suas interações, dificuldades e potencialidades no contexto escolar. Considerando a ausência de uma educação bilíngue efetiva que reconheça e priorize a Libras como primeira língua da comunidade surda, o TILS assume um papel essencial em sala de aula, devendo atuar de forma articulada com o docente de Física para promover processos educacionais inclusivos. No entanto, as práticas escolares evidenciam desafios que comprometem essa articulação. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa e bibliográfica, fundamentada em um Estado do Conhecimento (EC) sobre a produção acadêmica brasileira de teses e dissertações que abordam o ensino de Física sob a perspectiva da inclusão. A coleta de dados foi realizada nos repositórios da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações e no Catálogo da CAPES, abrangendo o período de 2010 a 2024. A análise, conduzida com o auxílio do software ATLAS.ti, indicou a escassez de sinais e de vocabulário técnico em Libras para os conteúdos de Ciências da Natureza e da Física, bem como barreiras relacionadas à falta de conhecimento da cultura surda, ao desconhecimento da Libras como L1, à falta de compreensão das especificidades do estudante surdo, à limitação de tempo para o planejamento pedagógico entre o TILS e o docente, além da sobrecarga docente para planejar aulas inclusivas. Esses fatores dificultam a inclusão efetiva, resultando na permanência física dos estudantes surdos em sala de aula, mas não em sua participação ativa. Soma-se a isso a insegurança de docentes e TILS, frequentemente despreparados por sua formação inicial para atuar em contextos inclusivos. Diante desse cenário, evidencia-se a urgência de políticas de formação continuada que promovam práticas pedagógicas inclusivas, direcionadas às especificidades linguísticas e culturais da comunidade surda.
Este artigo apresenta uma análise documental dos Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs) das licenciaturas em Física no Distrito Federal, abrangendo modalidades presenciais, a distância e reformulações institucionais. O estudo fundamenta-se na concepção de professor como sujeito histórico, social e relacional (Nóvoa, 1992, 1995; Tardif, 2014; Dubar, 2005), articulando formação docente, identidade profissional e políticas educacionais, em diálogo com as Diretrizes Curriculares Nacionais (2015). Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza documental, desenvolvida por meio da análise de conteúdo (Bardin, 2016). Foram construídos quadros comparativos que evidenciam convergências, divergências e tendências entre os PPCs, considerando carga horária, perfil do egresso, estrutura curricular, práticas formativas e concepções metodológicas. Os resultados indicam que, embora os cursos compartilhem uma base comum, diferenciam-se quanto à valorização da prática pedagógica, à integração de saberes e ao perfil profissional delineado. Ressalta-se, contudo, que parte dos documentos analisados antecede a Resolução CNE/CP nº 2/2019, o que caracteriza a investigação como um recorte temporal e parcial, não permitindo generalizações. Conclui-se que a análise dos PPCs constitui instrumento relevante para compreender os projetos de formação em Física no DF e suas implicações para a constituição da identidade profissional docente.
Alguns estudos na área de Ensino de Física recorrem à perspectiva freireana, especialmente ao explorar conceitos-chave como problematização e diálogo. Entretanto, poucos trabalhos se dedicam ao desenvolvimento da Investigação Temática (IT) para identificar Temas Geradores (TG). Dentre os trabalhos que realizam a IT, a maioria conta, em alguma medida, com o apoio de uma equipe composta por professores, graduandos e/ou pesquisadores. Mas seria possível realizar tal investigação no contexto de um professor sem apoio de uma equipe? A partir desta pergunta motivadora e da lacuna de trabalhos que analisem as dimensões do engajamento no desenvolvimento da IT com estudantes, organizou-se o seguinte objetivo geral desta pesquisa: articular as dimensões do engajamento de estudantes em temas de Ciência e Tecnologia (CT) com as etapas da IT, a fim de elaborar e apresentar um programa curricular de Física. A pesquisa foi realizada em duas etapas: 1) articulação teórica entre as dimensões do engajamento e as etapas da IT; 2) Apresentação de uma proposta curricular pautada nesta articulação para o Ensino de Física. O programa foi estruturado em três unidades: 1) apreensão da realidade na visão dos estudantes; 2) avaliação de Ciência e Tecnologia na resolução do problema; 3) ações e soluções em questões associadas aos acidentes. Como resultado, o programa culminou no TG: “Acidentes na curva de Cassimiro: descaso ou imprudência?”. Observou-se que a articulação entre a IT e as dimensões do engajamento proporcionou novas formas de organizar a investigação de TG. Além disso, constatou-se que o desenvolvimento da IT em sala de aula é uma estratégia viável para promover o engajamento dos estudantes em temas de CT. Por fim, destaca-se a necessidade de mais estudos que investiguem estratégias práticas para a construção da IT, bem como uma análise mais aprofundada das potencialidades e limitações da articulação entre IT e o engajamento em temas de CT em sala de aula.
