Este artigo analisa de que modo as obras Ana Davenga, conto constituinte de Olhos d’água, de Conceição Evaristo, e, Um buraco com meu nome, de Jarid Arraes, reconfiguram os modos de representação da experiência negra na literatura brasileiro-contemporânea. A investigação parte da hipótese de que essas produções não apenas tematizam sujeitos historicamente silenciados, mas tensionam os próprios fundamentos epistemológicos da teoria literária tradicional. Para isso, mobiliza-se uma abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e analítico-interpretativa, articulando os conceitos de escrevivência, partilha do sensível e inconsciente estético. A partir de Rancière (2009), compreende-se a literatura como prática capaz de redistribuir o visível, o dizível e o pensável. Em diálogo com Mbembe (2016) e com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, o estudo situa as obras no contexto da violência estrutural brasileira, marcada pela incidência desproporcional sobre corpos negros, femininos e periféricos. A análise evidencia que Evaristo e Arraes fazem da linguagem um espaço de memória, denúncia e resistência, deslocando a literatura de uma função meramente representacional para uma prática de produção do sensível. Conclui-se que a literatura negro-brasileira contemporânea atua como força estética, política e epistemológica de reconfiguração do comum.
RESUMO O presente artigo analisa o discurso propagandístico da Volkswagen (VW) Kombi, veiculado entre as décadas de 1960 e 1970, com foco nas campanhas publicitárias de 1961, 1964 e 1967. Fundamenta-se na concepção bakhtiniana da linguagem como fenômeno social e interativo, que articula diferentes campos da atividade humana. Esta investigação avança para o campo da semiótica (Santaella, 2005) e da retórica da persuasão (Charaudeau, 2010), incluindo a perspectiva de Iser (2002) acerca do papel ativo do receptor na construção de sentido. O artigo visa demonstrar como a organização dos signos, visuais e verbais, nas peças publicitárias, aliada às estratégias discursivas, produz efeitos de sentido capazes de dinamizar a inserção do utilitário no mercado brasileiro, mesmo diante de um orçamento reduzido e da concorrência de marcas consolidadas como Ford e Chevrolet. A metodologia consiste na análise interpretativa de três campanhas publicitárias, considerando-as como unidades de significação, em que os signos agregam subtextos visuais, verbais e intertextuais. Nessa perspectiva, a propaganda é entendida como um texto complexo, multifacetado e dotado de potencial gerador de novas mensagens, cuja eficácia depende da interação e da participação interpretativa do receptor.
Os estudos contemporâneos de Literatura Mundial, de Pascale Casanova (2008) a Aamir Mufti (2016), privilegiam o romance como forma paradigmática, marginalizando a poesia. Francesco Benozzo (1967-2025), poeta, filólogo e geopoeta italiano, candidato ao Nobel desde 2015 até sua morte, rompe essa lógica ao propor a Poesia Mundial como cartografia arquipelágica. O conceito evidencia aspectos ignorados pelo romance-centrismo, como a flexibilidade transnacional, a traduzibilidade formal e a resistência à expropriação linguística. Benozzo distingue a poesia legível em qualquer língua, como em Walt Whitman e Seamus Heaney, da intraduzibilidade da tradição pós-montaliana, representada por Eugenio Montale e Wisława Szymborska. Com base em Giorgio Agamben (2017), define poesia como o “resto inexpressável” que excede a comunicação. Explora ainda a transmidialidade, de trovadores occitanos a Bob Dylan, Fabrizio De André e Leonard Cohen, onde a empatia supera a compreensão literal (Mazzoni, 2017). Rejeita temas globais efêmeros, como Antropoceno e migrações, priorizando resistências atemporais em Les Murray e Derek Walcott. Destaca a Ecopoesia de Trevisani Bach (2019) e sua Geopoética (Benozzo; Meschiari, 1994), além da relação homem-meio em Augustin Berque (2000). A tradução propõe repensar cânones, ecopoesia e resistências linguísticas na Literatura Mundial.
