Este artigo reavalia a teologia sistemática reformada à luz da crise contemporânea das “grandes narrativas”, propondo compreender a teologia como campo discursivo. Metodologicamente, combina leitura teológica e crítica pós-estrutural (Foucault, Derrida; Laclau/Mouffe) com retorno histórico à tradição reformada (Calvino) e sua recepção (Barth; historiografia de R. A. Muller). O percurso: 1) mostra como a confessionalização e a escolástica reformada reconfiguraram a matriz calviniana; 2) argumenta que categorias-chave – revelação, vontade divina, predestinação, testemunho do Espírito – operam sob uma lógica de diferimento do sentido; 3) propõe ler a voluntas Dei como significante cindido, evidenciando as tensões entre voluntas decretiva e preceptiva; e 4) testa esse quadro analítico no caso-limite da predestinação, dialogando com Hegel/Žižek/Badiou (e com debates da teologia pública brasileira). Conclui-se que a sistemática, descentrada da coerência meramente lógicodedutiva, ganha forma dialogal e agonística, reabrindo a relação entre doutrina, experiência e historicidade. A contribuição reside em articular tradição reformada e teoria do discurso para deslocar a sistematicidade de “catálogo de respostas” para prática de escuta e discernimento em meio às ambiguidades históricas.