
Resumo O presente texto é uma resenha do livro “Teoria Social Contemporânea”, de Patrick Baert e Filipe Carreira da Silva, publicado em 2023 pela Ateliê Editorial. Nesta resenha, apresentamos a obra em questão, destacando tanto o seu caráter manualístico quanto a sua proposta de desenvolvimento de uma nova agenda para a teoria social no século XXI. Em relação a essa contribuição mais original de Baert e Silva, baseada em um cruzamento do pragmatismo filosófico com a hermenêutica, apresentamos as suas características principais e tecemos comentários críticos sobre o seu desenvolvimento. Com isso, esperamos contribuir para a veiculação e debate de uma obra atualizada e de clareza ímpar sobre uma série de correntes de grande relevância para estudiosos das ciências sociais.
Résumé Cherchant toutes deux à enraciner la conceptualisation sociologique dans un engagement approfondi des données empiriques, la théorie ancrée (Grounded Theory) de Glaser et Strauss et l’étude de cas élargie (Extended Case Method) de Michael Burawoy divergent toutefois singulièrement dans leurs manières d’aborder l'extension de l'étude de cas et de reconnaître le contexte de recherche plus large dans le processus de théorisation. Pour éclairer les fondements de ces similitudes et divergences, cet article vise ainsi à reconstituer un dialogue entre ces héritages méthodologiques de la sociologie de Chicago et de l'anthropologie sociale de Manchester: (1) en les situant dans les débats épistémologiques fondamentaux des sciences sociales en ce qui concerne la relation entre observateur et participant au cœur du processus de collecte de données sociologiques; (2) en reconstruisant ensuite l'historique de leurs genèses et les connexions existant entre Chicago et Manchester, soulignant les processus sociaux et scientifiques qui ont façonné leurs contributions singulières à l’histoire disciplinaire de la sociologie et de l’anthropologie; (3) en revenant finalement sur l’antinomie entre leurs conceptions de la comparaison et de la généralisation, mettant ainsi en exergue le contraste épistémologique existant entre ces deux approches. Au fil de ces trajectoires disciplinaires parallèles, mais contradictoires, émergent ainsi des ressources méthodologiques répondant chacune de manière distincte au défi de connecter forces globales et dynamiques locales – soulignant ainsi l’importance du dialogue interdisciplinaire et des croisements entre écoles distinctes dans l’histoire et le devenir des sciences sociales.
Resumo Embora ambas busquem ancorar a conceituação sociológica num engajamento profundo com os dados empíricos, a teoria fundamentada (Grounded Theory) de Glaser e Strauss e o estudo de caso ampliado (Extended Case Method) de Burawoy divergem, no entanto, singularmente nas suas formas de encarar a extensão do estudo de caso e de reconhecer o contexto mais amplo da pesquisa no processo de teorização – revelando afinidades eletivas, por um lado, com uma abordagem positivista voltada para as interações locais e, por outro lado, com uma perspectiva reflexiva sensível com as dinâmicas globais. Para elucidar as raízes destas semelhanças e divergências, este artigo visa estimular um diálogo interdisciplinar entre esses legados metodológicos da sociologia de Chicago e da antropologia social de Manchester: (1) localizando-as dentro dos debates epistemológicos fundamentais das Ciências Sociais a respeito da relação entre observador e participante no cerne do processo de coleta de dados; (2) reconstruindo as gêneses e conexões que existem entre Chicago e Manchester, destacando os processos sociais e científicos que moldaram suas contribuições singulares para a história disciplinar da Sociologia e da Antropologia; (3) retornando, por fim, à antinomia entre suas concepções de comparação e generalização, destacando assim o contraste epistemológico existente entre estas duas abordagens. Ao longo dessas trajetórias disciplinares, paralelas, mas contraditórias, surgem assim recursos metodológicos que respondem cada um de forma distinta ao desafio de conectar forças globais e dinâmicas locais – ressaltando, assim, a importância do diálogo interdisciplinar e dos cruzamentos entre escolas de pensamento distintas na história e no futuro das Ciências Sociais.