Os estudos contemporâneos de Literatura Mundial, de Pascale Casanova (2008) a Aamir Mufti (2016), privilegiam o romance como forma paradigmática, marginalizando a poesia. Francesco Benozzo (1967-2025), poeta, filólogo e geopoeta italiano, candidato ao Nobel desde 2015 até sua morte, rompe essa lógica ao propor a Poesia Mundial como cartografia arquipelágica. O conceito evidencia aspectos ignorados pelo romance-centrismo, como a flexibilidade transnacional, a traduzibilidade formal e a resistência à expropriação linguÃstica. Benozzo distingue a poesia legÃvel em qualquer lÃngua, como em Walt Whitman e Seamus Heaney, da intraduzibilidade da tradição pós-montaliana, representada por Eugenio Montale e WisÅ‚awa Szymborska. Com base em Giorgio Agamben (2017), define poesia como o “resto inexpressável†que excede a comunicação. Explora ainda a transmidialidade, de trovadores occitanos a Bob Dylan, Fabrizio De André e Leonard Cohen, onde a empatia supera a compreensão literal (Mazzoni, 2017). Rejeita temas globais efêmeros, como Antropoceno e migrações, priorizando resistências atemporais em Les Murray e Derek Walcott. Destaca a Ecopoesia de Trevisani Bach (2019) e sua Geopoética (Benozzo; Meschiari, 1994), além da relação homem-meio em Augustin Berque (2000). A tradução propõe repensar cânones, ecopoesia e resistências linguÃsticas na Literatura Mundial.
This article aims to identify some considerations about the place of black women in the world of work, based on the analysis of the diaries of the writer Carolina Maria de Jesus, published in the book Quarto de Despejo in 1960. Drawing on the contributions of micro-history and literature, it is possible to reposition bodies and characters as subjects, recognizing that their expressions and ways of signifying their subjectivity hold value for the understanding of social dynamics and specific contexts. In this way, the relationship with the category of work runs through Carolina's writings from beginning to end, in a precarious relationship that links such practice to the struggle for survival.
Food is an unusual cultural manifestation, however, through it we can understand different aspects of people. The main objective of this work is to analyze how gastronomy present in the works Ana Terra and A Mesa Voadora represents the Sul-riograndense people. For this, the following procedures were employed: bibliographic review and content analysis, with a qualitative approach. The analysis showed that gastronomy is very present in literary works and represents the South Grande subject in its geographical spaces and historical times, which is achieved through descriptions of food preparations, commensality, traditions and customs. We conclude that, based on the social, cultural and economic relationships we have with food and gastronomy, we build our food identities.
espanolLa industria audiovisual brasilena atraviesa una fase de transformacion, que involucra no solo las innovaciones tecnologicas y el marco regulatorio nacional, sino tambien las transformaciones que aportan a los profesionales. En este contexto, ante la amplia difusion, en el territorio nacional, de la practica de las rondas de negocios, este estudio indaga sobre los sujetos involucrados en este juego enunciativo. Para ello, hace uso de la teoria de Charaudeau, discutiendo las prerrogativas de creadores y compradores. En este juego enunciativo, el creador tiene el desafio de explicar el proyecto en su concrecion, pero al mismo tiempo, trabajar la enunciacion para que impacte en el comprador. En este movimento, tambien, hay un agravante: el creador presenta el mismo proyecto, en consecuencia, el mismo enunciado, y lo envia hasta a cinco compradores distintos, lo que da como resultado, en el enfoque del analisis del discurso, un acto comunicacional que involucra, al menos al menos 12 sujetos, pero que el enunciado y el sujeto enunciante (EUe / EUc) son iguales. A la vista del marco teorico presentado, este estudio discute las mesas de negocios de las ferias de la industria audiovisual, desmembrando a los sujetos que alli se encuentran. La propuesta metodologica se inserta en el analisis del discurso, en linea con un metodo observacional. En cuanto al procedimiento tecnico, el camino metodologico consiste en la asimilacion de la investigacion bibliografica, la observacion in loco y las notas. Entre las notas esta la multiplicidad de sujetos involucrados y la constante necesidad del sujeto creativo de interpretar la situacion discursiva son factores estructurales para la realizacion del negocio. EnglishBrazilian audiovisual industry is going through a transformation phase, which involves not only technological innovations and national legislation, but also transformations that those bring to