
Livro resenhado: OLIVEIRA, Leonardo Davino de. Do poema à canção: a vocoperformance. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2023.
Este artigo, decorrente de um trabalho de dissertação (Rocha, 2024), analisa o papel das redes referenciais na construção argumentativa de colunas de opinião assinadas. Para tal, filiamo-nos ao quadro teórico da Linguística Textual, dando ênfase à interface entre esta e a Teoria da Argumentação do Discurso, a partir da qual assumimos a argumentatividade como um princípio inerente ao texto. Adotamos, ainda, os pressupostos de que a referenciação é uma atividade discursiva e de que os referentes se organizam em redes referenciais. As discussões teóricas são aqui empreendidas com base em autores como Mondada e Dubois (2003), Cavalcante et al. (2020) e Matos (2018). O corpus da pesquisa constitui-se de duas colunas de opiniões assinadas, veiculadas pelo jornal Folha de S.Paulo, das quais são analisados dois excertos, um de cada coluna. Quanto aos resultados, as análises mostraram que os referentes instituídos pelos colunistas mantêm entre si múltiplas relações de sentido, compondo redes referenciais, as quais colaboram para a tentativa de influenciar os leitores, na busca por fazê-los aderir às teses defendidas. Em razão da natureza opinativa do gênero investigado, verificamos que as redes são revestidas de traços explicitamente avaliativos. Conclui-se, assim, que as redes referenciais são um poderoso meio para apreender a argumentatividade, o que reforça a sofisticação teórica, analítica e metodológica da interface entre Linguística Textual e Teoria da Argumentação no Discurso.
Este artigo analisa criticamente as abordagens de gênero na formação docente, à luz da Epistemologia da Complexidade (Morin, 2015; Freire; Petraglia, 2023), em uma pesquisa qualitativa e bibliográfica (Minayo, 2011), ancorada na Linguística Aplicada Indisciplinar (Moita Lopes, 2009). Fundamentado em autoras e autores como Freire (2009), Freire e Leffa (2013), Lauretis (1994), Beauvoir (2009) e Araújo (2022), o estudo defende práticas formativas que superem visões fragmentadas e tecnicistas, promovendo a religação entre saberes, afetos e subjetividades. Outrossim, propõe-se a ampliar o conceito de auto-heteroecoformação para auto-heteroeco(trans)formação, entendendo a docência como prática ética, política e transgressora. Por fim, a discussão evidencia a urgência de transversalizar as discussões de gênero nos currículos formativos, contribuindo para uma educação crítica, plural e socialmente justa, voltada à construção de uma cidadania planetária.
Entrevista. Elena Losada é hoje uma das principais tradutoras de Clarice Lispector ao espanhol: traduziu treze de seus livros, entre romances, contos, crônicas e cartas.
Este artigo propõe uma revisão crítica da recepção brasileira da obra de Ursula K. Le Guin, destacando a predominância de abordagens materialistas e utópicas em sua análise, influenciadas por teóricos como Fredric Jameson e Darko Suvin. Ao longo destas páginas, argumento que essa perspectiva limitada ignora a complexidade e os desdobramentos da literatura de Le Guin, que se desdobra em estruturas cada vez mais sofisticadas ao longo de sua carreira. Além disso, aponto a escassez de estudos brasileiros sobre a vasta produção literária de Le Guin, com um grupo restrito de seus romances e contos sendo explorados academicamente, enquanto outras obras relevantes para a sua carreira, como sua poesia e a série de Terramar, permanecem majoritariamente negligenciadas pela crítica nacional. Proponho, portanto, uma leitura mais abrangente, considerando outras influências presentes em sua obra — por exemplo, a filosofia taoísta, as cosmovisões indígenas e o anarquismo pacifista, todos assuntos que enriquecem suas narrativas para além do viés utópico. Dessa forma, sugiro que a obra de Le Guin seja lida como uma rede dinâmica, em constante transformação, convidando a uma crítica mais plural e menos fragmentada de seus textos.
