
Este estudo tem o objetivo de compreender como os dispositivos de segurança e de luto coletivo constituem relações de força na produção das práticas discursivas, funcionando como técnicas políticas que contribuem para a normalização da população de Brumadinho – MG, diante de uma das maiores tragédias da história recente do Brasil, que arrastou consigo uma cidade inteira. Para tanto, alicerçadas nos Estudos Discursivos Foucaultianos e em teorias imagéticas, este estudo tem como corpus de análise imagens iconográficas e suas respectivas legendas, bem como chamadas midiáticas retiradas do sítio oficial da prefeitura de Brumadinho.
A representação, tanto nos estudos linguísticos quanto psicanalíticos, dialetiza ausência e presença, relacionando-se com a natureza evocativa do enunciado concreto no dialogismo. Neste artigo, objetivamos analisar a elaboração do luto na/pela linguagem em uma narrativa auto-sociobiográfica de Annie Ernaux, discutindo as relações entre signicidade, mundo concreto e evocação alteritária na interface entre Saussure, Lacan e o Círculo de Bakhtin. Correlacionando a materialidade da linguagem e a dinâmica significante, pontuamos figurações do luto em Uma mulher (1987), obra escrita após a morte da mãe da autora, esboçando condições para a elaboração parcial da morte na auto-sociobiografia.
A Covid-19 foi considerada pela OMS como o maior problema de saúde pública do mundo atual, tendo causado mais de cinco milhões de mortes até 2022. A mídia corria incessantemente para divulgar as notícias e atualizar os dados numéricos. Assim, este estudo objetiva analisar discursivamente os registros dos 100 mil mortos pela Covid-19, no Brasil. Para o corpus, coletamos seis recortes de notícias dos sites G1, Uol, EBC e Ministério da Saúde. A análise mostra uma disputa e divisão de sentidos entre o discurso jornalístico – que destaca especialmente as mortes, e o discurso governista, que destaca o número de recuperados.
Objetivamos, nesse artigo, discutir as relações do luto (Freud e Lacan) com as noções de historicidade e real (Pêcheux), investigando como o contemporâneo apresenta exemplos de matanças, massacres e genocídios nos quais o processo de enlutamento é, ao mesmo tempo, convoca e impedido. Na articulação disso, escolhemos o chamamento à vida, à língua e à arte como formas de fazer trabalhar o luto. No nosso caso, faremos uma análise do filme Zona de Interesse (2024).
O objetivo deste artigo é analisar como a Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) está sendo implementada no currículo da licenciatura em Letras/Espanhol. A metodologia apoia-se na téc-nica documental (Gil, 2002; Cellard, 2008), na abordagem qualitativa com objetivo descritivo-inter-pretativista (Schwandt, 2006) e no campo teórico da Linguística Aplicada (Paraquett, 2009). A análise fundamenta-se nas orientações da ERER (Brasil, 2009; Brasil, 2013; Gomes, 2018;) e nos estudos inter-culturais (Candau, 2016; Matos; Almeida, 2022). Os resultados apontam que, entre as 20 ementas de disciplinas de Língua Espanhola de 8 documentos curriculares de universidades federais do Nordeste, 13 podem contemplar a ERER em alguma medida.
Este artigo apresenta um estudo qualitativo exploratório/descritivo sobre a percepção de docentes e discentes acerca da inserção da educação das relações étnico-raciais no currículo de graduação em Medicina. A pesquisa foi conduzida através de entrevistas semiestruturadas, a interpretação e análise dos dados coletados foram realizadas conforme a metodologia da Análise de Conteúdo Categorial de Laurence Bardin. Os resultados do estudo revelam a presença de forças que impulsionam transformações no trato das questões raciais, mas que na prática ainda não se traduz de modo efetivo como uma força transformadora.
Este estudo propõe-se a refletir sobre as dimensões da perda e do luto, ao analisar o testemunho de três sobrevivente das cheias do Rio Taquari, ocorridas entre 2023 e 2024. Os dizeres foram extraídos do documentário Vale do Taquari, três enchentes depois, produzido pela TV Folha. Via atravessamento da psicanálise na análise de discurso, a pesquisa compreende o luto como construção, e a experiência de deslocamento como marcada por um descolar(-se). Nesse caminho, são experimentadas a noção de ponto de inflexão e uma torção na nomeação deslocados internos.