professionals. This context brings a wide dissemination, in national territory, of the practice of round meetings, this study investigates the subjects involved in this enunciative game. For those proposals, we use Charaudeau's theory, discussing the prerogatives of creators and buyers. In this enunciative game, the creator has the challenge of explaining the project in its concreteness, but at the same time, working on the enunciation so that it has an impact on the buyer. In this movement, there is also an aggravating factor: the creator presents the same project, consequently, the same statement, and sends it to up to five different buyers, which results, in the approach of discourse analysis, in a communicational act that involves, at least 12 subjects, but that the enunciation and the enunciating subject (EUe / EUc) are the same. In view of the theoretical framework presented, this study discusses the round meetings of the audiovisual industry fairs, dismembering the subjects who are there. The methodological proposal is inserted in the discourse analysis, in line with an observational method. The technical procedure, as well, the methodological path consists of the assimilation of bibliographic research, on-site observation and notes. Among the notes, is that multiplicity of subjects involved and the constant need of the creative subject to interpret the discursive situation are structural factors for the closing of the business. portuguesA industria audiovisual brasileira atravessa uma fase de transformacao, que envolve nao so as inovacoes tecnologicas e o marco regulatorio nacional, mas, tambem, as transformacoes que estas trazem aos profissionais. Neste contexto, diante da vasta difusao, em territorio nacional, da pratica das rodadas de negocios, este estudo investiga os sujeitos envolvidos neste jogo enunciativo. Para tal, faz uso da teoria de Charaudeau, discorrendo sobre as prerrogativas de criadores e compradores. Nesse jogo enunciativo, o criador tem o desafio de explicar o projeto na sua concretude, mas ao mesmo tempo, trabalhar o enunciado para que este gere impacto no comprador. Nesse movimento, incide, ainda, um agravante: o criador apresenta o mesmo projeto, consequentemente, o mesmo enunciado, e envia para ate cinco diferentes compradores, o que resulta, na abordagem da analise do discurso, em um ato comunicacional que envolve, pelo menos 12 sujeitos, mas que o enunciado e o sujeito enunciador (EUe/EUc) sao os mesmos. Diante do quadro teorico apresentado, este estudo discorre sobre as rodadas de negocios das feiras da industria audiovisual, desmembrando os sujeitos que ali se embatem. A proposta metodologica da-se inserida na analise do discurso, alinhado a um metodo observacional. Quanto ao procedimento tecnico, o trajeto metodologico e composto pela assimilacao da pesquisa bibliografica, observacao in loco e apontamentos. Entre os apontamentos esta que a multiplicidade dos sujeitos envolvidos e a necessidade constante do sujeito criador de interpretar a situacao discursiva sao fatores estruturais para a efetivacao do negocio.
Partindo do pressuposto de que o narrador, instância narrativa responsável pela condução da nossa leitura e, assim, por nos aproximar ou distanciar, nos mostrar ou esconder, nos envolver ora mais ora menos no mundo narrado, é um mediador simbólico no processo de leitura (Volmer, 2015), nos ancoramos em Adam (1987), Genette (2017) e Garcia (1973), para analisar duas versões do conto clássico Chapeuzinho Vermelho: uma, publicada originalmente em alemão no século XIX e escrita pelos Irmãos Grimm, “Chapeuzinho Vermelho”, e a outra, publicada no século XXI, intitulada “Chapeuzinho Vermelho e o Boto-cor-de-rosa”, escrita por Cristina Agostinho e Ronaldo Simões Coelho e ilustrada por Walter Lara. Este estudo, de cunho bibliográfico e qualitativo, tem como objetivo investigar as estratégias discursivas empregadas pelos narradores e tecer possíveis aproximações e distanciamentos entre as duas obras pelo viés do narrador como mediador simbólico de leitura. Assim, após a leitura e o levantamento dos elementos que compõem as narrativas, direcionamos nosso olhar para a história e para o seu discurso, especialmente para a atuação do narrador com vistas ao narratário. Apesar da distância temporal, as obras se aproximam pela estrutura e sequência narrativa, evidenciando que a adaptação contemporânea mantém a essência do conto do século XIX. Ambos os narradores apresentaram estratégias discursivas que dão ritmo, forma e literariedade para o texto de forma similar, provocando sensações e reações no leitor, mesmo atuando com séculos de distância. Enquanto mediadores, evidenciaram atuar, para além da função narrativa, como mediadores entre texto e leitor e cultura e leitor.
