
O artigo pretende discutir os desafios para a aplicação da metodologia da sociolinguística quantitativa para analisar fenômenos complexos e difíceis de se classificar em categorias discretas, como é o caso dos fenômenos discursivos. Para lidar com tais desafios, é necessário utilizar critérios claros e bem definidos na delimitação do envelope de variação, além de empreender análises qualitativas que identifiquem os condicionamentos que podem estar atuando no fenômeno em estudo (FREITAG, 2009; GORSKI; VALLE, 2016). Como pano de fundo, a discussão teórico-metodológica utiliza-se da pesquisa acerca do fenômeno de variação entre os conectores discursivos “mas” e “só que” na variedade de português de Nova Iguaçu (RJ). A pesquisa, desse modo, será apresentada em um viés qualitativo, servindo como exemplo empírico para a discussão teórico-metodológica do tratamento de variações discursivas sob o olhar da sociolinguística laboviana (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968; LABOV, 1994, 2003).
Esta pesquisa propõe uma análise textual, a partir do critério das relações intertextuais (Carvalho, 2018), em memes que circularam durante as Olimpíadas 2024. Como objetivo, propomos ao docente de Língua Portuguesa uma possibilidade de análise da (re)construção de sentidos, a partir de memes, viabilizada por processos intertextuais. Para isso, partimos da conceituação do meme como prática linguageira na tecnodiscursividade (Paveau, 2021), para compreender como se estabelecem sentidos em diversos contextos de utilização, ao passo que assumimos os pressupostos da caracterização de memes a partir da intertextualidade e viralização, presente em Cavalcante e Oliveira (2019) e as discussões sobre o estatuto genérico atribuído a meme (Lima-Neto, 2021). A partir de nossa análise, sustentamos que os processos de produção e interpretação envolvem, não raro, a relação marcada entre textos, em diferentes graus de explicitude. Nessa perspectiva, exploramos as intertextualidades (Carvalho, 2018), evidenciando que, se aplicadas no ensino, melhoram a compreensão leitora e podem atuar, sobretudo, na variedade de funções argumentativas manifestadas nos textos produzidos pelos estudantes.
O presente trabalho tem como objetivo realizar, sob a perspectiva funcional-construcionista da linguagem, uma análise de neologismos formados por derivação sufixal com os elementos -nte, -ção, -izar e -ar. Os dados coletados para a composição do corpus provêm de textos jornalísticos coletados dos portais Veja, IstoÉ, Terra, Olhar Digital e que datam de 2020 a 2024, e de posts das redes sociais Instagram e X/Twitter. Com base no corpus, busca-se discutir, por meio de uma análise qualiquantitativa, os processos que permitem aos falantes produzirem e compreenderem construções lexicais inéditas como ucranização, conversante, gourmetizar e coringar. Sob a hipótese de que, a partir da experiência linguística, os falantes incorporam e reproduzem inconscientemente esquemas e redes construcionais para a formação de novas palavras, este trabalho respalda-se nos estudos acerca da neologia de Alves (1996) e Jesus (2021), bem como nos pressupostos teóricos sobre Gramática de Construções (Rosário, 2022), Processos Cognitivos de Domínio Geral (Bybee, 2016) e Morfologia Construcional (Gonçalves, 2016).
A Análise Colexêmica Distintiva (ACD) é um método quantitativo que compara construções similares quanto às preferências colocacionais. Assim como Hilpert (2006), defendemos que a ACD também seja útil para mapear mudanças ao longo do tempo, como no caso em que as relações sequenciais são reconfiguradas em decorrência de processos de automatização. Neste estudo, partimos da hipótese de que existe um marcador estruturante do discurso (MED) com valor de acréscimo cujas partes constituintes principais são a preposição sem seguida de verbo dicendi, que seria o resultado da recategorização de uma oração hipotática adverbial (OHA) modal ou condicional formada por esses mesmos elementos. Ao todo, analisamos 754 ocorrências da sequência sem + verbo dicendi no Portuguese Corpus 2022. Identificamos que as duas construções apresentam diferenças quanto à possibilidade de preenchimento de slot: 22 verbos dicendi aparecem na construção de OHA, ao passo que apenas 6 ocorrem na construção de MED, sendo dois deles (contar e falar) altamente atraídos para esta última construção.
