
Este trabalho se desdobra das experimentações cartográficas da primeira autora pensando nas possibilidades metodológicas que usem da inventividade tendo a arte contemporânea como campo de criação e provocação para tornar a sala de aula um espaço para a experiência e a infancialização. Desta forma, iremos narrar parte do processo de invenção de um livro infantil coletivo, no qual a partir de convites para artistas variados, a primeira autora segue construindo sua proposição literária. A pesquisa, construída a partir da cartografia como perspectiva metodológica, acompanha os deslocamentos, afetos e experimentações vividos durante esse percurso de criação, compreendendo a docência como um campo de invenção e sensibilidade. Para tanto, nos aproximamos de autoras/es como Virgínia Kastrup, Gilles Deleuze, Jorge Larrosa Bondía, Luciana Loponte, Renato Noguera para sonhar possibilidades inventivas desde o fazer da pedagoga em encontro com a literatura e com as artes contemporâneas. Ao articular arte, literatura e formação docente, o trabalho aposta na experiência como possibilidade de transformação e na infancialização como abertura para outros modos de aprender, ensinar e produzir conhecimento. Assim, busca contribuir para a construção de práticas pedagógicas que valorizem a imaginação, a coletividade, a criação artística e o encontro com as múltiplas infâncias nos espaços educativos.
Como professor de educação infantil da rede pública de ensino, venho me questionando sobre a prática de nomear o trabalho realizado por professoras e professores da educação infantil como “chão da escola”. Este termo pode nos levar para diversos caminhos de pensamento, pois o “chão” pode nos enunciar um espaço onde pisamos, onde o corpo encontra o solo, onde as brincadeiras e os brincares são potencializados por esses corpos, mas também pode nos remeter a enunciação de um espaço filosófico e conceitual, onde as infâncias vivem suas experiências, onde os conceitos se transformam em vivências um dos locais de existência para que essas infâncias se formem enquanto potência. O chão é um lugar de pertencimento para aquelas e aqueles que ainda não se comportam com a adultez exigida pela sociedade capitalista e, ainda mais, é o território habitado por aquelas e aqueles que consideramos infantes. Tentaremos distinguir, neste trabalho, quem são aqueles e aquelas que ocupam essas duas percepções que temos sobre “o chão da escola”. Partindo de autores da filosofia da diferença como Deleuze, Guattari e Foucault e trazendo os escritos sobre as infâncias de Leite e Kohan, discutiremos sobre as possibilidades desse “chão” através de agenciamentos, potências e afetos que se constituem neste espaço.
Essa escrita busca investigar a partir das práticas do projeto “Em Caxias, a filosofia em-caixa?”, parceria do Núcleo de Estudos em Filosofias e Infâncias (NEFI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Escola Municipal Joaquim da Silva Peçanha, Duque de Caxias, Rio de janeiro, Brasil, as implicações e atravessamentos de uma educação filosófica que se afirma contracolonial e antiracista em um país marcado pelo racismo estrutural e pelo colonialismo. O projeto desenvolve práticas de filosofia com crianças a quase vinte anos na rede pública da cidade de Duque de Caxias, região periférica do Estado do Rio de Janeiro, resistindo ao silenciamento de saberes e memórias ancestrais que marginalizam corpos negros e sobretudo das crianças. Confluenciamos conceitos: de Antônio Bispo dos Santos (Nego Bispo), a contracolonialidade e a lógica do "começo-meio-começo" em oposição ao adestramento escolar e à lógica “começo-meio-fim”. Seu pensamento e modo de vida quilombola nos inspiram a olhar a escola pública como um território confluente que não separa os saberes, mas ganham força ao confluírem; de Gloria Anzaldúa, as noções de "consciência mestiza" e "territórios fronteiriços" que nos aproximam de outras realidades coloniais e movimentos possíveis de resistência ao subverter a lógica da criação de fronteiras epistêmicas para fins de separação, assumindo a potência dos territórios fronteiriços; e da Lélia Gonzalez, que com o "pretuguês" nos evidencia que esses territórios inventam seus lugares para afirmar a vida apesar do racismo fortemente estruturado também na subjetivação da população brasileira. O projeto fundamenta-se em uma pedagogia errante e "filosoficamente menina da pergunta", que privilegia a curiosidade, as perguntas e a perplexidade em detrimento de respostas prontas e da produtividade, apresentando duas experiencias praticas realizadas em 2025 na Escola Municipal Joaquim da Silva Peçanha. São evidencias de uma experiência com a educação filosófica de texturas e vibrações diferentes dentro do contexto de corpos racializados no cotidiano político e social e que desafiam a desumanização e o epistemicídio.
This paper explores epistemic violence as it relates to communities of philosophical inquiry. The authors start by characterizing Kristie Dotson’s epistemic systems framework and connect these ideas to the concept of epistemic violence. The authors differentiate between epistemic violence and epistemic injustice and highlight two key incidents of epistemic violence that serve as points of analysis: one arising in a community of philosophical inquiry facilitated by one of the contributing authors where students discussed Dutch-Lenape history in New York City and the other described by Philosophy for Children scholar Ruth Silver about an epistemic exclusion that occurred during a Philosophy for Children facilitation workshop. Using these instances, we argue that it is the impermeability of the dominant frameworks and communicative norms that govern these inquiries that may render the introduction of certain protective factors, such as historicizing and communicative reciprocity, necessary in order to uphold the ideals of a community of inquiry.
Este artigo propõe o cotejo entre a obra Infâncias: Aqui e Além-Mar, de José Santos e José Jorge Letria, e os conceitos de infância e experiência propostos por Walter Kohan, David Kennedy e Jorge Larrosa. O objetivo central é compreender como as memórias poéticas narradas pelos autores se articulam com a filosofia da infância. A investigação adota o ensaio como forma (Adorno, 2003), pautando-se na perspectiva fragmentária de Walter Benjamin e Adorno. A reflexão se desenvolveu a partir de eixos temáticos que emergiram da obra – como a curiosidade e abertura, a relação com o outro, a imaginação, a sensibilidade estética e o enfrentamento dos limites. Os resultados demonstram que os poemas transcendem o registro memorialístico e se constituem como narrativas filosóficas da infância, ressignificada pela poesia. Conclui-se que a obra configura a infância como um espaço de abertura, potência e criação, considerada em sua singularidade e pluralidade cultural, e a experiência como processo de constituição de sentido, o que se desvela capaz de iluminar a condição humana em sua complexidade.