
Abstract: In this article, I chart José Luandino Vieira's critique of colonial education in the short story collections Vidas Novas , written throughout 1962, and No Antigamente, na Vida , written between 1969 and 1971, as well as the novella João Vêncio: Os Seus Amores , written in 1968. Dating back to the mid-nineteenth century, the system of colonial education in force in Portugal's colonies on the African continent came to lie at the core of Portugal's colonial project. The Portuguese language played an important role within this system. In Angola, the imposition of Portuguese — considered a definitive condition of civilization according to the statutes of assimilation — not only served as a means of organizing the indigenous population along class lines, but also as a means of reinforcing the legitimacy of Portugal's colonial regime through the promotion of what has been termed the 'de-Africanization' of Angola's indigenous population. In this article, I argue that Luandino Vieira weaves a critique of Portugal's system of colonial education through its embodiment in the figures of schoolteachers, who re-enact broader forms of colonial violence within the teacher-student relationship. Furthermore, I argue that the schoolchildren who populate Luandino Vieira's works cited above — and their resistance to the norms enforced by their schoolteachers — offer a future-oriented vision of post-independence Angola. Resumo: Este artigo traça a crítica tecida por José Luandino Vieira ao sistema de educação colonial nos contos que compõem Vidas Novas , escritos ao longo de 1962, e em No Antigamente, na Vida , escritos entre 1969 e 1971, bem como na novela João Vêncio: Os Seus Amores , escrita em 1968. Datado de meados do século dezenove, o sistema de educação colonial vigente nas colônias de Portugal no continente africano esteve no centro do projeto colonial português. A língua portuguesa desempenhou um papel importante dentro deste sistema. Em Angola, a imposição da língua portuguesa — considerada uma condição definitiva de civilização pelos estatutos de assimilação — não só serviu como meio de organizar a população indígena em classes, mas também como meio de reforçar a legitimidade do regime colonial português através da promoção do que tem sido chamado de 'desafricanização' da população indígena de Angola. Neste artigo, defendo que Luandino Vieira tece uma crítica ao sistema de educação colonial português através da sua construção de personagens professoras, que reproduzem formas mais amplas de violência colonial na relação entre professor e aluno. Neste artigo, defendo também que as personagens crianças que figuram nas obras de Luandino Vieira citadas acima — e a sua resistência às normas impostas pelas suas professoras — oferecem uma visão de Angola pós-independência.
Abstract: Based on six key artworks, the article examines Malangatana's agency in the context of the histories and expectations which he encountered from 1960 to 1975. These came from the Ronga people (his birth community), the Portuguese colonial regime, and Frelimo, Mozambique's national liberation movement. Two dominant narratives about him are interrogated and challenged. The first came from Malangatana's early European patrons, who constructed him as a unique individual genius, the second from patrons within Frelimo, who constructed him as a consummate artista do povo [artist of the people]. Analyses of the six works address the anti-colonial agenda of his early works (1960–1962), his burgeoning militancy on behalf of Frelimo (1962–1964), his response to imprisonment by the Portuguese security police (1964–1966) and his pragmatic post-prison community activism (1966–1974). They provide insights into his role in Mozambique's national liberation struggle unavailable via the dominant narratives. Resumo: Com base em seis obras de arte centrais, o artigo examina a influência de Malangatana no contexto das histórias e expectativas que ele encontrou entre 1960 e 1975. Estas provinham do povo Ronga (a sua comunidade natal), do regime colonial português e da Frelimo, o movimento de libertação nacional de Moçambique. Duas narrativas dominantes sobre o artista são questionadas e contestadas. A primeira veio dos primeiros patronos europeus de Malangatana, que o construíram como um génio individual único, a segunda dos patronos dentro da Frelimo, que o construíram como um consumado artista do povo . A análise das seis obras aborda a agenda anticolonial das suas primeiras obras (1960–1962), a sua militância crescente em nome da Frelimo (1962–1964), a resposta à sua prisão pela polícia de segurança portuguesa (1964–1966) e o ativismo comunitário pragmático pós-prisão (1966–1974), fornecendo pistas sobre o seu papel na luta de libertação nacional de Moçambique, indisponíveis nas narrativas dominantes.