Resumo O artigo se debruça sobre um intelectual de vários nomes e poucas informações: José Clarana, James Bertram Clarke, Jaime C. Gil. Nascido em lugar incerto e formado pela Universidade de Cornell, nosso personagem viajou por muitos países, incluindo o Brasil, onde morou entre 1916 e 1920. Ao acompanhar de modo articulado suas ideias e sua trajetória, ainda pouco estudadas, busca-se demonstrar como, na circulação entre diferentes contextos, constituíram-se suas interpretações sobre as relações raciais no Brasil e como suas próprias formas de pertencimento (nome, nacionalidade e raça) foram se modificando ao longo do percurso. A pesquisa baseia-se em materiais de arquivo, textos de imprensa assinados pelo autor em revistas como The Crisis, editada por W.E.B. Du Bois, além de um livro publicado em português em 1919.
Resumo A partir de uma análise multirrelacional, neste trabalho, são avaliadas relações entre condições sociais objetivas de estudantes, expectativas de futuro pós-Ensino Médio e o ingresso no Ensino Superior. O estudo, em desenho longitudinal, utilizou microdados identificados de estudantes do último ano do Ensino Médio público, a partir da base de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), edição 2019, e do Censo da Educação Superior (CENSUP), anos 2020 a 2022, com abrangência nacional. Por meio de tabelas cruzadas, técnicas de regressão logística e modelagens de equações estruturais, foi possível avaliar o status multirrelacional e os processos mediadores que indicam a pertinência e o peso das condições sociais objetivas de estudantes sobre suas expectativas, práticas e futuro ingresso no Ensino Superior. Articulada à tese da causalidade do provável de Pierre Bourdieu, evidencia-se a influência das condições sociais objetivas sobre as expectativas, relação também mediada/moderada pelo desempenho acadêmico, pelo tipo de trajetória pessoal e escolar, por práticas de estudo e pela própria expectativa de futuro configurada, indicando que as mesmas condições que engendram expectativas e práticas estudantis contribuem, direta e/ou indiretamente, para compor cenários de futuros prováveis, como o ingresso ou não no Ensino Superior e a consequente longevidade escolar. Os resultados permitem compreender o ingresso no Ensino Superior como um resultado socialmente configurado e ajustado das expectativas e trajetórias às condições sociais objetivas dos(as) estudantes e suas famílias e reforçam a centralidade das condições sociais adscritas na estruturação das trajetórias estudantis ao longo do tempo.
Abstract This editorial introduction presents a thematic issue of Sociologias devoted to diaspora, identity, and inter-group relations in post-Soviet and Central Asian societies. The issue departs from conventional treatments of diaspora as a marginal social condition, repositioning it instead as a lens through which to examine questions of belonging, civic life, cultural reproduction, and economic security. Four empirical studies are brought together around a shared concern with the social consequences of population movement in societies shaped by Soviet legacies, post-1991 border reconfigurations, and ongoing demographic pressures. The first study examines interethnic tolerance among youth in Kyrgyz-Uzbek border zones; the second analyses a state-sponsored civic identity model implemented through higher education in Kyrgyzstan; the third investigates how emigration, aging, and low birth rates compound economic vulnerabilities in Armenia relative to its South Caucasus neighbours; and the fourth conducts a comparative analysis of Kyrgyz, Uzbek, and Karakalpak epic traditions as mechanisms of folk pedagogy and collective memory transmission. Together, the contributions illuminate how diaspora operates simultaneously as a political, pedagogical, cultural, and demographic phenomenon. The issue calls for further comparative scholarship engaging with societies underrepresented in mainstream sociological literature.