Em 2022, o marco do bicentenário da Proclamação da Independência nos convidou a interrogar sobre os alcances e limitações do nacional enquanto conceito teórico, unidade de análise, moldura identitária, esquema interpretativo e projeto de sociedade. A própria noção de independência, tão controversa em nossa América Latina e nos países do Sul Global, desafia a teia de dinâmicas econômicas, políticas e culturais tecida nos últimos dois séculos, e escancara sua não sinonímia com a supostamente correlata noção de autonomia. Findo o período da administração colonial, o modelo de Estado Nação moderno de matriz iluminista foi tomado como norte inconteste para a elaboração dos projetos políticos, econômicos e culturais das novas formas de organização social. Ao remeter à soberania de uma unidade política e à situação geopolítica dessa mesma unidade, o termo nação não se exime de comportar a referência a uma ideia de unidade étnica e cultural. Atualmente, na mesma medida em que vem sendo questionada a orientação do chamado mundo moderno por parâmetros estabelecidos por uma pequena região do globo, vem-se também questionando as exclusões que marcaram, sistemática e estruturalmente, os projetos nacionais e suas mais diversas manifestações e materialidades. A partir dessas inquietações, ao longo do ano de 2023 o Grupo de Pesquisa SUTRA - Subalternidades, Transculturalidade e Perspectivas Decoloniais se dedicou a refletir e discutir sobre a pertinência e o potencial transformador do recorte nacional enquanto perspectiva analítica e conceito operacional tendo em vista, principalmente, os Estudos Culturais e Literários. Dessas reflexões se originou a proposta deste livro, Aquém e além da nação: utilidades e ultrapassagens de uma identidade brasileira, cuja proposta é reunir reflexões sobre temas que perpassam, de diversas formas, a discussão do nacional, considerando os trânsitos e alcances teóricos de conceitos dos Estudos Culturais e da Teoria Literária. A obra se organiza em duas partes. A “Parte I: Além da Nação”, reúne capítulos que se dedicam a discutir aspectos teóricos, de caráter mais amplo e geral, que abordam diferentes dimensões dos limites, das ausências, das pluralidades e deslocamentos que marcam pensamentos contemporâneos sobre as fronteiras do nacional. A “Parte II: Aquém da Nação”, reúne os capítulos que se dedicam a analisar diferentes materialidades literárias e, a partir delas, ponderam sobre as identidades que problematizam ou extrapolam as representações e o imaginário sobre a brasilidade, sugerindo olhares que viram do avesso e desdobram, em multiplicidades não homogeneizantes, os constructos identitários em torno aos conceitos relacionados à nacionalidade.
A partir do romance Corpo Desfeito (2022), de Jarid Arraes, o artigo aborda o luto e a escrita da perda por meio da narradora Amanda, que é submetida a uma série de violências. Na interface entre literatura e psicanálise, especialmente Freud, Lacan e Allouch, em diálogo com María Zambrano e sua releitura de Antígona, pontua-se breves questões sobre luto e criação com/na linguagem, considerando o (im)possível que é escrever/inscrever uma perda. A narrativa de Arraes revela como a travessia da perda desfaz um corpo, mas também instaura um movimento de abertura em direção à criação.
This study aims to identify the main methods used to assess diversity in library collections. It is a bibliographic, exploratory, and descriptive study, conducted through a systematic survey in the Web of Science database and the Brazilian Information Science Journal Article Reference Database (BRAPCI), covering 2014–2024. The analysis covers 16 articles on the topic. The results reveal a range of traditional and alternative methods, including direct observation, checklist verification, descriptor searches, comparative evaluation, and circulation analysis. The study underscores the importance of diversity in bibliographic collections, drawing on decolonial and critical whiteness studies that seek to challenge exclusions perpetuated by cultural and institutional practices. It also reviews the methods used to evaluate diversity in collections and details the approaches and techniques most commonly applied in each, outlining their advantages and limitations. The goal is to offer tools and recommendations for libraries that seek to become more representative and inclusive spaces, promoting social justice and informational equity.