Este estudo é um recorte de um estudo de caso que investigou os conhecimentos docentes de licenciandos em Física numa disciplina introdutória de física de partículas fundamentada em discussões conceituais, histórico-epistemológicas e educacionais, no último semestre do período ideal da formação inicial. Entendemos o Conhecimento Pedagógico do Conteúdo (PCK) como o conhecimento idiossincrático próprio do professor, utilizando como referencial teórico o Modelo Consensual Refinado. Investigamos um grupo de licenciandos em um ciclo de elaboração-implementação-reflexão de uma aula sobre temas de física de partículas estudados durante a disciplina e, utilizando como instrumentos de coleta de dados o plano de aula desenvolvido pelos licenciandos, instrumento CoRe, registros audiovisuais das aulas ministradas e da etapa de reflexão, pudemos inferir os conhecimentos docentes para o ensino de Física fundamentados nos referenciais educacionais estudados ao longo da licenciatura voltados à física clássica, bem como nas experiências prévias dos participantes como educador e educando, em contraste ao desafio de ensinar temas de física moderna. Nesse contexto, a disciplina cursada mostrou-se fundamental ao proporcionar discussões educacionais e uma linha histórico-epistemológica bem definida. Concluímos que o suporte fornecido pela disciplina contribuiu para o desenvolvimento do PCK dos licenciandos, especialmente nas dimensões do conhecimento do conteúdo e do currículo, ilustrado pelos resultados obtidos no mapeamento do PCK em ação.
A adoção de inovações didáticas frequentemente enfrenta desafios que causam sua descontinuidade em contextos educacionais. Entre suas possíveis causas se encontra a interpretação de inovações como soluções padronizadas, em que não se considera as particularidades das instituições de ensino antes de sua implementação. Neste artigo propomos um modelo teórico estruturado em seis eixos de análise para caracterizar instituições educacionais em relação a um objeto de conhecimento de interesse. O objetivo é auxiliar indivíduos na avaliação da necessidade de mudanças e orientar o planejamento e avaliação de possíveis adoções de inovações didáticas em instituições educacionais. Tal objetivo se traduz na seguinte questão de pesquisa: Como caracterizar uma instituição educacional, em relação ao processo de ensino e de aprendizagem de um objeto de conhecimento, de modo a subsidiar o planejamento e a avaliação de propostas didáticas inovadoras? Os eixos propostos em resposta a esta questão são: (i) perfil institucional; (ii) perfil dos atores; (iii) problemas ou necessidades; (iv) práticas didáticas vigentes; (v) concepções, princípios e normas; e (vi) contexto material e logístico. O modelo foi desenvolvido considerando a literatura sobre barreiras e facilitadores à adoção de inovações didáticas no Ensino de Ciências, bem como a Teoria da Difusão de Inovações. As potencialidades do modelo são exploradas com a análise de um caso real de uma turma de segundo ano do Ensino Médio na disciplina de Física e uma proposta de atividade inovadora. Consideramos que este modelo pode contribuir para investigações voltadas à caracterização de instituições educacionais, visando à implementação e adaptação de propostas didáticas que sejam ajustadas ao contexto específico de interesse.
Esta pesquisa investigou as Representações Sociais sobre o conceito de energia entre licenciandos em Física, fundamentando-se na Teoria das Representações Sociais. O objetivo foi analisar as RS de acadêmicos ingressantes e concluintes, justificando-se pela relevância do conceito e sua influência na prática docente. Utilizando a Abordagem Estruturalista e a metodologia mista, aplicou-se questionários com a técnica de Evocação Livre de Palavras a esses estudantes, seguida de análises prototípicas e de similitude. Os resultados indicam que os ingressantes ancoram sua compreensão no senso comum, enquanto os concluintes apresentam representações mais complexas e alinhadas ao conhecimento científico, sugerindo uma evolução conceitual durante a formação, o que ressalta a importância do curso.
