
O presente trabalho tem como objetivo compreender em que medida o governo de Gustavo Francisco Petro Urrego (2022-) tem conseguido reduzir o militarismo na sociedade colombiana a partir de sua política de segurança humana, implementada já no seu primeiro ano de mandato. Parte-se aqui da compreensão de que, em que pese as mudanças na política de segurança do novo governo, não se tem conseguido resolver uma das principais questões do militarismo na Colômbia, qual seja, o emprego interno das Forças Armadas na administração da ordem social interna, devido principalmente ao contexto atual do conflito armado. A fim de coletar os dados necessários, foram utilizados livros e artigos que tratam das Forças Armadas colombianas desde uma perspectiva histórica e sociológica. Além disso, a fim de compreender os principais aspectos da política de segurança do governo Petro, foram analisados documentos governamentais e de instituições de pesquisa.
O artigo analisa o romance Peitos e Ovos (2023), de Mieko Kawakami, a partir de uma perspectiva ainda pouco explorada na fortuna crítica da obra: a experiência masculina vinculada às tecnologias de reprodução assistida (TRAs). Este estudo desloca o foco para o personagem Jun Aizawa, que se apresenta como parte interessada no debate sobre o direito de indivíduos concebidos por inseminação artificial por doador (IAD) de conhecer sua origem biológica. Metodologicamente, o artigo articula a leitura crítica do romance com a análise do contexto sociopolítico japonês, e à ausência de legislação específica sobre as TRAs no Japão. A partir desse diálogo, problematiza-se o anonimato dos doadores e suas implicações éticas, legais e subjetivas. Conclui-se que o romance amplia o debate contemporâneo sobre reprodução assistida ao articular múltiplas vozes e tensionar questões relativas aos direitos reprodutivos, à definição de parentalidade e aos limites entre desejo individual, responsabilidade ética e reconhecimento identitário.
O presente trabalho analisa como se configuram os princípios do realismo lukacsiano na construção de personagens nos contos “A espera da volante” e “Um valente romano”, da obra Faca (2017), de Ronaldo Correia de Brito. Para isso, fundamentase principalmente em Georg Lukács, especialmente no ensaio “Narrar ou descrever” (1965), além de referenciais críticos como Candido (2004), Frederico (2013), Bastos (2011) e Borges (2022), que contribuem para a compreensão do método narrativo e do conceito de tipicidade. Deste modo, o estudo está organizado em duas etapas: na primeira, sistematizam-se as categorias do realismo lukacsiano — o método narrativo, a tipicidade e a centralidade da ação — a fim de estabelecer parâmetros analíticos; na segunda, examinam-se os contos selecionados, observando as trajetórias, interações e condicionamentos sociais das personagens, bem como a função que os elementos narrativos desempenham na representação dos destinos humanos.
Alice’s Adventures in Wonderland (1865) foi uma das primeiras obras de caráter ambivalente a ingressar no cânone literário mundial (Shavit, 1986), conquistando sucessivas gerações de leitores, tanto crianças, quanto adultos, e permanecendo em circulação até os dias atuais. Este artigo propõe realizar um estudo do texto-fonte, escrito por Lewis Carroll, e de quatro retraduções brasileiras, sendo estas as realizadas por Monteiro Lobato (1931), Ana Maria Machado (1996), Rosaura Eichenberg (1998) e Maria Luiza Borges (2002). A análise concentra-se no modo como canções, poemas e jogos de palavras são traduzidos em cada um dos textos-alvo. Partindo da noção de norma inicial de Toury (1995), analisamos a escolha global de cada tradutor entre privilegiar a adequação ao texto-fonte, ou priorizar a aceitabilidade do texto-alvo na cultura de chegada. Defendemos também que o projeto tradutório, posição tradutória e horizonte de tradução (Berman, 1995) são dimensões que se conectam e influenciam as escolhas tradutórias.
O presente trabalho analisa o romance Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso (1912-1968), a partir da escrita da personagem Nina, compreendida como forma de testemunho diante da violência simbólica imposta pelo patriarcado rural mineiro de meados do século XX. Busca-se evidenciar como sua voz, relegada à margem e não acolhida pela memória familiar, confronta as narrativas dominantes e tensiona a estrutura de poder que organiza a casa. Examina-se, ainda, de que modo a fragmentação do relato de Nina, marcada por memórias descontínuas, relaciona-se ao caráter traumático do testemunho, conforme discutido por Seligmann-Silva (2003, 2022). A análise fundamenta-se nos estudos de Márcio Seligmann-Silva (2003, 2022), Judith Butler (2025) e Martins (2003), cujas reflexões permitem compreender o modo como a escrita de Nina insurge-se contra as estruturas de poder impostas pelo patriarcado.