Abstract This study examines the impact of demographic threats on Armenia’s economic security in the context of regional cooperation. The methodology is based on a comprehensive analysis of demographic and economic indicators and the identification of interrelationships between them. It is established that Armenia’s economic security largely depends on employment levels and the size of the economically active population, whereas low birth rates, population ageing and unstable migration constitute the main risks. Demographic analysis shows gradual urbanisation, with an increase of 84,000 people in the urban population, fluctuations in total population and uneven distribution of the labour force, which reduces the efficiency of participation in regional economic projects. A comparative analysis of Armenia alongside Georgia and Azerbaijan indicates that, in contrast to Armenia, Georgia exhibits a comparatively stable demographic condition characterised by low emigration, whereas Azerbaijan showcases elevated birth rates and a favourable migration balance, thereby enhancing its labour resources. Correlation analysis identifies strong positive relationships between labour resources and economic indicators: the employed population correlates with gross domestic product (GDP) (r=0.98) and GDP per capita (r=0.99), while the economically active population correlates with GDP (r=0.87) and external trade turnover (r=0.80). The size of the labour force is directly linked to national debt in US dollars (r=0.83) and inversely linked to the debt burden as a percentage of gross domestic product (r=-0.60). Urbanisation has a positive impact on economic growth (r=0.72) and foreign trade (r=0.89), although it intensifies disparities between urban and rural areas.
Resumo Discuto as recentes contribuições à sociologia e à história da medicina apresentadas no livro Epidemic Orientalism: Race, Capital, and the Governance of Infectious Disease, de Alexandre White. Fruto de uma extensa pesquisa documental conduzida em diversos países, a obra examina a origem e a evolução do controle internacional de doenças infecciosas, propondo um conceito que delineia a atuação de mecanismos e burocracias regulatórias na governança de epidemias. Por meio de uma abordagem genealógica, o autor evidencia como, na contemporaneidade, os legados do colonialismo, do racismo e do capitalismo permanecem operantes, reproduzindo desigualdades entre nações ocidentais e não ocidentais. Essa matriz ideológica se configura a partir de uma complexa articulação entre processos históricos e políticas de saúde, que, ao longo do tempo, moldaram as respostas institucionais a crises sanitárias globais e influenciam, ainda hoje, as formas pelas quais diferentes sociedades enfrentam surtos de doenças infecciosas.
Resumo Este artigo investiga as ressonâncias do pensamento de Gilberto Freyre na moda brasileira contemporânea, analisando como suas formulações sobre identidade nacional e “modos de se vestir” se reconfiguram nos circuitos globais de consumo cultural. Com base nas obras Arte, Ciência e Trópico e Modos de Homem & Modas de Mulher, argumenta-se que Freyre atribuiu à moda um estatuto sociológico central na construção simbólica de imagens de “brasilidade”. A análise empírica concentra-se na marca Misci, do designer Airon Martin, cujas coleções materializam uma refiguração criativa da ideologia da mestiçagem, mobilizando o vestuário como linguagem de afirmação cultural. Embora a Misci valorize, em sua imagética discursiva, referências culturais locais e questione cânones estéticos eurocentrados, ela opera nos marcos do capitalismo de luxo, convertendo diversidade cultural em capital simbólico e reproduzindo formas sutis de exclusão que sua própria narrativa declara superar.
Resumo Este artigo busca mapear o debate teórico a respeito de algumas representações do tempo e das emoções vinculadas a partir de diagnósticos da contemporaneidade, considerando a hipótese da nostalgia como recurso aos anseios políticos diante de um futuro representado como inseguro e um presente marcado pelo diagnóstico do esgotamento. O trabalho explora o debate teórico sobre as temporalidades históricas e suas formas de apropriação do ponto de vista das subjetividades, na cultura e na política. Na segunda parte, procura levantar uma reflexão sobre as inseguranças, através da passagem entre gerações, até o debate sobre o esgotamento contemporâneo, através de teorias sociológicas. Na sequência, é feita uma análise dos documentos da Frente Parlamentar em Defesa da Educação sem Doutrinação Ideológica (FPDEDI), movimento político ligado a nostalgias do pertencimento capazes de resgatar passados ressignificados, de modo a nutrir expectativas. O trabalho visa, ainda, explorar o rendimento analítico de temas como emoções, política e discursos a partir das inseguranças contemporâneas.