O presente artigo busca analisar a coleção Tecendo Linguagens: língua portuguesa, a fim de verificar se ela está em conformidade com as normativas legais que asseguram o material didático adequado aos estudantes e se sob o aspecto do multiculturalismo, coopera para a invisibilidade das populações indígenas. Tal coleção, foi analisada com o intuito de explicitar o modo como a cultura indígena é apresentada no material didático em questão. A análise evidenciou que as populações originárias foram ostracizadas dessa coleção. Isso revela o apagamento a que essas comunidades estão relegadas na cultura nacional.
Neste artigo, apresentamos um gesto de leitura de pesquisas integrantes do projeto guarda-chuva Ser-estar-entre-línguas-culturas: língua, identidade e formação de professores, objetivando interpretar regularidades discursivas e imaginários em diferentes materialidades discursivas mobilizadas nos subprojetos. Retomamos os estudos e analisamos, por meio de paráfrase discursiva, a repetição e a estabilização de sentidos, dentre as quais destacamos o silenciamento do sujeito indígena. Com este estudo, pretendemos contribuir com gestos de interpretação - que são também modos de intervenção - de corpora que considerem as vozes e as múltiplas formas de existência do sujeito indígena.
Este trabalho pretende investigar o tema da morte em guerra em Pistoia: Cemitério militar brasileiro, publicado em 1955 por Cecília Meireles. Os soldados da Força Expedicionária Brasileira entraram em 1942 no conflito da Segunda Guerra Mundial, e o local onde os soldados mortos foram enterrados em solo europeu chama-se Pistoia. Conjugações como instante e eternidade, contemplação e totalidade, desaparecimento-dor e devoção-reflexão revelam os caminhos a serem percorridos com esse estudo, afinal, o tempo para renascer tem, inicialmente, de morrer. Assim, utilizamos como autores: Jacques Derrida (2008), Sigmund Freud (2009), Murilo Marcondes de Moura (2016), e outros.
Este artigo investiga a presença de uma voz feminina no luto e na morte na poesia de Safo, Erina e Anite, poetas da Grécia Antiga. A partir de uma pesquisa bibliográfica, analisamos fragmentos que evidenciam a participação feminina em rituais funerários. Fundamentado em Nicole Loraux (1996) e Margaret Alexiou (2002), o estudo percorre a relação mítica entre o feminino e a morte, examina a função social das mulheres nos lamentos e analisa a materialização desse discurso em poemas selecionados das três poetas. Como resultado, identificamos traços de um saber feminino sobre a morte, preservado e transmitido através da tradição poética.
Em intersecção com o mito da Atlântida perdida, este ensaio propõe uma leitura da obra poética de Tal Nitzán, conjugando um pensamento que se detém sobre o luto, desde o ditado da origem dos povos, até a realidade dos contextos de guerra. Considerando tratar-se de uma obra que toma posição, não sem a dificuldade de escavar os sentidos da ameaça, perscruta-se, ainda, as relações entre sonho, trauma e infância, ampliando-as do campo estrito do sujeito para um pensamento político em que pesa os paradigmas da linguagem.
O livro didático atende a necessidades educacionais, mas também visa ao lucro na sociedade capitalista. Por meio dele, a indústria cultural influencia conteúdos, formatos, distribuição e modela relações sociais, econômicas e educacionais. Sob a ótica marxista, esse trabalho examina algumas representações visuais, oferece uma compreensão sobre as narrativas afeitas à afrodescendência e aborda o fenômeno do racismo, considerado intrínseco ao sistema capitalista. O objetivo é analisar o livro didático como artefato cultural, social, econômico e educacional, à luz da Lei 10.639/03 e de suas contradições. Miranda (2021) e Munakata (2016) embasam a nossa análise.
Este trabalho propõe uma via discursiva para compreender a Lei 10.639/03, instrumento legal que obriga o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. O artigo defende que, pela lei em questão, o Estado empenha-se na construção de uma promessa discursiva (Anjos, 2021), ou seja, um compromisso para a educação antirracista produzido em condições materiais próprias. Desse modo, como uma promessa inscrita historicamente, é possível observar, por um lado, seu jogo hipnótico, no qual os sujeitos acham-se atados às amarras performativas e, por outro, a divisão de sentidos ligada a esse compromisso. Agenciando os ditos, a promessa em voga enlaça os sujeitos, fazendo-os esquecerem-se das condições materiais que permitem ao Estado ocupar-se em determinar legalmente a inclusão da cultura negra no conteúdo escolar.