A escrita da negra-mulher na contemporaneidade constitui um gesto de resistência e afirmação identitária, que busca romper com os processos históricos de silenciamento e apagamento. Nesse contexto, a literatura é compreendida como uma estética política, capaz de tensionar e coibir as estruturas de poder que incidem sobre os corpos racializados e generificados. A escrevivência, conceito central na produção literária de Conceição Evaristo, transcende o testemunho individual e instaura-se como prática discursiva de um coletivo historicamente marginalizado, articulando as dimensões vivência, memória e identidade. Nesse sentido, não se restringe ao testemunho individual, mas emerge como expressão coletiva, enraizada na experiência compartilhada e na memória ancestral. Este estudo analisa os poemas “Vozes-mulheres”, “A noite não adormece nos olhos das mulheres” e “Da calma e do silêncio”, presentes na obra Poemas de recordação e outros movimentos (2021), de Conceição Evaristo, a fim de investigar de que maneira a escrevivência promove a partilha do sensível e se articula com a memória, a história e a construção das identidades. Como aporte teórico, dialoga-se com Homi Bhabha, Antonio Candido, Stuart Hall, Jacques Le Goff, Achille Mbembe, Jacques Rancière e Gayatri Spivak.
Ao visar a construção identitária da mulher negra brasileira, busca-se compreender, na obra Ponciá Vicêncio (2003), de Conceição Evaristo, se, como produto literário, foi construída uma protagonista que se enquadra na teoria de Joseph Campbell em relação à jornada do herói. As reflexões acerca da identidade de Ponciá sugerem intersecções entre o conceito de herói compreendido na literatura, ainda que se faça deslocamentos e ajustes, quando confrontados com a teoria de Campbell, trazendo uma nova perspectiva e outro poder de interpretação à narrativa. Além disso, reflexões de pensadores contemporâneos são colocadas em diálogo para uma melhor compreensão dos aspectos analisados na narrativa de Evaristo. Dessa forma, não apenas se percebe que o romance desvela o expediente de (não) heróis, os quais apresentam uma trajetória como lutadores incansáveis, como também se entende que a autora construiu uma personagem capaz de dialogar com a subjetividade obliviada de milhões de mulheres, evidenciando claros contornos às humanidades negligenciadas.
In literary works, the interrelation between historical, social, and aesthetic dimensions is evident. By intertwining these categories, literature seeks to narrate human action, utilizing historical-cultural events. This article proposes to analyze how the historical and sociocultural context of the municipality of Barbacena (MG) is depicted in Fernando Sabino's work "O Grande Mentecapto" (The Great Loony). In the novel, with Geraldo Viramundo as the central character, the social dynamics of Barbacena are experienced by him and realistically represented in four main moments: a) the production and trade of roses by a German; b) the presence of a mental asylum, alluding to the Hospital Colonia; c) the turbulent political context, with two family groups dominating local dynamics; and d) the presence of historical figures, such as the French writer Georges Bernanos, highlighting latent intertextuality for the production of meaningful effects on the reader.
A história do cangaço, enraizada no sertão nordestino, revela uma narrativa complexa de resistência desde as insurgências do século XVII até o apogeu entre os anos 1900 e 1940. Surgido em meio a ciclos de seca, violência e conflitos territoriais, o cangaço reflete a mistura de rebeliões, resistência da população nativa e miscigenação étnica. Lampião, destacando-se como figura central, não apenas se rebelou, mas moldou sua vida como uma obra de arte, transmitindo resistência por meio de suas vestimentas distintivas. Este estudo explora o aspecto histórico do cangaço e a riqueza cultural da indumentária, revelando-a como expressão codificada de identidade, poder e resistência. A vestimenta feminina, equilibrando funcionalidade e estilo, e a dança do xaxado, originada no bando de Lampião, é abordada como elemento cultural rico em significados. A importância da indumentária transcende a mera estética, conectando-se à identidade, à tradição e aos valores sociais. Além disso, a dança popular, ao utilizar elementos visuais oriundos do movimento cangaceiro, contribui para a identificação cultural, perpetuando a herança desafiadora dos agentes políticos, das primeiras quatro décadas do século XX, nas performances dos grupos contemporâneos.