Neste artigo investigamos expressões que atuam na formulação de convite que locutores fazem a interlocutores em suas interações cotidianas em torno do constituinte bora. Com base no Funcionalismo aliado à abordagem construcional, na linha de Traugott e Trousdale (2013) e Traugott (2021, 2022), entre outros, assumimos que tais expressões são instâncias da construção [bora (X)] e se dispõem num cline de vinculação semântico-sintática, chegando à convencionalização do marcador pragmático social convidativo codificado como [bora (X)]MPSconvid. A partir de contextos de uso das redes sociais Instagram e X, analisamos 405 dados que se distribuem em seis padrões convidativos, na demonstração de como o português contemporâneo do Brasil instancia a construção [bora (X)] e de como sequências menos monitoradas, mais informais e com simetria entre os interlocutores motivam tais usos.
Este trabalho buscou reflectir sobre como tem sido realizada a aprendizagem da escrita do Português, como segunda Língua em Crianças do 1° Ciclo do Programa de Educação Bilíngue na Escola Básica de Maleia. A base teórica se assenta, principalmente, em teóricos como: Capristano (2007, 2010), Cigarros (2021, 2023, 2025), Firmino (2008), Ngunga (2014) e Vygotsky (2003). É uma pesquisa qualitativa. A geração dos dados foi concebida por uma amostra de seis (6) alunos do 1º ciclo do Programa de Educação Bilíngue da Escola Básica de Maleia e quatro (4) professores da mesma escola. A pesquisa demonstrou que o contato linguístico, caraterizado por dissonâncias na escrita, é uma caraterística marcante nesse processo. Esse fenómeno, causado pela influência da língua materna, o Echuwabo, destaca a importância de os professores estarem atentos a essas questões linguísticas e ajustarem seus métodos e estratégias de ensino.
Este trabalho discute os impactos da hipertextualidade na formação leitora no contexto da sociedade em rede, enfatizando o descompasso entre as práticas digitais dos jovens e os modelos pedagógicos escolares tradicionais. O objetivo central é analisar as implicações da hipertextualidade na formação leitora contemporânea. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de cunho bibliográfico e documental, fundamentada em abordagens dialógica, rizomática e crítica. Os resultados indicam que a escola marginaliza os repertórios simbólicos digitais, perpetua um epistemicídio ao desconsiderar práticas hipertextuais como legítimas, e revela que indicadores estatísticos mascaram desigualdades estruturais na alfabetização. Conclui-se que a hipertextualidade exige uma reestruturação radical da pedagogia, transformando a escola em espaço de experimentação semiótica que forme leitores-arquitetos capazes de navegar e construir sentidos em ecossistemas complexos.
Esta pesquisa se propõe a compreender os sentidos das toadas cantadas pelos grupos que representam o boi, a partir do contexto histórico e aspectos culturais da manifestação do Bumba-meu-boi. A proposta é voltada para a compreensão do contexto e cenário das letras de alguns folguedos que representam a Região Tocantina, mais especificamente em Imperatriz, segunda maior cidade do estado do Maranhão. O léxico utilizado na composição das toadas pode ser um recurso para o estudo linguístico sobre semântica, auxiliando e/ou ampliando os conhecimentos dos estudantes dentro e fora da sala de aula. Dessa forma, esta apreciação será fundamentada em autores, como Furlanetto (2010); Ferrarezi Jr (2008); Carvalho e Mendes (1997); Albernaz (2013); Hampaté Bâ, (2010); Thomson (1997); entre outros que estudam sobre a história do Bumba-meu-boi, semântica e aspectos da memória e regionalidade, como fatores constituintes de uma identidade socialmente construída.
Intencionamos com este artigo alcançar três objetivos: descrever relevantes marcas enunciativas do gênero carta de reclamação; explicitar a ancoragem teórica e metodológica da proposta de Sequência Didática Funcionalista/SDF de Casseb-Galvão e Duarte (2018); analisar os resultados da aplicação de uma SDF do gênero carta de reclamação, baseada na proposta de Casseb-Galvão e Duarte (2018), que mediamos junto a uma turma do 7º ano do Ensino Fundamental de um colégio público na cidade de Cambé, Paraná. Nosso olhar analítico buscou verificar nas produções textuais dos alunos quais traços característicos do gênero carta de reclamação eles conseguiram efetivar e quais operadores argumentativos usaram, bem como os efeitos de sentidos produzidos por esses operadores. Os resultados mostraram que os alunos tiveram bom desempenho na efetivação de elementos enunciativos do gênero carta de reclamação e empregaram uma variedade de operadores argumentativos com diferentes sentidos textuais. Em razão dessas verificações, destacamos que a SDF aplicada mostrou-se operacional em termos de dinâmica didática e produtiva para o desenvolvimento da competência discursivo-textual e argumentativa dos alunos.