Abstract: Jorge de Sena (1919–1978), one of the most prolific Portuguese authors of the twentieth century, left behind a vast body of work, and is recognized for the relevance and originality of his poetry and fiction, as well as for his renovation of Camões studies. However, as some researchers have pointed out, other central aspects of his intellectual legacy remain to be studied. Based on an analysis of several texts written by Jorge de Sena and published between 1942 and 1972, this study seeks to understand how the author approached the then Portuguese territories in Africa and how he positioned himself on the complex issue of the colonies. It concludes that Jorge de Sena, exercising his freedom of thought and circumventing censorship, demonstrated anti-colonial thinking favourable to the independence of the Portuguese colonies in Africa, extolling their diversity while pointing to the urgency of building a sense of community. Resumo: Jorge de Sena (1919–1978), um dos mais fecundos de entre os autores portugueses do século XX, legou uma vasta obra, reconhecida pela relevância e pela originalidade da poesia e da ficção, bem como pela renovação dos estudos camonianos. Porém, conforme evidenciam alguns investigadores, outros aspetos centrais do seu legado intelectual permanecem por estudar. A partir da análise de vários textos da autoria de Jorge de Sena, publicados entre 1942 e 1972, este estudo procurará compreender a forma como o autor abordou os então territórios portugueses em África e como se posicionou sobre a complexa questão das colónias. Conclui-se que Jorge de Sena, exercendo a sua liberdade de pensamento e contornando a censura, demonstrou um pensamento anticolonial favorável à independência das colónias portuguesas em África, exaltando a sua diversidade, enquanto apontava para a urgência de construção de um sentido de comunidade.,
Abstract: This article examines how digital mapping can function as a form of literary analysis, moving beyond illustration to serve as a critical reading exercise. Although a central challenge of literary maps is that fictional spaces are by definition different from the real world — requiring a negotiation between representation and reality — this study demonstrates how such negotiation can itself produce valuable insights. To illustrate this, the study analyses the Brazilian novel O Quinze (1930) by Rachel de Queiroz, set during the 1915 drought in Ceará. Using ArcGIS Pro to georeference locations of the narrative and map the journeys of the characters, the study highlights the pattern of those displaced by the drought: the wealthy escaped by train with ease, while poor migrants walked nearly the same distance on foot, facing hunger and death. The final maps exposed the unbalanced parallel of social inequality and demonstrated how GIS tools can contribute to literary analysis. Resumo: Este artigo examina como o mapeamento digital pode funcionar como forma de análise literária, indo além da ilustração para servir como exercício crítico de leitura. Embora um desafio central dos mapas literários seja o fato de que os espaços ficcionais são, por definição, diferentes do mundo real — exigindo uma negociação entre representação e realidade — este estudo demonstra como essa negociação pode gerar leituras valiosas. Para ilustrá-la, o estudo analisa o romance O Quinze (1930), de Rachel de Queiroz, que se passa durante a seca de 1915, no Ceará. Utilizando ArcGIS Pro para georreferenciar os locais citados na narrativa e mapear as jornadas dos personagens, o estudo evidencia o padrão daqueles deslocados pela seca: os mais ricos escaparam facilmente de trem, enquanto os retirantes percorreram quase a mesma distância a pé, enfrentando a fome e a morte. Os mapas finais expuseram o paralelo desigual da injustiça social e mostraram como ferramentas de GIS podem contribuir para a análise literária.