Este artigo focaliza a construção modalizadora [V1AUX + PREP + V2INF], que licencia padrões como tenho de reconfigurar, hei de ver, está para nascer, ficou de mandar, cujos sentidos apontam para noções de obrigação, necessidade, compromisso e volição. O objetivo geral do artigo é examinar a atuação de processos sociointeracionais subjacentes às instâncias de uso da referida construção. Fundamentamo-nos teoricamente na Linguística Funcional Centrada no Uso, conforme proposto por Furtado da Cunha e Bispo (2023), Bispo e Lopes (2022), Rosário e Oliveira (2016), particularmente na interface dessa vertente teórica com o modelo da Gramática de Construções (TRAUGOTT; TROUSDALE, 2013). Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem qualitativa, de natureza descritivo-explicativa. O banco de dados consiste em ocorrências extraídas do Corpus do Português on-line, especificamente da seção Web/Dialetos. Os resultados apontam para a existência de uma gradação intersubjetiva para cada uso linguístico de um mesmo padrão subesquemático a depender do contexto sociocomunicativo. Desse modo, alguns usos se alinham mais a uma dimensão intersubjetivamente “não marcada”, enquanto outros reforçam um viés mais intersubjetivo, tendo em vista seus possíveis efeitos perlocucionários, como convencer, inspirar, revoltar, comprometer o presumido ou conhecido interlocutor. Além disso, salientamos a materialização de atos de fala indiretos em algumas instâncias da construção sob enfoque, mais precisamente nos subesquemas estar para + infinitivo e haver de + infinitivo, aliada a outros mecanismos pragmáticos de regulação da interação, como a preservação da face, a polidez comunicativa, a manutenção de interação fictícia, dentre outras.
Este texto busca investigar alguns aspectos da ideia de pós-autonomia, crucial para certo ensaísmo argentino recente. Segundo autores como Florencia Garramuño e Reinaldo Laddaga, além, é claro, da pioneira Josefina Ludmer, estaríamos vivendo a exaustão do paradigma moderno da arte ou, ao menos, de alguns de seus elementos; entre esses estaria a especificidade do discurso literário que implica que, em sua vertente moderna, a literatura teria definido a si mesma e sua diferença de outros discursos de forma relativamente cômoda. Recentemente, essa concepção moderna do literário teria começado a perder seu rendimento crítico, e veríamos emergir uma literatura pós-autônoma, que transborda toda fronteira de definição possível, se colocando fora e dentro da rubrica “literário”. A meu ver, porém, tal inespecificidade da arte é algo inerente à experiência da modernidade estética, um traço coextensivo ao modo contraditório e paradoxal pelo qual a literatura se (in)define no contexto do que Rancière (2002) denomina revolução estética. Isso implica que a tópica da ruptura ou da exaustão do moderno, tão crucial para os teóricos da pós-autonomia, essa cronologia que separa o momento autônomo moderno de sua contraparte mais recente se deve, na verdade à leitura e circulação dos autores associados ao “pós-estruturalismo” francês (como Derrida e Deleuze), referências frequentes nas obras desses teóricos
Embora o Código Penal brasileiro não apresente legislação que tipifique o discurso de ódio contra a população LGBTQIAPN+, a prática da homofobia é abarcada, em uma tipologia guarda-chuva, como um crime dentro das leis antirracistas. Todo esse aparato jurídico, entretanto, parece não ter surtido efeito, uma vez que há, frequentemente, aumento nos números de ataques LGBTfóbicos, seja por meio do ataque físico, seja por meio da violência verbal. O presente trabalho, de natureza predominantemente qualitativa, embora lancemos mão de quantificações, debruça-se sobre dezesseis entrevistas obtidas no documentário Temporada de Caça, de 1988, para evidenciar as estratégias discursivas utilizadas no mascaramento do discurso de ódio dentro do gênero. Para tal, utilizamos a Teoria Semiolinguística de Patrick Charaudeau (2003; 2008; 2015) em relação com alguns postulados da Linguística Forense (Shuy, 1993). De forma geral, foi percebido que o discurso de ódio, no corpus analisado, apresenta-se na forma de uma opinião que é solicitada como se fosse apenas um pensamento individual, mas que carrega uma série de descrições pejorativas que não só incitam a violência contra a população que não segue a heteronormatividade, mas também a representa negativamente enquanto grupo. Além disso, foi verificado que o gênero entrevista parece ter um espaço contratual que favorece a expressão do discurso de ódio, a partir do momento em que o enunciador interpela seu interlocutor a responder com o que ele “acha”.