Resumo Este artigo examina o impacto das queixas individuais sobre a participação em protestos, com ênfase no contexto de crise econômica. A literatura recente sugere que as percepções subjetivas das condições econômicas desempenham um papel central no ativismo de protesto. No entanto, outros estudos argumentam que a mobilização depende não apenas dessas percepções, mas também da disponibilidade de recursos para transformar o descontentamento em ação política. Utilizando dados do Barômetro das Américas e aplicando técnicas de regressão logística multinível, este estudo problematiza essas perspectivas. Os resultados indicam que não é a deterioração objetiva das condições de vida, mas sim a percepção subjetiva dessa deterioração que motiva o protesto. Ademais, em cenários de crise, as desigualdades no engajamento em protestos são exacerbadas, tornando a mobilização menos acessível para indivíduos com menos recursos. Esses achados contribuem para a compreensão das dinâmicas de protesto em contextos de instabilidade econômica na América Latina.
Resumo Este artigo apresenta uma reflexão teórica que visa sublinhar interseções analíticas entre os campos da sociologia digital, sociologia das imagens e sociologia das emoções. Propõe-se uma abordagem que integre analiticamente midiatização e individualização enquanto processos culturais e socio-históricos mutuamente imbricados. Para tanto, parte-se das contribuições de Beck-Gernsheim e Martuccelli em relação à individualização e de Couldry e Hepp a respeito da midiatização, considerando esta como profundamente integrada à construção social da realidade. Nisso, propõe-se tomar séries televisivas em plataformas de streaming como objeto de análise, considerando, à luz das contribuições de Esquenazi, formas particulares com que estas se relacionam com o cotidiano do público e noções de intimidade, consideradas centrais na constituição de noções contemporâneas de individualidade.
Resumo Este artigo analisa o Queijo do Marajó como uma tecnologia em disputa, marcada por ambiguidades sociomateriais que emergem da intersecção entre conhecimentos contextualizados, escassez de recursos e processos de certificação. A partir de pesquisas documentais e bibliográficas, bem como de trabalho de campo realizado em fevereiro de 2025 com produtores, agentes da defesa sanitária, extensionistas rurais e demais representantes de órgãos públicos nos Campos do Arquipélago do Marajó (PA), investigam-se as tensões entre práticas artesanais e exigências de padronização associadas à Indicação Geográfica (IG). A escassez do leite de búfala, elemento central na produção do queijo, intensifica essas tensões, revelando estratégias adaptativas dos produtores e reconfigurações nos modos de produção. Utilizando a perspectiva da Construção Social da Tecnologia (SCOT), o estudo destaca como diferentes grupos sociais relevantes atribuem significados diversos ao queijo, evidenciando a flexibilidade interpretativa e as controvérsias em torno da autenticidade e da inovação. Ao invés de tratar normas sanitárias, padrões da IG ou técnicas artesanais como elementos objetivos e fixos, a SCOT permite compreendê-los como construções sociais em disputa, mostrando que a tecnologia — que, neste caso, envolve os modos de fazer e reconhecer o queijo — é coproduzida por fatores sociais, culturais, econômicos e materiais. Com isso, o artigo contribui para a compreensão de como produtos territoriais são moldados por processos sociotécnicos complexos, configurando espaços ambíguos de inovação no contexto amazônico.
Abstract This article proposes to study agriculture by focusing on its infrastructures of value, i.e. the sociomaterial technologies and networks that are essential for the production of commodities but that often remain invisible. Pivoting around the ethnography of a meeting of an association of raspberry producers that was led by an agronomist, the article reconstructs how, since socialism, the once cooperative agronomic infrastructure underwent first (capitalist) deinstitutionalization and later (municipal) re- and deinstitutionalization, while most agronomic modules remained stable. Notably, this agronomic, legal-scientific infrastructure had coproduced its modules—trellising and pruning raspberries in mini-plantations—with local smallholders. The cycles of invisibilization were linked to infrastructural inversion—namely, as long as infrastructures work, their contributions to a value chain tend to be undervalued, while as problems increase, infrastructures become revalued again. In marked contrast to the agronomic infrastructure, the cold chain—an infrastructure of containment and transport including freezing, storage, transport and export—was profitably privatized and selectively upgraded. The invisibility dialectic of infrastructures of value thus describes both selective defunding and investment, which increases the frictions and compatibility issues between infrastructural modules. In Arilje, this led to the overexploitation of the agronomists as people-as-infrastructure that were expected to care without voice. Infrastructures of value thus help to explain political-economic transformations and mobilizations as the result of technoscientific innovations, social transformations, and market fluctuations.