A inserção de fontes primárias no Ensino de Física tem sido tratada como potencialmente importante tanto para a compreensão de aspectos conceituais, quanto sobre o conhecimento científico. Neste trabalho trazemos a tradução e análise de uma fonte primária que tem como principal destaque a descrição de um experimento e seus resultados. Nesse sentido, a ênfase está nos aspectos procedimentais e no arcabouço teórico que permeiam a execução do experimento de Michelson e Morley em 1887. Pretendemos que a tradução dessa fonte primária possa trazer subsídios para se discutir aspectos conceituais quanto à natureza da luz e interferometria; procedimentais, quanto aos critérios adotados pelos estudiosos na melhoria da precisão do experimento; e também contextuais, ao evidenciar a prática científica experimental e seu papel na elaboração e aceitação de hipóteses. Entendemos, portanto, que essa fonte primária traduzida, quando associada a uma proposta investigativa, se constitui importante contribuição para a inserção da história da física no Ensino de Física.
Humanos são seres sociais, e interações sociais desempenham papel crucial em diversos âmbitos, incluindo a educação. Assim, esta revisão de literatura examina como e com quais propósitos a Análise de Redes Sociais (ARS) tem sido empregada em pesquisas sobre integração de estudantes universitários em ambientes acadêmicos de áreas STEM (acrônimo consagrado em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A ARS se diferencia por focar em relações entre atores, em vez de indivíduos isoladamente. Baseado em 52 estudos, conclui-se que: (i) o uso da ARS neste campo de pesquisa é relativamente recente e em desenvolvimento; (ii) a ARS é uma metodologia versátil, permitindo a investigação de diversas questões de pesquisa com variedade de técnicas de coleta e análise de dados; (iii) a ausência de referenciais teóricos é uma limitação recorrente que, se superada, poderia fortalecer conclusões dos estudos; (iv) variáveis contextuais influenciam os resultados das pesquisas, sendo recomendável que cada instituição examine sua própria realidade antes de adotar ações generalizadas.
Este trabalho envolve a aplicação de uma questão a estudantes universitários ingressantes no curso de Biologia, realizada durante a primeira aula de uma disciplina introdutória de Física, ministrada de forma remota devido à pandemia. A questão perguntava o que seria possível fazer para ver uma maior parte do próprio corpo em um espelho plano. Aproximadamente 90% dos estudantes responderam que isso seria possível ao se deslocar para frente ou para trás, replicando um resultado histórico obtido em um levantamento com mais de 400 estudantes. Após a realização de atividades voltadas para uma melhor compreensão do tema, foi aplicado um instrumento de autoavaliação no qual os estudantes explicaram a origem de suas respostas iniciais e descreveram sua compreensão final. A análise de conteúdo dos dados resultou na criação de categorias iniciais e finais para as explicações, assim como em uma matriz de transição das compreensões observadas. As autoavaliações revelaram uma diversidade das interpretações da situação, algumas das quais em consonância com resultados de pesquisas anteriores. Após as atividades, quase metade dos estudantes avançou em direção à resposta correta, embora vários ainda demonstrassem desconfiança do resultado. Ao final, são elencadas implicações para o ensino de óptica geométrica.
Neste artigo exploramos o pressuposto de que as ações, docentes e discentes, que se desenvolvem em sala de aula, podem ser analisadas a partir do que denominamos Ensino em Ação. Duas questões de pesquisa são levantadas, uma teórica e outra prática: (1) O que é ou o que poderia ser o Ensino em Ação? (2) Como analisar o Ensino de Ciências, no caso o Ensino de Física, como um Ensino em Ação? Para responder à questão (1) operamos uma transposição dos pressupostos apresentados por Latour no livro Ciência em Ação para o campo do Ensino, chegando à conclusão de que o Ensino em Ação teria duas faces, uma pronta e outra em construção. Para responder à questão (2) coletamos dados a partir de gravações de aula síncrona de disciplina ofertada no mestrado profissional de uma universidade pública do estado do Paraná. Os resultados à questão (2) foram separados em duas partes. Na primeira parte apresentamos as categorias de ações docentes e discentes encontradas no episódio. Na segunda parte representamos, por meio de linhas do tempo, o fluxo das ações discursivas ao longo do episódio, enfatizando, em especial, as controvérsias que provocaram translações do docente e de estudantes. Ao final, com exceção de um estudante, todos os demais transladaram (se conectaram) ao discurso do professor. A conclusão geral é que a fase do fluxo discursivo em que aparecem as controvérsias, do ponto de vista defendido neste artigo, pode ser adequadamente caracterizada como o ensino em construção. A partir do momento em que a maioria dos estudantes adere (se conecta) ao discurso do professor, entramos em uma fase que corresponderia ao ensino pronto, na qual as controvérsias cessam. A nosso ver, a investigação das ações em sala de aula, tendo como base a ideia do Ensino em Ação, é uma abordagem promissora, podendo ser aplicada a outras disciplinas, níveis de ensino, e, inclusive, incorporar a ação de atores não humanos.