O entendimento do conceito de meme vem se mostrando cada vez mais relevante para compreendermos as dinâmicas comunicativas digitais. A partir de uma análise linguística baseada em frames (Fillmore; Baker, 2010) e na Teoria da Metáfora Conceptual (Lakoff; Johnson, 1980), foi empreendida a análise de 13 definições de meme propostas por três comunicólogos da área (Dawkins, 1976; Jenkins, 2009a; Chagas, 2021), com o objetivo de compreender como meme vem sendo conceptualizado por especialistas no assunto. O primeiro autor figura aí por ter sido aquele que cunhou o termo “meme”. Jenkins (2009) por ser um conhecido interlocutor de Dawkins (1976). E o pesquisador brasileiro Chagas (2021) por ter feito detalhada revisão de literatura sobre o tema. Os achados apontam para um enquadre de meme que tende a observá-lo como um objeto biológico, mercadológico e de diversas outras naturezas, cuja manipulação discursiva requer letramentos e maior consciência.
Este artigo tem como objetivo analisar dois entremezes de Ariano Suassuna produzidos na década de 1950 — Torturas de um coração ou Em boca fechada não entra mosquito (1951) e O homem da vaca e o poder da fortuna (1958) — buscando identificar suas contribuições para a consolidação do teatro brasileiro moderno e compreender os primeiros passos do autor na proposição da estética armorial. Em Torturas de um coração, a trama se passa em Taperoá, onde personagens típicos dos folguedos nordestinos, como Benedito e Marieta, vivem situações cômicas e burlescas, repletas de referências à oralidade e à vivência popular. Em O homem da vaca e o poder da fortuna, Suassuna retoma a estrutura do entremez para abordar temas universais, como sorte e destino, sempre ancorado em personagens e situações do cotidiano sertanejo. A relevância dessas obras reside na habilidade do autor em mesclar elementos eruditos e populares, promovendo um diálogo entre texto letrado e tradição oral, e revelando sua fase experimental, quando buscava consolidar os princípios que dariam origem à estética armorial.
Este artigo analisa a representação da loucura e da vingança como formas de resistência à opressão social em Lady Audley’s Secret (1862), de Mary Elizabeth Braddon. Embora Lady Audley invoque a loucura hereditária como justificativa para seus crimes, sua trajetória revela não uma perda de razão, mas uma recusa consciente em aceitar os limites impostos à mulher vitoriana. Em uma sociedade que naturaliza a inferioridade feminina, a vingança torna-se, para a protagonista, o único meio de restaurar um senso de ordem em um mundo que a despossuíra de direitos. Seus atos criminosos (bigamia, falsidade ideológica, assassinato) não derivam de irracionalidade, mas de uma ambição por autonomia e de um desejo de reparar injustiças. Assim, a vingança não é apenas resposta pessoal, mas um gesto simbólico de reestruturação do seu universo ético e emocional, um esforço para impor uma nova lógica onde antes havia caos e impotência. A loucura, nesse contexto, é menos um diagnóstico do que uma estratégia: a única identidade socialmente aceitável para justificar sua revolta. O romance, portanto, tensiona os limites entre sanidade e insubmissão, e expõe as contradições do ideal feminino vitoriano.
Neste texto, propõe-se uma reflexão acerca da constituição das personagens do romance Os bêbados e os sonâmbulos, do autor Bernardo Carvalho, no que diz respeito à relação do contexto da ditadura militar no Brasil e os eventos traumáticos que envolvem esse cenário sócio-histórico com as vivências dos sujeitos representados ficcionalmente. Assim, a leitura que se faz aqui do romance parte do pressuposto de que na impossibilidade de materializar o trauma por meio de palavras ou não sendo possível compreender a razão dos acontecimentos, há uma transferência do recalcado para o corpo, para os sentimentos, para as ações das personagens como manifestação da memória corporal. Nesse sentido, apresenta-se os episódios traumáticos do acidente de avião de Guilherme e o desaparecimento e tortura de Filkelstone, o psiquiatra louco, com o propósito de, mediante análise e interpretação dos relatos dessas personagens, identificar de que modo a memória traumática é representada nessa narrativa como testemunho da dor e da violência que silencia e anula os corpos em tempos de opressão. Partindo, então, desse escopo, o texto busca contribuições nos pressupostos de Freud (1930), Ricoeur (2007), Seligmann-Silva (2008), Ferenczi (2011) e outros.