Resumo A ideia de que o Brasil possui uma inclinação natural e inerente – uma vocação –, não apenas para a agricultura, mas para o agronegócio, é um imaginário recorrentemente mobilizado por políticos, empresários, produtores rurais, representantes de associações do setor agropecuário, bem como por cientistas cujos trabalhos se dão na interface com esse segmento da economia nacional. Neste artigo, proponho analisar como o desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias, aplicadas às paisagens diversas dos cerrados e às sementes de soja, viabilizou a consolidação de um mercado global para a versão “tropicalizada” desse grão, bem como potencializou a ideia de uma “vocação” do país para o agronegócio. Argumento, assim, que atentar para a tropicalização da soja permite colocar em perspectiva a ideia de que haveria algo inato às paisagens brasileiras, que impulsiona o desenvolvimento do país rumo à constante expansão da fronteira agrícola. O artigo está estruturado em torno de dois momentos centrais na trajetória da soja nos cerrados e na consolidação do agronegócio brasileiro. O primeiro aborda os processos que viabilizaram a agricultura em larga escala na região central do país, culminando na tropicalização da soja. O segundo examina a formação de sua cadeia de valor – o chamado complexo soja – paralelamente à emergência do próprio agronegócio e ao surgimento de um novo paradigma sociotécnico com a introdução das sementes transgênicas nas lavouras brasileiras.
Resumo A cadeia da soja no Brasil vem sofrendo, nas últimas décadas, pressões por parte de mercados internacionais e da sociedade civil. Tais críticas e o surgimento de mecanismos de controle de importações têm ensejado a criação de novas formas de governança e produtos que incorporam promessas de maior responsabilidade e transparência em cadeias de fornecimento. Entre eles, destacamos a soja “livre de desmatamento” como uma alegada solução do agronegócio sojicultor que reivindica responder aos principais problemas ambientais enfrentados pelo setor no Brasil. Compreendemos, dialogando com a literatura em STS e estudos agroalimentares, que os modos como as corporações formulam e divulgam suas iniciativas revelam suas perspectivas sobre os problemas ambientais que consideram (e constroem) como objetos de intervenção. Neste sentido, o objetivo deste texto é comparar as experiências de soja “livre de desmatamento” e/ou “responsável” dos principais arranjos corporativos de governança ambiental no Brasil, examinando as normas de avaliação e definições utilizadas, assim como as infraestruturas de mensuração que atestam o não desmatamento. As principais fontes de análise são protocolos públicos, políticas de fornecimento e relatórios ESG das principais traders da soja no Brasil. Argumentamos que a soja “livre de desmatamento” opera como produtora de tecnopoder na cadeia da soja, legitimando reivindicações corporativas de sustentabilidade e promovendo soluções escaláveis que favorecem interesses do agronegócio. Com isso, o artigo contribui para compreender como o agronegócio brasileiro responde às pressões ambientais por meio de soluções tecnopolíticas que reconfiguram as formas de exercício de poder neste setor.
Resumo Este texto apresenta o dossiê “Agronegócio, Ciência e Tecnologia”, que, ao partir da emergência de novos debates no campo e dos estudos das Ciências, Tecnologias e Sociedades (CTS), sugere às Ciências Sociais reelaborar o agronegócio enquanto categoria analítica, bem como a investigação das operações que viabilizam suas práticas e suas agendas. Argumenta-se que a intersecção entre agronegócio e estudos CTS é um lócus de enunciação original e capaz de matizar debates sobre o tema do agro, sobretudo no Brasil. Sem pretensões de encerrar a discussão ou oferecer caminhos unívocos, considera-se a multiplicidade de agendas e pistas analíticas que emergem deste encontro.