Partindo da urgência em se fomentar perspectivas epistêmicas não eurocêntricas e da consequente e necessária compreensão de como foram forjados os paradigmas de saber que nortearam a formação de uma modernidade ocidental excludente, Ainda Orientalismo reúne leituras tecidas a partir do Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, do autor palestino Edward W. Said. Fruto das discussões do Grupo de Pesquisa Subalternidades, Transculturalidade e Perspectivas Decoloniais – SUTRA, realizadas entre os meses de março e outubro de 2021 na Universidade Federal de Pernambuco, este livro retoma o texto de Said, clássico no campo dos Estudos Culturais, e reflete sobre sua atualidade para pensar a condição contemporânea de comunidades do Sul Global da qual fazemos parte, bem como para fornecer elementos de reflexão sobre literaturas produzidas em diferentes latitudes. O Orientalismo é revisitado, aqui, a partir de olhares que interrogam sobre suas contribuições para as discussões contemporâneas tais como os processos decoloniais, a afirmação de culturas subalternizadas através de sua literatura, bem como os mecanismos de combate cultural e literário a partir de diferentes pautas. Nesse sentido, o livro se organiza em duas partes: uma de reflexões de cunho mais teórico, travadas sobre e a partir do livro de Said, e outra de caráter mais analítico, onde se estendem diálogos com textos literários de distintas origens e a partir de temáticas diversas.
O artigo focaliza o processo de colonização, desencadeado por Portugal, que instalou, em sociedades autóctones, via opressão e práticas discursivas, o imaginário da aniquilação do Outro. No caso de Portugal, a anulação dos sujeitos conduziu à ditadura salazarista, às guerras coloniais e a uma sensação de (des)pertencimento e de degeneração da estrutura familiar e social. Com base nisso, o artigo analisa a representação das personagens em Auto dos danados, de Lobo Antunes, que narra a decomposição moral e a decadência econômica de uma família do Alentejo, e conclui que essa circunstância se estende, como alegoria, à terra portuguesa.
Diante da necessidade de redimensionar os arquétipos de sociedade e de desmistificar a ideia do “ter-sido”, instaura-se um processo de recondução histórico-social, no qual a tonicidade do sujeito se mostrou a melhor arma contra os dilemas e os conflitos surgidos no entre-guerras. É pela literatura que vão sendo percebidos os movimentos colocados em curso no âmbito da centralidade do indivíduo, a fim de (re)construir a ideia de Ser para o mundo, projetando as experiências humanas a partir da desfronteira incorporada como o meio para a consolidação de uma consciência que abrange o sujeito histórico na sua inteireza. É pela palavra (ou sua ausência) que se vai pensar este estudo. A ideia de pertencimento, de deslocamento e de exílio foi relativizada no imaginário dos sujeitos que tinham no espaço a sua raiz. Pensando nisso, propõe-se analisar a obra Requiem para Um Navegador Solitário, de Luis Cardoso, evidenciando-se a personagem Catarina, que tem o seu corpo e sua subjetividade cindidos pelas variadas dimensões fronteiriças surgidas no exílio que lhe é imposto. O quase pertencer, transforma-a em alguém que vive no deslocamento que é moldado sempre na ordem da ausência.
This article delves into the analysis of the sacred and profane phenomena present in Flaubert's Madame Bovary from a literary perspective, aiming to understand the human existence in relation to the divine through the lens of religious anthropology. The objective is to examine the manifestations of the sacred and profane in the construction of meaning within the play. It also explores the comprehension of these manifestations during the realism era, when individuals sought guidance from various forms of sacredness or symbolic elements while simultaneously rejecting what was deemed sacred. Drawing on the theories of philosophers such as Gilles Lipovestsky and Mircea Eliade, this bibliographical research briefly touches upon certain historical events in 19th-century France to enhance social criticism and contextualize life experiences and expectations in an impious world. The results reveal that Emma Bovary's attitudes amalgamate values, experiences, and religious principles, indicating that individuals can only find fulfillment by desecrating themselves and the world around them.