Livro resenhado: OLIVEIRA, Diego Leite de; ALONSO, Karen Sampaio Braga. Conhecimento em rede: laços e entrelaços da língua em uso. São Paulo: Pimenta Cultural, 2024.
Este artigo propõe um conjunto de atividades didáticas para o estudo de português como língua materna em turmas do 7º ano do Ensino Fundamental a partir da Gramática de Construções Pedagógica Baseada no Uso (GCPBU), pensada especificamente, neste artigo, para a realidade do ensino de língua materna. A pesquisa parte do pressuposto de que a Gramática de Construções, ao buscar representar o conhecimento linguístico, deve também ser aplicável a contextos pedagógicos. Para tanto, toma-se como estudo de caso a quantificação indefinida no português. Assim, busca-se aproximar resultados acadêmicos de contextos escolares, enfrentando lacunas na literatura, tais como a escassez de trabalhos que articulam gramática de construções e ensino de língua materna e a ampliação das construções quantificadoras que entram em materiais com fins didáticos. O artigo discute a relação entre linguística e ensino, apresenta dados sobre quantificadores indefinidos e oferece propostas de atividades para trabalhar com esses elementos em sala de aula.
The understanding of the concept of meme has proven increasingly relevant for grasping the dynamics of digital communication. Based on a linguistic analysis grounded in frames (Fillmore; Baker, 2010) and in Conceptual Metaphor Theory (Lakoff; Johnson, 1980), an analysis was carried out of 13 definitions of meme proposed by three communication scholars in the field (Dawkins, 1976; Jenkins, 2009a; Chagas, 2021), with the aim of understanding how meme has been conceptualized by specialists on the subject. The first author appears here for having coined the term "meme". Jenkins (2009) is included for being a well-known interlocutor of Dawkins (1976). And the Brazilian researcher Chagas (2021) for having produced a detailed literature review on the topic. The findings point to a framing of meme that tends to view it as a biological, market-oriented, and multifaceted object, whose discursive manipulation requires literacies and greater awareness.
This article examines the representation of madness and revenge as forms of resistance to social oppression in LadyAudley's Secret (1862), by Mary Elizabeth Braddon. Although Lady Audley invokes hereditary madness as a justification for her crimes, her trajectory reveals not a loss of reason, but a conscious refusal to accept the limitations imposed on Victorian women. In a society that naturalises female inferiority, revenge becomes, for the protagonist, the only means of restoring a sense of order in a world that has stripped her of rights. Her criminal acts (bigamy, identity fraud, murder) do not stem from irrationality, but from a desire for autonomy and a need to redress injustices. Thus, revenge is not merely a personal response, but a symbolic gesture aimed at restructuring her ethical and emotional universe, an effort to impose a new logic where previously there was only chaos and powerlessness. In this context, madness is less a diagnosis than a strategy: the only socially acceptable identity through which to justify her revolt. The novel, therefore, challenges the boundaries between sanity and insubordination, exposing the contradictions at the heart of the Victorian ideal of femininity.