Resumo Este artigo se debruça sobre o fenômeno que intitulamos de ambientalismo agronegocial, isto é, a mobilização, por parte do agronegócio, de um discurso de sustentabilidade para legitimar suas práticas, a despeito de atores do setor fazerem uso extensivo de recursos naturais. Para tanto, analisamos tematicamente a revista AIBA Rural, publicada pela associação do agronegócio do Oeste da Bahia, buscando compreender as estratégias discursivas utilizadas para construir uma imagem de sustentabilidade hídrica em um contexto de conflito em torno do uso da água. A partir dessa análise, desenvolvemos uma tipologia de estratégias do ambientalismo agronegocial, a qual é composta pelos seguintes conceitos: legalismo sustentável, tecno-otimismo, cientificismo seletivo e conservação ambiental deslocada. O artigo contribui para a literatura das Ciências Sociais ao introduzir uma tipologia inovadora para se compreender como o agronegócio busca construir uma imagem pública de sustentabilidade.
Resumo As tecnologias digitais têm transformado profundamente diversas esferas da sociedade, inclusive a forma como as políticas públicas são formuladas e implementadas. Embora o tema da digitalização venha ganhando destaque nas Ciências Sociais, ainda são escassas as análises que exploram os riscos e as implicações da transformação digital das políticas públicas. Este artigo analisa o processo de digitalização das políticas de regularização ambiental no Brasil, com foco no Cadastro Ambiental Rural (CAR), apontando para a conformação de um imaginário sociotécnico centrado na intensificação produtiva. Analisaremos então sua aplicação no estado do Pará, a partir de três casos específicos: o setor da pecuária no sudeste paraense, a mineração em Canaã dos Carajás e a produção de grãos no planalto santareno. Do ponto de vista metodológico, o estudo se fundamenta em revisão bibliográfica, sistematização de dados secundários e cartográficos, além de trabalho de campo realizado entre 2017 e 2025, com 46 entrevistas com atores de diferentes setores e instituições. Os resultados indicam que a digitalização não se resume à migração de cadastros analógicos para bases digitais, mas implica uma reconfiguração da lógica das políticas públicas. O CAR, nesse sentido, reforça um imaginário sociotécnico centrado na intensificação produtiva, que altera as dinâmicas de territorialização da política. Embora as tecnologias digitais tenham potencial para a redução de custos e ampliação da transparência e do monitoramento territorial, sua apropriação por grupos hegemônicos pode gerar efeitos significativos de exclusão, invisibilização e expropriação de territórios tradicionalmente ocupados, gerando uma desconexão entre a formalização documental digital e a realidade territorial.
Resumo Este trabalho discute como a noção de segurança jurídica tem operado como um mediador nas diferentes controvérsias envolvendo os setores patronais rurais. Por meio de uma cartografia das formas pelas quais o termo foi mobilizado nos principais canais de comunicação vinculados ao agronegócio no período entre 2015 e 2023, identificamos as diferentes associações que estabilizam segurança jurídica e seus efeitos para a forma como os setores patronais rurais buscaram influenciar a política fundiária e trabalhista. Observamos que a noção de segurança jurídica, da forma como é estabilizada, tem como efeito a normalização da defesa do proprietário rural em todos os seus interesses e de forma absoluta. Como mediador, segurança jurídica produz um agenciamento racializante na medida em que situa o proprietário branco como agente do progresso e da civilização e constrói o outro racializado como agente da insegurança, passível de ser evacuado da terra em nome da autopreservação do Estado e do progresso. Sendo assim, argumentamos que a forma como segurança jurídica aparece estabilizada nas disputas envolvendo o agronegócio atualiza o processo de racialização e de subjugação racial que foi necessário à acumulação capitalista e à concentração de terra no Brasil.