University of Warwick / University of Birmingham
Abstract: Maria José Silveira's Maria Altamira (2020), a novel which centralizes the multiple instantiations of violence caused by the Belo Monte hydro-power dam in Pará, Brazil, brings to the reader the utmost representation of Simone Weil's description, in The Need for Roots (1987), of capitalism's intrinsic, all-encompassing structure: uprootedness. By spotlighting Belo Monte, one of the world's largest hydroelectric plants, Silveira's writing allows for a reading of capital, colonial, and racial violence as the manifestations of a life-system structured around uprootedness as its only possible horizon of being. Separated by time and continents, Simone Weil and Maria José Silveira might seem disparate thinkers. However, because the former attempts to locate the non-material articulations of modern capitalist violence in order to understand its manifestations while the latter provides a material historical account of the deployment of said articulations, taken together they elucidate the simultaneous violences of capitalism — its cosmo-philosophical underlying order and its never-ending assaults on humans, nonhumans, and nature — thus creating a more comprehensive framework to critique the capitalist mode of devastation. Resumo: O romance Maria Altamira (2020), de Maria José Silveira, centraliza as múltiplas violências causadas pela usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, Brasil, e assim traz ao leitor a representação máxima da descrição de O Enraizamento (1987), de Simone Weil, sobre a estrutura intrínseca e abrangente do capitalismo: o desenraizamento. Ao destacar Belo Monte, uma das maiores hidrelétricas do mundo, a escrita de Silveira permite uma leitura da violência capital, colonial e racial como manifestações de um sistema de vida estruturado em torno do desenraizamento como seu único horizonte possível de existência. Separadas pelo tempo e por continentes, Simone Weil e Maria José Silveira podem parecer pensadoras díspares. No entanto, porque a primeira busca localizar as articulações não materiais da violência do capitalismo moderno para compreender suas manifestações, enquanto a última fornece um relato histórico material da implantação dessas articulações, quando tomadas em conjunto, elas elucidam as violências simultâneas do capitalismo — sua ordem subjacente cosmo-filosófica e seus assaltos intermináveis a seres humanos, não humanos e à natureza — criando, assim, uma estrutura mais abrangente para criticar o modo capitalista de devastação.
Abstract: This article details a UCL research-led teaching initiative for first-year undergraduate students, designed to decolonize the Latin American Studies curriculum. Moving beyond a Hispanic focus, the module integrates Brazilian literature to stimulate interest in the Portuguese language and, crucially, to illuminate the profound linguistic diversity of the region. It explores historical and contemporary multilingualism, examining not only dominant languages but also hybrid forms like Portunhol Selvagem , immigrant languages such as Talian and Pomeranian, and the significant presence of sign languages in Brazil. Using Deleuze and Guattari's concept of 'minor literature' (1975) as a methodology, the study analyses how diverse literary expressions subvert dominant tongues. This approach demonstrates how writers deterritorialize Portuguese and Spanish to articulate unique political and cultural experiences, providing students with a critical framework to understand language as a site of decolonial struggle and creative resistance. Resumo: Este artigo relata uma prática docente embasada em pesquisa desenvolvida na UCL para alunos do primeiro ano de graduação, com o objetivo de descolonizar o currículo de Estudos Latino-Americanos. A proposta pedagógica integra a literatura brasileira não apenas para despertar o interesse pela língua portuguesa, mas sobretudo para evidenciar a notável diversidade linguística da região. O percurso analisa o multilinguismo histórico e contemporâneo, considerando desde línguas hegemônicas até variedades híbridas como o portunhol selvagem , idiomas de imigração — como o talian e o pomerano — e as línguas de sinais no Brasil. Apoiando-se no conceito de 'literatura menor' de Deleuze e Guattari (1975), a abordagem demonstra como expressões literárias diversas subvertem línguas majoritárias. Através da desterritorialização do português e do espanhol, tais narrativas articulam experiências culturais e políticas singulares, oferecendo aos estudantes um quadro teórico crítico para compreender a língua como espaço de embates descolonizadores e de resistência criativa.
Abstract: Vasco da Gama's successful expedition to India in 1497–98 offered valuable information, which began to be included in various travel narratives. Descriptions in the European vernacular languages circulated widely, but how was this information relayed in Latin? European Humanists, through their knowledge of Latin, revived classical stylistic features as part of their texts, which offered a neoclassical garb to various topics, regions and cultures. My article examines how India looks in this garb through Latin translations of Gama's voyage to the Malabar region in 1498. For this, I have examined Latin works by Jeronimo Ososrio (1571), Giovanni Pietro Maffei (1588), Thomas Faria (1622) and Andreas Baianus (1625). Resumo: A expedição bem-sucedida de Vasco da Gama à Índia, em 1497–98, trouxe informações valiosas, que começaram a ser incluídas em diversas narrativas de viagem. As descrições em línguas vernáculas europeias circularam amplamente, mas como é que estas informações foram transmitidas em latim? Os humanistas europeios, através do seu conhecimento do latim, resgataram características estilísticas clássicas nos seus textos, o que ofereceu uma roupagem neoclássica a diversos tópicos, regiões e culturas. O meu artigo examina a forma como a Índia se apresenta sob esta roupagem através de traduções latinas da viagem de Vasco da Gama à região do Malabar em 1498. Para isso, examinei obras latinas de Jeronimo Osorio (1571), Giovanni Pietro Maffei (1588), Thomas Faria (1622) e Andreas Baianus (1625).