O ensino de física no Brasil tem se caracterizado como abstrato e pouco significativo para os estudantes, muitas vezes reforçado pelo ensino transmissivo e meramente conceitual. Para superar esse cenário, faz-se necessária uma formação de professores críticos, capazes de “semear” um ensino de física não propedêutico e que faça relações com a realidade dos estudantes. Muitos autores e pesquisadores recaem sobre a Abordagem Temática a fim de alcançar um ensino que atenda às necessidades dos estudantes. Essa abordagem, apoiada em Paulo Freire, defende o tema como central no ensino e que tenha forte relação com a realidade dos educandos. Um caminho para se trabalhar com essa abordagem, está nos Três Momentos Pedagógicos como estruturantes de currículos. O subprojeto do PIBID para a Licenciatura em Física da UFSM, desenvolvido de 2022 a 2024, foi organizado para que os participantes construíssem conhecimentos sobre a Abordagem Temática e os Três Momentos Pedagógicos e implementassem essas perspectivas nas escolas. Considerando isso, tem-se o problema de pesquisa: De que forma a vivência de um processo de reorientação curricular na perspectiva da Abordagem Temática influencia na formação inicial dos pibidianos do curso de física da UFSM? Através da Análise Textual Discursiva chegou-se a quatro categorias: Diálogo, Problematização e o Tema Gerador; Coletivo e Coaprendizagem; Processo, Desenvolvimento e Superação e Transformação Docente e Um Novo Propósito Educacional. A discussão das categorias constatou que o PIBID/Física 2022 possibilitou uma formação em sintonia com a busca da “práxis” problematizadora e dialógica, inspirada na construção de currículos pautados em Temas Geradores, no trabalho coletivo e, através de um processo rigoroso e empático, a reconstrução dos pibidianos buscando o “ser mais” e concebendo novos propósitos para a ação docente.
Este artigo investiga como a perspectiva decolonial pode ser integrada ao ensino de Física na Amazônia Paraense, com ênfase na formação de professores. A pesquisa adota abordagem qualitativa, fundamentada em análise bibliográfica sistemática e na apreciação de documentos oficiais e programas federais voltados à educação científica na região. Foram examinadas produções acadêmicas, currículos e iniciativas de formação docente, destacando tanto os limites impostos pela predominância de epistemologias eurocêntricas quanto as possibilidades de diálogo com saberes locais e práticas comunitárias amazônicas. Os resultados evidenciam a ausência de estudos que articulem de forma sistemática a decolonialidade ao ensino de Física em contextos ribeirinhos, apontando lacunas e perspectivas para novas investigações empíricas. Conclui-se que a valorização da pluralidade epistêmica e a contextualização da ciência podem fortalecer a formação docente e contribuir para uma educação científica orientada pela justiça cognitiva.
Apresentamos nesse artigo os resultados de implementação de um projeto didático visando a discussão de elementos históricos e práticos do eletromagnetismo junto a estudantes de nível médio em uma escola de Portugal. Descrevemos as atividades realizadas e discutimos as impressões dos alunos participantes do projeto no contexto de um estudo de caso, constatando que os mesmos aumentaram seu sentimento de significância tanto em relação à histórica do eletromagnetismo e seus conteúdos quanto à própria disciplina de Física, mostrando como abordagens mais plurais no ensino de Física podem promover um maior interesse dos estudantes ao mesmo tempo em que permite se discutir elementos gerais da própria atividade científica, para além de seus resultados.
São examinadas possíveis correlações entre habilidades de letramento científico e habilidades didáticas de professores, por meio de uma pesquisa de abordagem quali-quantitativa, do tipo exploratória, onde os softwares MAXQDA 2020 e JAMOVI 2.2.5 foram utilizados para produzir análises de conteúdo e estatísticas descritivas de dados coletados, junto a um grupo de 18 (dezoito) professores da educação básica, calouros de um curso de pós-graduação stricto sensu, que, voluntariamente, responderam questões do chamado Teste de Habilidades de Letramento Científico (TOSLS) e elaboraram, por escrito, propostas de sequências didáticas. Para analisar as referidas propostas foi criado um Protocolo de Análise de Habilidades Didáticas (PAHD), cujas categorias de análises foram inspiradas nas ideias contemporâneas de educadores de orientação construtivista. As análises dos resultados da categorização dos indícios de habilidades didáticas mostraram que os participantes apresentaram, em média, metade das habilidades didáticas de natureza construtivista analisadas e desempenho no teste de letramento abaixo do ideal. Todavia, não foram encontradas correlações significativas entre componentes dos dois constructos analisados. Embora ainda seja necessário realizar outras pesquisas sobre a questão de habilidades didáticas, o PAHD demonstrou um interessante potencial como instrumento para pesquisas futuras sobre o assunto.