Este trabalho descreve a expressão da necessidade modal através de verbos auxiliares no dialeto rural, formado por afrodescendentes, de Helvécia (BA). O foco é na descrição do comportamento dos auxiliares dever e ter que em diversos contextos modais, a saber: epistêmico, deôntico, dinâmico, teleológico e bulético. A hipótese que procuramos verificar é a de que, apesar de ainda estarem em variação em alguns contextos, os dois auxiliares têm se especializado para contextos modais distintos (cf. Scarduelli, 2011; Pessoto, 2014), com dever expressando majoritariamente modalidade epistêmica e ter que expressando as modalidades não-epistêmicas. Também analisamos a distribuição por faixas etárias, para verificar se os dois auxiliares se encontram em variação estável ou mudança em progresso. O corpus analisado é de entrevistas do Projeto Vertentes, que reúne entrevistas sociolinguísticas de comunidades rurais e urbanas do estado da Bahia.
Este artigo busca refletir sobre o impacto da linguagem nos modos como as sociedades organizam suas ideias e seus pensamentos. Para tal realizou-se uma revisão de algumas das correntes teóricas segundo as quais a língua materna influencia o modo como pensamos ou sentimos o mundo, tal como de correntes que defendem que as maneiras como pensamos e sentimos o mundo é que determinam o funcionamento da linguagem. As análises indicam que apesar do descrédito decorrente do fracasso da tese do relativismo linguístico, há, em certa medida, uma pressuposição recíproca, na qual ambas vias de determinação se mostram igualmente válidas. Afinal, cada língua tem seus próprios aspectos obrigatórios, de modo que seus respectivos falantes são forçados a frequentar determinados pensamentos em detrimento de outros ao enunciar, até que tais pensamentos se cristalizam como hábitos no interior daquela comunidade linguística específica, tornando-se significativamente mais recorrentes que os não-obrigatórios.
Esse artigo tem como objetivo destacar algumas escolhas tradutórias de Edoardo Bizzarri, em seu trabalho de tradução para o italiano de Campo Geral. Tais escolhas são úteis para a reconstrução da complexa criação linguística de Guimarães Rosa. A tradução, nesse sentido, pode ser vista como uma forma de crítica, a partir da conceituação de Torop (2014). O confronto entre os dois textos nos permite compreender, de forma mais minuciosa, características do estilo e da poética de Guimarães Rosa, através da análise de alguns aspectos lexicais e sintáticos da língua do autor.
Este artigo analisa a evolução da caracterização do personagem Pedrinho da série de livros infantis de Monteiro Lobato pelo viés filológico, a partir do resgate e do estudo de suas fontes primárias. O garoto surgiu em Narizinho Arrebitado (1921) e foi incorporado como um dos agentes centrais da trama. Na versão inicial, Pedrinho era órfão, criado por Dona Benta, caracterizado como “Pichochó”. Em 1931, em As Reinações de Narizinho, tornou-se o primo da cidade e neto consanguíneo da avó. Por meio do cotejo entre as edições da obra, constatou-se que algumas características da versão inicial foram mantidas, como a inteligência e destreza do personagem, mas outras foram alteradas. Assim, considerando a prática lobatiana de alterar sucessivamente suas obras, analisa-se a tradição textual que abrange Pedrinho, reforçando a importância do estudo de sua trajetória de publicação, circulação e transmissão para a compreensão e estudo da obra infantil de Lobato em perspectiva histórica.
O artigo tem por objetivo debater o capítulo VIII da Arte de gramática da língua mais usado na costa do Brasil (1990 [1595]), de autoria de José de Anchieta (1534-1597), intitulado Da Conſtruição dos verbos actiuos (Anchieta, 1990 [1595], fol. 36r-37v), que tem por tema específico a construção oracional com verbos ativos na língua tupinambá, que são descritos conforme a gramática latina humanística de seu clima intelectual, logo a gramática de Anchieta vincula-se ao padrão de gramática latina estendida descrito por Auroux (1992). A fim de comentar criticamente a descrição desse fato linguístico pelo gramático quinhentista, empregamos a fundamentação teórico-metodológica da Historiografia Linguística, conforme a metodologia koerniana de análise (Koerner, 2014; Swiggers, 2019), com vistas a compreender o processo de gramatização da língua indígena segundo o padrão das gramáticas latinas estendidas, que configuravam o morfótipo de texto do Renascimento, em que a obra gramatical de Anchieta se contextualiza, ainda que escrita predominantemente em língua portuguesa.