This article focuses on the modalizing construction [V1(AUX) + PREP + V2(INF)], which licenses patterns such as tenho de reconfigurar, hei de ver, est & aacute; para nascer, ficou de mandar, whose meanings point to notions of obligation, necessity, commitment, and volition. The general objective of the article is to examine the role of socio-interactional processes underlying the instances of use of the aforementioned construction. Our theoretical framework is based on Usage-Based Functional Linguistics, as proposed by Furtado da Cunha and Bispo (2023), Bispo and Lopes (2022), Ros & aacute;rio and Oliveira (2016), particularly at the interface of this theoretical approach with the Construction Grammar model (Traugott; Trousdale, 2013). Methodologically, the study adopts a qualitative approach, of a descriptive-explanatory nature. The database consists of occurrences extracted from the online Corpus do Portugu & ecirc;s, specifically from the Web/Dialects section. The results indicate the existence of an intersubjective gradation for each linguistic use of the same subschematic pattern depending on the sociocommunicative context. Thus, some uses align more with an intersubjectively "unmarked" dimension, while others reinforce a more intersubjective bias, considering their possible perlocutionary effects, such as convincing, inspiring, revolting, or committing the presumed or known interlocutor. Furthermore, we highlight the materialization of indirect speech acts in some instances of the construction under focus, more precisely in the subscheme [haver de + infinitive], combined with other pragmatic mechanisms for regulating interaction, such as face preservation, communicative politeness, and the maintenance of fictional interaction, among others.
From the time Mrs. Dalloway was first published in 1925, it has been a global novel. Within three years of its publication, it was translated into German, and through the decades the number of different translations has grown. By the hundredth anniversary of its publication, it was translated into 42 languages, with the latest, Urdu, in 2024. One cannot overestimate the crucial role that translators have played in making Mrs. Dalloway such a global phenomenon. Along with further describing its global presence via translations, I explore the vital importance of translators and the many dimensions of translation, especially in the context of Mrs. Dalloway alone. Woolf was interested in these many dimensions and undertook translations herself, even during the writing of Mrs. Dalloway. She was aware of the protean receptions of translations. Next, I trace some of the ways that the translations of Mrs. Dalloway in multiple regions and through the decades have been received. Translation, of course, does not function alone; it is part of a larger process that includes variables like paratexts and facets of the publishing industry. Translation itself is, of course, a complicated endeavor involving myriad vectors; to examine Mrs. Dalloway within the discipline of Translation Studies is to show the complexity of these considerations. Finally, examining some of the translations of Mrs. Dalloway is to show that there are issues peculiar to this novel alone, as the rich field of criticism on the translations of this novel shows.
This article critically analyzes gender approaches in teacher education in light of the Epistemology of Complexity (Morin, 2015; Freire; Petraglia, 2023), through a qualitative and bibliographic study (Minayo, 2011) anchored in Undisciplined Applied Linguistics (Moita Lopes, 2009). Grounded in authors such as Freire (2009), Freire and Leffa (2013), Lauretis (1994), Beauvoir (2009), and Ara & uacute;jo (2022), the study advocates for educational practices that move beyond fragmented and technicist views, fostering the reconnection between knowledge, affections, and subjectivities. Furthermore, it proposes to broaden the concept of auto-heteroecoformation to auto-heteroeco(trans)formation, understanding teaching as an ethical, political, and transgressive practice. Finally, the discussion highlights the urgency of making gender discussions transversal within teacher education curricula, contributing to a critical, plural, and socially just education aimed at building planetary citizenship.
Although the Brazilian Penal Code does not include specific legislation that classifies hate speech against the LGBTQIAPN+ population, the practice of homophobia is encompassed, under a broad categorization, as a crime within anti-racist laws. This legal framework, however, seems to have had little effect, given that the number of LGBTphobic attacks - whether physical or verbal - frequently continues to rise. This study, predominantly qualitative in nature (though we also make use of quantifications), analyzes 16 interviews from the 1988 documentary Temporada de Ca & ccedil;a (Hunting Season), aiming to highlight the discursive strategies used to mask hate speech within the genre. To do so, we employ Patrick Charaudeau's Semiolinguistic Theory (2003; 2008; 2015) in dialogue with Forensic Linguistics (Shuy, 1993). Overall, it was observed that in the analyzed corpus, hate speech appears in the form of an opinion posed as merely a personal thought, but which in fact carries a series of derogatory descriptions that not only incite violence against people who do not conform to heteronormativity, but also negatively portray them as a group. Furthermore, it was found that the interview genre seems to offer a contractual space that facilitates the expression of hate speech, particularly when the speaker prompts the interviewee to respond with what they "think".