Abstract: In recent decades, the satirical press has received increasing interest as a valuable source for the analysis of different noteworthy events, contributing to our understanding of how the press and public opinion perceived certain issues or entities. This article investigates the 1890 British Ultimatum through that non-traditional lens: we analyse cartoons from the satirical press of different European countries, in search of a new or renewed interpretation of an event that generated significant turmoil in Portugal and for the Portuguese Monarchy. Using cartoons from Austria, France, Germany, Great Britain, Spain, and Switzerland, we aim to establish comparisons and illustrate how cartoonists from these countries represented not only the Ultimatum, but also Anglo-Portuguese relations and Portugal itself. Resumo: Nas últimas décadas, a imprensa satírica tem suscitado um crescente interesse como uma fonte relevante para a análise de diferentes acontecimentos relevantes, contribuindo para a nossa compreensão de como a imprensa e a opinião pública percecionavam determinados temas ou entidades. Este artigo investiga o Ultimato Britânico de 1890 a partir dessa perspetiva menos tradicional: vamos explorar caricaturas da imprensa satírica de vários países europeus, procurando uma interpretação nova ou renovada de um episódio que originou imensa instabilidade em Portugal e na Monarquia portuguesa. Utilizando caricaturas da Áustria, Alemanha, Espanha, França, Grã-Bretanha, e Suíça, temos o objetivo de estabelecer comparações e ilustrar como os caricaturistas destes países representaram não apenas o Ultimato, mas também as relações luso-britânicas e Portugal em si.
Abstract: The advocacy of Portuguese poet Ana Luísa Amaral (1956–2022) for both marginalized queer identities and more-than-human agency has been highlighted by several eminent scholars, with some approaches associating her poetry with eco-queer discourses. Less attention, however, has been allocated to just how hopeful this eco-consciousness may or may not be, in the sense of a queer environmental futurity. Within an uncertain landscape of positive ecological developments and retrograde steps — both in Portugal and globally — it is important to question critically the environmental strategies deployed in Amaral’s poetic collections, according to her own theoretical concept of ‘queerente’ [queerful]. Through this lens, the present article examines a selection of Amaral’s later poems (published between 2015 and 2021) in which one detects a playful, unstable semi-optimism surrounding human and more-than-human coexistence. As I shall argue, the poet evokes a world — or, alternatively, worlds — in flux, of queerful inter-species interaction. Resumo: A forma como a poeta portuguesa Ana Luísa Amaral (1956–2022) defendeu tanto as identidades queer marginalizadas como as entidades maisque-humanas já foi salientada por vári@s crític@s importantes, assim como outr@s que realçam a consciência eco-queer desta poesia. No entanto, tem-se prestado menos atenção à medida em que esta consciência pode ser interpretada como sendo esperançosa, no sentido de uma futuridade ambiental. Num contexto de avanços ecológicos positivos e passos retrógrados, tanto em Portugal como a nível global, torna-se necessário interrogar criticamente as estratégias ambientalistas utilizadas por Amaral, segundo o próprio conceito teórico da autora conhecido como ‘queerente’. Através desta ferramenta analítica, examinar-se-á um corpus de poemas amaralianos publicados entre 2015 e 2021, dentro dos quais se pode salientar um meio-otimismo lúdico e instável, no que diz respeito à convivência humana e mais-que-humana. Como se frisará, trata-se de um mundo — ou, melhor, de vários mundos — em fluxo, onde todas as espécies se interagem entre si de forma queerente.