Carta de Manuel Said Ali a Joaquim Mattoso Camara Jr. em que o mestre petropolitano dá conta de haver lido e apreciado um estudo do grande linguista carioca sobre a regência do verbo morar. A carta pode e deve ser explorada como documento histórico em vária dimensão, inclusive no tocante à longevidade intelectual de Said Ali, já avançado em seus 78 anos à época em que foi escrita.
O texto examina a hipótese de que a assunção do conceito de signo da tradição filosófica clássica por Ferdinand de Saussure (1857-1913) constitui uma mutação conceitual que, uma vez consumada, permite a elaboração da teoria do valor e promove uma ruptura com a reflexão clássica. Discute-se os meios pelos quais Saussure opera essa mutação, a qual, apesar de subsidiar a passagem do conceito de signo para o de valor, não o isenta de produzir contradições que ameaçam encobrir o alcance do deslocamento realizado (Lier-DeVitto, 2018).
Este trabalho é um estudo sobre a construção da manipulação do discurso político em contexto nacional – Brasil. Para tanto, analisam-se as estratégias linguístico-discursivas na fala do deputado Nikolas Ferreira, em parte de um vídeo-comunicado sobre a taxação do pix no Brasil, publicado por ele mesmo na plataforma Instagram. A escolha deste objeto de estudo se justifica pela crescente propagação de notícias falsas e conteúdos manipulados no século XXI, especialmente no cenário político, o que torna ainda mais relevante a necessidade de leituras críticas de textos, tanto orais quanto escritos, que circulam amplamente na esfera social. A análise adota uma abordagem metodológica qualitativa, investigando, por meio de sequências discursivas, as visadas argumentativas que compõem o ato de linguagem em questão. A base teórica utilizada segue os pressupostos da Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau (2019), incluindo conceitos como a semiotização do mundo, sujeitos e parceiros da linguagem, ethos, visada e modo argumentativo do discurso. O estudo da fala do deputado revela estratégias produtivas na construção da manipulação, destacando mecanismos como a construção da credibilidade, a captação do público, a projeção de um ethos favorável à sua imagem e a desqualificação do adversário. Tais elementos configuram-se como instrumentos de persuasão e influenciam como o discurso é estruturado e interpretado pelos seus receptores. Esta investigação contribui para a compreensão de como as estratégias linguístico-discursivas são utilizadas no cenário político para moldar opiniões e manipular a audiência.
Resenha do livro:PAULA, Aldir Santos de; VITÓRIO, Elyne Giselle de Santana Lima Aguiar (Orgs.) 30 anos do Programa de Estudos Linguísticos (PRELIN - PPGLL/UFAL), Volume I, Estudos em variação e mudança linguística. Campinas: Pontes, 2023.
O presente artigo intitulado “Práticas de Leitura no Ensino Secundário Geral em Moçambique: Perspetiva de Alunos”, tem como objetivo analisar as conceções dos alunos sobre a leitura e o seu ensino, o mesmo emerge dos resultados de um questionário dirigido aos alunos da 11.ª e 12.ª classes das Escolas Secundárias Gerais de Nicoadala e de Quelimane, construído e aplicado no âmbito de um estudo conducente ao de doutoramento na área de literacias e ensino do Português. A metodologia usada foi o inquérito por questionário dirigido aos alunos e os principais resultados da pesquisa indicam que os alunos, no contexto escolar, apoiam-se na leitura de textos extraídos dos manuais escolares (a partir de fotocópias), pois muitos alunos não têm acesso ao manual escolar quer na escola, assim como em casa. No contexto, extraescolar, a maior parte dos alunos quase que não tem acesso a materiais escritos.
Este artigo examina as estratégias de tradução criativa empregadas por Laura Pausini nas versões italiana (“Anime Parallele”) e espanhola (“Almas Paralelas”) da faixa-título de seu álbum homônimo (2023). Mediante análise contrastiva integral fundamentada em teorias da tradução (Bassnett, 2014; Venuti, 1995; Vinay & Darbelnet, 1958), demonstra-se como um mesmo conceito titular pode sustentar narrativas radicalmente distintas através de operações de adaptação cultural e modulação semântica. O estudo revela três eixos de transformação: (1) reconfiguração da temporalidade existencial (dialética complementar IT → alternância disjuntiva ES); (2) reconstrução do ethos social (coletividade IT → individualismo ES); (3) inversão da perspectiva emocional (resistência passiva IT → rebelião ativa ES). Conclui-se que a prática tradutória de Laura Pausini, especialmente nesta canção, opera como recriação autoral, onde a fidelidade conceitual coexiste com liberdade criativa radical, redefinindo os limites entre tradução e autoria.