Neste artigo teórico, problematizamos as relações entre alfabetização científica (AC), democracia e cidadania. À luz do pensamento dialético, utilizamos as categorias de totalidade e historicidade para analisar concepções de AC em seus respectivos contextos socio-históricos, retornando de modo qualitativamente superior ao concreto, evidenciando contradições relacionadas à alienação da dimensão política da AC — contradições que, defendemos, devem ser superadas por meio do processo de negação, preservação e superação da AC em relação ao seu caráter político imanente.
O contexto brasileiro atual é marcado por rupturas constantes nas políticas de formação de professores. Neste editorial, resgato parte do processo de elaboração das resoluções anteriores à Resolução CNE/CP 04/2024 a fim de expor as consequências dessas rupturas, tanto no conteúdo presente nas novas diretrizes de formação de professores, quanto na fragmentação das políticas educacionais. A ausência de uma política de formação de professores construída a partir do diálogo entre as várias instâncias envolvidas no processo educacional resulta em mudanças inócuas e em um clima tenso e estressante, que somente contribui para agravamento dos problemas existentes. Que este texto nos mobilize a nos organizarmos em torno de um maior diálogo nas políticas de formação docente.
Neste trabalho, é apresentada uma Revisão Sistemática da Literatura no que concerne à metodologia ativa de ensino Problem-Based Learning empregada dentro das subáreas Ensino de Física e Educação em Ciências. Após a seleção de 36 periódicos nacionais e internacionais, a busca inicial resultou em 463 artigos, posteriormente, filtrados e reduzidos a 26. Estes consistem em artigos de acesso aberto que compreendem o relato de implementação de atividades didáticas envolvendo a Problem-Based Learning. Mostrou-se que a metodologia é empregada em diferentes níveis de ensino, com predominância no Ensino Superior (n=8) e no Ensino Médio (n=8), sendo que as demais compreendem o Ensino Fundamental (n=6), Pré-escola (n=2) e Formação de Professores (n=2). Além disso, cabe destacar que a maior parte dos artigos analisados (n=16) não utiliza teorias da aprendizagem para subsidiar essas implementações. As pesquisas possibilitam identificar que a Problem-Based Learning contribui para (i) a manifestação de habilidades cognitivas de alta ordem, (ii) o maior envolvimento dos estudantes, (iii) o aumento das notas médias e maior homogeneização e, (iv) a melhora na aprendizagem. Com isso, espera-se que a revisão desenvolvida ofereça diretrizes para futuras pesquisas, servindo como referência para professores e pesquisadores interessados nas potencialidades proporcionadas pela metodologia Problem-Based Learning.
This article examines how artificial intelligence has become fetishized in contemporary discourse, being imagined as an autonomous force rather than crystallized collective human labor. Drawing on Marx's theory of commodity fetishism and critical AI studies, the paper analyzes how the apparent agency of AI systems masks their dependence on human labor. It thus challenges individualistic models of intelligence as computation, favoring an understanding of cognition as fundamentally social and historically situated, drawing on authors such as Vygotsky and Ilyenkov. The paper argues that the collective intelligence crystallized in these systems belongs to humanity as a whole, and must be reclaimed, since AI is too powerful for society to leave in the hands of the tech oligopoly. It advocates for a public AI under democratic control, recognizing that the struggle over AI is inseparable from broader struggles against exploitation, for climate justice, and for genuine democracy.
No Ensino de Física há uma percepção difusa de que características associadas às tecnologias são imediatamente transpostas para atividades em sala de aula. Com as Simulações Computacionais (SC) não é diferente. Muitas vezes enaltecidas por seu fácil acesso e uso interativo, parece faltar uma fundamentação teórica que dê sustentação ao seu uso. Neste sentido, esta pesquisa parte do ponto de vista da Teoria Crítica da Tecnologia para construir uma revisão de literatura em periódicos da área de Ensino de Ciências, que buscou caracterizar e problematizar referenciais teóricos que guiam os usos das SC enquanto tecnologia para o Ensino de Física. 42 artigos foram selecionados e formaram o corpus textual, que foi posteriormente analisado por meio do software de análise textual IRAMUTEQ (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires). A análise textual via IRAMUTEQ revelou que as SC são predominantemente abordadas como ferramentas neutras, com forte associação à teoria da Aprendizagem Significativa. Contudo, identificou-se a partir da leitura da Teoria Crítica da Tecnologia, potenciais práticas de ressignificação das SC, integrando dimensões técnicas e sociais no ensino de Física.