Entrevistada: Profa. Tania Conceição Clemente de SouzaEntrevistadoras: Elizete de Souza Bernardes, Gesualda dos Santos Rasia, Letícia Lima e Mirielly Ferraça.
A partir do romance Corpo Desfeito (2022), de Jarid Arraes, o artigo aborda o luto e a escrita da perda por meio da narradora Amanda, que é submetida a uma série de violências. Na interface entre literatura e psicanálise, especialmente Freud, Lacan e Allouch, em diálogo com María Zambrano e sua releitura de Antígona, pontua-se breves questões sobre luto e criação com/na linguagem, considerando o (im)possível que é escrever/inscrever uma perda. A narrativa de Arraes revela como a travessia da perda desfaz um corpo, mas também instaura um movimento de abertura em direção à criação.
Este artigo tem como propósito apresentar a construção e implementação de um projeto de educação antirracista nomeado “ERER quilombola: olhares transgressores”. Considerando que a educação é o espaço de transformação ou de reprodução das condições materiais e sociais da vida. Não há como imaginar a realidade vigente sem contemplar a educação como espaço vital de funcionamento das sociedades contemporâneas. É neste contexto que a educação das relações étnico-raciais se faz necessária. Tratar do racismo e de seus desdobramentos práticos é objeto de considerável dificuldade, haja visto que o fenômeno assumiu, na sociedade brasileira, o papel de modulador das relações sociais. Tanto do ponto de vista histórico, quanto no processo de formação social do país é inegável que a desigualdade racial é estruturante das relações sociais no Brasil. É na esteira desse conjunto complexo de relações que, a partir de muitas reflexões e debates, decidiu-se desenvolver o projeto. A atividade docente dos coordenadores do projeto, aliada à sua militância fez surgir o desejo de impactar de forma positiva o processo educacional, no que tange à educação das relações étnico-raciais, no âmbito do município de Pelotas-RS. A reflexão ora apresentada fundamenta-se sobre uma matriz de análise qualitativa, na qual os dados elencados derivam de levantamento processado via formulários online apresentados aos/as docentes e coordenadores/as participantes do estudo resultante das ações empreendidas pelo projeto ERER Quilombola: Olhares transgressores. Considerando o fato de que a pesquisa resulta de um conjunto de ações desenvolvidas nas práticas em educação das relações étnico-raciais (ERER), a proposta destes instrumentos era avaliar a compreensão sobre o sentido da lei 10.639/03, bem como sobre as contribuições que ferramentas de formação podem fornecer à qualificação do trabalho em educação para a promoção da igualdade racial.
No presente artigo, desenvolvido a partir dos pressupostos teórico-metodológicos da análise de discurso, buscamos desenvolver reflexões acerca dos efeitos de sentido que ressoam a partir do texto e espetáculo Som e Luz, realizado nas ruínas na cidade de São Miguel das Missões/RS. A partir de recortes destacados do roteiro do espetáculo, observamos que há uma mediação entre a luta – característica da época, marcada pela guerra guaranítica e a defesa do modo de (re)existência nas missões jesuíticas -, e o luto – contrastado pela perda de diversas marcas pertencentes aos guaranis, como suas crenças e sua cultura, colocada à margem em prol da estabilização da tradição católica.
Resultante de investigações desenvolvidas no âmbito do projeto “Nós falas pretas e indígenas em escuta discursiva”, este texto reflete acerca do acontecimento materializado na Lei 10.693, que estabelece a obrigatoriedade do ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. Passados 20 anos de sua promulgação, interessa-nos analisar o que mudou na legislação educacional, especificamente, nas últimas reformas implantadas pelo Estado brasileiro, elaboradas num contexto de insurgência de ideais ultraneoliberais e de reestruturação produtiva do capital. Para tanto, recorremos aos pressupostos teórico-metodológicos da Análise do Discurso materialista-histórico-dialética.
Este artigo propõe analisar o Protocolo de Consultas dos Quilombolas do Paraná , especificamente, a problemática das Escolas Quilombolas no Estado presente no documento, a partir do marco teórico-metodológico da Análise do Discurso peuchetiana. Assim, farei um trançado entre memória discursiva, memória diaspórica, memória de futuro e a atualidade das comunidades quilombolas, e as demandas que as mesmas apresentam. A partir de diferentes materialidades observarei a relação que se estabelece entre as memórias e a atualidade, procurando me aproximar da observação do acontecimento discursivo da Educação Quilombola paranaense.